27 setembro 2015

Resenha Crítica: "Jules et Jim" (1962)

 Com uma irreverência notória na exposição da narrativa, existindo uma enorme prontidão a tentar desarmar o espectador, não faltando jump-cuts, freeze frames, planos de curtíssima duração, diferentes formatos de imagem, um narrador cuja presença de indelével importância se faz sentir (Michel Subor), "Jules et Jim" é uma das obras marcantes de François Truffaut e da chamada Nouvelle Vague, com o cineasta a colocar-nos perante um triângulo amoroso que varia entre a candura de episódios quase infantis e a tragédia de uma felicidade não alcançada. Os personagens do título são apresentados logo no início do filme como os melhores amigos, com Jim (Henri Serre) a surgir como um francês culto e extrovertido que conta com algum sucesso entre as mulheres, enquanto Jules (Oskar Werner) é um imigrante austríaco de personalidade mais tímida e contida apesar de não ter muitas das vezes problemas em expor as suas ideias. Estes tanto treinam boxe juntos, como jogam dominó ou dialogam sobre temas relevantes ou mais banais, com a vida de ambos a conhecer uma mudança com a entrada em cena de Catherine (Jeanne Moreau), uma mulher que facilmente desperta a atenção dos dois homens. Esta faz com que facilmente se recordem de uma estátua que viram numa ilha do Adriático, que decidiram visitar após terem visualizado uma série de slides com fotos tiradas por Albert (Serge Rezvani), um conhecido de ambos que mais tarde também se irá envolver com Catherine. A personagem interpretada por Jeanne Moreau surge como um furacão que entra pelas vidas dos protagonistas e promete deixar marca, para o bem e para o mal, com o contrário a também ser verdade. Inicialmente gera-se uma amizade notória entre o trio, mesmo quando Jules começa a namorar Catherine apesar de não parecer ter pedalada para a mesma. Jeanne Moreau incute a esta personagem uma personalidade contagiante, que tanto consegue tornar a atmosfera radiosa como deprimente, mas também misteriosa, tendo tanto de infantil como de imprevisível e extrovertida, exibindo uma clara consciência da sua inteligência e sensualidade. Corre mascarada de homem ao lado de Jules e Jim, naquela que é uma das cenas mais marcantes do filme, onde a câmara de filmar consegue captar na perfeição as emoções bem vivas do trio, com estes a divertirem-se e a apresentarem uma postura juvenil, pelo menos no período pré-II Guerra Mundial. Após o conflito, o trio volta a reunir-se. Não se encontram como antes, naqueles tempos onde viveram episódios delirantes em Paris. O ambiente é mais pesado, apesar de inicialmente tudo parecer como antigamente. Jules e Catherine já se encontram casados, contam com uma filha, habitando numa casa de campo próxima do Reno, um espaço rural pontuado por enorme beleza, embora a relação esteja por um fio, com os casos extra-conjugais dela a simbolizarem isso mesmo. Acaba por se envolver com Jim, com o consentimento de Jules, tal como se envolveu com Albert, com a vida destes personagens a parecer encontrar no presente um período menos apolíneo onde os ressentimentos e as dúvidas parecem ter tomado conta das suas almas apesar de procurarem constantemente reavivar o passado. Ainda os encontramos em alguns momentos mais idílicos, como se fossem uma família disfuncional a viver num belíssimo espaço austríaco, mas a felicidade entre ambos nem sempre vai durar como esperam.

Jim desloca-se regularmente a Paris, trabalhando como escritor, a mesma profissão de Jules, encontrando-se noivo de Gilberte (Vanna Urbino), uma hipótese que deixa em aberto apesar do interesse na personagem interpretada por Jeanne Moreau. O adultério e a mulher que altera a vida dos homens é algo que vai atravessar outras obras de François Truffaut. Veja-se o caso de "La peau douce", onde tínhamos um escritor e orador que iniciou um caso com uma hospedeira de bordo, ou em "Tirez sur le pianiste", onde é exposto num flashback que a esposa do protagonista cometeu adultério, algo que a levou ao suicídio. No caso do filme em análise encontramos também personagens ligados ao meio literário, diferentes referências a autores e obras do género, bem como à Sétima Arte, não faltando pelo meio a junção de imagens de newsreels, fotografias mescladas com as imagens em movimento filmadas para "Jules et Jim", uma banda sonora memorável e a certeza de que estamos diante de algo sublime. As emoções são intensas, sejam estas mais leves ou mais tempestuosas, enquanto ficamos diante de uma espécie de triângulo amoroso onde a dupla masculina apresenta uma união que parece apenas poder ser quebrada diante da morte. Henri Serre atribui um tom mais ponderado ao personagem que interpreta, um escritor conquistador e culto, que procura reprimir os sentimentos que nutre em relação a Catherine, pelo menos até existir abertura da parte de Jules para que este avance na relação. Jules procura manter o trio unido e não perder a companhia de Catherine, com Oskar Werner a conceder sempre uma certa fragilidade emocional ao personagem a quem dá vida, um indivíduo nem sempre confiante nas suas capacidades, que parece depender imenso da amada e de Jim. Estes são apresentados no início do filme quase como se fossem dois irmãos bastante unidos, com Catherine a entrar de rompante, surgindo como uma figura igualmente inteligente, que não tem problemas em atirar-se de uma ponte para manifestar-se e exibir toda a sua irreverência. As explosões da Guerra causaram mossa no território, mas a vida sentimental destes personagens promete também deixar marcas bem fortes nas suas almas ao longo desta obra cinematográfica inspirada no livro semi auto-biográfico "Jules et Jim" de Henri-Pierre Roché. François Truffaut incute um enorme dinamismo à obra, desafia os nossos limites e os convencionalismos, ao mesmo tempo que nos deixa diante do quotidiano de um trio complexo, desde os delírios da juventude do mesmo até ao cinzentismo das obrigações inerentes à idade adulta, com as esperanças de um futuro risonho a parecerem muitas das vezes coartadas por um presente onde as decisões parecem cada vez mais difíceis de serem tomadas e a inocência diminui perante a experiência. Catherine não consegue ser fiel a Jules, enquanto este reverencia a sua presença, ao contrário de Jim que aos poucos parece começar a duvidar cada vez mais daquilo que sente em relação a esta complexa e imprevisível figura feminina. No final recordamos aquela corrida infantil e memorável, os momentos de maior diversão e intimidade mas também de tensão entre o trio, os sentimentos que não podem ser contidos e os incómodos que se geram, com a imprevisibilidade a tomar conta do quotidiano dos mesmos ou os seus relacionamentos não passassem a parecer por vezes um veneno que contamina toda a hipótese de felicidade. O trio de protagonistas conta com interpretações de peso, com a dinâmica entre Oskar Werner, Henri Serre e Jeanne Moreau a funcionar praticamente na perfeição, com o argumento de François Truffaut a deixar-nos diante de figuras complexas, enquanto o cineasta dinamiza a narrativa de forma latente, contando com os contributos de inestimável valor de Raoul Coutard (um colaborador habitual do cineasta e de Jean-Luc Godard na cinematografia) e Georges Delerue (banda sonora).  

Título original: "Jules et Jim".
Título em Portugal: "Jules e Jim".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: François Truffaut e Jean Gruault.
Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Serge Rezvani.

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