17 setembro 2015

Resenha Crítica: "Psycho" (1960)

 Embora seja praticamente impossível replicar o efeito causado aquando da sua exibição original, "Psycho" mantém-se como um thriller psicológico macabro e inquietante, onde assistimos a todo um meticuloso trabalho com a câmara para adensar o suspense, algo que aliado à banda sonora de Bernard Herrmann e à interpretação de Anthony Perkins como Norman Bates, para além de um argumento bem estruturado, conduz a que o valor da obra cinematográfica se mantenha praticamente intocável. É um filme que muito tem de Alfred Hitchcock, com o cineasta a ter batalhado imenso para conseguir trazer esta adaptação do livro "Psycho" de Robert Bloch (por sua vez inspirado no caso verídico do assassino Ed Gein) ao grande ecrã, tendo financiado parte da obra cinematográfica do seu próprio bolso, filmando a mesma no Revue Studios, o local onde eram filmados os episódios da série "Alfred Hitchcock Presents", algo revelador do pouco apoio da Paramount Pictures. Diga-se que esta situação permitiu a Alfred Hitchcock ter boa parte do controlo do marketing do filme, a ponto dos críticos apenas poderem assistir ao mesmo aquando das exibições para o público, com o cineasta a envolver o enredo de "Psycho" num enorme secretismo, naquela que seria uma das suas obras-primas, tendo gerado uma enorme controvérsia pela forma como desafiou os limites do Production Code, já a dar as suas últimas, embora ainda activo. "Psycho" aborda temáticas como o adultério, homicídios, Complexo de Édipo, travestismo, perturbações mentais, corpos exumados, expostos quer de forma subtil, quer de forma bem gráfica, com o cineasta a aguentar muitas das vezes os momentos das revelações a ponto de criar uma enorme tensão junto do público e suster o suspense em volta da narrativa. É uma situação que fica bem visível quando descobrimos no último terço o que acontecera à mãe de Norman Bates, com esta mulher a ser uma figura misteriosa, que apenas conhecemos inicialmente através de vultos e vozes até descobrirmos ser um esqueleto exumado, com o protagonista a ter um distúrbio mental que o leva a procurar manter os restos mortais desta mas também a pensar ou fingir ser a mesma. Nesse sentido, "Psycho" apresenta-nos a um antagonista de enorme densidade psicológica, com muito para analisar sobre a personalidade, com este a surgir inicialmente como um dos diversos psicopatas aparentemente polidos a nível de comportamento que rodeiam as obras cinematográficas de Alfred Hitchcock, apresentando uma voz e gestos aparentemente frágeis, uma personalidade algo introvertida, mas também um olhar que por vezes parece transparecer perturbações dignas de nota e gerar algum receio. Norman é um psicopata com perturbações mentais indeléveis cujas causas e motivações apenas descobrimos totalmente no último terço, após termos visto esta estranha figura a cometer dois assassinatos, nomeadamente de Marion Crane (Janet Leigh), uma secretária de uma agência imobiliária que cometera um desfalque, bem como de Milton Arbogast (Martin Balsam), um detective privado que se encontrava a investigar o desaparecimento da personagem interpretada por Janet Leigh. A morte de Marion é provavelmente uma das cenas mais marcantes do filme e da História do Cinema, com Alfred Hitchcock a deixar-nos diante de momentos pré-slasher ou já inseridos neste subgénero cinematográfico, de magnífica execução, onde a banda sonora, a montagem e a cinematografia contribuem para algo de simultaneamente macabro e inquietante quando inicialmente parecia existir alguma sensualidade inerente à presença desta personagem nua no banho.

Alfred Hitchcock exibe Marion a entrar para a banheira, a ligar o chuveiro e o seu rosto a parecer sentir uma sensação de descontracção enquanto a água escorre. O seu rosto é sorridente enquanto esfrega o corpo, num momento de aparente descompressão que é quebrado pela presença de um vulto que se torna visível através da cortina que tapa a banheira. Uma mulher, cujo rosto não conseguimos discernir, abre a cortina com um facalhão na mão, com Alfred Hitchcock a contrastar planos de Marion a gritar e a ser esfaqueada com a assassina de faca em punho, até aquela que pensávamos ser a protagonista cair na banheira e o seu sangue escorrer pela água. Na época foi uma surpresa enorme, tal como é para o espectador que tem a sorte de assistir ao filme pela primeira vez, com "Psycho" a colocar-nos diante da morte daquela que até então parecia a protagonista, numa decisão que implica uma enorme reviravolta na narrativa. Nos momentos iniciais do filme, encontráramos Marion acompanhada por Sam Loomis (John Gavin), o seu namorado, no quarto de um motel, na hora de almoço do trabalho, com esta a encontrar-se em roupa interior e o interlocutor em tronco nu, algo que deixa implícito terem consumado relações sexuais, numa das várias situações que puxaram pelos limites do Production Code. No caso, esses limites foram desafiados não só pela exibição desta em roupa interior, tal como serão no momento em que esta for violentamente esfaqueada quando está nua, mas também pelo facto de ficar implícito que Marion manteve relações sexuais sem estar casada, com Alfred Hitchcock a lixar-se para os falsos puritanismos de um Production Code completamente desfasado da sua época. Marion e Sam não podem ter uma relação estável devido às dívidas deste, em parte graças à pensão que tem de pagar à ex-mulher, com ambos a terem empregos que não lhes permitem ainda ter a estabilidade necessária para avançarem para uma vida sólida a dois. No entanto, a oportunidade parece aproximar-se, ainda que ilegalmente, quando Tom Cassidy (Frank Albertson), um cliente da imobiliária, deixa quarenta mil dólares em dinheiro não declarado para adquirir uma casa para a filha que se encontra prestes a casar. Tendo em vista a não ficar com a quantia em caixa durante todo o fim de semana, até a transacção da compra da habitação ficar concluída, George Lowery (Vaughn Taylor), o chefe de Marion, envia esta até ao banco para depositar a maquia. Com uma quantia que resolveria os seus problemas nas mãos, Marion decide fugir com o dinheiro, com os close-ups (utilizados com enorme assertividade ao longo do filme) a permitirem expor o nervosismo que atravessa a sua alma, algo que ainda se adensa mais quando esta adormece na estrada, após uma pausa na condução, sendo questionada por um polícia. Este suspeita do comportamento de Marion, com a personagem interpretada por Janet Leigh a demonstrar um nervosismo latente, quer nos seus gestos, quer nas suas falas. O nervosismo e medo de ser descoberta são latentes ainda quando troca o seu Ford Mainline por um Ford Custom 300 num stand de automóveis usados, tendo em vista a despistar quem a procure. No carro, somos colocados diante do rosto de Marion. As dúvidas parecem ser latentes, o medo é imenso, enquanto ouvimos diálogos a ecoarem, que tanto podem ser fruto da imaginação desta como estarem a ocorrer na realidade. Ao desviar-se um pouco da sua rota, Marion acaba por ir parar ao Bates Motel, um espaço algo isolado da estrada principal, marcado pela falta de clientela e um ambiente que não inspira grande confiança, pese a enorme amabilidade de Norman Bates, o dono do local, um indivíduo que supostamente vive com a mãe. Anthony Perkins tem uma interpretação sublime como este psicopata aparentemente simpático, gentil e frágil, que aos poucos revela ser uma figura algo bizarra, vivendo de forma isolada de tudo e todos. Num dos poucos diálogos que protagonizam, Norman revela a Marion que mantém uma relação complicada com a mãe, uma situação que o conduz a ter pensamentos nem sempre positivos em relação à progenitora. Diga-se que a presença notória de pássaros embalsamados na sala da casa de Norman Bates simboliza desde logo alguma da estranheza que rodeia este espaço povoado por corpos sem alma, onde a morte e a vida parecem separadas por uma linha ténue que facilmente é esbatida pela insanidade de um homem.

 A casa de Norman é marcada pelas habituais escadarias que povoam as obras cinematográficas de Alfred Hitchcock, com a escada para o espaço superior a ser o local onde supostamente a mãe do personagem encontra-se a viver, o rés-do-chão a conter a sala decorada com pássaros exumados e retratos de pássaros (se aqui estão exumados ou em retratos, em "The Birds" Alfred Hitchcock também vai associar os mesmos ao perigo), existindo ainda outros degraus que conduzem a uma cave onde segredos aterradores preparam-se para ser revelados. É um filme perturbador, com o assassinato de Marion a conduzir a uma investigação privada protagonizada por Arbogast, com este a conseguir inquietar Norman com uma diversidade de perguntas sobre a desaparecida. Também Arbogast é assassinado, sendo violentamente agredido com uma faca, numa cena vertiginosa, onde este é esfaqueado enquanto assistimo-lo a cair escadas abaixo. Toda esta situação conduz a que Lila (Vera Miles), a irmã de Marion, e Sam procurem investigar o que aconteceu aos dois desaparecidos, com a vida de ambos a também estar em perigo, enquanto Alfred Hitchcock não poupa em revelações, mistério e muita tensão ao longo do desenrolar de "Psycho". Vera Miles assume-se praticamente como o duplo de Marion, com a actriz a ter um papel determinante no último terço da narrativa, embora Anthony Perkins roube quase sempre as atenções. Os momentos finais em que surge isolado, diante de paredes brancas, com o seu rosto a exibir uma mescla de loucura e malícia, são perturbadores e inquietantes numa obra marcada por diversos elementos transversais às obras cinematográficas de Alfred Hitchcock: o protagonista com problemas com um familiar (veja-se o ódio do protagonista de "Strangers on a Train" ao pai); a escadaria; a presença dos pássaros; colocar o espectador numa posição voyeurista semelhante ao protagonista (veja-se quando Norman espia Marion, um pouco a fazer recordar "Rear Window"); o psicopata de gestos polidos ou capaz de despertar alguma da nossa simpatia; uma figura completamente comum como protagonista que fica diante de um caso que a transcende por completo; a banda sonora capaz de incrementar a atmosfera de tensão e inquietação (o trabalho de Bernard Hermmann é sublime, algo notório na cena do assassinato de Marion), entre outros elementos. O cineasta volta ainda a aproveitar o elenco que tem à disposição ao serviço do enredo, com Janet Leigh a ter alguns momentos memoráveis quando emite o seu célebre berro na banheira, bem como a expor a inquietação da personagem que interpreta em relação à possibilidade de descobrirem o golpe que esta procura efectuar. Temos ainda elementos como Martin Balsam como um detective privado que procura solucionar um caso sem a interferência da polícia, com o actor a atribuir alguma credibilidade a este indivíduo que acaba por se envolver num caso que inesperadamente envolve um perigoso psicopata. Diga-se que os momentos iniciais da narrativa não indicavam que Alfred Hitchcock fosse mudar de forma tão radical o rumo da mesma ao desfazer por completo o casal de namorados e a eliminar a sua suposta protagonista, com o espaço do Bates Motel a tornar-se quase como o sinónimo de perigo e morte. É um espaço que exibe mais uma vez a capacidade de Alfred Hitchcock em explorar os cenários, tal como acontece com a casa do protagonista, com o cineasta a ter uma enorme atenção ao detalhe, uma situação notória na decoração destes espaços.

Os quartos do Bates Motel são marcados pela presença de lençóis lavados, trocados semanalmente por Norman, com este a tratar cuidadosamente dos mesmos. Diga-se que este é um indivíduo aparentemente metódico, que durante algum tempo consegue esconder as suas perversões, ao mesmo tempo que tenta encobrir os assassinatos que ocorrem no motel. O pântano próximo das imediações do motel guarda segredos profundos, mas a mente de Norman é que parece ser o espaço mais atormentado, com as suas perversões a consumarem-se de forma sangrenta embora este nem tenha total consciência das mesmas. A relação que este forma com Marion parece inicialmente de alguma afinidade, pelo menos até ao assassinato ocorrer e este preocupar-se sobretudo em ver o carro desta, em conjunto com o corpo a ser consumido pelas águas pantanosas. É um psicopata com neuroses e problemas que remontam à sua juventude, em particular à morte do pai, à relação com a mãe e ao ciúme que sentia da atenção que esta viria a dar ao padrasto, com "Psycho" a colocar-nos diante de um personagem complexo, num filme que se revelou um enorme sucesso para Alfred Hitchcock, com este a utilizar com engenho os recursos que tinha à sua disposição. Ao longo dos anos, o impacto causado por algumas cenas do filme, entre as quais a do chuveiro, manteve-se praticamente intacto, embora o efeito surpresa já não seja o mesmo, algo que não retira o valor desta magnífica obra cinematográfica. Diga-se que Roger Ebert apontou com assertividade algumas das razões para a manutenção do interesse despertado por este filme: "What makes "Psycho" immortal, when so many films are already half-forgotten as we leave the theater, is that it connects directly with our fears: Our fears that we might impulsively commit a crime, our fears of the police, our fears of becoming the victim of a madman, and of course our fears of disappointing our mothers". No caso, temáticas como o sentimento de culpa por um crime cometido ou por um acto ilícito efectuado por outrem não é uma novidade nas obras de Alfred Hitchcock, algo notório em filmes como "Strangers on a Train", onde o protagonista é o principal culpado de um crime que não consumou mas sim um estranho que lhe fez uma proposta bizarra no comboio, ou o caso de "I Confess" no qual um padre é considerado suspeito de um assassinato que não cometeu, procurando não revelar a identidade do criminoso devido a ter descoberto a mesma durante uma confissão. Em "Psycho", Marion procura ajudar o namorado através deste crime, embora este desconheça o acto, com a própria a parecer ter intenções de recuar, embora o assassinato termine com as suas intenções. Surpreendente, intenso e inquietante, "Psycho" é um dos vários exemplos paradigmáticos da mestria de Alfred Hitchcock para a realização de filmes de suspense, com o cineasta a jogar com os medos do espectador e elaborar uma obra marcada por um protagonista complexo e uma estrutura narrativa bem amarrada, onde a tensão e o mistério surgem em doses bem salientes.

Título original: "Psycho". 
Título em Portugal: "Psico".
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Joseph Stefano.
Elenco: Anthony Perkins, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam, John McIntire, Janet Leigh.

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