30 agosto 2015

Resenha Crítica: "The Social Network" (A Rede Social)

 A certa altura de "The Social Network", Eduardo Saverin (Andrew Garfield), co-fundador do Facebook, realça a velocidade com que Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, dialoga. Ao longo de "The Social Network" esta é uma situação com a qual nos deparamos, com David Fincher a conseguir captar a ferocidade e acutilância dos diálogos de Aaron Sorkin, explorando um argumento capaz de abordar temáticas melindrosas sobre Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), a criação do Facebook e todo um intrincado conjunto de acontecimentos numa narrativa que deambula entre um encontro entre advogados, que opõe o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a Saverin, bem como aos irmãos Winklevoss (ambos interpretados por Armie Hammer) e a Divya Narendra (Max Minghella), em dois processos distintos, e os episódios do passado que os conduziram a toda esta situação. Jesse Eisenberg tem uma interpretação que marca uma carreira, conseguindo explorar a sobranceria e arrogância de Mark Zuckerberg (como personagem ficcional), expostas em algumas falas mais ácidas e episódios nem sempre gratificantes, embora nunca desumanize o mesmo ao ponto de querermos deixar de seguir esta figura que tanto tem de genial como de abrasiva e pouco capaz de manter uma amizade. As suas vestimentas são quase sempre informais, muito marcadas por camisolas da Gap, não tendo problemas em ir de chinelos para uma reunião importante, algo que transmite ainda mais a ideia de que se está a lixar para os seus interlocutores ao longo dos diálogos com os advogados. A certa altura chega mesmo a dar mais atenção à chuva que cai fora da sala de reuniões do que ao advogado dos Winklevoss, até desfazer os irmãos intelectualmente ao expor a incapacidade dos mesmos em criarem uma rede social como o Facebook. Durante o filme, o protagonista salienta à sua ex-namorada que não quer ficar amigo desta, algo que se parece estender à maioria da humanidade, uma situação que é visível ao longo de "The Social Network" com este a apresentar uma genialidade a nível de programação que é semelhante à sua inabilidade em lidar com os outros seres humanos. Diga-se que tem pouca vontade de lidar com os mesmos, com o único amigo que tinha, Eduardo Saverin, a ser traído pelo protagonista quando o negócio começa a sobressair, embora durante a fase inicial tenha sido um dos apoios de Zuckerberg. David Fincher expõe logo de início, de forma precisa e concisa, a personalidade irascível e pouco dada a preocupar-se com os outros do seu protagonista, com diálogos rápidos a serem trocados, enquanto Zuckerberg exibe toda a sua arrogância diante de Erica Albright (Rooney Mara), a sua namorada, indo desde comentários sobre a Faculdade que esta vai frequentar até ao facto desta poder passar a conhecer gente que de outra forma nunca entraria em contacto se o personagem interpretado por Jesse Eisenberg conseguisse entrar num "clube social" relevante em Harvard. Escusado será dizer que o namoro termina ali, se é que já não estava a dar as últimas há muito tempo, com Erica a expressar a sua indignação para com a arrogância de Mark e o desprezo que este parece ter por ela, ou pelo menos a pouca capacidade que tem em demonstrar alguma sensibilidade a dialogar, uma situação que conduz o personagem interpretado por Jesse Eisenberg a ir até ao seu dormitório e escrever no seu blog algumas ofensas sobre a ex, algo que vai chegar a um conjunto alargado de pessoas, incluindo à própria. Os actos de Zuckerberg não se ficam por aí. Pouco tempo depois, rouba fotos de alunas de Harvard, presentes nas páginas dos respectivos "clubes sociais" ou residências, criando o Facemash, um site que permitia avaliar as mulheres deste espaço de ensino, com o protagonista a revelar uma enorme habilidade a nível de programação, furtando informação com uma facilidade impressionante, num acto que tem tanto de brilhante como de misógino e ilegal.

Estes momentos ocorrem em 2003, com o Facemash a ser um sucesso a ponto de arrasar com o tráfego da internet de Harvard, com Zuckerberg a ser chamado para prestar contas na reitoria, passando a ser persona non grata junto de boa parte das mulheres, embora não tenha problemas em salientar que a Faculdade é que lhe deveria estar agradecida já que, ao penetrar nos vários sites e no sistema informático deste espaço, acabou por deixar visíveis as suas debilidades perante possíveis ataques. É a arrogância do protagonista no seu esplendor, com Jesse Eisenberg a parecer tirar um enorme prazer a expor estas falas acutilantes, que tanto exibem a sobranceria de Zuckerberg como a sua enorme capacidade intelectual e incapacidade de muitas das vezes apresentar alguma sensibilidade diante dos outros. A faceta de Zuckerberg que nos é apresentada é a de uma figura pouco dada a grandes amizades, com enorme inabilidade a dialogar com os outros, apesar de ter um talento genial e, curiosamente, a ter estado na génese de uma rede social que efectivamente contribui para a perda do contacto visual na comunicação entre seres humanos. Mais do que respeitar o rigor histórico, David Fincher procura criar uma narrativa dinâmica, inspirada em figuras e episódios reais, concentrando o enredo num determinado período de tempo ao invés de efectuar um filme biográfico que procura explorar boa parte da vida do protagonista. Diga-se que Fincher nem nos procura bombardear com explicações excessivas sobre os termos utilizados, procurando antes concentrar-se na história desta figura complexa, durante um período de tempo relativamente curto que coincidiu com a criação de uma das redes sociais mais populares do Mundo. A própria maneira rápida, precisa e acutilante com que os diálogos são expostos por vários dos personagens remete imenso para a forma como a circulação de notícias passou a ser efectuada com o recurso às redes sociais como o Facebook e o Twitter, com estas a terem de ser simultaneamente apelativas, incisivas e capazes de despertar a atenção do público para "ganharem" os cliques. Os próprios espaços como blogs perderam boa parte da sua relevância, com as páginas criadas no Facebook e os grupos a terem substituído praticamente os mesmos. Veja-se os casos de blogs, sites e até revistas de cinema online que passaram a publicar os textos directamente no Facebook ou outros que dependem do mesmo para o estimular do debate e aumentar das visualizações (este blog não é excepção). Também as relações sociais mudaram com o Facebook, não faltando utilizadores que praticamente colocam cada passo que dão na sua página, expondo a intimidade com uma facilidade brutal a ponto de pensarmos quando chegará o dia em que colocarão fotos a defecar. Diga-se que esta mudança nas relações é abordada no filme, com o pedido de uma pessoa para que outra a adicione posteriormente no Facebook a passar a ser algo de comum. Serve esta divagação para pegar na frase de Sean Parker de que o Facebook é "a verdadeira digitalização da vida real", algo que traduz bem uma procura inicial do protagonista em reproduzir o espírito dos grupos académicos para a rede social, ou esta não tivesse sido apresentada no filme como inicialmente exclusiva para os utilizadores com mail de Harvard, até se ter expandido com o êxito que se conhece. A universidade é exposta como um local marcado por hierarquias e "clubes sociais" que remetem para os estatutos sociais de cada um, com o Porcellian a ser considerado o melhor, o Phoenix o mais diversificado (onde pertence Eduardo), entre outros, com Mark a não pertencer a nenhum, uma situação que contribuiu para algum ressentimento por parte do mesmo. Estes clubes contêm regras muito próprias, algo visível quando Cameron e Tyler Winklevoss, dois elementos da equipa de canoagem de Harvard e da equipa olímpica dos EUA, acompanhados por Divya Narendra, convidam Zuckerberg para os ajudar a desenvolver a HarvardConnection, uma rede social onde poderiam criar biografias e fazer pedidos de amizade virtuais, utilizando o mail específico de Harvard tendo em vista aos utilizadores ficarem, entre outras coisas, a conhecerem mulheres. Zuckerberg não pode ir além da sala de bicicletas, pois não é um membro do Porcellain, parecendo inicialmente interessado na ideia até ignorar por completo o trio ao longo de várias semanas, criando entretanto o TheFacebook.

A ideia é apresentada por Mark Zuckerberg a Eduardo Saverin, com este último a surgir como o director financeiro e co-fundador, para além de ser aquele que injecta as finanças iniciais para tudo começar a funcionar. A ideia é exposta da seguinte forma: "People want to go online and check out their friends, so why not build a website that offers that? Friends, pictures, profiles, whatever you can visit, browse around, maybe it's someone you just met at a party. Eduardo, I'm not talking about a dating site, I'm talking about taking the entire social experience of college and putting it online", com Saverin a entrar de imediato no "barco". O TheFacebook torna-se um sucesso inesperado, com a rede social a crescer de forma exponencial, a ponto de despertar a fúria dos irmãos Winklevoss e de Narendra, que consideram ter visto a sua ideia a ser roubada, algo que mais tarde os vai conduzir a procurarem um advogado de forma a tomarem medidas legais, após terem falhado todos os meios para impedir Zuckerberg. Esta é também uma história marcada por traições, inveja, erros cometidos e feitos que superam as expectativas, com Mark Zuckerberg a ser apresentado como um indivíduo que está longe de ser uma pessoa que queríamos ter como amigo na vida real. David Fincher omite diversas figuras que rodearam a criação do Facebook e a sua expansão, tal como toma diversas liberdades para incrementar a tensão dramática em volta do enredo, com o cineasta a retratar episódios contemporâneos com argúcia, sem problemas em abordar questões melindrosas, evitando pelo caminho cair na armadilha de efectuar uma hagiografia sobre Mark Zuckerberg, embora convenha existir sempre alguma parcimónia em relação àquilo que nos é apresentado ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica de ficção. Essa parcimónia deve ser tomada em situações como a relação entre Eduardo Saverin e Mark Zuckerberg, com o primeiro a surgir como a figura traída pelo amigo e o segundo como um indivíduo ambicioso, que procura chegar ao topo a todo o custo, com "The Social Network" a esboçar quase uma dualidade entre ambos, com o protagonista a simbolizar o lado negro do mundo de negócios, algo que pode ter um fundo de verdade, embora não corresponda totalmente à mesma. Andrew Garfield é outro dos destaques do elenco ao interpretar um personagem que procura muitas das vezes surgir como a voz da razão, menos ambicioso que o seu amigo, entusiasmado em relação ao sucesso do Facebook apesar de nem sempre parecer estar à altura dos acontecimentos, sentindo-se a certa altura traído por Zuckerberg. O sentimento de traição ou ressentimento começa a ser visível com a entrada em cena de Sean Parker, com Justin Timberlake a interpretar um personagem excêntrico e paranoico, com ideais de grandeza que parecem influenciar o protagonista, levando um estilo de vida completamente louco, sobretudo quando Zuckerberg segue o conselho de seguir para a Califórnia. Timberlake é um dos destaques entre os personagens secundários, com o actor a lançar as suas falas ao mesmo ritmo do estilo de vida louco de Sean, com este a formar amizade com Mark e uma animosidade notória com Saverin. A entrada em cena de Sean surge já numa fase de procura de expandir o Facebook, entretanto já com o nome alterado, e ganhar dinheiro com o mesmo, com as ideias de Saverin e Zuckerberg a começarem a divergir. Assistimos ao crescimento de uma empresa e aos difíceis jogos de alianças e traições no interior da mesma, com o Facebook a surgir inicialmente como algo indefinido até tornar-se numa rede social com um valor económico brutal que transformou o seu criador num dos mais jovens bilionários.

David Fincher avança com a narrativa a um ritmo imparável, com as cerca de duas horas de "The Social Network" a parecerem durar muito menos, enquanto somos absorvidos para o interior de um enredo onde os diálogos são trocados a enorme velocidade, dotados de uma qualidade assinalável, com o cineasta a exibir-se mais uma vez exímio a juntar o estilo e a substância, com a cinematografia de Jeff Cronenweth e a banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross a terem uma relevância notória ao longo da obra cinematográfica. A banda sonora de Reznor e Ross substitui os diálogos em algumas cenas ou sobrepõe-se aos mesmos, tanto incrementando os momentos mais tensos como os mais delirantes. Veja-se quando encontramos Sean Parker a reunir-se pela primeira vez com Mark, Eduardo e a namorada deste último, com a banda sonora a bombear a narrativa, ou uma partida de canoagem onde participam os irmãos Winklevoss, perdida pelos mesmos, onde o som substitui os diálogos e intensifica a carga dramática. Já a cinematografia sobressai em diversos trechos de "The Social Network", sejam estes na sala onde Mark se encontra reunido com os seus advogados, bem como os Winklevoss, Saverin e os respectivos advogados, seja nas trocas de diálogos rápidas, seja nas cenas nos clubes nocturnos a partir da entrada em cena de Parker, seja nas cenas exteriores como no momento em que o protagonista pede para sair de uma festa para falar com o personagem interpretado por Andrew Garfield na rua. Nesse momento, sobressai a iluminação oriunda do espaço onde estavam, um clube onde decorria uma festa exótica que estava a irritar o protagonista, com a escuridão da noite a permear o cenário enquanto Zuckerberg aparece decidido a expor a ideia que resultará no TheFacebook. Se as figuras masculinas ganham uma enorme relevância ao longo do enredo, já as personagens femininas nem sempre são devidamente exploradas. Veja-se Rooney Mara, uma actriz de talento considerável que surge como uma mulher que despreza a sobranceria de Zuckerberg, ou Rashida Jones como Marylin Delpy, uma associada na empresa de advocacia que se encontra a tratar da defesa do protagonista, que procura apresentar compreensão para com o mesmo, embora também não se esconda a realçar aquilo que pensa, apesar de surgir como uma figura demasiado secundária. Outras figuras reais que ajudaram na criação do Facebook, tais como Dustin Moskovitz (Joseph Mazzello), surgem representadas de forma bastante secundária, com Mazzello a pouco sobressair durante "The Social Network". Ao longo do filme, ficamos não só diante de uma representação ficcional da génese do Facebook e do seu crescimento, mas também de um conjunto de relacionamentos intrincados, onde não falta a euforia típica do sucesso, traições, inveja e uma representação do protagonista que exibe o seu feitio complicado e controverso, com Jesse Eisenberg a ter uma interpretação marcante, conseguindo expor as falas do personagem que interpreta com um enorme à vontade e fluidez, parecendo até tirar algum prazer na arrogância de Zuckerberg e na sua inabilidade em lidar com os outros. A Armie Hammer cabe interpretar dois irmãos com propósitos relativamente claros, mas sem os recursos a nível de conhecimento para criarem uma rede social. Temos ainda os já realçados Andrew Garfield e Justin Timberlake, com o primeiro a procurar explorar o lado mais contido de Saverin, enquanto o segundo expõe a personalidade expansiva de Sean, com David Fincher a conseguir explorar o talento do seu elenco masculino. Com um conjunto de diálogos acutilantes e bem elaborados, expostos a um ritmo assinalável ao longo de uma narrativa dinâmica, intensa e fluída, "The Social Network" é muito mais do que o filme sobre a criação do Facebook, com David Fincher a procurar explorar os intrincados relacionamentos entre os personagens que povoam o enredo, permitindo a Jesse Eisenberg ter uma interpretação notável, numa obra onde mais uma vez o cineasta junta estilo e substância, sobressaindo ainda a magnífica banda sonora de Atticus Ross e Trent Reznor.

Título original: "The Social Network". 
Título em Portugal: "A Rede Social".
Realizador: David Fincher.
Argumento: Aaron Sorkin (inspirado no livro "The Accidental Billionaires" de Ben Mezrich).
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Max Minghella.

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