21 setembro 2015

Resenha Crítica: "Life" (2015)

 Um actor em ascensão na carreira, provavelmente ainda sem a consciência de que viria a ser um ícone. Um fotógrafo em busca de exprimir a sua arte que encara este actor como um possível símbolo de um novo movimento geracional. Assim poderia ser inicialmente descrita a dupla de protagonistas de "Life", uma obra cinematográfica realizada por Anton Corbijn, que nos apresenta com alguma sobriedade e sentimento à relação profissional e de amizade entre o fotógrafo Dennis Stock (Robert Pattinson) e o actor James Dean (Dane DeHaan). O termo sentimento surge aplicado não por "Life" apelar ao melodrama mas sim por atribuir credibilidade aos episódios que nos apresenta ao ponto de fazer com que os acontecimentos representados pareçam palpáveis e sentidos pelo espectador, com Anton Corbijn a parecer conseguir captar toda uma atmosfera de uma época, numa narrativa iniciada em 1955. Quer o guarda-roupa, quer os cenários, quer o sistema de estúdios de Hollywood (representados na figura de "mão de ferro" de Jack Warner, interpretado por Ben Kingsley), quer o culto das celebridades, quer a banda sonora parecem dizer muito desta época retratada de forma credível por Anton Corbijn. É certo que alguns personagens secundários que aparecem a polvilhar a narrativa como os realizadores Nicholas Ray e Elia Kazan poderiam e deveriam ter sido mais explorados mas a intenção de Corbijn parece acima de tudo concentrar as atenções na relação entre Dennis e James. O cineasta opta por explorar um período limitado da vida de Dennis Stock e James Dean, uma situação que permite desenvolver o mesmo com assertividade e fugir às obras cinematográficas de cariz biográfico que procuram abordar um espaço de tempo alargado e pecam por vezes pela falta de profundidade, com o realizador a conseguir ainda extrair interpretações de peso dos intérpretes dos protagonistas. Robert Pattinson e Dane DeHaan são a pedra de toque de "Life", com muito daquilo que funciona ao longo do filme a dever-se à dinâmica entre os dois actores, ou estes não só convencessem como Dennis Stock e James Dean, como também permitem elevar uma história "sumarenta" e assaz interessante, com o argumento de Luke Davies a saber explorar as fragilidades, forças e idiossincrasias do fotógrafo e do actor. Robert Pattinson surge sempre com um tom mais sério, penteado certinho e máquina fotográfica por perto, incutindo no personagem que interpreta um certo nervosismo por saber que a sua carreira tarda em encontrar o rumo com o qual este sempre sonhou, limitando-se a cobrir antestreias e sets de filmagens para a Magnum Photos Agency. Dane DeHaan incute um estilo mais melancólico, misterioso e desprendido ao personagem que interpreta, com o actor a ter a enorme responsabilidade de interpretar James Dean, explorando alguma da pouca preparação que este tinha em conviver com a fama e as dificuldades em movimentar-se de acordo com as regras que Jack Warner (Ben Kingsley) lhe pretendia impor, incluindo responder de forma certinha a questões que o incomodavam. De cabelo penteado de forma moderna (para a época), óculos de massa, de cigarro quase sempre na boca, James Dean surge representado como uma figura que ainda se encontra longe de saber o êxito que viria a alcançar, que apenas quer representar bons papéis, ainda algo apegado à sua terra natal e às memórias do passado, em Indiana, uma situação que permite ao enredo desenrolar-se em três espaços primordiais: Los Angeles, Nova Iorque e Indiana.

Logo no primeiro terço de "Life", somos apresentados ao primeiro encontro entre Dennis Stock e James Dean, nomeadamente numa festa organizada por Nicholas Ray (que viria a realizar "Rebel Without a Cause", protagonizado por Dean), em Los Angeles, com o actor a despertar a atenção do primeiro que o encara como uma figura misteriosa e distinta. O fotógrafo não só pretende ajudar a lançar James Dean para o sucesso mas também aproveitar para ser o primeiro a descobrir este talento em ascensão nas vésperas da estreia de "East of Eden" de Elia Kazan. Existe algo distinto e magnético em Dean que faz com que Stock pretenda efectuar uma reportagem fotográfica sobre o mesmo (que viria a fazer história), com o personagem interpretado por Robert Pattinson a encarar o actor como o possível símbolo de uma geração, fugindo das atitudes pensadas ao pormenor e das frases de efeito das vedetas do seu tempo. Esta situação conduz a uma relação complicada entre James Dean e Jack Warner, com o executivo a procurar domá-lo, algo que não difere muito das atitudes que os estúdios pretendem implementar nos dias de hoje com os actores e actrizes a exporem muitas das vezes discursos de circunstância em conferências de imprensa, entrevistas, talk shows e afins. A relação entre Stock e Dean nem sempre é fácil, com ambos a partilharem visões muito próprias da arte e da vida. Stock é divorciado, tendo um filho da ex-mulher, um petiz que vive com a mãe em Nova Iorque e pouca atenção recebe do progenitor que encara por vezes o jovem como um empecilho para a sua carreira. Dean procura aproveitar o momento, apresenta muitas das vezes atitudes erráticas, parecendo ter uma atitude ambígua em relação a Hollywood, tanto desprezando o aparato que envolve a sua profissão como apreciando a mesma, com "Life" a procurar exibir um outro lado deste actor, ao procurar explorar, com várias liberdades à mistura, a sua vida pessoal neste período. Stock procura desde logo convencer John G. Morris da Magnum a conseguir que a revista "Life" financie a sua reportagem, bem como que James Dean aceda a participar na mesma, com o actor a tanto aceder como a exibir relutância, algo que conduz a um jogo entre ambos onde a parte mais interessada parece sempre ser o fotógrafo. Estes reencontram-se na première de um filme que conta com a presença de Pier Angeli (Alessandra Mastronardi), uma actriz com quem Dean mantém uma relação tão fugaz como o fumo dos seus cigarros. Dean fuma imenso, com uma cena mais íntima entre este e Pier a ser marcada pela forte presença do fumo, com este a ritmar quase os sentimentos quentes e pouco duradoiros que vão permear esta relação movida sobretudo pelo desejo e a fugacidade dos prazeres momentâneos. Dane DeHaan consegue explanar a complexidade e contradições do personagem que interpreta, uma figura que teve pouco tempo de vida mas deixou marca, com os momentos que vive em Nova Iorque, um território pontuado pela neve e uma enorme energia, a serem marcados, a espaços, por um sensação de vazio, apesar de estar muitas das vezes acompanhado. Veja-se quando se encontra a dançar num bar, pedrado, parecendo feliz embora esconda o remorso por ter descoberto que Pier se encontra noiva através dos jornalistas numa conferência de imprensa. Dane DeHaan surge sublime na conferência, conseguindo exibir a procura de James Dean em controlar os seus ímpetos, com a máquina de marketing da Warner a procurar que este ceda perante as regras se quiser protagonizar "Rebel Without a Cause". Se em Los Angeles e Nova Iorque este nunca consegue encontrar totalmente a liberdade, embora não lhe falte diversão, já em Indiana parece encontrar alguma paz ou não fosse o seu regresso às origens. É neste território que Stock consegue algumas das melhores fotografias, mas também conhece um lado distinto de James Dean, nomeadamente a relação deste com o tio, o sobrinho e os avós, bem como o envolvimento do actor com este espaço. Se o território de Los Angeles é pontuado pelas oportunidades falhadas de Stock, enquanto a cidade de Nova Iorque é marcada por uma enorme vida e a presença da neve (um espaço citadino onde iria captar uma foto icónica a James Dean na Times Square), já Indiana surge como um espaço onde o fotógrafo consegue captar a essência de Dean mas também procura descobrir um pouco mais sobre si próprio. A fotografia é a grande paixão de Stock, com a sala pontuada pelas luzes vermelhas onde efectua as revelações dos seus trabalhos a tanto ter de solitária como de mágica, com este a procurar criar arte através da sua objectiva.

No cerne da narrativa encontra-se a relação entre Dennis Stock e James Dean, com Anton Corbijn a conseguir captar a mesma com enorme subtileza, desenvolvendo as personalidades complexas destes homens ao mesmo tempo que extrai interpretações merecedoras de atenção por parte de Robert Pattinson e Dane DeHaan. A dinâmica entre ambos é essencial, seja num momento de maior leveza entre Stock e Dean, seja num diálogo mais tenso (não vão faltar alguns desaguisados), enquanto assistimos aos esforços do fotógrafo em conseguir uma reportagem fotográfica que irá marcar a carreira da dupla. O processo é lento e demorado, parecendo por vezes que não vai levar a lado nenhum. A ida a Indiana corresponde praticamente com o terceiro acto do filme, com o enredo a desenrolar-se nos momentos que antecedem a estreia de "East of Eden", com Dennis Stock a procurar captar uma visão distinta de James Dean daquela que é procurada pela maioria dos jornalistas e repórteres-fotográficos, uma ideia que inicialmente parece difícil de vender para a "Life", sobretudo pelo actor ainda não ser um nome conhecido. O próprio actor por vezes parece ter alguma dificuldade em perceber aquilo que Stock pretende encontrar (um sentimento que a espaços também é sentido pelo espectador), formando-se entre ambos uma relação que transcende as barreiras laborais e aos poucos desemboca em respeito e amizade. Este viria a tornar-se numa estrela de enorme sucesso que faleceria aos vinte e quatro anos de idade (poucos meses depois deste marcante ensaio fotográfico), enquanto Stock viria a ter uma carreira bem sucedida como fotógrafo. "Life" coloca-os entre Los Angeles, Nova Iorque e Indiana, procurando explorar as diferentes relações dos personagens com os locais (bom trabalho de Charlotte Bruus Christensen na cinematografia a captar essas distinções), mas também as maneiras distintas como estes espaços e os seus habitantes se encontravam a lidar com as transformações nos EUA e no Mundo. Veja-se o conservadorismo de Indiana, que contrasta com o glamour das premières em Nova Iorque e as festas em Los Angeles, com "Life" procurar não só captar como dois indivíduos marcaram a vida um do outro, mas também as mudanças nos diferentes espaços de um país pontuado por diversas dicotomias. O elenco secundário nem sempre tem espaço para se destacar (um dos "calcanhares de Aquiles" de "Life"), sobressaindo sobretudo Ben Kingsley nas suas curtas aparições como Jack Warner, com o actor a parecer tirar um enorme prazer em dar vida a uma versão quase caricatural do líder de um estúdio com uma atitude ditatorial. No entanto, cabe a Robert Pattinson a ironia de interpretar um elemento que está muitas das vezes no outro lado do trabalho do actor, embora Stock esteja longe de ser um paparazzi, procurando acima de tudo fazer arte e pelo caminho conseguir que esta reportagem fotográfica alavanque a sua carreira e ajude a popularizar James Dean, com este a parecer procurar captar o âmago deste indivíduo icónico ao longo de uma obra cinematográfica inspirada em momentos reais embora com as célebres liberdades criativas à mistura. Também Anton Corbijn já trabalhou como fotógrafo, algo que lhe parece ter permitido captar com maior sagacidade as subtilezas inerentes a esta profissão, com o cineasta a voltar a aventurar-se pela realização de um filme de características biográficas após "Control", tendo em "Life" mais um exemplar de uma carreira que começa a formar um corpo bastante interessante.

Título original: "Life".
Realizador: Anton Corbijn.
Argumento: Luke Davies.
Elenco: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Ben Kingsley, Joel Edgerton.

Sem comentários: