23 setembro 2015

Resenha Crítica: "Listen Up Philip" (2014)

 Philip (Jason Schwartzman) é um escritor misantropo com um ego enorme e uma capacidade indelével de alienar aqueles que o rodeiam. Tem talento para a escrita, sabe disso e não tem problemas em expor as suas qualidades diante dos outros, mesmo que as suas atitudes egocêntricas conduzam a que apenas afaste os representantes da humanidade que ainda parecem dispostos a aturá-lo. Este é o protagonista de "Listen Up Philip", a terceira longa-metragem realizada por Alex Ross Perry, um nome que tem vindo a despontar na realização cinematográfica dos EUA, tendo aqui um exemplar que nos deixa com uma enorme curiosidade para saber o que este tem para nos dar em "Queen of Earth" e nos seus trabalhos seguintes. Alex Ross Perry convida-nos a mergulhar no interior do universo narrativo de um escritor que teria tudo para despertar o nosso desprezo mas aquilo que consegue é estimular o sentimento contrário, com Philip a surgir como uma figura complexa, que tanto incorpora os lugares-comuns dos escritores solitários como se afasta dos mesmos. Este é interpretado com a acidez e mordacidade necessárias por Jason Schwarzman, enquanto o actor transmite muita da melancolia que associamos a alguns dos personagens que interpreta a Philip, um escritor que parece pensar acima de tudo nele próprio e no seu bem estar. A presença dos comentários do narrador (Eric Bogosian) são fulcrais para o enredo, enriquecendo o mesmo de forma notória, ao mesmo tempo que agiliza a exposição de algumas situações relacionadas com os personagens e os seus estados de espírito. As atitudes do protagonista com as mulheres por vezes remetem-nos para o personagem interpretado por Woody Allen em "Manhattan", um indivíduo culto, também ele um escritor (no caso um argumentista de um programa televisivo que se demite), tratando Tracy (Mariel Hemingway), a sua jovem namorada, de forma nem sempre correcta. No caso de "Manhattan", Isaac Davis (Woody Allen) ainda parecia capaz de manter amizades e procurar o convívio com a humanidade. Em "Listen Up Philip" ficamos desde os momentos iniciais diante da personalidade abrasiva do personagem do título quando procura escancarar o sucesso junto da sua ex-namorada e arrasa com um antigo colega de faculdade que nunca alcançou os seus objectivos. São momentos simultaneamente cómicos e dramáticos, onde a misantropia e o ego desta figura ficam visíveis de forma paradigmática, com a sua sensibilidade a parecer ter ficado apenas para o plano da escrita. Mesmo os editores encontram-se com dificuldades a lidar com Philip, com este a mostrar uma soberba enorme a ponto de não querer divulgar o livro em entrevistas e eventos, apresentando uma personalidade solitária que diz muito do seu feitio mas também da imagem que pretende deixar transparecer para o exterior. A sua primeira obra foi um sucesso, enquanto a segunda encontra-se prestes a ser lançada, com o escritor a procurar escrever o seu terceiro livro, algo que parece complicado no interior de um espaço citadino de Nova Iorque que inspira mais a sua procrastinação do que propriamente a escrita, embora este encontre-se longe de ser um escritor marcado por bloqueios criativos. A depressão parece fazer parte natural da sua personalidade, ou pelo menos a noção de que falta sempre algo para a sua existência ficar completa. Ashley (Elisabeth Moss), a namorada de Philip há dois anos, parece não apresentar grandes problemas em relação à conduta deste indivíduo que vive muitas das vezes às suas custas e é incapaz de lidar de forma genuína e efusiva com os sucessos profissionais que esta alcança como fotógrafa. Esta é inicialmente dedicada à relação embora acabe por perceber que está melhor sozinha, encontrando-se farta do egoísmo de Philip apesar dela própria a espaços parecer ter muito em comum com o escritor ou não fossem ambos duas figuras solitárias. 

A relação entre Philip e Ashley atinge um ponto de ruptura quando o primeiro é contactado por Ike Zimmerman (Jonathan Pryce), um escritor já de idade avançada, que admira desde longa data, com quem forma amizade, ou as suas personalidades não fossem bastante semelhantes. A par de Jason Schwarzman, outro dos elementos do elenco que mais sobressaem é Jonathan Pryce, com este último a parecer ter um enorme prazer a interpretar um escritor arrogante, protagonizando alguns momentos merecedores de atenção ao lado do primeiro, ou Philip não parecesse uma réplica de Ike na juventude e vice-versa. Ike é um indivíduo que parece ter alienado quase todos à sua volta, desprezando boa parte da humanidade, encontrando em Philip um pupilo atento aos seus conselhos e um inesperado amigo. Outrora tivera grandes sucessos mas também alguns fracassos, encontrando-se há seis anos para completar um novo livro, algo que diz muito da criatividade de Ike nos dias de hoje, parecendo faltar-lhe a ferocidade e impetuosidade de Philip. A falta de sensibilidade a dialogar com os outros seres humanos é uma característica que os une, algo latente quando encontramos Ike a constantemente exaltar os seus feitos após esboçar um ou outro elogio ou crítica a Philip. As afinidades entre ambos e o talento de Philip, bem como a sua personalidade arrogante e petulante, conduzem a que Ike convide o protagonista a instalar-se temporariamente na sua casa de campo, onde supostamente apenas se encontra a governanta, considerando que a mudança poderá ser favorável para a escrita e crescimento pessoal do personagem interpretado por Jason Schwartzman. Philip aceita o convite e os conselhos de Ike, uma situação que o vai levar a sair temporariamente do apartamento onde habita com Ashley, com o findar da relação entre ambos a parecer cada vez mais uma certeza. Na casa de férias de Ike, o protagonista vai deparar-se com Melanie (Krysten Ritter), a filha do primeiro, uma jovem revoltada com o pai, quer pela personalidade intragável do mesmo, quer pelas constantes traições que este cometera, ou esta habitação não fosse o local onde o personagem interpretado por Jonathan Pryce trazia as amantes. Alex Ross Perry toma a atitude inteligente de nunca procurar estabelecer um romance entre Philip e Melanie, com esta a exibir até algum desagrado inicial em relação à presença do protagonista, algo que expõe de forma sardónica num jantar onde se encontram presentes os dois escritores. Krysten Ritter surge como uma figura feminina com pelo na venta, também ela de personalidade forte, pronta a afrontar o progenitor, com a actriz a destacar-se sobretudo nos momentos de maior irrisão entre Melanie e Ike, onde encontramos também um lado mais vulnerável de Melanie. A amizade e confiança que Ike deposita em Philip leva a que consiga um lugar para este leccionar sobre escrita criativa numa faculdade durante um semestre, algo que conduz o protagonista a afastar-se ainda mais de Ashley, ao ter de ficar instalado nas proximidades da instituição durante esses meses, com esta a procurar esquecê-lo de vez. O enredo muda por vezes o foco para Ashley, expondo com algum humor e sagacidade o seu quotidiano, com auxílio do narrador, enquanto Elisabeth Moss tem oportunidade para sobressair como uma mulher algo solitária, bem sucedida a nível profissional, que decide adoptar um gato e procura seguir em frente, enquanto tenta deixar para trás algumas memórias marcantes do passado. Diga-se que a relação de Ashley com Philip já parecia estar a dar as últimas, ou este último não estivesse sempre demasiado preocupado em centrar as atenções na sua pessoa e a ignorar a importância desta mulher para a sua vida. Philip ainda tenta manter um caso com Yvette (Joséphine de La Baume), uma professora da universidade onde trabalha que inicialmente apresenta uma enorme animosidade pelas facilidades que este encontrou para poder leccionar na instituição, embora o maior problema seja aturá-lo depois de conhecê-lo. É outra das personagens femininas que se desiludem ao conhecerem melhor as figuras masculinas, com estes escritores a terem tanto de talentosos e bem sucedidos como de frustrados na sua vida pessoal, com o talento para comunicarem oralmente a parecer dicotómico daquele que colocam na escrita. 

"Listen Up Philip" coloca-nos assim diante de um indivíduo egocêntrico e solitário, algo que se deve não só à personalidade do personagem do título mas também à sua procura em criar uma imagem sobre a sua pessoa. Evita os alunos, procura que não o vejam fora do espaço universitário, tenta criar uma aura de artista bem sucedido e inacessível, sendo muito provável que o seu destino venha a ser semelhante ao de Ike, ou seja, chegar à velhice e ter na máquina de escrever a sua melhor companhia, para não dizer a única. Ike e Philip são duas figuras que parecem muitas das vezes terem criado um mundo muito próprio onde apenas as suas pessoas importam, com tudo em seu redor a parecer-lhes secundário, algo latente na forma como o segundo lida com Ashley, parecendo que a personagem interpretada por Elisabeth Moss tem de estar sempre disponível para o receber, independentemente das decisões erráticas que este toma. Por sua vez, Ike parece ter expulso quase todos da sua vida, com a sua filha a estar muito próxima de ser a "próxima vítima", sobretudo após este trazer, em conjunto com um amigo, duas desconhecidas para casa. É um momento onde mais uma vez fica latente o mau relacionamento deste com a filha, mas também o seu carácter errático e a sua falta de noção em relação ao seu real papel na sociedade, a ponto de ter de chamar Philip para contar com alguém mais jovem que desperte a atenção das duas figuras femininas. A cinematografia é muito marcada pela utilização dos close-ups, permitindo incrementar os sentimentos expostos pelos elementos do elenco, com Elisabeth Moss e Jason Schwartzman a destacarem-se neste quesito, ao mesmo tempo que a espaços parece quase procurar criar alguma proximidade entre o espectador e os personagens. Diga-se que essa proximidade é muitas das vezes incrementada pela utilização da câmara na mão que concede um tom quase imediato aos episódios que nos são apresentados, como se os estivéssemos a presenciar, com esta a acompanhar o estado de espírito das diversas figuras que pontuam o enredo. Estamos longe de uma visão sonhadora sobre o papel do autor e da fruição artística, com Alex Ross Perry a colocar-nos diante de um artista bem sucedido a nível profissional que é um misantropo deprimido cuja vida social resume-se gradualmente à amizade com Ike. O argumento é dotado de algumas falas mordazes e inteligentes, a cinematografia é sóbria, a realização de Alex Ross Perry eficaz o suficiente e capaz de fazer o elenco sobressair, enquanto Jason Schwartzman e Jonathan Pryce têm oportunidade para exibirem qualidades como dois escritores de personalidade difícil que parecem afastar quase todos à sua volta, com excepção do espectador ao longo do enredo de "Listen Up Philip".  

Título original: "Listen Up Philip".
Realizador: Alex Ross Perry.
Argumento: Alex Ross Perry.
Elenco: Jason Schwartzman, Elisabeth Moss, Krysten Ritter, Joséphine de La Baume, Jonathan Pryce.

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