04 agosto 2015

Resenha Crítica: "Singin' in the Rain" (Serenata à Chuva)

 Musical contagiante, recheado de humor, romance, algum drama e um olhar para um período de mudança na História do Cinema, "Singin' in the Rain" surge como um dos mais brilhantes exemplares do género num período ainda de ouro para o mesmo. Lançado originalmente em 1952, "Singin' in the Rain" foi produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer através da sua divisão de musicais, liderada por Arthur Freed, com este a ter um papel de relevo para o desenvolvimento de obras cinematográficas como "Easter Parade", "On the Town", "An American in Paris", entre outras do género que marcaram gerações. Realizado por Stanley Donen e Gene Kelly, a mesma dupla de "On the Town" e posteriormente de "It's Always Fair Weather", "Singin' in the Rain" é um marco nos musicais, transportando-nos para Hollywood em 1927, durante a transição dos filmes mudos para os talkies. Diga-se que "Singin' in the Rain" integra uma longa lista de filmes que abordam questões relacionadas com os bastidores de Hollywood, que vão desde "Sunset Boulevard", "The Bad and the Beautiful", "The Barefoot Contessa", aos mais recentes "The Artist" e "Birdman", com o musical a apresentar um tom maioritariamente leve, onde os números musicais facilmente ficam na memória ao mesmo tempo que o argumento vangloria e ironiza com o meio cinematográfico. Essa situação é visível logo no início do filme, quando assistimos à estreia do novo filme mudo protagonizado por Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen), uma dupla que faz as delícias do público e da imprensa devido a um suposto envolvimento entre ambos. A relação é inexistente devido a Don não suportar a colega, enquanto esta é demasiado limitada a nível de inteligência para perceber que o envolvimento entre o dois é um produto de marketing para a imprensa. O jogo de aparências começa desde logo quando Don explica na passadeira vermelha como foi a sua ascensão ao estrelato, com as suas falas recheadas de momentos de brilhantismo a contrastarem com os flashbacks: diz que aprendeu a dançar e cantar numa escola de música com Cosmo Brown (Donald O'Connor), o seu melhor amigo, mas na realidade dançavam em bares, fala que frequentava os melhores teatros mas entrava à socapa nos cinemas para ver filmes de trampa com o personagem interpretado por Donald O'Connor, entre outros momentos. No final da exibição do filme, os aplausos são gerais mas apenas Don fala. Percebemos então que Lina tem uma voz extremamente esganiçada, que facilmente despertaria o riso da plateia e tiraria a imagem de diva criada em volta da mesma. Após o final da sessão, Don logo sai com Cosmo, no carro deste último. Perante a avaria do bólide e a euforia dos fãs, Don tem de entrar em fuga, acabando por entrar acrobaticamente no carro de Kathy Selden (Debbie Reynolds), uma jovem mulher que logo entra em pânico até descobrir a identidade do invasor. Kathy logo despreza o trabalho deste ao salientar que os filmes são praticamente todos iguais, algo que gera momentos de algum humor com a jovem sardónica a mexer com o ego do astro, até então habituado a ser idolatrado pelos fãs.  Don não esconde o escândalo ao ver alguém desafiar a sua arte, ou melhor, a não considerar as suas representações um modo de expressão artística, com a dupla de actores a ser brilhante na forma como cria logo uma interacção que instiga o nosso interesse em relação ao futuro de ambos.

Os personagens interpretados por Gene Kelly e Debbie Reynolds acabam por reencontrar-se na festa após a ante-estreia do filme protagonizado por Don e Lina, com o protagonista a descobrir que Kathy trabalha como bailarina. O momento musical que esta protagoniza com as colegas é marcado por alguma sensualidade, mas também pelo tom caricato da situação, com Don a não perder a oportunidade de ironizar com Kathy. Num momento de fúria, esta tenta atirar um bolo a Don mas acerta em Lina que logo consegue que Kathy seja despedida. É nessa festa que se fala do advento dos talkies e do lançamento de "The Jazz Singer", embora poucos pareçam levar a sério o possível sucesso do filme. No entanto, o sucesso de "The Jazz Singer" veio a mudar Hollywood, com o público a clamar por mais filmes do género e os estúdios logo começaram a preparar-se para estas mudanças que tantas transformações trouxeram. O advento dos talkies conduziu a que várias estrelas da época tivessem de se adaptar a uma nova realidade e algumas vedetas tenham caído no ocaso. Mary Pickford deixou a representação em 1933, John Gilbert gradualmente caiu em desgraça, com "Singin' in the Rain" a aproveitar para expor Lina como uma actriz completamente inadaptada aos talkies. De voz esganiçada, pouco fluente a comunicar, egocêntrica e pouco inteligente, Lina facilmente se torna uma dor de cabeça para R.F. Simpson (Millard Mitchell), o líder da Monumental Pictures, o estúdio com o qual esta e Don têm contrato. Jean Hagen tem alguns momentos de brilhantismo a interpretar esta personagem meio caricatural, meio real, que facilmente nos faz esboçar um sorriso com a sua falta de noção em relação à realidade. Não vão faltar momentos de humor aos ensaios com microfones, com "Singin' in the Rain", ainda que num tom leve e meio de paródia, a procurar explorar as dificuldades iniciais dos elementos ligados ao meio cinematográfico em adaptarem-se a todas estas alterações que os talkies implicavam. Quando se dá a pré-estreia de "The Dueling Cavalier", o novo filme protagonizado por Don e Lina, desta vez sonoro, o desastre é total, com o som a estar muitas das vezes fora de sincronia, a voz desta a provocar risos, a sonoplastia a ser um desastre, com Don e Simpson a preverem um desastre enquanto Lina é a única que parece satisfeita com a obra cinematográfica. No entanto, o que pareceria um desastre logo é visto como uma oportunidade para o filme ser transformado num musical, com Kathy e Cosmo a ajudarem Don nos números. A ideia surge num momento de grande inspiração, com "Singin' in the Rain" a brindar-nos com o célebre "Good Morning", com Kathy, Cosmo e Don a cantarem de madrugada. Diga-se que os números musicais do filme são na maioria sublimes, variando entre o contagiante e o extravagante, com a câmara de filmar a acompanhar de forma brilhante os movimentos dos actores e a contribuir para o ritmo movimentado que o filme assume. O número musical mais icónico é provavelmente aquele que dá o título ao filme, com Gene Kelly a cantar alegremente à chuva, acompanhado pelo seu chapéu de chuva, embora não faltem outros números que facilmente ficam na memória. Veja-se o hilariante "Make 'Em Laugh", com Donald O'Connor a exibir todo o seu talento para a pantomina, já para não falar no romântico momento em que Don conduz Kathy até a um set de filmagens vazio para expor alguns dos seus sentimentos em relação a esta com a música "You Were Meant For Me", num trecho de enorme inspiração de "Singin' in the Rain" onde tudo parece funcionar, incluindo a paleta cromática. 

Temos ainda o número musical no qual participaram Gene Kelly e Cyd Charisse, uma actriz e dançarina de talento reconhecido, intitulado de "Broadway Melody", naquele que é um dos trechos de maior extravagância do filme, com a dupla de realizadores a conseguir integrar os momentos musicais de forma orgânica no interior do enredo a ponto de raramente sentirmos que algum número seja desnecessário para a trama. Os números musicais são na maioria bem coreografados, com Gene Kelly a revelar uma enorme habilidade quer para estes momentos onde canta, dança e contagia, quer nas cenas mais sérias ou de maior acalmia. Este interpreta de forma praticamente imaculada um actor que teme vir a conhecer o desprezo do público, após ter subido a pulso no interior do estúdio onde era um mero figurante. Kelly convence-nos com o seu carisma e talento, transmitindo a enorme energia e simpatia que o personagem que interpreta emana, sobressaindo ainda a interacção deste com Debbie Reynolds e Donald O'Connor. Reynolds interpreta quase uma ingénua, uma jovem com uma voz doce, talentosa e algo sardónica, que conquista e deixa-se conquistar pelo protagonista, formando uma enorme cumplicidade com o personagem interpretado por Gene Kelly. Os momentos entre os dois surgem inicialmente marcados por enorme humor, quer quando Kathy revela o seu desprezo pela Sétima Arte, quer quando Don descobre a profissão desta, até começarem a envolver-se. A química entre os dois actores é notável, tal como a relação de amizade entre Don e Cosmo. Donald O'Connor interpreta um personagem quase sempre na sombra do protagonista, embora seja um baluarte do mesmo, quer por muitas das vezes estar responsável pela parte musical dos seus filmes, quer por ser um dos seus amigos de longa data. O actor não poupa no humor físico, enquanto Jean Hagen destaca-se a interpretar uma versão destrambelhada de uma diva do cinema mudo que se prepara para cair em desgraça. Hagen cria uma personagem que facilmente desperta o nosso riso, bem como alguma irritação, servindo sobretudo para Gene Kelly e Stanley Donen explorarem as dificuldades que alguns actores e actrizes encontraram na transição dos filmes mudos para os sonoros. "Singin' in the Rain" é também um filme sobre Hollywood, abordando não só as mudanças na indústria do mudo para os talkies, mas também questões relacionadas com a elaboração dos filmes, o culto das celebridades, o comportamento das estrelas, tudo com muitos números musicais à mistura, tendo como núcleo central Don, Cosmo e Kathy. A dinâmica entre este trio, em grande parte graças aos desempenhos de Gene Kelly, Donald O'Connor e Debbie Reynolds, é parte essencial de "Singin' in the Rain", com o argumento a permitir atribuir alguma densidade a estes elementos, numa obra que parece ter sido elaborada com uma enorme paixão. Não falta ainda romance, alguns contratempos e muita fantasia, numa obra cinematográfica que nunca pretende forçar no drama. Isso não implica que não se note um enorme trabalho a nível do argumento, bem como dos valores de produção, sobressaindo os cenários interiores (veja-se a representação dos sets, na maioria pertencentes à MGM, bem como a casa do protagonista, onde ficamos diante do célebre número "Good Morning"), o magnífico trabalho com a câmara, as coreografias dos números musicais, a utilização da paleta cromática, o timing certeiro em boa parte dos momentos cómicos, entre vários outros elementos que contribuíram para que "Singin' in the Rain" tenha conquistado o seu lugar na História do Cinema. Contagiante, envolvente, marcado por alguns pedaços de brilhantismo, "Singin' in the Rain" é um dos grandes musicais de Hollywood, com Stanley Donen e Gene Kelly a criarem uma obra cinematográfica apaixonante que desafia a passagem do tempo e as inúmeras visualizações.

Título original: "Singin' in the Rain". 
Título em Portugal: "Serenata à Chuva". 
Realizador: Gene Kelly e Stanley Donen.
Argumento: Betty Comden e Adolph Green.
Elenco: Gene Kelly, Donald O'Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen, Millard Mitchell, Cyd Charisse.

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