26 setembro 2015

Resenha Crítica: "La peau douce" (1964)

 Um affair iniciado em Lisboa promete consumir e atormentar Pierre Lachenay (Jean Desailly), um escritor e editor da revista "Ratures", especialista em Balzac, orador em diversas conferências, que mantém um casamento aparentemente pacífico com Franca (Nelly Benedetti), de quem tem uma filha, a jovem Sabine (Sabine Haudepin). Franca simboliza a estabilidade, mas Nicole (Françoise Dorléac) é a sedução em pessoa, uma hospedeira de bordo que se encontra no mesmo avião para Lisboa que Pierre. Ainda trocam uns olhares no avião mas é no Hotel Tivoli que entram em contacto directo e informal, com este a exibir-se algo atrapalhado no elevador, até telefonar para o quarto desta mulher e marcar um encontro. Esta nunca tinha lido nenhum trabalho do escritor e orador, embora o conhecesse da televisão, com ambos a parecerem duas figuras distintas unidas por uma atracção mútua. Ela gosta de dançar, é solteira e tem uma profissão cuja agenda nem sempre é fácil de conciliar com a sua vida pessoal. Ele não sabe dançar, tem uma profissão sedentária marcada por saídas esporádicas para participar em conferências, um casamento até então aparentemente sólido e uma enorme paixão pela literatura. O affair estende-se para solo francês, com Lisboa a ser apenas o início de algo que terá tanto de fervilhante como de frustrante, com François Truffaut, na sua quarta longa-metragem como realizador, a deixar-nos diante de um caso extra-matrimonial onde os prazeres facilmente podem dar lugar a arrependimentos, descobertas podem provocar reacções intempestivas e as emoções surgem difíceis de controlar. Pierre evita ser descoberto mas não consegue esquivar-se em relação ao desejo que nutre por Nicole, com Jean Desailly a explorar de forma competente o misto de sentimentos que invade o personagem que interpreta, uma figura aparentemente calma e educada que se envolve numa encruzilhada, enganando a esposa ao mesmo tempo que não parece decidir-se em relação a medidas concretas para ambas as relações até ser obrigado a tal. Deseja notoriamente Nicole, como fica latente desde que a procura contactar em Lisboa, ou toca suavemente no corpo desta enquanto a descalça e tira os collants da mesma após a personagem interpretada por Françoise Dorléac adormecer, com os planos fechados sobre o corpo desta e as mãos do protagonista, aliados à banda sonora, a parecerem espelhar paradigmaticamente a atracção que a hospedeira de bordo lhe desperta. Logo nos créditos iniciais assistimos ao toque e entrelaçar de duas mãos, com François Truffaut a dar a noção da importância destas trocas de gestos e olhares entre os protagonistas e do erotismo que envolve alguns destes actos, (uma atenção comum a algumas das suas obras, tais como "Tirez sur le pianiste", em momentos como aquele em que o protagonista não parece saber onde tocar em Léna, enquanto caminham pela rua), com a entrada num quarto a poder surgir rodeada de dúvidas e de um desejo inexorável que facilmente se transforma num momento de sedução e marcante para Pierre e Nicole mas também para o espectador.

A entrada no quarto é marcada por luzes que se acendem e se apagam, mãos que aparecem e desaparecem e dois corpos que se preparam para unir-se no mesmo espaço. Nicole também parece apreciar a companhia de Pierre, com a cinematografia de Raoul Coutard a contribuir para o expressar dos sentimentos fortes que assolam as mentes dos elementos deste casal adúltero que tenta ter momentos de intimidade embora a tarefa seja muitas das vezes dificultada devido à procura do protagonista em esconder o affair (e a sua notória falta de preparação para isso). Françoise Dorléac concede algum mistério e capacidade de sedução à personagem que interpreta, uma hospedeira de bordo oriunda de Bordéus, que aos poucos se deixa envolver num caso que parece ter tudo para falhar ou talvez não, com os sentimentos entre Pierre e Nicole a parecerem genuínos, embora muito esteja dependente do desejo. O argumento explora a relação entre ambos de forma simples e eficaz, com alguns retoques de classe ou o protagonista não fosse um especialista em Balzac que resolve espelhar todo o seu conhecimento no primeiro encontro com Nicole, com François Truffaut a não poupar nas referências cinéfilas e literárias ao longo do filme. "La peau douce" remete-nos ainda para outros trabalhos de François Truffaut, tais como "Tirez sur le pianiste", "Jules et Jim", onde tínhamos elementos e temáticas como o adultério, a figura feminina que altura o rumo da vida dos homens, as referências literárias, uma utilização exímia dos close-ups, alguns personagens pouco dados a grandes moralismos, as filmagens fora do espaço dos estúdios (a casa de Pierre e Franca é a de Truffaut; o espaço do aeroporto de Paris; os breves momentos em Lisboa), a presença e aproveitamento dos espaços citadinos, a enorme mobilidade no trabalho de câmara com esta a fazer-se sentir, o facto de ser filmado a preto e branco, entre outros, com diversos destes exemplos a remeterem ainda para outros trabalhos de cineastas da Nouvelle Vague. No entanto, não nos dispersemos. Uma ida a Reims, onde o protagonista aproveita para levar Nicole, para desfrutar de algum tempo de descanso que pensa vir a ter antes e depois de uma conferência onde vai apresentar um documentário sobre André Gide, exibe paradigmaticamente que Pierre terá de tomar decisões, com o amigo que o convidara a não o largar, enquanto este acaba por descurar a amada. Por sua vez, Franca tem cada vez mais suspeitas em relação ao esposo, parecendo certo que mais cedo ou mais tarde tudo será descoberto e nada ficará como dantes, com os sentimentos a ficarem à flor da pele, numa obra cinematográfica onde a moralidade fica à porta e a felicidade é um desiderato que parece vir a ser alcançado por poucos. Em Reims assistimos ao enorme receio que o protagonista tem de ser visto com a amante, sobretudo junto de conhecidos, mas também à possibilidade de Nicole ficar saturada, com o à vontade deste escritor e orador a participar nas conferências a parecer muitas das vezes dicotómico da sua sensibilidade para com as mulheres. Também Nicole parece ter as suas dúvidas, com o affair a contar com os seus altos e baixos, mas também diversas situações mais leves e românticas (veja-se os momentos algo idílicos onde tiram fotos após a curta estadia em Reims), ou a personagem interpretada por Françoise Dorléac não simbolizasse o desejo, a ponto de toldar o discernimento do protagonista.

Nicole sabe que se encontra a envolver com um homem casado, enquanto Pierre dá-lhe algumas ilusões em relação ao futuro, apesar de parecer demasiado preso ao conforto do lar. Tenta escapulir-se da esposa, arranjar maneiras de se encontrar com a amante, mas a filha pesa sempre nas suas decisões, bem como algum sentimento de culpa, pelo menos até não ter grandes alternativas, com o poder das fotografias e da imagem a prometer colocar a sua vida no caos. O filme conta ainda com alguns momentos de humor, seja de um elemento que não fica satisfeito por ver o seu artigo ser colocado em último na revista, seja pela situação caricata do amigo do protagonista não perceber que este o quer despachar em Reims, ao mesmo tempo que não faltam ainda alguns trechos mais tensos, com Truffaut a ser capaz de transformar uma ida ao aeroporto num momento digno de enorme inquietação. O cineasta explora de forma simples e eficaz um affair, beneficiando da dinâmica entre Jean Desailly e Françoise Dorléac com estes a convencerem como este casal adúltero, cabendo a Nelly Benedetti ter alguns momentos de maior destaque no terceiro acto, com Franca a sair da obscuridade e exibir um lado mais efervescente e explosivo. São momentos de enorme inquietação, numa obra inspirada não só em dois casos reais mas também nos affairs de François Truffaut, com "La Peau Douce" a deixar-nos tanto com o intrincado jogo de sedução e desejo que envolve uma relação do género como com as consequências brutais que estes podem ter. A narrativa avança de forma dinâmica, com a banda sonora a também contribuir para a situação (veja-se a utilização inusitada da Sinfonia do Brinquedo), bem como a cinematografia e a montagem, com François Truffaut a deixar-nos diante de uma obra onde um affair promete mexer com o quotidiano de diversos personagens, ou as emoções não levassem muitas das vezes a melhor em relação à razão, toldando o discernimento diante do desejo de um prazer que pode ser momentâneo mas inesquecível.

Título original: "La peau douce".
Título em Portugal: "Angústia". 
Realizador: François Truffaut.
Argumento: François Truffaut e Jean-Louis Richard.
Elenco: Jean Desailly, Françoise Dorléac, Nelly Benedetti.

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