20 setembro 2015

Resenha Crítica: "American Ultra" (2015)

 A química entre Kristen Stewart e Jesse Eisenberg é indelével, algo que já tinha sido exibido de forma paradigmática em "Adventureland". Também não é difícil de notar que tanto Kristen Stewart como Jesse Eisenberg incutem muito das suas pessoas aos personagens que interpretam, parecendo por vezes que dão vida a diferentes variantes da mesma figura. No caso de "Adventureland" a dupla foi ancorada por um bom argumento e realização, algo que permitiu aproveitar a boa dinâmica entre Eisenberg e Stewart. Em "American Ultra" ambos contribuem para tornar suportável um filme que parece muitas das vezes não saber para onde quer ir (tirando para um abismo), tanto se aventurando pela comédia, como pela acção, como pelo melodrama, como pelo thriller, acabando pelo caminho por não conseguir ser coisa nenhuma e povoar a narrativa de um conjunto de personagens secundários caricaturais, com Topher Grace a parecer constantemente um dos antagonistas saídos dos desenhos animados de "Scooby-Doo" ou até dos "Looney-Tunes", algo que tira um peso enorme aos possíveis perigos vividos pelos protagonistas. Kristen Stewart e Jesse Eisenberg interpretam Phoebe Larson e Mike Howell, um casal que se parece complementar na perfeição, com esta a apresentar sempre mais confiança e calma do que a sua cara metade. Ambos habitam no mesmo apartamento, localizado na cidade de Liman, na Virgínia Ocidental, partilham o gosto por fumarem marijuana, embora os planos que fazem para mudar as rotinas acabem quase sempre por falhar devido ao pânico que Mike tem em viajar. Mike pretende pedir Phoebe em casamento mas nunca sabe qual será o momento certo. Este trabalha num loja de conveniência, onde se diverte a desenhar "As Aventuras do Macaco Apolo e o Tijolo Chip", uma banda desenhada criada pelo mesmo nos momentos de alguma procrastinação. A vida deste sofre uma reviravolta quando dois estranhos procuram eliminá-lo no parque do estacionamento, com Mike a revelar uma enorme habilidade para a pancadaria, uma situação inerente ao facto de ter feito parte de um programa secreto da CIA (denominado de Ultra), algo de que aparentemente não guarda memórias, até ser colocado em situações de enorme dificuldade. Quem lidera a missão para eliminar Mike é Adrian Yates (Topher Grace), um indivíduo que lança a operação por sua conta e risco, procurando desafiar Victoria Lasseter (Connie Britton), a mentora do programa, entretanto destituída da liderança do mesmo. Victoria procurou manter Mike com vida, ou não fosse o único caso bem sucedido do programa que liderou, indo entrar em confronto com Adrian, o indivíduo que a substituíra como supervisora, com as figuras da CIA a serem apresentadas maioritariamente como amadoras que se movem por desejos pessoais. Connie Britton procura incutir alguma seriedade a Victoria num filme que raramente merece ser observado com esse registo, enquanto esta procura travar o desiderato de Adrian e ajudar Mike. Topher Grace surge quase sempre como uma figura caricatural, pronta a disparar falas que roçam muitas das vezes o ridículo a ponto de o vermos a imitar a voz de Daffy Duck, parecendo que as mesmas só fazem sentido se estivermos num estado de consciência alterada semelhante aos protagonistas nos momentos de consumo de marijuana. Nunca surge como uma figura ameaçadora embora o filme não poupe em momentos de violência, na maioria inócuos, onde aos poucos o protagonista revela uma faceta de Jason Bourne mesclada com as ansiedades incutidas por Jesse Eisenberg.

Se não deixa de ser notório que Topher Grace parece interpretar Adrian como se estivesse a dar vida a Eric em "That '70s Show", com a diferença dos seus diálogos na série contarem com algumas doses de humor que resultam (algo que não acontece em "American Ultra"), também é de realçar a incoerência e pobreza franciscana do argumento de Max Landis, aliadas a uma realização pouco inspirada de Nima Nourizadeh que pouco parece saber fazer com o material que tem entre mãos, com aquilo que de melhor funciona em "American Ultra" a ser a dinâmica entre Kristen Stewart e Jesse Eisenberg. A dupla de protagonistas convence como um casal que apresenta uma química notória que é confrontado com situações de difícil resolução. Kristen Stewart incute alguma confiança a Phoebe, mas também diversas fragilidades, permitindo dar alguma dimensão a esta mulher que também guarda alguns segredos. Diga-se que os segredos nunca duram muito tempo e servem acima de tudo para esconder temporariamente a vacuidade daquilo que nos está a ser dado e o pouco mistério que existe em volta do enredo. Temos ainda um conjunto de antagonistas que na maioria são figuras caricaturais que acabam quase sempre por nunca gerar qualquer ligação emocional com o espectador ou melhor, conseguem criar uma indiferença latente ao invés de surgirem como uma ameaça. Veja-se o caso de Walton Goggins como Laugher, um agente ao serviço de Adrian, que pouca dimensão consegue ter, ou John Leguizamo como um indivíduo que providencia material ilegal ao protagonista, surgindo como o pináculo das falas desastrosas de um filme onde todos os envolvidos parecem pensar que têm mais piada do que realmente apresentam. Essa situação é visível em momentos reveladores da falta de preparação do personagem interpretado por Topher Grace, algo exposto pelo mesmo em diversos diálogos e situações, tais como ficar surpreendido por ver um grupo de agentes sentados num camião escuro, ou esconder-se num momento de suposto perigo. É paradigmático do tom de um filme que quer simultaneamente ser uma paródia e levar-se a sério, ou talvez nem uma coisa nem outra, com a incoerência a dominar aquilo que nos é apresentado. Pelo caminho não vai faltar muita acção, com Phoebe e Mike a inicialmente terem de fugir, até este ser colocado à prova, numa obra que muito parece ter da saga Bourne, das comédias que envolvem tipos pedrados e obras cinematográficas que contam com teorias sobre programas secretos da CIA, com a tão apregoada originalidade defendida por Max Landis a ter que ser utilizada com muita parcimónia. Isso e a defesa de um filme por ter um argumento original. No caso de "American Ultra", com excepção de Jesse Eisenberg e Kristen Stewart, duas figuras que contribuem para gerarmos logo alguma empatia com os seus personagens, existe muito pouco para espremer, com alguns elementos a parecerem efectivamente contar com algumas doses de diversão, embora esse sentimento não seja transmitido para o espectador (ou pelo menos para este). Com um tom incoerente, um argumento e uma realização que pouco têm de recomendável e um conjunto de personagens secundários que só com excesso de boa vontade é que podem merecer essa designação, "American Ultra" tem em Kristen Stewart e Jesse Eisenberg dois dos seus pontos positivos, embora ambos já tenham demonstrado que podem e conseguem fazer melhor, incluindo a escolher projectos.  

Título original: "American Ultra".
Título em Portugal: "American Ultra: Agentes Improváveis".
Realizador: Nima Nourizadeh.
Argumento: Max Landis.
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Topher Grace, Connie Britton, Walton Goggins, John Leguizamo, Bill Pullman.

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