22 setembro 2015

Resenha Crítica: "The Face of an Angel" (O Rosto da Inocência)

 Sem rumo, sem ritmo, sem chama, sem inspiração, "The Face of an Angel" parece caminhar ao sabor das ideias desconjuntadas de Michael Winterbottom e do argumento completamente destrambelhado de Paul Viragh, com ambos a utilizarem o caso verídico do mediatismo atingido pelo assassinato de Meredith Kercher para um exercício que fica entre a metalinguagem, o sensacionalismo e a pura parvoíce com o filme a dar tanto uma "no cravo como outra na ferradura" na abordagem desta história verídica. Tanto parece querer fugir à abordagem sensacionalista e explorar a procura de um realizador em encontrar um ângulo para abordar a obra de ficção que vai desenvolver inspirada no caso como logo de seguida nos bombardeia com supostos flashbacks, conjecturas, imagens relacionadas com a frenética cobertura jornalística da efeméride e do julgamento, entre outras situações que acabam por indubitavelmente exibir uma falta de clarividência que prejudica o envolvimento do espectador quer com a história do protagonista, quer com o evento macabro, quer com as subtramas que são incutidas a martelo. Winterbottom tem em Thomas (Daniel Brühl) uma espécie de duplo, um realizador que viaja até Itália, para acompanhar de perto o apelo em tribunal de Jessica Fuller (a versão ficcional de Amanda Knox) e do seu namorado Carlo Elias (a versão ficcional de Raffaele Sollecito) no caso do assassinato de Elizabeth Pryce (a versão ficcional de Meredith Kercher), após terem sido condenados por este acto, para além de procurar conhecer o território e as diversas gentes que se encontram a lidar de perto com o caso, entre as quais Simone Ford (Kate Beckinsale - como a versão ficcional de Barbie Latza Nadeau, a autora de "Angel Face", a obra literária que inspirou parte do argumento do filme), uma jornalista que escreveu um livro sobre o assunto e tem acompanhado de perto as incidências do mesmo. Jessica era colega de quarto de Elizabeth, surgindo a par de Carlo Elias como um dos principais suspeitos, bem como Cedric Bapupa (o elemento que geria o bar onde Jessica trabalhava), com Thomas a procurar descobrir mais sobre o caso e os eventos que rodearam posteriormente o mesmo, com "The Face of an Angel" a desenrolar-se já após a condenação dos dois primeiros. Thomas e Simone chegam a reunir-se com figuras como o representante do Ministério Público (Andrea Tidona); Edoardo (Valerio Mastandrea), um blogger de personalidade misteriosa e soturna que vive do arrendamento de casas a estudantes e provavelmente do tráfico de droga tendo uma interpretação bem distinta do caso; Joe (John Hopkins), um jornalista cuja conduta é criticada pelo protagonista, entre outros elementos que muitas das vezes pouco impacto provocam na narrativa. De Thomas sabemos que este se encontra divorciado, tem uma filha com quem contacta à distância, acabando por se envolver esporadicamente com Simone, embora esta relação raramente seja explorada ou ganhe credibilidade, com a própria química entre Daniel Brühl e Kate Beckinsale a deixar a desejar. Daniel Brühl é relativamente credível como este cineasta desamparado, que se embrenha pelo território de Siena e crítica a abordagem sensacionalista dos jornalistas em relação aos acontecimentos, naquilo que surge como um comentário de Michael Winterbottom ao papel que a imprensa teve no caso. No entanto, Brühl pouco pode fazer diante de um argumento que parece ter mais dúvidas e menos certezas que o personagem que interpreta. Veja-se como praticamente do nada assistimos ao seu vício por cocaína, parecendo algo mais para adornar a narrativa do que para efectivamente incrementar a mesma, um pouco à imagem do que acontece com os pesadelos de Thomas ou a sua relação à distância com a filha, com Michael Winterbottom a parecer disparar em várias direcções e a falhar em quase todos os alvos.

 É certo que Michael Winterbottom procura explorar um caso mediático através da perspectiva de uma figura questionadora que vem de fora, parecendo ter, tal como o protagonista, algum receio em entrar por caminhos mais convencionais, embora também não fuja aos mesmos, acabando por tratar os suspeitos de assassinato e a falecida quase como meros objectos de um trabalho que tinha potencial para muito mais. O caso de Amanda Knox, no filme com o nome ficcional de Jessica Fuller, gerou um enorme burburinho, algo que o argumento procura captar, ou o protagonista não tentasse fugir à onda de documentários efectuada sobre o tema ao elaborar uma história de ficção (curiosamente "The Face of an Angel" é filmado num estilo por vezes documental). Thomas não sabe o ângulo a seguir, embora tenha em vista uma estrutura semelhante à "Divina Comédia" de Dante, algo que não agrada aos financiadores que preferem uma abordagem mais convencional. Tal como o protagonista, também Michael Winterbottom procurou fugir a esses convencionalismos, apesar de acabar pelo caminho por abraçar os mesmos, tratando as temáticas com enorme puerilidade e uma falta de fibra que a espaços colocam o filme por terrenos pantanosos onde o pensamento inicial de "isto até pode ser uma boa ideia" muda gradualmente para "para onde é que o realizador quer ir" e a terminar com um "como é possível". O potencial existia, incluindo a noção de Michael Winterbottom de que o caso de Amanda Knox era complexo demais para ser abordado de forma simplista tendo em vista expor uma verdade absoluta sobre o mesmo quando esta não existe. O problema é que das intenções à prática vai uma longa distância, com o cineasta a falhar em quase tudo, incluindo em explorar a relação do protagonista com a filha e os diversos personagens secundários, a escapar aos sensacionalismos, a procurar atribuir vivacidade aos dilemas vividos por Thomas no território e as dificuldades inerentes ao processo criativo da sua profissão, com Daniel Brühl a fazer o que pode, enquanto o personagem que interpreta se depara com diversas figuras. Uma dessas figuras é Edoardo, um indivíduo que parece despertar o lado mais paranoico de Thomas, com Michael Winterbottom a procurar incutir algum mistério em volta deste homem e despertar o medo do protagonista e tentar que esse sentimento passe para o espectador, algo que nem sempre é conseguido. Edoardo é um conhecido de Melanie (Cara Delevingne), uma estudante universitária e empregada de mesa, que conhece Thomas em Siena e forma amizade com o mesmo. Tal como a relação entre Thomas e Simone, também a amizade entre este e Melanie pouco é aproveitada, embora Cara Delevingne consiga explanar o enorme à vontade e desenvoltura da personagem que interpreta, apresentando uma jovialidade e energia que contrastam com alguns dos comportamentos do protagonista, um indivíduo que se encontra sem grande rumo para a sua vida pessoal e profissional. Também "The Face of an Angel" a espaços parece não ter rumo. Veja-se alguns momentos completamente redundantes, tais como Thomas a trabalhar no argumento do filme, a imaginar a chegada de Jessica e Elizabeth ao território, enquanto encontramos não só os seus pensamentos expostos em off, mas também, em parte, escritos no ecrã e ainda temos direito a ver as duas jovens, algo que evidencia a falta de confiança no espectador. A espaços o território de Siena, sobretudo nos momentos nocturnos, é bem aproveitado, tal como é visível que Daniel Brühl procura atribuir alguma dimensão ao personagem que interpreta, para além de ser notório que Michael Winterbottom procura arriscar mas isso não chega para que a visualização de "The Face of an Angel" deixe de ser uma experiência frustrante, sobretudo pela noção de que existiam algumas ideias que poderiam ter resultado.

Título original: "The Face of an Angel".
Título em Portugal: "O Rosto da Inocência".
Realizador: Michael Winterbottom.
Argumento: Paul Viragh.
Elenco: Kate Beckinsale, Daniel Brühl, Cara Delevingne, Valerio Mastandrea.

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