20 setembro 2015

Resenha Crítica: "Everest" (2015)

 Sem conseguir dar uma espessura aos personagens que esteja à altura dos cenários montanhosos, perigosos e grandiosos que rodeiam os mesmos, "Everest" surge como um filme de sobrevivência e resiliência que tanto tem de claustrofóbico e intenso como de frustrante pela incapacidade em conseguir explorar os elementos que povoam a narrativa e explanar todo o seu potencial, colocando-nos perante uma miríade de figuras que, na sua maioria, são desenvolvidas de forma superficial. Veja-se desde logo o caso de Keira Knightley e Robin Wright, que pouca atenção merecem ao longo da narrativa, ou não interpretassem, respectivamente, Jan Arnold e Peach Weathers, as esposas de Rob Hall (Jason Clarke) e Beck Weathers (Josh Brolin), dois elementos que vão estar presentes na expedição ao Evereste, enquanto estas ficam em casa e surgem de forma esporádica para incutir maior drama ao enredo. O que não deixa de ser um desperdício ver uma actriz como Robin Wright, capaz de desempenhos brilhantes como em "House of Cards" ou muito acima da média em "The Congress", e Keira Knightley serem praticamente colocadas como as "donas de casa desesperadas", apesar desta última ainda ter um ou outro momento emocionalmente mais intenso ou não estivesse grávida de Hall, o líder da expedição organizada pela Adventure Consultants, a empresa que este criou e ajudou a popularizar. A Adventure Consultants é conhecida por comercializar estas perigosas (e caras) escaladas no Evereste, com Hall, um neo-zelandês, a ter fama de garantir uma enorme segurança aos seus clientes, contando com um currículo até então imaculado. Ao longo de "Everest", Jason Clarke consegue exibir algumas das qualidades do personagem que interpreta, não só a nível de liderança mas também como montanhista e até na forma como mantém uma relação de proximidade com os seus clientes, procurando acima de tudo manter a sua segurança. Nos momentos iniciais de "Everest" encontramos Hall a despedir-se de Jan, também ela uma alpinista, tendo em vista a partir para uma nova expedição. O grupo de clientes de Hall é marcado pela heterogeneidade, ou não fosse composto por elementos de diferentes estatutos sociais que contam com objectivos distintos para se envolverem nesta perigosa aventura, entre os quais Doug Hansen (John Hawkes), um carteiro de poucas posses que pretende demonstrar que este é um feito ao alcance de todos aqueles que lutam pelo mesmo; Beck Weathers (Josh Brolin), um médico que pretendia finalmente alcançar o cume do Evereste após ter falhado esse desiderato noutras ocasiões; Jon Krakauer (Michael Kelly), um jornalista que se encontrava a cobrir o evento para a "Outside"; Yasuko Namba (Naoko Mori), uma mulher que tinha atingido seis cumes e procurava atingir o sétimo. A expedição conta ainda com uma equipa onde constam Helen Wilton (Emily Watson), a responsável por gerir o acampamento base, a Dr.ª Caroline Mackenzie (Elizabeth Debicki), Guy Cotter (Sam Worthinghton), um guia e amigo de Guy, Andy Harris (Martin Henderson - como outro dos guias da Adventure Consultants), entre outros. A popularidade desta actividade comercial, em crescendo nesta época, com o filme a desenrolar-se em 1996, conduziu à criação de outras empresas, entre as quais a Mountain Madness, liderada por Scott Fisher (Jake Gyllenhaal), um indivíduo oriundo dos EUA, expansivo, com alguma pancada, enorme resiliência, barba por fazer e maior descontração do que Rob Hall. 

A Mountain Madness também se encontra com uma expedição no local quando Rob e os seus elementos se deslocam até ao Evereste para escalar o mesmo, em Maio de 1996, com o personagem interpretado por Jason Clarke a exibir algum incómodo devido ao excesso de pessoas que encontra no território, algo que pode colocar em causa a segurança de todos os envolvidos. Jake Gyllenhaal e Jason Clarke conseguem expor a maneira distinta de trabalhar e pensar dos personagens que interpretam, com o primeiro a parecer sempre mais disposto a correr riscos do que o segundo, embora ambos tenham uma enorme experiência nas funções. Hall procura guiar os seus clientes com todo o cuidado, com a sua função a ser a de garantir não só que estes subam ao cume mas também que desçam com vida. Fisher procura que os clientes consigam desenvencilhar-se com maior autonomia. "Everest" tenta evitar criar heróis e vilões ao longo do filme, com os diversos personagens a estarem longe de se inserirem em ambas as categorias, com Baltasar Kormákur a colocar o cerne da narrativa na procura destes personagens em sobreviverem diante das adversidades, sobretudo a partir do momento em que uma forte tempestade de neve se abate e qualquer preparação prévia parece ser insuficiente para lidar com a situação. Inicialmente são efectuados treinos no território, durante quarenta dias, para aclimatarem de forma gradual os corpos e as almas ao ambiente agreste que encontram no Evereste, com Baltasar Kormákur a exibir que efectuou uma pesquisa prévia assinalável em relação aos preceitos seguidos por estes homens e mulheres, bem como sobre o território da montanha. Desde os acampamentos que se formam, passando pelos relacionamentos humanos (embora explorados sempre de forma muito simples), o material utilizado e a necessidade de terem os máximos cuidados, até aos efeitos provocados pela altitude nos seres humanos e consequente perda de oxigénio, entre outros exemplos, vários são os elementos que exibem todo um cuidado em recriar este episódio inspirado no desastre ocorrido em Maio de 1996. Diga-se que o cineasta procurou ler uma quantidade considerável de material sobre este caso e contactar de perto com alguns dos sobreviventes, algo salientado no artigo do site Scotsman ao qual Kormákur concedeu uma entrevista bastante interessante: "He was, he says, 'very lucky' that that after beginning his research by reading everything he could get his hands on about the event, including the books written by Krakauer and Weathers, to go to New Zealand and meet Jan Arnold, Hall’s then partner who was seven months pregnant with their first child when Hall perished, Helen Wilton, the base camp manager for the expedition and climber Guy Cotter who was also on the mountain that day". Uma tempestade inesperada coloca a vida destes homens e mulheres em perigo, com uma escalada e a posterior descida a revelar-se um pesadelo bem real onde a morte pode chegar a qualquer momento, seja ela de forma rápida ou lenta e dolorosa (com "Everest" a contar por vezes com características de “filme-catástrofe”). Baltasar Kormákur aproveita os efeitos especiais e os cenários (parte do filme foi filmado no Nepal e nos Alpes) para nos expor à crueza destes momentos, onde os seres humanos têm de lutar pela sobrevivência diante da força inexorável e destruidora da natureza após terem desafiado a mesma. O cineasta aproveita de forma exímia os recursos técnicos que tem à sua disposição, quer para nos deixar diante da imensidão dos cenários montanhosos, quer para transmitir os seus perigos, quer para criar um sentimento claustrofóbico e por vezes vertiginoso junto do espectador. Veja-se alguns planos filmados a partir de baixo ou de cima, onde encontramos personagens a atravessar uma ponte que não transmite lá muita segurança, com "Everest a deixar-nos perante uma ideia da enorme altitude em que esta se encontra localizada, ou um simples nicho no interior de uma montanha que apenas adensa a insegurança da mesma, enquanto os corpos se enregelam perante uma tempestade furiosa que se acerca dos cenários. A banda sonora de Dario Marianelli contribui para os momentos quer mais tensos, quer mais melodramáticos do filme, valendo ainda a pena realçar o bom trabalho a nível de sonoplastia, enquanto o argumento de William Nicholson e Simon Beaufoy, pese a sua procura em recriar estes episódios inspirados em factos reais e a tentativa de exibir as dinâmicas criadas no interior dos grupos, falha em conseguir que a maioria das individualidades dos seus membros sejam exploradas a ponto de nos preocuparmos verdadeiramente com a maioria dos personagens e os seus destinos. Este desinteresse torna-se mais frustrante se tivermos em conta que o elenco é composto por actores e actrizes como Jason Clarke, Josh Brolin, Robin Wright, Keira Knightley, John Hawkes, Emily Watson, Jake Gyllenhaal, Michael Kelly, entre outros que muito poderiam acrescentar a "Everest" se o argumento desse mais espaço para que estes desenvolvessem os personagens que interpretam.

É certo que existe cuidado em exibir os diferentes campos do Evereste e deixar o espectador com uma noção da imensidão desta montanha e as dificuldades crescentes de acordo com o nível a que se sobe, até se atingir o cume e a chamada "zona da morte" (daí a necessidade de aclimatar os corpos), que Kormákur tenta expor todo o processo intrincado que envolve estas expedições, quer a nível logístico, quer a nível humano, e até alguma da relevância dos Xerpas, uma etnia da região mais montanhosa do Nepal, na ajuda aos montanhistas, mas parece sempre faltar algo mais a nível do desenvolvimento dos personagens para além da apresentação inicial que nos é efectuada sobre os mesmos. Jason Clarke, Josh Brolin e John Hawkes são muito provavelmente os elementos que mais se destacam, com o primeiro a conseguir exibir não só os cuidados do personagem que interpreta mas também o seu espírito de sobrevivência. No entanto, uma ida posterior ao cume, para satisfazer o desejo do personagem interpretado por John Hawkes, não se revela a decisão mais pragmática, embora o argumento nunca o julgue, enquanto Doug procura concretizar o sonho de uma vida. Já Brolin interpreta um indivíduo casado, do Texas, que se depara com uma situação completamente desfavorável a certa altura da narrativa, existindo não só a capacidade em expor as dificuldades que este ultrapassou mas também as marcas que deixaram no seu corpo. Vale ainda a pena realçar Emily Watson como Helen Wilton, com a actriz a conceder uma enorme credibilidade a esta mulher que procura coordenar as expedições à distância, tendo ainda a difícil tarefa de contactar com as famílias dos diversos elementos. Fica a ideia que Baltasar Kormákur lançou-se com enorme empenho para esta escalada cinematográfica que tanto nos desarma perante a crueza das situações retratadas como nos deixa um travo algo amargo por não ter alcançado todo o seu potencial, com o cineasta e a dupla de argumentistas a parecerem ter ficado satisfeitos por terem chegado a meio da sua expedição quando poderiam ter alcançado o cume e saído da mediania. Visualmente, sobretudo visto em IMAX em 3D, é algo de esmagador, embora esse efeito não se repercuta do ponto de vista narrativo, o que não implica que não estejamos perante uma obra cinematográfica que explora com alguma eficácia a dificuldade e até alguma da irracionalidade inerente a estas expedições, onde o ser humano digladia-se consigo próprio e com a natureza, tendo de enfrentar as suas limitações naturais e procurar ultrapassar as adversidades. No caso, o impacto ainda é maior se pensarmos que muito do que é retratado, ainda que com algumas liberdades à mistura, é inspirado em episódios reais, com diversas das mortes a terem acontecido na realidade, algo que Baltasar Kormákur faz questão de expor no início e no final do filme, com estes últimos momentos a muito provavelmente serem aqueles que mais impacto conseguem causar. A espaços claustrofóbico e intenso, marcado por alguma capacidade em explorar os cenários cobertos de neve, sobretudo quando a tempestade se abate e os sentimentos voam a uma velocidade inexorável, "Everest" nem sempre consegue tirar da cartola todo o seu potencial mas nem por isso se deixa de revelar um espectáculo cinematográfico que visto em IMAX tem o poder de nos deixar praticamente "esmagados" diante da grandiosidade do monte representado e da ferocidade da "mãe Natureza".

Título original: "Everest".
Título em Portugal: "Evereste". 
Realizador: Baltasar Kormákur.
Argumento: William Nicholson e Simon Beaufoy.
Elenco: Jason Clarke, Josh Brolin, Michael Kelly, John Hawkes, Robin Wright, Emily Watson, Keira Knightley, Sam Worthington, Jake Gyllenhaal.

Sem comentários: