15 setembro 2015

Resenha Crítica: "I Confess" (1953)

 Michael Logan (Montgomery Clift) é um padre católico devoto que se encontra a laborar na Ste. Marie's Church, localizada no Quebeque. Este é um indivíduo com um passado complexo que gradualmente vai sendo exposto ao longo do enredo de "I Confess", após ter sido conduzido a tribunal devido a ser um dos principais suspeitos do assassinato de Vilette (Ovila Légaré), um advogado local. A situação ganha contornos mais inquietantes se tivermos em linha de conta que Michael Logan sabe a identidade do assassino mas não pode divulgar o nome devido a esta revelação ter sido efectuada durante o acto de confissão no interior do confessionário. O assassinato foi cometido por Otto Keller (O. E. Hasse), um imigrante alemão que Michael ajudou a empregar na igreja. Os momentos que antecedem a chegada de Otto Keller à igreja, durante a noite, são marcados pelo notório contraste entre luz e sombras mas também pela utilização de alguns ângulos inclinados que permitem explorar a inquietação deste homem e os perigos que este traz. O acto de confissão de Keller, ao revelar ter assassinado Vilette, é marcado pela pouca iluminação, com Alfred Hitchcock a contrastar as fortes sombras com a luz (mais uma vez a remeter para o "Expressionismo Alemão", tal como a escolha de alguns ângulos inusitados para alguns planos), enquanto o padre se prepara para carregar consigo o peso da revelação efectuada pelo personagem interpretado por O. E. Hasse. Este pretendia assaltar a casa de Vilette de forma a conseguir fundos extra para Alma (Dolly Haas), a sua esposa, poder trabalhar menos, acabando por assassinar o advogado quando foi apanhado em flagrante delito (a intenção inicial não era cometer o homicídio), parecendo relativamente despreocupado com o caso ao perceber que tem um álibi praticamente perfeito. De manhã, Otto levanta-se como se não fosse nada com ele, desloca-se a casa de Vilette, onde era costume tratar do jardim e avisa a polícia da morte deste. Faz o choradinho do alemão imigrante que se encontrava receoso de divulgar a morte à polícia, fingindo temor em relação a possíveis desconfianças inerentes à sua nacionalidade, enquanto o inspector Larrue (Karl Malden) procura a todo o custo descobrir a verdade sobre o caso. Ao observar Logan a dialogar com Ruth Grandfort (Anne Baxter), perto da casa do falecido, Larrue começa a ficar com algumas suspeitas em relação a este homem, algo adensado pelo facto de duas jovens raparigas terem revelado que viram um padre nas imediações do local do crime por volta da mesma hora na qual terá ocorrido o homicídio. Diga-se que o comportamento de Logan e Ruth é inicialmente suspeito, com o primeiro a ser bastante evasivo quando é chamado para interrogatório. É então que Ruth, a esposa de Pierre (Roger Dann), um político local, é chamada para depor, uma situação que transtorna inicialmente Robertson (Brian Aherne), o promotor do Ministério Público, um indivíduo que é amigo do casal. Ainda antes da confissão de Ruth, deparámo-nos com uma discussão entre esta e o esposo, na qual a personagem interpretada por Anne Baxter salientava o seu amor por Logan, algo que é explicado com mais precisão, romance, dramatismo e retoques de melodrama durante o depoimento, em momentos onde a actriz rouba as atenções com a emotividade que transmite e inculca no discurso desta mulher. No depoimento, Ruth explica que outrora namorara com Logan, nomeadamente antes deste partir para combater na II Guerra Mundial, algo que desfez a calorosa relação entre ambos. Pareciam felizes e apaixonados, mas este decidira partir, deixando esta livre para escolher o seu caminho, apesar de inicialmente ainda se corresponderem. Ruth acabara por casar-se com Pierre, até Logan regressar e mexer com os seus sentimentos. Tem com Logan um caso que dura uma tarde e uma noite, sem revelar o seu novo estado civil, algo que seria exposto por Vilette, um indivíduo que vira os dois juntos. Mais tarde, Vilette chantageara Ruth para conseguir benefícios financeiros, com esta a reencontrar-se com Michael, cinco anos depois de ter deixado de falar com o (agora) padre. Este ficara magoado ao descobrir que Ruth encontrava-se casada, acabando pelo caminho por tornar-se padre. Ruth revelara a Michael as chantagens de Vilette na noite anterior ao crime, com ambos a combinarem encontrar-se com o advogado no dia seguinte, algo que não acontece devido ao assassinato do mesmo.

 O discurso de Ruth é emotivo, com Anne Baxter a expor quase sempre com enorme engenho o lado mais frágil mas decidido a defender a reputação de Logan por parte desta mulher, com os flashbacks a exibirem um pouco da grande proximidade que mantinham. A relação entre ambos ocorrera antes de Logan ser padre, embora essa situação não tenha impedido que na época o filme tenha sido proibido de ser exibido na República da Irlanda devido a conter uma relação entre um pároco e uma mulher casada. Alfred Hitchcock exibe que ainda existe um enorme respeito e afecto a ligar estes dois personagens, embora Michael não pareça pretender trair o juramento que fez para se tornar padre, algo latente na recusa em denunciar a confissão de Keller. "I Confess" explora esta questão moral relacionada com o facto de um padre dever ou não revelar aquilo que lhe foi dito no confessionário quando estas questões remetem para actos que transgrediram a lei, com Montgomery Clift a ter uma interpretação bastante intensa do ponto de vista emocional ao conseguir transmitir a convulsão de sentimentos que o personagem que interpreta atravessa. Por um lado pretende proteger Ruth, por outro não pode revelar que Otto é o assassino, ao mesmo tempo que se depara com um conjunto de situações revoltantes, que culminam com o seu julgamento em tribunal, onde parece poder vir a ser considerado culpado. Apesar dos problemas no set com Alfred Hitchcock, bem como com outros colegas de elenco, em parte devido à sua atitude errática e ao seu modo de interpretação de acordo com o método, surgindo sempre acompanhado por Mira Rostova, a sua tutora, a interpretação de Montgomery Clift surge marcada por alguns momentos muito acima da média que são capazes de expor o sentimento de culpa e dúvidas do protagonista (algo que não implica que Hitchcock tenha salientado: "There are some actors I've felt uncomfortable with, and working with Montgomery Clift was difficult because he was a method actor and a neurotic as well".). Depois da investigação estar concluída, Larrue não parece ter grandes dúvidas de que Michael Logan é o assassino, uma aposta que mantém desde o início do caso, mesmo que a realidade seja bem distinta e o próprio não procure ver para além das palas a nível das ideias que auto-impôs. Se os depoimentos na esquadra foram duros, gerando-se alguma tensão entre Logan e Larrue, para além dos momentos emocionalmente poderosos nos quais Ruth revela o seu passado com o personagem interpretado por Montgomery Clift, em nada se conseguem equivaler ao que vai acontecer em tribunal, com o padre e a ex-amada a serem "bombardeados" por Robertson, algo que ainda se torna mais surpreendente se tivermos em linha de conta a amizade deste último com Pierre. Em tribunal, Otto exibe mais uma vez a sua personalidade venenosa e dissimulada, não tendo problemas em mentir para salvar a sua pele, com O.E. Hasse a conseguir que o seu personagem, regra geral, desperte a nossa antipatia, com este a surgir como a representação do típico alemão traiçoeiro, algo que não surpreende assim tanto se tivermos em conta que o filme foi lançado em 1953, ou seja, ainda pouco tempo depois do findar da II Guerra Mundial. Por sua vez, Alma, a esposa de Otto, apresenta sempre um sentimento de culpa difícil de reprimir, algo exposto ao longo da narrativa mas com maior intensidade no último terço. Já Montgomery Clift brilha nestes momentos do julgamento em tribunal, quando o personagem que interpreta procura defender-se das acusações que lhe são imputadas, enquanto Anne Baxter exibe o desespero de Ruth ao ver as suas palavras constantemente desvirtuadas ao serviço da ideia de condenar o protagonista. A inquietação é latente, com o espaço do tribunal a transforma-se num local praticamente claustrofóbico (muito mérito para Alfred Hitchcock), onde as emoções são expostas sem pudores e os valores morais de um personagem podem colocá-lo com a vida em perigo. O argumento de George Tabori e William Archibald, baseado na peça "Nos deux consciences" de Paul Anthelme, consegue explorar assertivamente esta situação complicada vivida pelo protagonista, disposto a sacrificar-se pelos seus ideais, ao mesmo tempo que é incutida uma carga emocional ainda maior ao julgamento através da introdução de Ruth e aquilo que esta tem de revelar em público.

A exposição do passado por parte de Ruth vem trazer um novo elemento ao enredo, com Anne Baxter a explorar o quão complicado se encontra o estado emocional desta mulher (os close-ups beneficiam imenso a expressividade da actriz). O esposo acaba por ter de ouvir publicamente que foi traído, mas também que Ruth ama outro homem, apesar da relação não poder avançar devido à condição de padre de Michael Logan, com Montgomery Clift e Anne Baxter a conseguirem transmitir os sentimentos convulsos que ainda nutrem um pelo outro. Temos ainda Karl Malden como Larrue, com este a interpretar um polícia que procura resolver o caso a todo o custo, que pouca sensibilidade parece apresentar, quer nas questões humanas relacionadas com aquilo a que está a sujeitar Michael e Ruth, quer a nível da investigação, ou este não apostasse claramente no cavalo errado. Diga-se que esta não é a primeira vez que Alfred Hitchcock vai deixar o espectador a saber mais sobre a identidade do assassino do que a maioria dos personagens. Veja-se o exemplo de "Rope" onde ficámos logo nos momentos iniciais com os protagonistas a enforcarem um conhecido, algo que irá gerar uma tensão crescente ao longo do filme parecendo certo que mais tarde ou mais cedo estes vão ser descobertos. Diga-se que, tal como os protagonistas de "Rope", também Otto procura não ser descoberto pelas autoridades, pensando ter cometido o "crime perfeito", com Alfred Hitchcock a ser mais uma vez exímio em desenvolver a tensão numa obra cinematográfica que mescla elementos religiosos, drama, tensão e aspectos de filme de tribunal. A religião está sempre muito presente no filme, seja nos valores do protagonista e nas suas roupas, seja nos próprios cenários. Veja-se que é no interior de uma igreja que assistimos à revelação de Otto, para além da representação da figura de Jesus Cristo na cruz que se encontra presente no tribunal, bem como a exibição da igreja de forma amiúde, com esta instituição a parecer ter alguma relevância para os locais ou pelo menos para os personagens que rodeiam o enredo. Talvez com excepção para Otto, com este a encontrar-se longe dos antagonistas das obras de Alfred Hitchcock que apresentam um fino trato ou até são capazes de despertar a nossa simpatia, com o personagem interpretado por O.E. Hasse a surgir como um indivíduo que parece pensar acima de tudo em salvar a sua pele, mesmo que para isso tenha de colocar a esposa em perigo. A imoralidade de Otto contrasta com os fortes valores morais do protagonista, com a atitude deste último a ir ao encontro do papel que resolveu desempenhar na sociedade, com Alfred Hitchcock a procurar explorar como um padre católico que respeita as regras iria agir em tribunal ou numa situação semelhante. Para quem não é padre católico ou um simples ateu como eu, a questão pode não fazer sentido mas, no contexto do enredo e do modo de vida que Logan escolheu viver, é totalmente coerente, algo que incute ainda mais dúvidas em relação ao desfecho que o caso vai ter em tribunal. Pode levar-nos a questionar este preceito, mas essa é uma questão inerente ao filme cuja narrativa apresta-se ao debate, sobretudo no que diz respeito à manutenção da confissão em segredo quando o caso é gravoso. Diga-se que este secretismo também vai afectar Ruth, com o passado em comum entre ambos a ser essencial para incutir uma maior carga dramática na narrativa. Capaz de explorar questões morais relevantes relacionadas com a confissão religiosa, ao mesmo tempo que nos exibe a intensos momentos de um julgamento em tribunal, Alfred Hitchcock pode não ter em "I Confess" uma das suas obras mais consensuais mas nem por isso deixa de ter um trabalho tenso, filmado a preceito, com uma belíssima cinematografia, dotado de alguma inteligência e da capacidade do cineasta em extrair aquilo que de bom os seus actores e actrizes têm para oferecer ao enredo.

Título original: "I Confess".
Título em Portugal: "Confesso!".
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: George Tabori e William Archibald.
Elenco: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Malden, Brian Aherne, O. E. Hasse.

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