25 setembro 2015

Resenha Crítica: "Dial M for Murder" (Chamada para a Morte)

 A colocação do crime perfeito, ou seja, aquele que permitirá ao criminoso escapar das autoridades, em prática é um desejo transversal a vários dos personagens que povoam as obras cinematográficas de Alfred Hitchcock. Veja-se o caso de "Strangers on a Train", onde Bruno Anthony (Robert Walker) procurava convencer Guy Haines (Farley Granger) a assassinar o seu pai, enquanto o primeiro assassinaria a esposa do segundo, tendo em vista ao personagem interpretado por Farley Granger finalmente poder unir-se descansadamente com a amante, algo que este não parece levar muito a sério. Temos os protagonistas de "Rope", que assassinam um indivíduo e colocam o corpo no interior de um baú, chegando a efectuar uma festa na sala onde o corpo encontra-se guardado, ou Otto Keller (O. E. Hasse) em "I Confess", um jardineiro que eliminara um advogado, ainda que inicialmente essa não fosse a sua intenção, procurando fugir às repercussões do assassinato ao deixar as culpas recaírem no padre Michael Logan (Montgomery Clift). Associada a esta temática temos ainda a situação de um personagem principal ser inicialmente acusado de um acto que não cometeu, algo que acontece aos já citados Guy e Michael, bem como a John Robie (Cary Grant) em "To Catch a Thief", entre vários exemplos, entre os quais o de Margot (Grace Kelly), uma das protagonistas de "Dial M for Murder", naquela que é a primeira de três colaborações entre Grace Kelly e Alfred Hitchcock. Nos momentos iniciais do filme, encontramos Margot acompanhada por Tony Wendice (Ray Milland), o seu esposo, a ler o jornal ao pequeno-almoço, onde se depara com a notícia do regresso do escritor de livros policiais, oriundo dos EUA, Mark Halliday (Robert Cummings), a Inglaterra. Mark é o amante de Margot, com ambos a trocarem correspondência e a reencontrarem-se após o regresso do escritor, embora a personagem interpretada por Grace Kelly logo saliente que o esposo mudou bastante ao longo deste ano que se passou. Tony deixara a profissão de tenista para começar a ter uma vida mais sedentária como vendedor de produtos desportivos, tendo em vista a agradar à esposa, embora isso não signifique automaticamente que encontremos episódios de grande romantismo entre ambos. Margot salienta a Mark que ainda não revelou o affair a Tony, mantendo alguma intimidade com o amante, apesar de ter queimado todas as cartas que este enviara com excepção de uma devido ao seu conteúdo. Entretanto esta carta desaparecera, a protagonista fora chantageada, mas a verdade é que o indivíduo que cometeu este acto não apareceu para levantar o dinheiro que pedira. O conteúdo da carta não é revelado ao longo do filme, tal como nunca nos são expostas quais as razões dos ataques dos pássaros em "The Birds", com Alfred Hitchcock a deixar espaço para o espectador utilizar a imaginação sem ter de mastigar toda a informação pelo mesmo, uma situação que incrementa o enredo das suas obras cinematográficas. Esta carta vai ser um objecto relevante para o desenrolar da narrativa, embora agora valha a pena regressar ao enredo, em particular à parte em que tínhamos parado. Mark e Margot beijam-se no reencontro, mas logo travam os ímpetos quando reparam que Tony encontra-se a abrir a porta de casa, com este último a não dar a entender que sabe do caso mantido supostamente em segredo pelos primeiros.

Tony arranja uma desculpa para não ir a uma peça de teatro, de forma a deixar os amantes a sós e começar a colocar em prática um plano macabro que deixou em banho-maria até ao regresso de Mark. Diga-se que Ray Milland surpreende-nos ao interpretar de forma sublime este personagem aparentemente meticuloso, frio e dissimulado, que parece pensar tudo ao pormenor, com o actor a encarnar um dos vários antagonistas de comportamentos polidos e bem falantes que povoam as obras de Alfred Hitchcock. Ray Milland tem momentos dignos de relevo como Tony, quase que nos deliciando com a forma maliciosa com que coloca em prática os seus planos, embora pareça certo que mais tarde ou mais cedo vai falhar, com parte do prazer de assistir a "Dial M for Murder" a também residir nesta situação. Boa parte do enredo desenrola-se na casa de Tony e Margot, uma habitação com uma decoração que indica o estatuto de classe média destes personagens, marcada por alguns luxos mas nada de imensamente faustoso. É neste espaço que encontramos Margot e Mark a falarem sobre o seu affair, pensando que Tony não sabe nada sobre mesmo. Ledo engano. Quando Mark e Margot saem de casa, Tony liga para C. A. Swann (Anthony Dawson), um antigo colega de faculdade em Cambridge, que nem se recorda do primeiro, apesar de uma foto na posse do protagonista confirmar que ambos estiveram num jantar de final de ano lectivo. Swann encontra-se supostamente a trabalhar no ramo imobiliário, com o personagem interpretado por Ray Milland a procurar adquirir um veículo que pertence ao mesmo. Tony convida Swann a ir até sua casa, até expor a faceta de vigarista deste último, com Alfred Hitchcock a dar desde logo uma reviravolta na narrativa, após toda uma encenação meio teatral de Tony a fingir que se encontrava lesionado a indicar que não vinha aí coisa boa. Tony não só desarma Swann ao revelar que está ao corrente das falcatruas cometidas e das várias identidades distintas que este assumiu, como expõe as parcas condições financeiras do antigo colega, propondo que este elimine Margot. Tony revela que tem conhecimento do caso entre a esposa e Mark, detalhando o momento da descoberta, uma situação que o conduziu a pretender vingar-se da mesma através do assassinato perfeito. Pelo caminho irá aproveitar para ficar com a herança de Margot, provavelmente a causa principal para este plano, com esta a ter mais posses do que o protagonista, enquanto Swann acaba por ceder diante das poucas hipóteses deixadas por Tony, com este último a revelar uma faceta fria e manipuladora. Anthony Dawson explora a incapacidade do seu personagem em sair desta teia criada por Tony, com Swann a acabar por ter de colocar em prática um plano supostamente à prova de falhas tendo em vista a receber uma maquia elevada e livrar-se de possíveis chantagens do protagonista. Nesse sentido, Tony aproveita ter marcado uma saída com Mark para que o assassinato seja cometido nessa noite, com Swann a ter de actuar nessa hora, embora tudo corra mal quando Margot consegue defender-se e eliminar o criminoso. O plano era simples: a chave de casa estava nas escadas, Swann teria de deixar a janela aberta para fingir que entrara por aquele local, enquanto esperaria que Tony efectuasse um telefonema para casa que seria atendido por Margot, naquele que seria o momento perfeito para o assassinato. Os momentos são de enorme tensão, com Alfred Hitchcock a deixar-nos quase sempre na dúvida em relação ao que irá acontecer à personagem interpretada por Grace Kelly, com a actriz a sobressair sob o comando do cineasta, interpretando uma mulher adúltera que se vê a ser acusada de uma situação na qual não é culpada, ou melhor, que cometeu em defesa pessoal. Mesmo perante o fracasso da ideia inicial, Tony demonstra uma frieza implacável, conseguindo alterar provas e plantar evidências falsas para que o Inspector Hubbard (John Williams) pense que a esposa procurou assassinar Swann devido a este estar a ameaçá-la.

A incerteza acerca-se do destino de Margot, com o esposo a fingir que a procura proteger, enquanto Mark procura juntar as peças que não jogam certo em todo este caso e Alfred Hitchcock diverte-se a explorar até onde a capacidade de dissimulação de Tony consegue ir. A relação deste com a esposa é marcada por uma falta de chama latente, embora também não pareçam estar mal, apesar desta amar Mark. Grace Kelly começa o enredo a interpretar uma personagem muito ao seu estilo nos filmes em que trabalhou com Hitchcock, marcada por um enorme glamour e um guarda-roupa cuidado, com esta mulher que facilmente desperta a atenção dos homens a entrar numa espiral descendente que pode culminar na sua condenação à morte. Este perigo vivido pela personagem reflecte-se no próprio guarda-roupa e maquilhagem, com Margot a apresentar vestes e tonalidades bem mais discretas no último terço quando já pensa estar perdida (os momentos da condenação são sublimes). Tal como em obras como "Rope" e "I Confess", também o espectador tem muito mais informação disponível do que a maioria dos personagens, com Alfred Hitchcock a jogar com essa situação a seu favor para gerar a incerteza em relação ao destino dos elementos que povoam o enredo, sobretudo de Margot e Tony. A qualidade dos diálogos e o mistério incutido por Alfred Hitchcock são elementos fulcrais para "Dial M for Murder" funcionar, algo latente quando o cineasta coloca os personagens dois a dois, ou três a três, no espaço da sala da habitação de Margot e Tony. Veja-se desde logo os reveladores momentos iniciais onde ficamos a perceber que Mark e Margot continuaram a corresponder-se após a partida do mesmo, ou a forma fria e manipuladora como Tony gere a conversa com o antigo colega de faculdade. Temos ainda o momento em que Mark se reúne com Tony tendo em vista a que este último defenda Margot, para além de uma sequência onde assistimos aos personagens interpretados por Grace Kelly, Robert Cummings e John Williams reunidos no mesmo espaço à espera de um erro do protagonista. São vários os momentos marcantes e intensos no interior deste apartamento, com Alfred Hitchcock e a cinematografia de Robert Burks a contribuírem para alguma da inquietação gerada no interior deste espaço que em alguns momentos ganha características quase claustrofóbicas. Veja-se no último terço quando vários personagens anseiam por um pequeno gesto que pode ditar, em parte, o destino de uma vida humana, com Alfred Hitchcock a recorrer ainda com engenho à banda sonora de Dimitri Tiomkin. O cineasta consegue ainda voltar a utilizar de forma exímia os cenários, em particular a casa dos protagonistas, com o design de produção a parecer ter sido pensado ao pormenor para servir a narrativa. Veja-se a fotografia colocada na sala da habitação que conta com a presença de Swann a fumar um charuto ou a presença fulcral do telefone perto da janela, com o espaço do apartamento a ser palco de manipulações, traições, tentativa de assassinato, descobertas, entre outros episódios onde é notória a procura de Alfred Hitchcock em manter uma faceta algo teatral do material do qual a obra cinematográfica tirou inspiração (em particular a peça "Dial M for Murder" de Frederick Knott). Esta situação é visível nos exemplos citados, tais como um grupo restrito de personagens ficar em longos diálogos no interior do apartamento, com a sala do casal de protagonistas a ser o "palco principal" do enredo.

"Dial M for Murder" surge ainda como uma obra cinematográfica marcada por diversos elementos que povoam os filmes de Alfred Hitchcock. Não falta o inocente que é acusado de um crime que não cometeu, a relação amorosa complexa, o criminoso aparentemente afável, a presença de um tenista ou ex-tenista (tal como em "Strangers on a Train"), a presença da escadaria (neste caso com especial relevância já que é nesta que se encontra escondida a chave da casa para o criminoso entrar no local, tal como será importante para uma revelação no último terço), o consumo de bebidas alcoólicas, a personagem feminina principal loira, o mistério e suspense, a procura de um elemento em cometer o assassinato perfeito, entre outros exemplos. O próprio trabalho de montagem remete para obras de Alfred Hitchcock como "Strangers on a Train" onde este conseguia, através de eventos que decorriam em simultâneo, apresentados de forma entrecortada, adensar a tensão, uma situação notória aquando da tentativa de assassinato. Veja-se que temos Swann a entrar na casa, Tony no espaço de convívio de uma festa com Mark, enquanto o segundo procura ligar para casa de forma a despertar a esposa para esta se dirigir ao telefone e assim ser eliminada. No entanto, o plano não corre como o esperado, assistindo-se a este a procurar ir apressadamente para casa, enquanto Margot fica num estado de pânico latente, com a câmara de filmar a movimentar-se de acordo com os sentimentos díspares que esta parece estar a sentir. Diga-se que os movimentos de câmara contribuem e muito para aumentar a inquietação, algo visível quando esta roda em volta de Margot até o assassino aparecer nas suas costas. A câmara de filmar acompanha regularmente os personagens, com "Dial M for Murder" a ser ainda marcado por alguns planos de longa duração, onde muitas das vezes encontramos os actores e actrizes em longos diálogos, algo que remete mais uma vez para uma estética por vezes teatral desta obra cinematográfica. Hitchcock não parece renegar as raízes teatrais do material de origem do filme, algo latente na forma como praticamente ignora os cenários externos, ao mesmo tempo que dá espaço para os seus actores sobressaírem. Para além dos casos de Ray Milland, Grace Kelly e Anthony Dawson, vale ainda a pena realçar elementos como John Williams e Robert Cummings. Williams como um polícia que inicialmente tem muitas dúvidas em relação ao caso e a Margot, acabando por gradualmente começar a desconfiar de Tony, contando para isso com a ajuda de Mark. Embora a relação entre os personagens interpretados por Grace Kelly e Robert Cummings seja utilizada mais como artifício para a colocar em perigo, isso não implica que este último não tenha espaço para sobressair, sobretudo no último terço onde procura utilizar a sua imaginação como autor de livros policiais para tentar desvendar os "plot holes" deste caso. O filme foi lançado originalmente em 3D, apesar do formato não ter feito um grande sucesso na época, embora "Dial M for Murder" tenha sido relançado recentemente em algumas salas de cinema neste formato (em Portugal foi exibido na edição de 2014 do Indielisboa), com esta obra cinematográfica a manter ainda as suas enormes qualidades, conseguindo suster a nossa atenção e gerar inquietação ou não fosse Alfred Hitchcock o "mestre do suspense". 

Título original: "Dial M for Murder". 
Título em Portugal: "Chamada para a Morte".
Realizador: Alfred Hitchcock.
Argumento: Alfred Hitchcock.
Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams.

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