28 setembro 2015

Resenha Crítica: "La sirène du Mississipi" (1969)

 Será possível resistir ao canto da sereia? Louis Mahé (Jean-Paul Belmondo), o protagonista de "La sirène du Mississipi", parece incapaz de o fazer, embora vários sinais e gestos indiquem que este deveria ser mais pragmático ao invés de seguir os impulsos. Diga-se que não é o primeiro dos protagonistas das obras cinematográficas realizadas por François Truffaut cujo quotidiano se altera por completo diante da chegada de uma figura feminina marcante. No caso, Catherine Deneuve a espaços quase que faz recordar a personagem interpretada pela sua irmã, Françoise Dorléac, em "La peau douce", uma hospedeira de bordo que se envolve com um indivíduo casado, numa obra cinematográfica onde François Truffaut dera novamente uma enorme atenção aos gestos, com a relação entre a dupla de protagonistas a ser pontuada por alguma sensualidade e erotismo. Também Deneuve surge como objecto de desejo em "La sirène du Mississipi", uma obra cinematográfica que teve como base o livro "Waltz into Darkness" de William Irish (pseudónimo de Cornell Woolrich), o mesmo autor de "The Bride Wore Black" que Françoise Truffaut adaptara livremente em "La Mariée était en noir". Se em "La Mariée était en noir" encontrávamos Jeanne Moreau como uma viúva que se procura vingar dos cinco elementos que contribuíram (voluntária ou involuntariamente) para a morte do esposo, com esta a saber utilizar o seu poder de sedução e inteligência, já em "La sirène du Mississipi" encontramos um marido que se procura inicialmente vingar da esposa que o enganara. As mulheres são figuras preponderantes das obras de François Truffaut. Desde "Jules et Jim", passando por "La peau douce" e "La Mariée était en noir", vários são os exemplos que podemos dar onde as mulheres surgem como figuras relevantes, algo que se repete em "La sirène du Mississipi". Tudo começa com uma troca de correspondência entre Louis Mahé e Julie Roussel (Catherine Deneuve), com este a pedi-la em casamento, ainda sem ter conhecido pessoalmente a noiva. Ele é um indivíduo algo solitário, aparentemente sem grandes amizades, dono de uma fábrica de tabaco e uma extensa propriedade na ilha Reunião, uma situação que lhe proporciona uma situação financeira desafogada. Dela inicialmente pouco sabemos, a não ser que mentiu na foto enviada, com a sua beleza a ter tanto de encantadora como a sua personalidade tem de misteriosa. É esperada num barco, onde também chegam várias gentes anónimas e encomendas. Diga-se que a personagem também se prepara para surgir como uma bela encomenda, quer no sentido literal, quer no figurado, com os seus longos cabelos loiros, face angelical e sorriso contagiante a prometerem contrastar com alguns dos seus actos. Aos poucos alguns factos das cartas não batem certo com a personalidade e gostos de Julie, mas a capacidade de sedução desta, bem como a ingenuidade de Louis e o provável entusiasmo por ter visto que a sua noiva superou as expectativas, conduzem a que o mesmo não ligue muito à situação. Nem uma carta de Berthe Roussel (Nelly Borgeaud), a irmã de Julie, a estranhar a falta de correspondência da familiar faz com que Louis desconfie da esposa, muito menos a frieza em relação à morte do canário de estimação. A confiança do personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo em relação à esposa vai ao ponto de deixar que esta tenha total acesso à sua conta bancária privada e da empresa. Quando esta desaparece misteriosamente, deixando as contas quase a zeros e Berthe surge em busca da irmã, revelando que a personagem interpretada por Catherine Deneuve encontra-se a utilizar uma identidade falsa, Louis fica devastado, com o impacto a afectar o seu ego, a sua carteira e o seu "coração". Bem queima os objectos que esta deixou em casa, na maioria brancos, embora esta figura feminina esteja longe de simbolizar a pureza, mas nem por isso o fogo provocado pela traição deixa de alastrar pela sua alma.

Louis e Berthe contratam os serviços do detective Comolli (Michel Bouquet), um indivíduo zeloso no cumprimento da sua actividade, para provar que a falsa Julie, na realidade Marion Vergano, esteve envolvida no assassinato da verdadeira, decidindo ainda viajar, acabando por desmaiar no voo e ter de ficar temporariamente internado em Nice. No hospital, Louis depara-se com um vídeo na televisão onde encontra Marion a dançar num clube nocturno em Antibes, decidindo procurá-la com intenções de matá-la. Não consegue e acaba envolvido numa teia de sedução mútua, revelações, crimes, mentiras e reviravoltas, por um conjunto de locais distintos, com Catherine Deneuve e Jean-Paul Belmondo a exibirem um enorme talento e carisma como este estranho casal que tanto se ama como se repudia. A cena em que os dois se reencontram no quarto de hotel é paradigmática do quanto esta dupla funciona, com ambos a protagonizarem momentos magnéticos, onde não descolamos a atenção para saber o que vai acontecer, com Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve a transmitirem a sensação de que poderiam ficar a falar durante horas que não perderíamos a atenção nas figuras que interpretam, algo que se vai repetir quando alugam uma casa em Aix-en-Provence. Descobrimos mais sobre Marion, uma órfã que parece desprezar a pobreza, também ela a ter ficado sem o dinheiro de Louis já que se encontrava a ser alvo de extorsão de Richard (Roland Thénot), o seu antigo companheiro, um indivíduo que víramos a discutir com esta, ainda que por breves segundos, na Ilha Reunião em momentos que foram presenciados por Jardine (Marcel Berbert), um dos poucos amigos do personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo. O actor consegue expressar a raiva do protagonista e o sentimento de engano que assola a sua alma mas também as fragilidades emocionais do mesmo, surgindo como um personagem que em parte até foge do que esperamos ver de Belmondo, com este a dar vida a um homem de largas posses e pouco pragmatismo no que diz respeito ao amor e ao desejo. Deixa-se seduzir com facilidade. Diga-se que difícil seria se isso não acontecesse, com Catherine Deneuve a incutir um misto de fragilidade e sensualidade a Marion de que é complicado resistir, uma figura feminina que altera por completo o quotidiano de Louis a ponto deste cometer uns quantos actos onde a racionalidade parece ser colocada de lado. A certa altura chegam a protagonizar alguns momentos de grande intimidade, a ponto de formarem uma cumplicidade que não pareciam ter na Ilha Reunião, apesar de sabermos que existe muito a minar este envolvimento, incluindo os actos que Louis e Marion tomam ao longo do filme, com a relação entre ambos a fascinar-nos e ao mesmo tempo a deixar-nos com a sensação de que algo pode fazer perigar a mesma a qualquer momento. François Truffaut volta a dar uma enorme atenção aos gestos dos seus personagens e ao desejo que permeia as suas relações, com a cena em que Louis toca ao de leve nas pernas de Marion a fazer-nos recordar momentos semelhantes em "La peau douce", onde a sensualidade e algum erotismo se encontravam presentes. Temos ainda o momento em que este a descreve, existindo um desejo mútuo que a espaços os parece unir. Diga-se que Marion sabe o seu poder de sedução. Veja-se quando desabotoa os botões do seu vestido para Louis colocá-los no sítio ou utiliza uma roupa interior considerada mais sedutora, para o momento em que o personagem interpretado por Jean-Paul Belmondo entra no local onde se encontram instalados. Os cenários tropicais da Ilha Reunião são trocados pelos espaços citadinos franceses com o avançar da narrativa, enquanto François Truffaut envolve a sua dupla de protagonistas numa teia negra de acontecimentos, bombeados muitas das vezes ao ritmo da sublime banda sonora de Antoine Duhamel.  

A banda sonora é parte fulcral das obras de François Truffaut, tal como o trabalho das imagens (incluindo a nível de montagem) e a narração em off, com "La Sirène du Mississipi" a remeter-nos ainda para as célebres referências literárias e cinéfilas (não pode faltar uma ida ao cinema para a dupla de protagonistas ver "Johnny Guitar", de Nicholas Ray, um dos "heróis" dos elementos da Nouvelle Vague, entre os quais Truffaut, para além do filme ser dedicado a Jean Renoir) dos vários trabalhos do primeiro. A irreverência no trabalho do som e das imagens é exposta logo nos momentos iniciais onde nos deparamos com os anúncios para encontros colocados nos jornais, mas também quando François Truffaut decide jogar com as mesmas, tal como no momento em que encontramos Marion a escapulir-se, num pequeno quadrado que rapidamente toma conta do ecrã até então preenchido de negro. No entanto, mais do que o poder da imagem, "La Sirène du Mississipi" deixa-nos diante da força que o canto da sereia e do amor tem no protagonista, a ponto de nem o facto da sua conta ter sido esvaziada fazer com que o ódio tome por completo a sua alma ao longo de todo o enredo. No final a neve, também ela presente em "Tirez sur le pianiste", toma conta dos cenários. Não temos um tiroteio, mas temos a angústia e a certeza de um amor que a espaços se pode tornar venenoso, com os sentimentos de Marion em relação a Louis a nunca serem tão claros como os deste homem em relação à primeira, embora pareça certo que não são indiferentes um em relação ao outro. Catherine Deneuve procura que a personagem que interpreta tenha sempre algum mistério, que nos deixe sempre com a pulga atrás da orelha, com esta a ter tanto de frágil como de mimada e dissimulada, parecendo temer as dificuldades que teve outrora embora isso não justifique todas as suas opções. Quando grava um disco para Louis, que nunca chega ao destinatário, expõe um pouco dos seus sentimentos, exibindo que nutre algo de forte por este homem embora isso não a impeça de tomar atitudes erráticas e por vezes parecer interessar-se em demasia pelos valores materiais. François Truffaut já nos habitou ao papel transformador que uma mulher pode ter na vida dos homens, algo de que "Jules et Jim" é paradigmático. Em "La Sirène du Mississipi" deixa-nos diante do canto da sereia desta dupla de protagonistas que nos arrasta para o interior da sua relação convulsa, que nasce torta, a espaços endireita-se, embora a instabilidade seja a palavra de ordem da mesma ao longo de uma obra cinematográfica onde François Truffaut revela não só o seu engenho para dinamizar os seus filmes, trabalhar as imagens e extrair o talento dos seus intérpretes mas também a criar momentos que deixam marca no espectador.

Título original: "La sirène du Mississipi"
Título em inglês: "Mississippi Mermaid".
Título em Portugal: "A Sereia do Mississípi".
Realizador: François Truffaut. 
Argumento: François Truffaut. 
Elenco: Catherine Deneuve, Jean-Paul Belmondo, Michel Bouquet, Nelly Borgeaud.

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