06 setembro 2015

Resenha Crítica: "La Femme Nikita" (Nikita - Dura de Matar)

 Violento, a espaços algo imoral e intenso, "La Femme Nikita" contribuiu e muito para Luc Besson, um cineasta conhecido por muitas das vezes privilegiar o estilo em detrimento da substância, aumentar a sua popularidade junto do grande público. Em "La Femme Nikita" este parece ter tirado não só inspiração dos filmes de acção dos EUA mas também de Hong Kong, em particular de John Woo, encontrando poesia num tiroteio violento, sempre sem descurar a protagonista principal. Apesar da história ser bastante simples, não deixa de ser particularmente latente a procura de Luc Besson em construir uma protagonista complexa e relevante, dando bastante tempo para expor o seu comportamento e personalidade até nos apresentar às alterações da mesma. Na primeira vez que encontramos Nikita (Anne Parillaud) esta encontra-se completamente pedrada, a participar num assalto com três amigos, Zap, Rico e Antoine. O assalto visa roubar a farmácia do pai de Antoine, mas tudo corre mal quando o progenitor do criminoso descobre, com a polícia a ser chamada e um violento tiroteio irrompe pelo estabelecimento. A violência paira pelo ar, enquanto Besson permeia os cenários de tonalidades azuis, até restar apenas Nikita do grupo criminoso. Nikita elimina um polícia, sendo condenada a prisão perpétua embora nunca chegue a cumprir a mesma devido a ser integrada no Centro, uma organização governamental secreta que treina criminosos proscritos após simular as suas mortes, tendo em vista a transformá-los em assassinos treinados para eliminarem alvos específicos ou participarem em missões nebulosas. A protagonista logo evidencia uma postura violenta, algo selvagem, procurando agredir tudo e todos aqueles que de si aproximam. O contacto principal de Nikita na organização é Bob (Tchéky Karyo), um agente aparentemente frio, que procura impedir os ímpetos selvagens de Nikita, tentando que esta treine técnicas de defesa e ataque, informática, tiro e sedução, incumbindo diferentes elementos para as respectivas funções. Amande (Jeanne Moreau) é a responsável por ensinar artes de sedução à protagonista, iniciando uma relação algo próxima com esta, após a rejeição inicial. As mudanças são graduais, com Luc Besson a exibir uma procura de atribuir dimensão à sua protagonista, beneficiando do desempenho de Anne Parillaud, uma actriz que nos convence quer nas cenas de maior violência de Nikita, quer nas de maior fragilidade. Existe também mérito dos elementos responsáveis pelo figurino, com Parillaud a surgir inicialmente como uma mulher com o cabelo "desgrenhado", um visual meio masculino, até mudar e ficar com maior feminilidade. A narrativa avança de forma escorreita, embora com alguns plot holes pelo meio e muitos momentos implausíveis, enquanto assistimos a Nikita a transformar-se numa assassina letal.

Luc Besson utiliza de forma inteligente as elipses para avançar com a narrativa, colocando os personagens a comentar sobre a passagem do tempo (os três meses dados a Bob para conseguir convencer Nikita a participar na organização, os três anos que passam e ficam latentes através do vigésimo terceiro aniversário da protagonista, algum tempo depois desta revelar que se encontrava prestes a completar vinte anos), até nos deixar perante Nikita no terreno, tendo como nome de código: Joséphine. A primeira missão passa por eliminar um elemento importante no interior de um restaurante, com a sua fuga a ser sabotada por Bob para saber se Nikita consegue escapar desta situação adversa. O perigo é evidente e esta tem de colocar em prática as várias lições que aprendeu nos três anos em cativeiro, com "La Femme Nikita" a exibir-nos alguns momentos frenéticos e violentos, que terminam com a personagem do título a escapar e a enfurecer-se com Bob. A relação entre estes dois é complexa, variando entre mestre e discípula, parecendo existir pelo meio a possibilidade de algum romance, embora este não avance do modo esperado. Saída do Centro, Nikita inicia uma relação com Marco (Jean-Hugues Anglade), um operador de caixa de um supermercado, procurando manter em segredo a sua profissão de assassina, pelo menos até uma missão que visava roubar documentos numa embaixada correr mal e a vida desta mulher ficar num mar de indecisões e perigos. A entrada em cena de Marco traz uma nova componente ao filme, existindo sempre a dúvida se este vai ou não descobrir a profissão de Nikita. Os momentos em que estes se encontram em Veneza, em suposta viagem para fortalecerem laços, são reveladores das dificuldades desta relação. Nikita encontra-se na casa de banho a fingir que está a tomar banho, embora esteja a mirar um alvo a eliminar, enquanto Marco está à porta a dizer que a ama, mas esta não pode sair do local, deixando-o sem saber bem o que pensar. A relação entre ambos é marcada pela procura desta em não responder a perguntas relacionadas sobre o passado, enquanto Marco procura não hostilizar a amada, embora comece a estranhar o seu comportamento. Este é um dos homens que mexe com a vida da protagonista, ao longo de um enredo onde esta pode ter uma atitude forte mas nem por isso deixa de ser influenciada pelos mesmos. Logo de início, o grupo de assaltantes é composto por homens, bem como boa parte do grupo que a treina no Centro, juntando-se ainda a presença de Marco e Victor (Jean Reno). Jean Reno tem uma pequena participação a nível de duração, mas enorme em termos de relevância e de carisma em que enche o ecrã. Este interpreta um "cleaner", um indivíduo que tem de resolver os imbróglios relacionados com missões falhadas, não tendo problemas em eliminar de forma fria todos aqueles que se aproximam do seu caminho, algo que promete mexer com os nervos da protagonista.

Victor contrasta com o calculismo de Bob, com Tchéky Karyo a atribuir algum mistério ao personagem que interpreta. Confia em Nikita, procura apostar no talento desta, mas nem por isso parece ter tréguas com a mesma, apesar de ter algum interesse nesta mulher. Luc Besson aproveita desta forma uma história aparentemente simples para criar um conjunto de personagens com alguma dimensão, numa obra que muito parece tirar dos filmes de acção de Hong Kong. Não faltam os tiroteios coreografados e intensos a fazer recordar os trabalhos de John Woo (em particular "The Killer", embora "La Femme Nikita" nos deixe perante uma assassina em início de carreira e não no final da mesma), as tonalidades azuis e os néones a marcarem o espaço citadino nocturno (nos momentos iniciais do filme e após o primeiro teste da protagonista no território exterior ao centro de treinos), com Besson a deixar-nos perante uma obra que tem uma assassina como protagonista. Esta raramente é uma personagem desagradável, pese a sua atitude inicial intempestiva e violenta, sem problemas em matar um polícia e espetar um lápis na mão do interrogador, surgindo como uma protagonista forte, tendo gerado sucesso a ponto de terem sido elaboradas duas séries televisivas baseadas no filme e um remake yankee. As escolhas dadas a Nikita não são as mais agradáveis, tendo de decidir entre ser eliminada, quando já todos pensam que se encontra morta, ou tornar-se uma assassina implacável numa agência obscura dos serviços secretos franceses, com Luc Besson a expor esta personagem a um conjunto de adversidades, para as quais esta também contribuiu, ao mesmo tempo que a protagonista procura seguir com uma vida relativamente normal. Será possível? Quando o telefone toca e esta tem de interromper tudo o que está a fazer parece claro que não, com Nikita a contrastar situações como um momento romântico no quarto com Marco e um assassinato implacável que terá de cometer passados poucos segundos. Em Veneza ficamos perante um espaço aparentemente idílico, que contrasta em parte com o visual da agência onde Nikita se encontrava em cativeiro. No Centro, Nikita tinha um quarto completamente branco e impessoal, que rapidamente fica marcado pelos graffitis enfurecidos elaborados pela mesma, algo que atribui um tom mais pessoal a um local que inicialmente nada lhe diz, com Luc Besson a revelar algum cuidado na composição deste cenário interior para expressar a os sentimentos da protagonista. A fúria que esta exibe, procurando tomar Bob como refém, evidencia esse estado de espírito, encontrando-se numa situação inesperada, onde esperava pela morte e encontra uma saída pouco agradável para a sua vida.

 A saída do Centro permite a Nikita ter a sua casa, fingindo ser uma enfermeira de profissão, tendo na compra de diversos alimentos um dos primeiros momentos de leveza, procurando abastecer a sua habitação inicialmente ainda bastante despida de objectos. Esta atira energicamente com os alimentos para a caixa, compra imenso ravioli e demonstra uma atitude quase infantil mas espontânea perante o regresso à liberdade, proporcionando alguns momentos de humor, naquele que é o primeiro contacto com Marco. A entrada de Marco na casa vem trazer alguma humanidade e romance à vida de Nikita (Jean-Hugues Anglade tem uma dinâmica convincente com Anne Parillaud), com estes a partilharem alguns momentos de cumplicidade e atracção mútua, com as atitude espontâneas e cheias de vida desta a parecerem casar na perfeição com a personalidade calma do primeiro. Claro que parece impossível que a relação consiga durar muito tempo se Nikita continuar a manter a mesma profissão, mas a saída não parece ser uma opção. Ou será que é? Diga-se que Nikita inicialmente até parece merecer algumas das punições a que foi sujeita, mas gradualmente começa a evidenciar uma humanidade que nos desarma em relação à sua pessoa. A banda sonora de Eric Serra ajuda muitas das vezes a ritmar estes acontecimentos, ao longo de uma obra que depende imenso da capacidade de Luc Besson para nos fazer esquecer que muitas das vezes aquilo que estamos a ver não faz sentido, mas também da interpretação intensa de Anne Parillaud, com esta a sobressair no interior de um elenco coeso que consegue cumprir nos respectivos papéis. "La Femme Nikita" confirma ainda Luc Besson como um cineasta integrante daquilo a que Raphäel Bassan considerou como o "Cinéma du look", com o visual das suas obras a sobressair em relação à substância, algo notório na atmosfera inebriante que este cria em volta do filme. Não falta ainda uma representação algo polémica das autoridades (prontas a contratarem criminosos para servirem para trabalhos sujos), um romance complicado, jovens rebeldes, entre outros elementos que povoam a narrativa desta obra marcante e envolvente. Marcado por uma protagonista interessante e capaz de captar o nosso interesse, cenas de acção bem coreografadas e um sentido de ritmo bastante agradável, "La Femme Nikita" exibe uma série de bons argumentos que exibem o porquê desta obra cinematográfica ter contribuído para popularizar Luc Besson junto do público.

Título original: "Nikita".
Título nos EUA: "La Femme Nikita".
Título em Portugal: "Nikita - Dura de Matar".
Realizador: Luc Besson.
Argumento: Luc Besson.
Elenco: Anne Parillaud, Jean-Hugues Anglade, Jean Reno, Tchéky Karyo.

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