06 agosto 2015

Resenha Crítica: "Touch of Evil" (A Sede do Mal)

 Considerado como um dos últimos exemplares dos filmes noir clássicos situados entre o início da década de 40 e final dos anos 50 do Século XX, ou, se preferirmos, o seu "canto do cisne", "Touch of Evil" é o exemplo paradigmático do génio de Orson Welles na realização e interpretação, com este a colocar-nos diante de uma obra cinematográfica com uma atmosfera negra, onde não faltam polícias corruptos, traficantes, gangsters, entre outras figuras pouco recomendáveis. Quem tenta combater o crime, como Miguel Vargas (Charlton Heston), um polícia mexicano, da divisão de narcóticos, arrisca-se a correr perigo de vida, bem como aqueles que lhe são próximos, em particular Susan (Janet Leigh), a mulher com quem este agente da autoridade se casou recentemente. Vargas é um idealista que conseguiu deter o irmão de Grandi (Akim Tamiroff), um perigoso e poderoso gangster, algo que conduz a diversas ameaças à sua integridade e da sua esposa, algo latente quando lhe tentam atirar ácido ou quando Susan é transportada por um grupo ao serviço do personagem interpretado por Akim Tamiroff para este a ameaçar de forma subtil de forma a não poder ser detido. Susan e Vargas encontravam-se em Los Robles, uma cidade fronteiriça entre o México e os Estados Unidos da América, quando um aparelho explosivo conduz à morte de Rudy Linnekar, um magnata ligado à construção, que ia acompanhado de uma amante. Os momentos iniciais são sublimes, com Orson Welles a brindar-nos com um dos planos sequência mais marcantes da História do Cinema, mas também diante de uma das melhores aberturas de uma obra cinematográfica, com a câmara a acompanhar um indivíduo a colocar um aparelho explosivo no interior do porta bagagens de um veículo (o de Rudy Linnekar), a seguir o carro deste em movimento sobrevoando inicialmente um prédio. Posteriormente o carro passa por Vargas e Susie, com a atenção da câmara a focar-se na dupla recém-casada que se prepara para atravessar a fronteira para os EUA, o local de nascimento da segunda. No entanto, a explosão do veículo, já nos EUA, deixa Vargas inquieto, procurando envolver-se na investigação ao perceber as incidências internacionais que o atentado poderia ter no caso de se comprovar que a bomba foi colocada no México. Vargas procura aferir sobre o caso, contactando Pete Gould (Harry Shannon), o chefe do departamento da polícia de Los Robles, bem como o procurador do Ministério Público Adair (Ray Collins), até chegar o capitão da polícia Hank Quinlan (Orson Welles) e o seu parceiro de trabalho de longa data, Pete Menzies (Joseph Calleia), enquanto Susan é contactada pelos homens de Grandi. De charuto na boca, bengala na mão, anafado, de gestos e falas rudes, sempre sem ter problemas em mostrar alguma xenofobia em relação aos mexicanos e ao México, Quinlan surge como o oposto de Vargas, com ambos a entrarem em colisão ao longo do enredo, algo que muito se deve à visão distinta que têm da lei e da forma como se deve deter os criminosos. Quinlan surge quase como uma lenda local, um indivíduo de feições e gestos algo grotescos que procura deter os criminosos a todo o custo, mesmo que isso implique plantar provas falsas para comprovar as suas teorias. Ficamos diante de dois polícias carismáticos que ganham uma dimensão extra ao serem interpretados por Charlton Heston e Orson Welles, com este último a roubar quase sempre as atenções, quer a nível da interpretação, quer pelo seu trabalho como realizador.

Quinlan logo procura informações relacionadas com o caso e a identidade do possível assassino, deixando Marcia Linnekar (Joanna Cook Moore), a filha do falecido, sair, após reconhecer o corpo do pai. O personagem interpretado por Orson Welles logo parte para o outro lado da fronteira, para procurar informações no México e reencontrar-se com Tanya (Marlene Dietrich), a dona de um bar/bordel, que praticamente não o reconhece devido ao seu estado anafado e claramente desgastado pelo tempo e uma vida desregrada. O espaço de diversão nocturna é presença típica dos noir, ou não contássemos muitas das vezes com a presença do clube nocturno, mas também de personagens de carácter dúbio, algo que marca e muito a narrativa de "Touch of Evil", a começar por Quinlan. Este é um polícia disposto a tudo para deter aqueles elementos que considera serem criminosos, com a sua perna ferida a dar-lhe muitas das vezes "o sinal instintivo", uma situação que o leva a muitas das vezes colocar provas falsas que são posteriormente descobertas por Pete Menzies, um indivíduo que considera o seu superior como um indivíduo imensamente competente. O problema é quando Quinlan decide incriminar Sanchez, o namorado de Marcia, ao colocar duas barras de dinamite numa caixa de sapatos, na qual Vargas anteriormente tinha "tropeçado" e reparado que estava vazia. Vargas começa a investigar Quinlan, algo que deixa este último em comoção, mas preparado para tudo, incluindo aliar-se a Joe Grandi para manchar a reputação do personagem interpretado por Charlton Heston. O plano passa por drogar Susan, que se encontra temporariamente instalada num hotel que é propriedade de... Grandi, enquanto aguarda que o marido termine a missão. Inicia-se uma procura de Vargas em provar que Quinlan forjava provas e defender a honra da esposa, enquanto o personagem interpretado por Orson Welles nos surpreende com o seu lado negro, apresentando uma versão enviesada da defesa da lei, com "Touch of Evil" a colocar-nos diante de dois polícias com visões bem distintas da lei e da aplicação da justiça. Charlton Heston, apesar de se encontrar a interpretar um mexicano, algo que até gera a piada de um elemento que salienta "você não fala como um mexicano", consegue transmitir quase sempre uma enorme credibilidade, sentido de justiça e de cumprimento da lei por parte do personagem a quem dá vida, mas também o grande amor que sente pela esposa, apesar de estar grande parte do tempo separado desta. Diga-se que Orson Welles não tem problemas em explorar muitas das vezes os actos destes personagens em separado, entrecortando os mesmos ao longo do filme. Veja-se quando nos deparamos com Vargas a encontrar-se com Schwartz, enquanto Quinlan reúne-se com Grandi, e Susan está cativa. Vargas é um indivíduo idealista, que procura a todo o custo combater o crime, mesmo que isso inclua embater de frente com um nome famoso da polícia desta cidade fronteiriça, com Orson Welles a atribuir uma malícia latente e deliciosa de se assistir ao personagem que interpreta de forma assombrosa. Tal como em "The Third Man", Welles interpreta um personagem de moral duvidosa e cínico, para quem os fins parecem sempre valer mais do que os meios para os alcançar, mesmo que tenha de enganar aqueles que lhe são próximos. É um indivíduo ainda atormentado pela morte da esposa, há vários anos atrás, com o argumento a entroncar a sua obsessão em deter os criminosos com este acto, algo que a juntar à própria personalidade imoral do protagonista resulta num polícia que transgride muitas das vezes as teias da lei, procurando jogar com as mesmas a seu favor. Quinlan é um dos vários personagens presentes nos filmes noir que surgem marcados por uma enorme ambiguidade moral, com Orson Welles a encher o ecrã de carisma como este polícia algo desgastado corporalmente e mentalmente, capaz do plano mais malicioso para salvar a sua pele, incluindo incriminar um colega de profissão.

Gera-se um impasse entre Quinlan e Vargas, com "Touch of Evil" a não poupar nos níveis de tensão e inquietação que envolvem a narrativa e o espectador. Ficamos na dúvida se Quinlan conseguirá safar-se com o seu plano ou se Vargas conseguirá provar as suas teorias, enquanto Orson Welles tem ainda o engenho de fazer com que vários dos elementos secundários que povoam a narrativa consigam sobressair, ao criar um argumento que, apesar de contar com uma história convulsa e recheada de algumas reviravoltas, nem por isso deixa de dar espaço aos actores e actrizes para se destacarem. Um desses elementos secundários que sobressaem é Joseph Calleia como Menzies, um parceiro de longa data do protagonista que não se quer acreditar na possibilidade deste ter plantado provas falsas durante boa parte da sua carreira. É um indivíduo que parece admirar Quinlan, sobretudo devido a outrora ter sido salvo pelo mesmo, desconfiando de Vargas, apesar de aos poucos perceber que o seu superior está longe de ser a pessoa mais idónea. Se Menzies inicialmente não desconfia do seu superior, já Al Schwartz (Mort Mills), o assistente do procurador do Ministério Público, parece ter mais reservas em relação a Quinlan, ajudando Vargas no acesso aos arquivos sobre os casos resolvidos pelo personagem interpretado por Orson Welles. Temos ainda mais três elementos em destaque (ou que não podemos deixar de destacar): Janet Leigh, como a esposa de Vargas, uma mulher que tem de lidar com uma série de perigos devido ao ofício do protagonista, com a actriz a ter uma dinâmica relativamente convincente no tempo em que partilha no ecrã com o personagem interpretado por Charlton Heston; a sempre magnífica Marlene Dietrich, com esta a incutir muito do seu carisma a Tanya, uma mulher visivelmente desencantada em relação à vida e a Quinlan, com a actriz a inicialmente ter sido contactada por Orson Welles apenas para efectuar uma participação especial, algo que se modificou com os acrescentos no argumento e improvisos nas gravações; Akim Tamiroff como Joe Grandi, o típico gangster imoral que procura prevalecer sobre as autoridades. O argumento, escrito por Orson Welles e os não creditados Paul Monash e Franklin Coen, baseado no livro "Badge of Evil" de Whit Masterson, permite explorar uma intrincada teia narrativa em volta da investigação sobre o assassinato ocorrido no início do filme, bem como os planos distintos de Vargas e Quinlan, com o primeiro a envidar esforços para desmascarar o segundo, enquanto o polícia dos EUA tenta encobrir os seus actos, ao mesmo tempo que temos ainda a subtrama relacionada com a procura dos homens de Grandi, a mando deste e do personagem interpretado por Orson Welles, drogarem Susan para mancharem a reputação do protagonista. É uma trama intrincada, por vezes convulsa, que é rendilhada de forma exímia por Orson Welles, com este a filmar uma das suas obras cinematográficas noir mais aclamadas pela crítica. Apesar de hoje ser praticamente consensual considerar "Touch of Evil" como uma obra cinematográfica notável e relevante, surgindo como um filme noir/policial excepcional, aquando da sua estreia, o filme sofreu um conjunto de cortes e cenas adicionais por parte do estúdio (Universal), uma situação que conduziu ao facto de terem existido três versões da obra. A primeira versão foi lançada em 1958, com "Touch of Evil" a ser exibido nos EUA como um filme de série b que acompanhava "The Female Animal", uma obra cinematográfica realizada por Harry Keller, o cineasta que filmou as cenas adicionais acrescentadas ao trabalho de Welles. Uma segunda versão, lançada em 1976, com 108 minutos, já com algumas cenas que tinham sido cortadas mas sem respeitar um memorando de cinquenta e oito páginas, enviado por Orson Welles, onde este detalhava o que considerava necessário para o filme funcionar. Em 1998 foi lançada uma terceira versão, restaurada, de acordo com as indicações deixadas por Orson Welles no famoso memorando (o cineasta falecera em 1985). A terceira versão conta com algumas das cenas adicionais filmadas por Harry Keller, embora as mesmas pareçam ter sido aceites por Welles, com esta edição de "Touch of Evil" a parecer aquela que mais se aproxima dos desejos iniciais do cineasta.

 Estes cortes na obra, hoje incompreensíveis, surgem no seguimento da desconfiança do estúdio em relação a Orson Welles, com este a não ter realizado um filme nos EUA entre 1948 e 1958, com "Touch of Evil" a ter "caído" nas mãos do realizador em parte devido à acção de Charlton Heston e Edward Nims, o líder do departamento de pós-produção da Universal, algo salientado por Frank Miller no seu artigo publicado no site do TCM: "Through a misunderstanding, Heston thought Welles was going to direct the film. When he learned otherwise, he insisted that the studio offer Welles the job. Universal's head of post-production, Edward Nims, had worked happily with Welles in the '40s, and seconded the recommendation. So the studio offered him the absurdly low sum of $125,000 to direct, re-write and star in the film. At first Welles wavered, but then decided it was time to prove that he could work within the studio system". O resultado final é uma obra-prima de enorme relevo para a História do Cinema, considerada como um dos últimos exemplares dos filmes noir que tanto marcaram o imaginário popular durante os anos 40 e 50. Diga-se que "Touch of Evil" não poupa na utilização, de forma sublime, de vários elementos associados aos filmes noir: a utilização do chiaroscuro; os ângulos inusitados; os personagens moralmente ambíguos; o clube nocturno; a relação complicada entre o protagonista e as autoridades, neste caso entre um polícia mexicano e um elemento dos EUA; a propensão do personagem principal em envolver-se em confusões; as relações pessoais marcadas por traições (veja-se a desilusão que Quinlan provoca em Pete); o espaço citadino como um local marcado pela insegurança; uma atmosfera marcada por algum pessimismo, entre outros elementos. "Touch of Evil" faz muitas das vezes justiça ao seu título, com Orson Welles a deixar-nos diante de um universo narrativo negro, assombrado pela imoralidade, onde elementos como Quinlan conseguem surpreender-nos e inquietar-nos com os seus actos, com este a preparar uma vingança que revela alguns requintes de malvadez, bem como a forma latente como este personagem se aproximou mais do lado dos criminosos do que da lei. A própria representação desta cidade fronteiriça parece surgir como um limbo, onde o bem e o mal andam lado a lado, com o segundo a muitas das vezes ameaçar triunfar sobre o primeiro, com Orson Welles a deixar-nos quase sempre claro que toda esta situação vai terminar mal para alguns personagens. A representação desta cidade é exímia, com este local a surgir com características dantescas, clubes nocturnos, bares de strip e figuras peculiares, muitas das vezes imorais, que vão desde polícias corruptos, traficantes, gangsters, até à dona de um bar que lê a sina do Quinlan ("Your future's all used up.") e uma empregada cega de um estabelecimento onde Vargas liga para a esposa, entre tantos outros personagens que povoam uma narrativa que tem sempre algo de novo a dar quando assistimos mais uma vez e saímos assombrados perante este universo narrativo desencantado. É incrível a quantidade de personagens que despertam a atenção, mas também a forma exímia como Orson Welles realiza esta obra cinematográfica que começa a brilhar desde o seu plano sequência inicial, com o seu desenrolar a ser marcado por momentos e figuras inesquecíveis, incluindo Quinlan, um polícia que facilmente nos assombra a memória. Última longa-metragem realizada por Orson Welles em Hollywood, "Touch of Evil" surge quase como o canto do cisne dos noir, mas também como uma obra-prima de um cineasta que despontou em Hollywood com "Citizen Kane" e termina com outro trabalho brilhante, dominando por completo o filme, quer quando se encontra a realizar o mesmo, quer quando interpreta o grotesco Quinlan.

Título original: "Touch of Evil".
Título em Portugal: "A Sede do Mal".
Realizador: Orson Welles.
Argumento: Orson Welles.
Elenco: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Marlene Dietrich, Zsa Zsa Gabor.

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