29 setembro 2015

Resenha Crítica: "Fahrenheit 451" (1966)

 François Truffaut transporta-nos para o interior de um futuro distópico onde os homens e as mulheres são desde cedo educados a não fazerem grandes questões nem a pensarem pela sua própria cabeça, algo que implica a destruição dos livros, com todos aqueles que os possuem a serem considerados criminosos, em "Fahrenheit 451", a primeira e única obra cinematográfica do cineasta falada em inglês. Os bombeiros ao invés de apagarem fogos surgem como agentes vestidos de negro, personalidade fria e gestos praticamente impassíveis que lançam chamas sobre os livros, ou não tivessem como actividade queimar todas as obras literárias existentes (à temperatura Fahrenheit 451), destruir as bibliotecas secretas e prender aqueles que ousam prevaricar a lei ao lerem e pensarem por si próprios. O argumento é baseado no livro "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury, remetendo para uma sociedade totalitária onde tudo é controlado, a fazer recordar algumas das ideias de George Orwell em "1984", mas também práticas que (infelizmente) acontecerem ao longo da História, com o filme a trazer à memória muito do que está associado ao regime Nazi, bem como outros episódios que abonam pouco a favor de alguns sectores da Humanidade. Praticamente no início de "Fahrenheit 451" ficamos perante um exemplo da actividade destes bombeiros, com François Truffaut a colocar-nos diante da chegada de um grupo liderado por um capitão (Cyril Cusack) cujo nome nunca chegamos a conhecer, composto por um conjunto de elementos pontuados pela frieza, com os diálogos a serem escassos e a banda sonora de Bernard Herrmann a adensar ainda mais a inquietação e a violência deste acto, com o trabalho do compositor a contribuir e muito para alguma da atmosfera tensa e misteriosa que envolve o enredo. Livros são minuciosamente procurados e queimados, por vezes casas são destruídas pelo caminho, com estes episódios a inicialmente não parecerem afectar Guy Montag (Oskar Werner), um bombeiro que se encontra prestes a ser promovido devido à sua conduta competente e discreta. Este mantém um casamento com Linda (Julie Christie), uma mulher de enorme vacuidade, que passa os seus dias a assistir aos programas televisivos que procuram controlar os corpos e as mentes dos espectadores. A própria casa de Montag é marcada por tonalidades amarelas e uma neutralidade que parece contrastar com a tonalidade vermelha do veículo onde transportam o material necessário para incendiar as obras literárias. Tal como em obras de François Truffaut como "Tirez sur le pianiste", "Jules et Jim" e "La Peau Douce", a entrada em cena de uma personagem feminina promete mudar a vida do protagonista, com Montag a ser contactado num transporte público por Clarisse (Julie Christie), uma mulher na casa dos vinte e poucos anos de idade que é proibida de dar aulas devido às suas ideias serem pouco ortodoxas.

O facto de Clarice e Linda serem interpretadas por Julie Christie permite a François Truffaut explorar os dois lados da mesma moeda, com as duas mulheres a apresentarem personalidades dicotómicas: Clarice é uma jovem de cabelo curto, misteriosa e inteligente, que gosta de ler, apresenta ideias vincadas, questiona a actividade de Montag, tendo um tio que guarda secretamente livros em casa; Linda é uma mulher de cabelos longos, superficial, que pensa mesmo estar a interagir com um programa televisivo, sendo viciada em medicamentos numa sociedade onde as emoções dos seres humanos parecem ser controladas ao máximo. A questão colocada por Clarice se costuma ler os livros antes de os queimar parece despertar o gatilho moral em Montag. Até então este homem parecia um papel em branco, pronto a dizer aquilo que os outros queriam ouvir, sem exprimir as suas ideias e sentimentos, encarando a sua actividade como algo banal, sem questionar o passado e aquilo que lhe dizem. Como este salienta: "(...) é um trabalho com muita variedade. Segunda, queimamos Miller; Terça, Tolstoi; Quarta, Walt Whitman; Sexta, Faulkner; Sábado e Domingo, Schopenhauer e Sartre". Dá aulas a diversos aspirantes a bombeiros, todos eles com fardas semelhantes, numa sociedade onde os seres humanos parecem ser educados para acreditarem nas “verdades irrefutáveis” que são ensinadas, a não pensarem muito nem se distinguirem entre si, algo ainda visível nas suas habitações. A pergunta de Clarice deixa um clique na mente de Montag que resulta num roubo do livro "David Copperfield" de Charles Dickens. A sua vida muda, com Oskar Werner a exibir aos poucos um lado emocionalmente imprevisível do personagem que interpreta, uma figura que gradualmente deixa cair a máscara de frieza, formando uma certa proximidade com Clarice ao mesmo tempo que percebe as atrocidades que se encontra a cometer. A certa altura descobre uma biblioteca secreta na casa de uma amiga de Clarice. O seu capitão fica delirante de alegria pela possibilidade de poder queimar tantas obras. O protagonista logo procura esconder um livro, sendo visto por um colega, enquanto assiste com enorme pânico a uma mulher a imolar-se ao lado dos seus livros. A partir daqui sabemos que a vida deste indivíduo não vai mais ser a mesma, com este a começar a questionar tudo à sua volta e a abraçar a literatura, enquanto François Truffaut nos deixa diante do poder das palavras escritas mas também das imagens em movimento ao criar um filme de ficção científica relevante, pronto a expor os perigos de uma sociedade totalitária onde o conhecimento e a informação são controlados. Julie Christie tem desempenhos eficazes como as personagens que interpreta, embora caiba a Oskar Werner ser o elemento em maior destaque, com o actor a conseguir expressar as mudanças desta figura até então algo letárgica. Também Cyril Cusack tem espaço para se destacar como um capitão da velha guarda, pragmático e pouco dado a aturar grandes leviandades por parte dos seus homens, desprezando o conhecimento e os livros. Não sabemos o seu nome, nem o de muitos dos bombeiros que trabalham com Montag, com essa informação a não parecer relevante já que todos estes parecem diluir a sua individualidade perante uma bizarra e transviada ideia de colectivo. É o paradigma de uma sociedade formatada e totalitária (visível ainda no guarda-roupa e nas habitações, com estes dois elementos a contribuírem para exacerbar esta situação), com François Truffaut a deixar claro que é algo formado desde a infância, com a política do medo a ser instalada junto dos homens e das mulheres, onde a falsa ilusão provocada por alguns bens de consumo permite escamotear a cultura que se elimina.

A certa altura encontramos um indivíduo a ingerir um estimulante antes de colocar uma denúncia numa caixa destinada à função, naquele que é mais um exemplo que nos remete para uma sociedade totalitária onde até as notícias são controladas, com "Fahrenheit 451" a manter uma relevância notória não só pelo seu valor cinematográfico e pela sua mensagem mas também se pensarmos na forma como hoje em dia a informação pode ser muitas das vezes manipulada com recurso às redes sociais onde uma notícia falsa pode tornar-se viral com uma enorme facilidade. Truffaut tem aqui também aquela que é a sua primeira longa-metragem a cores, sobressaindo desde logo as tonalidades vermelhas do veículo dos bombeiros e do exterior do quartel, ou a dicotomia entre o espaço florestal onde se encontram escondidos os homens-livro (seres humanos que decoram livros para manterem a informação dos mesmos) com a impessoalidade e frieza citadina, ao longo de uma narrativa inteligente e intrigante, pontuada por alguma tensão e inquietação, onde nem sempre sabemos o que esperar em relação ao protagonista e ao seu destino. Em certa parte até nos remete para "Alphaville" de Jean-Luc Godard, onde também estávamos diante de uma instituição totalitária, com Truffaut a efectuar uma obra mais convencional do que alguns dos seus trabalhos como "Jules et Jim" mas com diversos traços em comum a alguns dos seus filmes. Desde a figura feminina que altera a vida do protagonista, as referências literárias, a utilização dos jump-cuts, a relevância da banda sonora, numa obra que não se revelou uma experiência totalmente gratificante para o cineasta embora seja um filme bastante recomendável. Entre os problemas encontrava-se o facto do cineasta não dominar a língua inglesa, mas também as divergências com Oskar Werner, algo salientado por Jeff Staford: "Adding an extra layer of aggravation was Oskar Werner who disagreed with Truffaut's interpretation of his character. Werner wanted to emphasize the brutal, fascist side of Montag while Truffaut insisted on focusing on the fireman's vulnerable nature". A crítica recebeu o filme de forma morna, com a passagem do tempo a parecer ter feito bem a uma obra cinematográfica inteligente e relevante, pontuada por uma banda sonora de grande nível e um assertivo trabalho de Nicolas Roeg na cinematografia, com François Truffaut a procurar integrar elementos contemporâneos da sociedade do seu tempo com algumas questões futuristas, resultando em algo que desafia a passagem do tempo. Ficam a faltar algumas explicações, tais como a forma como os personagens aprendem a ler quando quase tudo é ensinado oralmente (veja-se que até os créditos iniciais são expostos de forma sonora ao invés de contarmos com letras a exporem o nome do realizador e da sua equipa), numa obra que anda com um pé na realidade e outro na ficção-científica, parecendo certo que a Truffaut interessa sempre mais a primeira. Pode não ser o melhor filme de François Truffaut mas está longe de não merecer toda a nossa atenção, com diversas das temáticas de "Fahrenheit 451" a continuarem pertinentes e relevantes nos dias de hoje, com o cineasta a abordar as mesmas de forma assertiva. 

Título original: "Fahrenheit 451".
Título em Portugal: "Grau de Destruição".
Realizador: François Truffaut.
Argumento: Jean-Louis Richard e François Truffaut.
Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack.

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