21 agosto 2015

Resenha Crítica: "Taxi" ("Táxi de Jafar Panahi")

     É ponto assente que a situação jurídica do realizador Jafar Panahi não é a mais convencional, e confesso que eu próprio não a compreendo na sua totalidade, mesmo depois de ter consultado alguns artigos sobre o assunto. O que consegui perceber foi, essencialmente, que em 2010 um tribunal iraniano acusou-o de conspirar contra a segurança nacional, argumentando que ele andava a preparar um documentário sobre a instabilidade, despontada em várias camadas da sociedade, que acompanhou a reeleição do presidente Ahmadinejad. Aparentemente foi-lhe sentenciada uma pena de seis anos de cárcere, à qual se juntou uma proibição de realizar filmes por um período de duas décadas. No entanto, temos vindo a compreender recentemente que o governo iraniano pode ser arbitrário no que toca a questões jurídicas, principalmente quando os seus mais altos funcionários metem nas respetivas cabeças que querem transmitir uma imagem de benevolência e de democracia aos países do estrangeiro, mesmo que poucos países do estrangeiro duvidem do seu carácter ditatorial. Isto significa que, na realidade, Panahi não cumpriu a sua pena de seis anos, e que passados alguns dolorosos meses de cárcere, em que foi torturado e ameaçado, confinaram-no ao seu apartamento com o estatuto de preso domiciliário. A proibição de realizar filmes, por sua vez, manteve-se, mas o condenado ignorou-a; isto é, matutando melhor no assunto, reconheço que ignorar não é um termo muito adequado, pois, na realidade, o cineasta concedeu-lhe toda a sua atenção, mas só para saber depois como poderia contorná-la.
     A conclusão a que Panahi chegou foi de que, estando impossibilitado de sair do seu apartamento, seria no seu interior que exerceria a sua arte; se a realização de filmes lhe estava vedada, então fá-la-ia às escondidas, recorrendo ao auxílio de alguns amigos e conhecidos. Como o leitor deve estar relembrado esta deliberação proveu-lhe grandes resultados, tendo o primeiro deles sido o documentário “This is Not a Film”, realizado em 2011 e munido de um título irónico dirigido às autoridades que o mantinham cativo. O segundo resultado consistiu num drama realizado dois anos depois, desenrolado num outro apartamento, desta vez com as cortinas fechadas para não levantar suspeitas. Este pormenor foi aproveitado para conceder uma identidade ao filme, sagazmente denominado de “Closed Curtain”. Desconheço por que meios é que o fizeram chegar ao estrangeiro, mas a verdade é que não só conseguiram fazê-lo como também possibilitaram que ele fosse exibido numa diversidade de festivais, chegando inclusivamente a ser premiado no de Berlim, numa evidente demonstração de apoio por parte dos seus organizadores. As autoridades iranianas sentiram-se, obviamente, incomodadas com a situação, e fizeram-no saber através de um comunicado seriíssimo, no qual exaltaram a paciência «da República Islâmica para com tal comportamento.», reforçando o meu raciocínio de que o governo iraniano sabe que é uma ditadura, que sabe perfeitamente que nós também o sabemos, mas não desiste de exprimir a sua indignação cada vez que é desrespeitado.
     O que procurei salientar até agora é a influência que a situação jurídica de Panahi desempenhou na realização dos filmes mencionados: por um lado porque a restrição do espaço físico no qual o realizador pôde gozar de liberdade, neste caso limitado às quatro paredes de um apartamento, forçou-o a escrever uma história que se adequasse a essa circunstância; por outro porque a vigilância incansável a que ele estava a ser sujeito determinou que, mesmo no interior desse espaço, Panahi foi obrigado a tomar precauções adicionais, evidenciáveis no caso de “Closed Curtain”, em que as cortinas que rodeavam o apartamento causaram impacto na sua história. A própria perseguição jurídica efetuada ao cineasta suscitou outro traço característico, que não é bem uma restrição mas sim uma liberdade pessoal, e que consiste no conjunto de críticas subtis, e no entanto bem percetíveis, introduzidas por Panahi nas suas obras, dirigidas ao governo iraniano.
     Estes pormenores também se conformam com o filme em análise, que tem tantas semelhanças como traços distintivos com os seus dois antecessores, derivados, em grande parte, da atual situação jurídica do realizador. Quanto aos contornos dessa situação, o que consta é que na sequência de alguns apelos, e também de uma constante pressão estrangeira, Jafar Panahi encontra-se numa espécie de liberdade condicional, que é como quem diz que pode circular livremente pelas ruas de Teerão, mas nem por isso é um homem livre. Consta também que as autoridades iranianas, notoriamente caprichosas, têm o poder para encarcerá-lo quando lhes apetecer. A interdição de realizar filmes também persiste, claro, e há quem diga que indefinidamente, mas já concluímos que isso está longe de constituir um entrave à produção do realizador.
     Conclui-se portanto que, ao contrário do que aconteceu no seu passado recente, Panahi dispõe agora de uma maior liberdade. É por essa razão que “Taxi” se desenrola não no seu apartamento, mas sim fora dele, especificamente no interior de um táxi que ele vai conduzindo durante hora e meia pela cidade de Teerão, enveredando, quer por ruas estreitas e sossegadas, quer por avenidas mais largas e caóticas, apanhando pelo caminho passageiros de idades e personalidades inteiramente distintas. Em contrapartida, sabemos que o realizador continua a ser vigiado pelas autoridades, gozando apenas da liberdade que estas lhe estão dispostas a conceder, pelo que o filme, mais uma vez, teve que ser feito com discrição. O método escolhido por Panahi para contornar esta limitação foi deliberar que a história jamais ultrapassasse as quatro portas do seu veículo, fazendo-nos pensar que o cineasta, apesar de tudo, continua a ser obrigado a filmar num espaço fechado, de dimensões ainda mais reduzidas do que o seu próprio apartamento.
     As semelhanças entre “Taxi” e os antecessores não se limitam à restrição do seu espaço físico, e há mesmo uma similitude muito evidente com “Isto Não é um Filme” que consiste no método escolhido para contar a respetiva história, método esse que levou Panahi a comportar-se como se estivesse a gravar, somente, um dia ordinário da sua vida, preenchido por acontecimentos aparentemente espontâneos. De facto, se eu não estivesse já familiarizado com a manha do cineasta, é possível que tivesse acreditado neste seu matreiro fingimento, e estaria por aqui a zurrar, revestido de sumptuosidade, que a narrativa de “Taxi” partira de um capricho de Jafar Panahi que, por um motivo difícil de explicar, num dia completamente aleatório, decidira meter-se ao volante de um automóvel para fingir ser taxista. Às tantas, e eu era mesmo capaz disso, acusá-lo-ia de ter andado a enganar os seus passageiros, e de não ter respeitado a sua privacidade ao filmá-los com aquelas câmaras muito discretas, colocadas ao pé dos volantes dos carros, para captar, supostamente, potenciais assaltantes.
     No entanto, em defesa da minha hipotética pessoa, arrazoo que essa minha imaginária, mas possível, perceção adviria não apenas dos transtornos da minha cabeça mas, também, das intenções do próprio realizador, que encenou alguns diálogos profundamente enganadores que nos dão a entender, precisamente, que os acontecimentos testemunhados por Panahi são inteiramente espontâneos. Uma dessas interações desenrola-se num dos momentos em que Panahi maneja o volante da sua viatura, abrindo caminho entre as frinchas de uma massa de automóveis desordenados, arrastando-se por uma avenida extensa e caótica que eu diria localizar-se numa zona central da metrópole de Teerão. Subitamente o condutor é abordado por um transeunte, que se aproximara da sua janela para pedir indicações. Panahi acede obviamente, e sem hesitar, outra reação não esperaríamos dele, mas é no entanto interrompido por um cliente do banco de trás que, munido de uma indignação explosiva mas contudo temporária, brada que o caminho não é para trás mas sim para a frente e virando à direita. A esta breve intercalação seguir-se-á uma outra, dirigida com desconfiança e num modo brusco ao incompetente taxista, em que este é questionado se tem mesmo esta profissão e, a tê-la, como raio é que desconhecia um caminho tão evidente.
     O leitor na sua perspicácia ter-se-á apercebido de que a personagem do banco de trás parece ser muito impulsiva, fazendo-nos lembrar aquelas pessoas que fervem em pouca água, que têm limites de tolerância muito baixos que, quando são ultrapassados, o que acontece com muita frequência, criam logo uma verdadeira algazarra. Da minha parte desconfio também que, nessas ocasiões, este indivíduo é daqueles que acredita sempre naquilo que nos está a berrar ao ouvido, cheio de veemência, e que, quando é contrariado, aí então é que não se cala mesmo, defendendo os seus argumentos até à morte, mesmo que saiba que não tem razão nenhuma. Infelizmente não pude comprovar se isso é ou não verdade porque Panahi, na sua sensatez, nem sequer pensou em contradizê-lo e, como tal, a passagem desta figura pelo filme foi muito curta, e passados poucos minutos ela saiu do carro para nunca mais a avistarmos. Quero com isto explicar que as personagens, ou seja os passageiros do táxi, se assemelham quase todos a este indivíduo; não necessariamente porque são bruscas ou ansiosas como ele, mas porque possuem uma personalidade muito vincada, completamente genuína, que as desprove do mínimo receio de expressarem as suas emoções. E há outro pormenor fundamental sobre o bradador do banco de trás, que é o seguinte: saberá sem dúvida o leitor que as pessoas realmente genuínas são uma raridade no mundo civilizado, sendo possível que também o sejam no mundo incivilizado, o mesmo sucedendo, de acordo com alguns especialistas, no mundo animal. E se é verdade que nos tentamos sempre convencer-nos a nós próprios de que somos muito honestos, no fundo temos noção de que restringimos constantemente as nossas emoções. Tenho cá para mim que o leitor leu este raciocínio e franziu, imediatamente, o sobrolho de desconfiança, e eu próprio compreendo perfeitamente as suas reservas. Por esse motivo peço-lhe que atente, só por uns instantes, ao exemplo de uma profissão que consiste simplesmente na transmissão de uma opinião pessoal e que, como tal, deveria ser desempenhada, na teoria, por pessoas genuínas: refiro-me ao crítico de cinema. Seria, ou não, de esperar que o crítico de cinema possuísse uma honestidade e uma humildade exemplares? Seria descabido exigir que ele não ludibriasse ou público e que não se enganasse a si próprio? E em vez disso, o que sucede? Sucede que muitos críticos deixam que a sua honestidade se dilua num estranho acesso de egocentrismo. Esse acesso, tristemente, faz com que o crítico se convença de que a apreciação da arte está longe de ser uma experiência subjetiva, e leva-o a acreditar que, na realidade, o que distingue o bom do mau é o seu gosto pessoal, por mais absurdo que isso nos pareça. Também não duvidamos que muitos críticos vão ao cinema com opiniões previamente formadas, mas a maior desilusão tem lugar quando lemos alguns dos seus textos e apercebemo-nos, estupefactos, que eles parecem mais preocupados em sustentar uma persona qualquer, que eles próprios criaram, do que em informar o espetador, entupindo os seus textos com citações inadequadas, expressões pretensiosas e outras pepineiras do género. É importante realçar que se é isto que acontece numa profissão destas, imaginem o que acontecerá em todas as outras. Eu próprio nem estou livre de críticas, e em vez de andar aqui a mugir filosofias da batata, sobre a genuinidade das relações e dos gestos do ser humano, perdendo-me em devaneios muito estranhos, devia estar antes a opinar sobre o filme, mas o leitor bem conhece a minha tendência para a divagação. Atrevo-me a afirmar, inclusive, que já está tão familiarizado com a minha falta de profissionalismo que, se eu começasse a parecer competente de um momento para o outro, ficávamos todos muito alarmados.
     Mas retomemos o fio à meada e concluamos que a aparição de uma criatura genuína é um fenómeno raríssimo, e questionemo-nos, já agora, se não será por isso que, quando testemunhamos uma, experienciamos logo uma atração inexplicável. Essa atração não é nada fácil de desconstruir, penso que se relacione com as razões que nos levam a desenvolver um gosto por certas pessoas e um desprezo por outras tantas. Quanto a essas razões não me cabe a mim explicá-las, e mesmo que me coubesse jamais conseguiria fazê-lo, mas também não é isso que está em causa. O que está em causa, repito, é a nossa atração pela genuinidade, e creio que não haverá melhor maneira de concluirmos este assunto do que ao provar que ela realmente existe. Penso, adicionalmente, que não haverá maneira mais proveitosa de provar a sua existência do que ao utilizar um episódio do filme em análise. Viajemos, como tal, para o interior do táxi de Jafar Panahi por mais uma vez. Imaginemo-lo a tagarelar com um passageiro sobre ter que ir buscar a sua sobrinha à escola quando, repentinamente, irrompem duas velhinhas vestidas de negro pela porta traseira adentro, gritando esbaforidas que o motorista tem, imperativamente, que as levar a um determinado sítio, por causa de um assunto de vida ou de morte. Inicialmente depreendemos que haja alguém com problemas de saúde, e penso que nisto estamos livres de censuras porque, de facto, é o raciocínio mais lógico, mas estaremos enganados, pois durante a travessia as personagens vão sibilar ao motorista que trazem consigo um peixinho cor-de-laranja que TEM que ser depositado numa determinada fonte ao meio-dia, para que elas desfrutem de uma vida mais longa. A nossa reação a este fenómeno é extraordinariamente contraditória, pois se por um lado censurá-las-emos pelas suas crenças antiquadas, reafirmando assim a nossa superioridade intelectual sem pensarmos que, por vezes, nós próprios acreditamos em coisas que não fazem sentido, por outro nutriremos uma simpatia imediata por estas alarmadas, mas cómicas figuras; não sei se por ficarmos enternecidos com a sua ingenuidade, ou se apenas porque nos fazem rir, mas admito que, por um motivo que não consigo explicar, dei por mim a desejar ardentemente que o taxista chegasse ao destino antes que o relógio batesse o meio-dia.
     É verdade que se o leitor recuasse uns parágrafos apanhava-me a arrazoar sobre o meu desconhecimento de Panahi, e a devanear, posteriormente, que a minha hipotética ignorância poderia levar-me a acreditar na espontaneidade destes episódios. Por esse motivo, creio que falo por todos quando expresso um grande alívio por isso não ter acontecido. De facto, creio que se dúvidas restassem na minha cabeça sobre a encenação do documentário, elas ter-se-iam dissipado após a narração do episódio anterior. Sublinho que a utilização do termo encenação está longe de ter intenções acusatórias; é óbvio que Panahi nunca tencionou enganar-nos, e nós próprios sabemos que o esbatimento do limite entre o real e o ficcional é uma das características desta sua obra. Afianço, também, que adivinhar essa distinção não é uma tarefa nada fácil, e parece-me que as opiniões entre o que foi espontâneo e o que foi encenado divergem de espetador para espetador. Da minha parte, por exemplo, confesso que vi o filme acompanhado por duas pessoas e todos tivemos impressões contrastantes: enquanto uma delas me tentou convencer que o final tinha sido espontâneo mas que tudo o resto fora planeado, outra defendia que era impossível termos a certeza sobre o que quer que fosse, e que portanto era uma perda de tempo andarmos a discutir sobre estes assuntos; da minha parte, aceitei que tivesse havido um certo grau de improviso, talvez num ou noutro episódio, mas ultimei que todas as cenas tinham sido planeadas com uma minúcia invulgar.
     Esta conclusão não advém do meu cinismo e trata-se apenas de uma questão de lógica, porque creio que o documentário está demasiado bem escrito e realizado para ser obra do acaso. Comecemos a justificação deste raciocínio ao reconhecer que a narrativa de “Taxi” está longe de ser convencional, e se por um lado até reconheço a sua linearidade, por outro sou forçado a recordar que o seu protagonista não tem obstáculos ou objetivos bem definidos, como normalmente acontece, limitando-se a ir cumprindo as tarefas do quotidiano que lhe vão aparecendo inesperadamente, sejam elas transportar os seus passageiros ou encontrar-se com um velho conhecido, ou até recolher a sua sobrinha à porta da respetiva escola. É inegável que muitos filmes deste género, sem narrativas simples em que se possam ancorar, perdem nalguns instantes a sua direção, oscilando entre momentos inspirados e outros que não têm nenhum interesse, e por isso acabam por nos levar à abstração e, nos piores casos, à monotonia. “Taxi” é precisamente o contrário, mantém-nos interessados e entretidos de forma constante, há mesmo quem defenda que do primeiro ao último segundo, pois o seu realizador conseguiu enriquecer os episódios que nos vai mostrando com momentos que primam pela tensão ou pelo humor, pelas figuras cómicas e curiosas que os protagonizam e pelos diálogos acesos e fascinantes que elas trocam entre si.
     Quanto aos momentos de tensão já descrevi um deles, precisamente o das idosas que, por uma questão de vida ou de morte, se encontram sob uma pressão intensa de chegarem a uma fonte antes do meio-dia, essas mesmas velhinhas com quem simpatizamos prontamente, que nós próprios transportaríamos se não estivéssemos do lado de cá do ecrã. Este momento de tensão fora precedido de outro de ainda maior intensidade, cuja descrição me parece ser relevante. A situação também despontara com Panahi sentado ao volante do seu automóvel, conversando com um simpático passageiro recostado no banco do pendura, e escalou a partir do momento em que o carro começou a atravessar uma pequena multidão, surgida não se sabe bem de onde. Na altura não tivemos noção de quais eram as causas da comoção, pois no interior do carro a nossa visão era limitada, mas cedo nos apercebemos da sua gravidade quando um conjunto de mãos insiste em bater na janela do taxista. O realizador, apreensivo, trava o automóvel imediatamente, e aceita que lhe depositem um homem ensanguentado no banco de trás, acompanhado por uma esposa num pranto terrível, acometida por uma estrondosa gritaria e com uma voz distinta de cana rachada, suplicando ao marido para que sobreviva, esforçando-se para se calar quando este lhe pede silêncio mas só o conseguindo por breves instantes.
     Há duas semelhanças importantes entre este episódio e o das idosas, que nos mostram como foram geridos os momentos de tensão do filme. A primeira semelhança remete para a criação dessa mesma tensão, originada em episódios que apanharam o espetador, e o taxista, de surpresa, revestidos de tal urgência que o realizador foi obrigado a acelerar até ao destino especificado, para impedir consequências indesejáveis para os passageiros do banco traseiro. Esta tensão foi ainda exacerbada pela gritaria desses passageiros que, quase enlouquecidos com o nervosismo das circunstâncias, insistiram várias vezes ao motorista para que ele se conduzisse mais depressa. A segunda semelhança, por sua vez, relaciona-se com a forma como estes momentos foram dotados de um irrepreensível sentido de humor, alicerçado tanto na peculiaridade das circunstâncias como na comicidade das personagens. Atentemos neste contexto ao segundo episódio: por um lado temos a esposa aos bramidos nervosos e num choro tão sonoro que até faz rir o espetador; por outro há um acontecimento que ocultei até agora, e que se desenrolou durante a viagem até ao hospital. Não sei se o espetador tem conhecimento disto, eu da minha parte obviamente que não sabia de nada, mas acontece que, de acordo com a lei iraniana, quando um homem morre, a sua viúva não tem o direito a herdar o que quer que seja dele, a não ser que ele próprio o tenha especificado em testamento. Para prevenir essa situação, o homem ensanguentado, que pensa encontrar-se às portas da morte, roga a Panahi para que pegue num telemóvel com uma câmara de filmar e o grave a declarar, solenemente, que todos os seus bens deverão ser transmitidos à sua esposa. A mulher, por seu turno, até interrompe o seu pranto histérico para apoiar esta decisão. Não sei se será pela singularidade da situação ou se pela atrapalhação dos tripulantes do táxi em tentar aceder ao pedido, mas asseguro ao leitor que é inumano exigir a qualquer espetador que se não ria, comovido, com o que está a testemunhar, e que não simpatize com estas figuras, quer por causa da sua emotividade, quer simplesmente porque elas nos fazem rir.
     De facto, apontaria o sentido de humor como uma das principais características do filme, e apesar de poder assegurar que ele não se evidencia, somente, nas situações mais tensas e inauditas, relembro ainda assim o leitor de um aferimento que aprendi numa entrevista com o John Cleese e que, desde aí, não me canso de repetir, como se percebesse alguma coisa do assunto. Revelou-nos ele sabiamente que, muitas vezes, o humor conjuga-se particularmente bem com as cenas de maior intensidade porque, nos instantes em que o espetador está acometido pela tensão, uma circunstância bem-humorada pode permitir-lhe libertar-se e rir-se mais do que estaria à espera. Não admira portanto que, nas cenas mais tensas de “Taxi”, oscilemos entre um agarrar do assento e um esforço para não cairmos dele. Mas o humor do filme manifesta-se também, e diria mesmo que acima de tudo, nas suas simpáticas personagens, que por norma se assemelham a aqueles indivíduos que são tão sensíveis, tão impressionáveis que, mesmo quando estão indignados, possuem uma estranha comicidade, não sei se pela sua ingenuidade ou se pela sua boa natureza. Duvido que esta impressão seja um mero fruto do acaso e, como tal, remetê-la-ia para dois aspetos distintos: por um lado para a escolha eficaz dos seus atores que, mesmo sendo amadores, e de identidades necessariamente anónimas, conseguiram ter interpretações de inesperada naturalidade, quase que nos convencendo da espontaneidade das suas emoções; por outro lado, para a excecionalidade de muitos diálogos, que nos surpreendem com o seu conteúdo e com os timings em que são proferidos. Recordo-me de um exemplo particularmente ilustrativo que conjuga, na perfeição, todos os pormenores que acabei de especificar, por consistir numa tirada cómica, proferida de forma inesperada, no seguimento de um ensejo de tensão. Desenrola-se logo a seguir ao episódio da mulher exaltada. Na altura em que narrei essa cena, por pouco não mencionei o passageiro sentado no banco do pendura, um extrovertido interlocutor que, antes de ter a companhia do homem ferido, ia captando toda a nossa atenção, ao informar Jafar Panahi que traficava filmes ocidentais e que, numa ocasião, até chegara a entregar um em sua casa, pelo que sabia perfeitamente a identidade do condutor do táxi. Assegurava ele também, inchado de orgulho, que não era parvo nenhum, e que já se apercebera que a presença daquelas câmaras no interior do automóvel só podiam significar uma coisa, mas Jafar Panahi que não se preocupasse, pois o seu segredo estava em excelentes mãos. Entretanto, a conversa foi interrompida pela sequência do casal, que terminou com o homem a ser depositado num hospital, com uma esposa histérica a galopar à sua volta, bramindo numa verdadeira choradeira. Nesse momento encontramo-nos afetados por uma mistura entre aturdimento e boa disposição, e eis que o nosso interlocutor, que testemunhara nervosamente o episódio, lembra-se de fixar um olhar cheio de manha no cineasta e, rindo-se triunfantemente, declara ter-se apercebido do que se tinha acabado de passar. É provável que outro passageiro tivesse sido enganado, mas ele, jamais: aquela cena fora, decididamente, encenada para o filme. Surpreendidos com a reação e admirados com o orgulho do traficante, libertamos a nossa tensão com uma inesperada gargalhada, e constatamos como a fronteira entre a realidade e a ficção do filme fora mais uma vez quebrada, e com tamanha naturalidade.
     Nos extensos parágrafos até agora redigidos evidenciei o método com que Jafar Panahi decidiu realizar o filme em análise, evidenciei a forma como ele foi expondo a narrativa através do seu próprio olhar, esbatendo continuamente os limites entre o que é espontâneo e o que é encenado, introduzindo personagens fascinantes com quem é fácil de simpatizar, que protagonizam momentos de sentida tensão, e que disparam diálogos com um sentido de humor perpetuamente presente. Por estas razões o realizador concedeu ao filme não apenas um interesse que nunca se desgasta mas, também, uma sensação de imprevisibilidade, que mantiveram este espetador preso aos seus acontecimentos. Estas características, no entanto, constituíram somente um meio para atingir um fim; isto é, uma forma de manter o espetador interessado na mensagem que o cineasta nos quis transmitir. Resta-me refletir no conteúdo dessa mensagem. Quais terão sido, portanto, os objetivos de Panahi ao realizar a obra em análise? Atendendo ao conteúdo da narrativa, creio que eles se resumam a um retrato complexo da sociedade de Teerão: começando pela ilustração dos seus habitantes, passando pelas questões da pobreza e da criminalidade e terminando, dramaticamente, nas restrições impostas pelo governo iraniano e pelas injustiças da lei islâmica.
     Sobre a ilustração dos habitantes de Teerão penso ser relevante realçar que as personagens apresentadas são completamente distintas entre si, tanto no que toca às suas personalidades, como ao que respeita ao seu género e à sua faixa etária, e à sua profissão e à sua classe social. Já mencionei as velhinhas vestidas de negro, fervorosamente supersticiosas, e o homem de meia-idade que traficava filmes, que tinha um espírito certamente mais prático; também referi o homem ensanguentado ferido numa espécie de manifestação, e até a sobrinha do realizador que não passa de uma criança, inteligente, é certo, mas igualmente ingénua. Nos instantes iniciais da narrativa até testemunhamos um debate aceso entre uma professora e um homem que ganha a vida a roubar os mais abastados, sobre as consequências da pena de morte. Não obstante as suas distinções estas personagens unir-se-ão pela sua emotividade, o que não me parece ser um fruto do acaso, pois, como se sabe, os habitantes desta metrópole são muitas vezes descritos, precisamente, pela sua sensibilidade e afabilidade.
     A pobreza e a criminalidade, por sua vez, encontram-se inevitavelmente ligadas, e são-nos expostas numa diversidade de interações entre numerosas personagens. É exemplo disso o diálogo entre a professora e o tal ladrão, no qual o segundo critica os que decidem roubar os mais pobres, indignando-se ao enunciar o caso de um amigo a quem furtaram os pneus do carro, enquanto a primeira lhe responde, pedagogicamente, que os crimes advêm da pobreza que aflige grande parte da população, e que portanto não podem ser solucionados com execuções em massa, mas sim ao conceder-se melhores condições de vida aos habitantes de Teerão. Há ainda um episódio importante em que se expõe não apenas a pobreza mas, também, o visível fosso que separa os pobres dos mais abastados, em que observamos uma criança a cirandar um par de recém-casados, como quem não quer a coisa, a aperceber-se de uma nota que caíra do bolso do noivo e a apropriar-se dela, concentrando-se, em seguida, a vasculhar um contentor do lixo. O crime é testemunhado pela sobrinha de Panahi que, inocentemente, chama o jovem à sua beira, suplicando-lhe que devolva o dinheiro ao proprietário original. O jovem retorque, educadamente, que não compreende a insistência da rapariga, e insiste que o dinheiro nem lhes faria falta nenhuma, mas, ainda assim, acede ao pedido e encaminha-se timidamente para os noivos. O casal, por essa altura, ia-se divertindo a aparecer em fotografias à frente do seu luxuoso carro negro, sem sequer se dar conta da presença do jovem que, timidamente, se aproximava, e, mesmo quando se apercebem, limitam-se a mandá-lo à sua vida, ao que me parece com censurável sobranceria.
     Se as críticas às injustiças da lei islâmica se limitam, praticamente, ao episódio do marido pressionado a fazer um testamento à pressa, a caminho do hospital, as destinadas ao governo iraniano parecem-me muito mais preponderantes e inesperadamente frontais. É possível que no decorrer deste texto o leitor tenha descortinado uma ou outra, quando a professora e o ladrão estavam a debater sobre a pena de morte e a pobreza da população, ou na ocasião em que o homem do testamento ficou ensanguentado numa manifestação, e até na necessidade de haver um traficante de filmes que nos dá a entender que os governantes censuram tudo o que seja ocidental. No entanto, apesar da frequência com que estes comentários e observações se vão dispersando pelo enredo, há dois episódios distintos em que as críticas ao regime são particularmente diretas, e ineditamente evidentes, nesta obra de Jafar Panahi.
     O primeiro desenrola-se durante um longo diálogo entre o taxista e a sua sobrinha, uma daquelas crianças que por vezes se comporta como uma adulta, exigindo explicações ao tio num tom muito sério por ter chegado atrasado, mas com uma indignação unicamente passageira, propositadamente exagerada, e numa questão de segundos já está a deixar transparecer a sua alegria ingénua. O realizador, muito sagazmente, aproveita essa ingenuidade para tecer as suas críticas. Sucede que a rapariga carrega ao pescoço uma pequena máquina de filmar, pois a escola incumbira-lhe de realizar uma curta-metragem, mas com tantas regulamentações impostas, detalhando o que era ou não aceitável, que ela nem tem a certeza sobre que história poderá contar. Ironicamente intrigado, o realizador pergunta-lhe sobre o conteúdo dos regulamentos, e ouvirá, numa mistura de risos sarcásticos com profundo desdém, a criança a explicar-lhe que lhe ensinaram na escola que os “filmes distribuíveis” têm que se coadunar com os ideais do regime e da religião, e que a criatividade dos seus realizadores é restringida ao máximo, e que qualquer tipo de espírito crítico é prejudicial para todos os envolvidos.
     No segundo episódio estes regulamentos serão drasticamente quebrados. A ocorrência tem lugar quando, estava o carro em andamento numa avenida larga, em hora de ponta, e a sobrinha de Panahi comunica ao condutor que «está ali a senhora das rosas». O leitor estará provavelmente a pensar o mesmo que me passou pela cabeça, que a jovem avistara uma senhora que vendia flores na rua, mas na realidade não fora bem assim. Esta personagem era a advogada de presos políticos do regime iraniano, e trazia, de facto, um bouquet de rosas na mão, mas com o propósito de oferecê-lo a uma das suas clientes, uma rapariga aprisionada por tentar assistir a um jogo de voleibol masculino – curiosamente esta história aconteceu na realidade e, além disso, assemelha-se à premissa de “Offside”, um filme realizado por Panahi em 2006. Por esta altura damos por nós a pensar que o cineasta está a ser invulgarmente direto, e começamos a temer pelas consequências das suas críticas, mas na verdade ainda nem vimos nada, pois nos minutos seguintes a advogada faz questão de explicar à criança e, acima de tudo, ao espetador, os métodos utilizados pelo governo para marcar os seus presos políticos, explicando-nos que quando eles são libertados continuam sob uma vigilância apertada, perpetuamente manchados na sociedade, declarariam os mais dramáticos que caídos em desgraça, pelo que, sentencia ela, mesmo quando eles estão em liberdade, nunca se sentem realmente livres; pressentem, ao invés, que o mundo exterior é agora a sua nova cela, mas uma de proporções inimagináveis.
     É perfeitamente possível que Jafar Panahi se encontre nessa mesma situação. Afinal de contas sabemos que ele próprio desfruta de uma ansiada liberdade de movimentos mas que, no entanto, está impossibilitado de realizar um filme sem sair do interior de um automóvel, que, se quisermos ser criativos, podemos interpretar como uma espécie de cela, em que foi enclausurada a sua própria arte. Independentemente da sua clausura, e do possível pressentimento de que o mundo exterior é agora uma prisão, o cineasta encontrou uma nova forma de combater a sua restrição. Assim sendo, ao invés de ser “apenas” um filme, “Taxi” é também uma manifestação de rebeldia, e força, contra um regime autoritário, formado por uma massa de indivíduos que desrespeita a humanidade, que aprisiona e executa cidadãos com impensável arbitrariedade, mesmo que se mostre incansável em defender os seus ideais retorcidos para o mundo exterior. Por essa razão não caracterizaria esta obra como uma carta de amor ao cinema, como muitos críticos têm feito, até porque essa expressão me parece tão vaga, tão pré-fabricada, que duvido que se adeque ao filme. Classificá-la-ia, em vez disso, como um verdadeiro pirete ao governo iraniano; mas um pirete eximiamente executado, que enfrenta corajosamente um cárcere despojado de qualquer tipo de moral, e que pelo caminho imerge o espetador num dos melhores filmes que vão passar pelas nossas salas no decorrer deste ano.

Ficha técnica:

Título original: "Taxi"
Título em Portugal: "Táxi de Jafar Panahi"
Realização: Jafar Panahi
Argumento: Jafar Panahi
Elenco: Jafar Panahi

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