24 setembro 2015

Resenha Crítica: "The Intern" (O Estagiário)

 "The Intern", a nova obra cinematográfica realizada por Nancy Meyers, através do argumento da própria, surge como uma comédia leve, recheada de diálogos que variam entre o pertinente, o redundante e o lamechas, algum romance e momentos de melodrama, diversas coincidências e algumas temáticas abordadas de forma superficial, com muitas das lacunas do argumento a serem disfarçadas pela dinâmica entre Robert De Niro e Anne Hathaway. De Niro interpreta Ben Whittaker, um indivíduo reformado e viúvo, de setenta anos de idade, que pratica Tai Chi, acorda cedo para dirigir-se ao Starbucks às 7h15m como se estivesse no horário laboral, visita de vez em quando os netos, para além de frequentar uns quantos funerais de conhecidos. Ben encontra-se longe de ser um homem angustiado, tendo a noção que viveu uma relação matrimonial sólida, contou com um emprego seguro numa empresa de listas telefónicas e tem uma vida estável. No entanto, Ben sente que falta algo na sua vida (caso contrário não tínhamos filme), algo que o conduz a candidatar-se a um estágio na About the Fit, uma empresa de vendas online relacionada com produtos de moda, sobretudo peças de roupa, que se encontra sediada em Brooklyn. A entrevista é pontuada por algum humor, ou o argumento não investisse na utilização das questões padronizadas típicas de algumas situações onde os entrevistadores parecem ter feito menos o trabalho de casa do que o entrevistado, uma situação que acaba por provocar alguns sorrisos no espectador. Veja-se quando Ben é colocado diante de uma questão sobre onde pensa estar daqui a dez anos, num momento que tem tanto de cómico como de trágico. Ben acaba por ser admitido, embora a sua entrada e de outros cidadãos seniores seja devido a um engano, algo que aconteceu graças a Jules Ostin (Anne Hathaway), a criadora da empresa, ter pensado que Cameron (Andrew Rannells), um dos seus braços direitos, estivesse a falar de um programa para integrar universitários em final de curso. O cenário da empresa é marcado por diversos computadores, uma imensidão de trabalhadores e um ambiente informal que contrasta com a formalidade de Ben, um indivíduo que gosta de vestir o seu fato, fazer a barba todos os dias, levar o seu lenço, conquistando aos poucos tudo e todos no interior da About the Fit, surgindo quase como uma figura paternal para os elementos masculinos mais jovens, ou Nancy Meyers não aproveitasse para abordar por diversas vezes, na maioria dos casos de forma leve e açucarada, os contrastes entre gerações, com o protagonista a começar a influenciar o modo de agir e vestir dos colegas.

A amizade que Ben forma com elementos como Jason (Adam DeVine), um empregado da empresa que apresenta uma personalidade expansiva e infantil, que procura conquistar Becky (Christina Scherer), a assistente de Jules, apesar de tardar em contactar com a mesma de forma frontal, é exemplo da forma como quase todos parecem aderir a este indivíduo. Jason acha que basta enviar sms e e-mails para corrigir uma trapalhada, remetendo, ainda que de forma simplista, para as relações cada vez mais à distância que são mantidas nos dias de hoje, com Ben a procurar incentivá-lo a dialogar frontalmente com Becky. Esta situação é uma de várias onde o argumento aproveita para expor, ainda que de forma bastante leve e a espaços caricatural, uma possível infantilização dos homens nos dias de hoje, a ponto de Jules chegar a salientar que o personagem interpretado por Robert De Niro é um indivíduo em extinção. Jules reluta inicialmente em aceitar a presença do veterano junto da sua alçada, avaliando o mesmo de forma algo preconceituosa a ponto de praticamente ignorar o mesmo, algo que, como é esperado, se altera ao longo do enredo, com a relação de amizade e respeito que ambos formam a ser um dos elementos que fazem o filme funcionar. Se Robert De Niro consegue quase sempre incutir uma presença e carisma fortes ao personagem que interpreta, ultrapassando muitas das vezes os diálogos quase de auto-ajuda que tem de proferir ou a dar credibilidade a alguns momentos caricatos e pouco subtis, já Anne Hathaway procura mesclar as facetas distintas de Jules, uma mulher que tanto tem de independente como apresenta enorme fragilidades e inseguranças. Diga-se que este é também um dos problemas de "The Intern", que tanto parece querer apresentar um discurso feminista, como logo de seguida acaba por colocar a personagem principal a depender dos homens ou pelo menos dos seus conselhos, embora tenha sempre a última palavra a dizer. Jules é uma mulher atarefada, que mal tem tempo para comer, dormir e dar atenção à sua filha e a Matt (Anders Holm), o seu esposo. Quando os conhecemos parece que são uma família perfeita, embora aos poucos descubramos que o casamento de Jules e Matt passa por uma crise (que é resolvida de forma algo incoerente por Meyers). Os problemas encontram-se ainda inerentes ao funcionamento da empresa, que conhece um crescimento acima do esperado, a ponto dos investidores pretenderem a entrada de um CEO (embora a possibilidade de um conflito entre estes e a protagonista nunca seja devidamente abordada, com o filme a parecer muitas das vezes procurar evitar os confrontos), algo que Jules reluta em aceitar por temer perder o controlo de um projecto que iniciou do zero, com enorme paixão e dedicação. Por um lado pensa que poderá ser bom para ter mais tempo para o lar, por outro teme que a sua empresa fique descaracterizada, com Ben a procurar que esta defenda os seus instintos e aquilo que criou. Ben começa a ganhar a confiança de Jules, com Nancy Meyers a desenvolver a relação entre ambos de forma gradual, com a calma transmitida pelo veterano a conciliar com algumas das inseguranças que Hathaway exibe como a protagonista. A relação de respeito e amizade que se forma entre os personagens interpretados por Anne Hathaway e Robert De Niro, dois elementos com personalidades fortes mas também com algumas fragilidades, permite aguentar muitas das vezes "The Intern", com o actor e a actriz a exibirem algum do seu talento, embora o filme por vezes resvale perante a inabilidade de Meyers em expor de forma subtil algumas das suas temáticas. Diga-se que, apesar de nem sempre conseguir explorar as mesmas a fundo, Meyers não tem problemas em abordar temáticas como a dificuldade em gerir um negócio de sucesso e a vida familiar, a infantilização dos jovens adultos, o contraste entre gerações, a necessidade de integrar os elementos da terceira idade/reformados na sociedade, a relação entre pais e filhos, as relações laborais, o papel da mulher em pleno Século XXI, entre outras que entroncam quer na modernidade, quer na tradição.

A dificuldade em gerir a vida familiar e profissional surge representada através de Jules, com Anne Hathaway a atribuir dimensão a esta mulher bem sucedida profissionalmente que procura conciliar esse sucesso e paixão pelo trabalho com o amor pela filha e pelo esposo, algo que nem sempre consegue. Não é uma mulher de fácil trato, tem as suas manias e um carácter que facilmente impressiona o protagonista, embora no que diz respeito à vida matrimonial nem sempre pareça ter a mesma fibra que no trabalho ou a resmungar com a progenitora com quem apenas a encontramos a falar através do telemóvel. A relação de Jules com Matt surge mais uma vez para Nancy Meyers expor as mudanças de paradigma nas relações, com o primeiro a ter abdicado temporariamente da carreira para cuidar da filha e dar tempo para a esposa fazer o negócio progredir, apesar de cometer alguns erros pelo caminho. Se a maioria dos homens comete alguns erros ao longo do caminho, já Robert De Niro interpreta uma espécie considerada quase em extinção, um cavalheiro sensível a lidar com as mulheres, respeitador no trabalho, pronto a aprender, que parece ter sempre as palavras certas para dizer, mesmo quando propõe uma invasão a uma casa, com Nancy Meyers a simplificar em demasia a questão ao colocar um indivíduo da velha guarda como símbolo de maturidade e os mais jovens como imaturos que parecem adolescentes em corpos de adultos, com excepção das mulheres. Diga-se que para um filme que a espaços exibe um pendor assumidamente feminista, "The Intern" acaba muitas das vezes por se perder, sobretudo no último terço quando esperamos uma maior fibra da protagonista, com esta a parecer aos poucos depender imenso das figuras masculinas. Veja-se que Ben torna-se o seu maior confidente, transmitindo-lhe uma segurança que esta nem sempre parece ter, para além de cogitar aceitar que entre um CEO para a sua empresa não só para ajudar a mesma mas acima de tudo para ir a tempo de "salvar o casamento". Ben ganha uma preponderância na vida de Jules a ponto de se envolver na vida familiar desta mulher, ou não tivesse mais experiência neste quesito, ao mesmo tempo que ganha uma relevância no quotidiano da empresa, com a sua chegada a ser relevante para a protagonista e para a About the Fit, não faltando pelo meio um episódio rocambolesco onde Nancy Meyers incute por breves instantes elementos de caper film a "The Intern". Robert De Niro interpreta praticamente o protótipo do homem quase perfeito idealizado por Nancy Meyers, com Ben a procurar não só adaptar-se a todo um novo quotidiano mas também a conseguir que os outros aprendam algo consigo. É certo que Meyers poderia ter aproveitado este personagem para abordar mais a fundo a temática da inserção de reformados na sociedade, embora não pareça ser a ideia da cineasta, com esta a procurar sempre ir pelo caminho mais leve, algo notório na relação de Jules com o esposo.

Anne Hathaway atribui uma enorme graciosidade e elegância à personagem (ajudada pelo bom guarda-roupa), numa obra cinematográfica que conta ainda com uma miríade de personagens secundários que aos poucos conseguem sobressair. Veja-se Rene Russo como Fiona, a massagista da About the Fit, uma mulher madura que conquista e deixa-se conquistar por Ben, com a dinâmica entre a primeira e De Niro a funcionar; Christina Scherer como a nervosa Becky, a neurótica assistente de Jules, uma mulher que procura sempre agradar à sua superior embora reprima o desgosto por raramente ouvir um elogio; Adam DeVine como um indivíduo extrovertido, nem sempre competente a lidar com as mulheres; Zack Pearlman como Davis, um estagiário imaturo (o único não sénior a ser recrutado ao mesmo tempo que o protagonista) que se torna quase num pupilo de Ben a ponto de chegar a habitar temporariamente na casa do veterano, entre outros. A habitação de Ben reflecte e muito a personalidade do mesmo, mantendo-se praticamente intacta desde os tempos em que a esposa era viva, não faltando uma diversidade de gravatas, fatos, cama de casal e uma enorme arrumação, com a decoração dos cenários interiores a procurar reflectir a personalidade daqueles que os habitam. Veja-se ainda o ambiente fervilhante da empresa, marcada pela informalidade, bem como pelo facto de Jules circular pela mesma de bicicleta (pelo menos enquanto Nancy Meyers se lembra desse "pormenor"). A empresa é marcada por um ambiente informal de forma a corresponder ao conceito inicial que tanto sucesso lhe deu, representando um dos muitos negócios modernos online. Já "The Intern" tanto abraça essa modernidade como aceita o fascínio pelo passado, quer seja através da figura paternal de Ben, quer seja a abordagem ao casamento no último terço, ou a presença de Gene Kelly num musical que é transmitido na TV após um diálogo mais pessoal e emotivo entre a dupla de protagonistas, entre outros exemplos de uma obra que procura acima de tudo dispor bem o público durante o seu tempo de duração. Não falta ainda product placement à bruta, seja ao Starbucks, seja à Apple, seja às batatas Pringles, entre outras empresas que são introduzidas quase a pedido ao longo do enredo deste filme marcado por alguns momentos de humor que Nancy Meyers a espaços faz com que funcionem. Com alguns momentos demasiado açucarados e diálogos nem sempre subtis, "The Intern" sobressai não só pelas interpretações agradáveis de Anne Hathaway e Robert De Niro, uma dupla que apresenta uma dinâmica assinalável ao longo do enredo, mas também por um elenco secundário que sabe estar à altura dos acontecimentos, num filme que raramente surpreende ou desafia o espectador, tendo na sua leveza e nos intérpretes dos protagonistas os seus maiores trunfos.

Título original: "The Intern". 
Título em Portugal: "O Estagiário". 
Realizadora: Nancy Meyers.
Argumento: Nancy Meyers.
Elenco: Robert De Niro, Anne Hathaway, Rene Russo, Adam DeVine, Zack Pearlman.

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