07 agosto 2015

Resenha Crítica: "Shock Corridor" (1963)

 Entre doentes mentais, vários perigos e o risco de ver a sua mente desabar e cair nas malhas da loucura, Johnny Barrett (Peter Breck), um jornalista do Daily Globe, procura incessantemente descobrir a identidade do assassino de Sloan, um elemento mentalmente perturbado que se encontrava internado num hospital psiquiátrico. Johnny busca acima de tudo o reconhecimento profissional, tendo a ambição de vencer um prémio Pulitzer se alcançar o desiderato de descobrir a identidade do assassino. Peter Breck tem uma interpretação intensa, marcada por uma confiança inicial notória que se vai desfazendo de questionamento em questionamento com as três testemunhas do crime, internando-se a ele próprio no hospital e começando, com o tempo, a ficar degradado do ponto de vista mental e corporal, algo exposto de forma paradigmática num momento onde tem uma alucinação onde o corredor principal da instituição é inundado por uma chuva intensa e este encontra-se a ser alvo dos mais poderosos trovões. O actor tem uma interpretação exímia, com Samuel Fuller, o realizador, e antigo jornalista, a realçar mais uma vez o trabalho destes últimos, algo que já tinha efectuado em "Park Row", com "Shock Corridor" a colocar-nos diante de uma história perturbadora, marcada por uma enorme violência psicológica e uma atmosfera claustrofóbica onde um elemento aparentemente saudável aos poucos vê a sua condição mental degradar-se, enquanto assistimos a diversos comentários do foro social por parte do cineasta através dos três doentes que Johnny interroga, com a própria acção médica para tratar os pacientes a gerar imensas dúvidas sobre se espaços como este servem para curar ou amplificar os problemas dos internados. Johnny Barrett é internado após conseguir convencer Cathy (Constance Towers), a sua namorada, a efectuar queixa na polícia, fingindo-se irmã do mesmo, de forma a acusá-lo de comportamento violento e insinuações do foro sexual. Cathy é uma dançarina de um clube nocturno, que parece nutrir um enorme afecto por este homem, procurando inicialmente recusar-se a cooperar nesta ideia, até aceder à mesma, algo de que certamente se irá arrepender com o desenrolar da narrativa, sobretudo quando este começa a pensar que na realidade Cathy pode ser mesmo a sua irmã, mesclando realidade e ficção no interior da sua mente. Johnny foi treinado pelo Dr. Fong (Philip Ahn), um psiquiatra japonês, para conseguir enganar o Dr. L.G. Cristo (John Matthews), o indivíduo à frente do hospital psiquiátrico, um objectivo atingido com enorme sucesso. A narração em off é essencial para nos colocar ao corrente de alguns pensamentos do protagonista, quer quando este prevê as questões que lhe vão ser colocadas e se apresenta como um pervertido incestuoso, quer quando entre em choque e perde a fala em alguns momentos, com a sua convulsão interna a ser exibida através destas exposições. É um indivíduo ambicioso, destemido e persistente, embora pareça não ter ponderado de forma pragmática e paradigmática as consequências que a estadia no hospital psiquiátrico lhe poderiam trazer, com o momento em que recebe choques eléctricos, onde Samuel Fuller mescla uma multitude de imagens relacionadas com diversos acontecimentos que exibem provavelmente a confusão na mente de Johnny, ao mesmo tempo que transmitem o impacto deste acto relacionado com o "tratamento", a ter tanto de marcante como de perturbador. No interior do hospital, Johnny logo procura colocar o seu plano em acção, enquanto fora deste deparamo-nos com as dúvidas e o pânico de Cathy em relação ao namorado, com esta a pensar em alguns momentos em revelar os planos do mesmo a L.G. Cristo.

As figuras femininas das obras de Samuel Fuller apresentam características por vezes interessantes. Muitas das vezes contam com profissões como prostitutas (como as protagonistas de "Pickup on South Street" ou "The Naked Kiss"), por vezes bailarinas de clube nocturno ou artistas de locais pouco luxuosos ("Shock Corridor" e "I Shot Jesse James"), informadoras da polícia com personalidades peculiares ("Pickup on South Street" e "The Crimson Kimono"), mas apresentam regularmente alguns valores morais e uma força que as conduzem a serem capazes de tomar decisões difíceis, para não dizer corajosas. Constance Towers, que viria a protagonizar "The Naked Kiss", realizado por Samuel Fuller, incute nesta personagem um misto de sensualidade e fragilidade, com as poucas vestes que utiliza no seu local de trabalho a exibirem a primeira, enquanto aos poucos percebemos as dúvidas que assolam esta mulher que tem um momento completamente arrebatador no último terço. É um momento poderosíssimo, revelador que o sucesso profissional de Johnny poderá não significar um futuro radioso, enquanto esta mulher fica em estado de choque, tal como o espectador. Ao longo da narrativa, a cinematografia de Stanley Cortez, capaz de carregar nas sombras e jogar no contraste destas com as luzes, contribui para esta atmosfera algo claustrofóbica criada no interior do espaço do hospício onde Johnny desenvolve a sua investigação, em mais uma obra cinematográfica de Samuel Fuller de baixo orçamento que se revela primorosa  e assombrosa, que fica na memória muito para além da sua duração. É uma das obras mais populares e recomendáveis de Samuel Fuller, com este a espelhar-nos como o meio pode influenciar o protagonista, tal como contribuiu para o internamento dos três elementos que podem saber informações sobre o assassinato ocorrido no hospital psiquiátrico, nomeadamente, Stuart (James Best), Trent (Hari Rhodes), Boden (Gene Evans). O primeiro dos elementos contactados por Johnny é Stuart, um indivíduo revoltado que manteve uma relação complicada com o seu progenitor, tendo participado na Guerra da Coreia, onde passou para o lado inimigo, até se ter arrependido e ter sido trocado como preso de guerra, algo que conduziu a ser alvo dos mais variados preconceitos. A fúria e a violência cometida sobre a sua pessoa conduziram Stuart à loucura, com Samuel Fuller a voltar a abordar temáticas relacionadas com a Guerra da Coreia, um conflito que serviu como pano de fundo para obras cinematográficas como "The Steel Helmet", "Fixed Bayonets!" para além de ter sido onde os protagonistas de "The Crimson Kimono" se conheceram. As cenas a preto e branco passadas no presente são contrastadas com algumas imagens a cores que revelam momentos que perturbaram, ou que evidenciam a perturbação, destes indivíduos que Johnny procura contactar, com Stuart a ser desde logo o primeiro elemento a expor que a sua chegada ao hospício se deveu a traumas impostos sobre a sua pessoa. Stuart pensa muitas das vezes que é o general Jeb Stuart, um indivíduo considerado um herói confederado, tendo como hobbie jogos relacionados com a Guerra Civil. Este revela a Johnny que apenas viu que o assassino utilizava calças brancas, uma situação que reduz o leque de suspeitos para os enfermeiros e médicos, com o protagonista a logo procurar entrar em contacto com Trent, um indivíduo negro com um trauma que vai permitir a Samuel Fuller explorar temáticas relacionadas com o racismo. Em "The Steel Helmet", Samuel Fuller apresentava-nos a um soldado negro, médico, a combater na Guerra da Coreia, ao mesmo tempo que aproveitou para abordar questões relacionadas com o racismo nos EUA através de um militar da Coreia do Norte que procurava que esta razão fosse suficiente para conseguir que este traísse a pátria. Em "The Crimson Kimono" apresentou-nos a um indivíduo japonês-americano que se começa a sentir alvo de racismo num momento de maior desequilibro emocional, algo que permitiu a Fuller abordar questões ligadas a uma espécie de racismo reverso, uma situação que ganha contornos mais fortes no caso de "Shock Corridor" onde ficamos diante de um negro que apresenta um enorme racismo em relação aos... negros.

 A temática não é polémica, ou melhor, em parte é, com Trent a ser exibido como um elemento admirador do Ku Klux Klan, a ponto de ter a máscara igual aos membros deste "clã", proferir discursos racistas e incitar à violência contra os negros. Esta é a faceta do mesmo em ponto de loucura. Quando tem um assomo de regresso à consciência, algo que acontece aos três doentes com quem Johnny fala, percebemos que este foi o primeiro negro a integrar uma universidade de um território sulista segregacionista, que não aguentou a pressão e o racismo sobre a sua pessoa a ponto de se imaginar como um dos elementos que o abominavam. É mais um comentário do foro social por parte de Samuel Fuller, com o cineasta a vir ainda a abordar questões ligadas ao racismo em obras como "White Dog", onde encontrávamos um cão treinado para eliminar elementos negros, com o cineasta a não ter problemas em mexer com temáticas polémicas e desenvolver as mesmas. O terceiro elemento com quem Johnny fala é Boden, interpretado por um colaborador habitual do cineasta, Gene Evans, que pode não ter um desempenho da magnitude de "The Steel Helmet" e "Fixed Bayonets!", mas nem por isso deixa de surpreender como este antigo cientista que trabalhou nos projectos da bomba atómica, tendo enlouquecido quando se encontrava a trabalhar num projecto nuclear que visava a construção de mísseis e o envio de foguetões para a Lua. Esta situação conduziu a que a sua mente tenha, nos momentos de loucura, revertido para os seis anos de idade, com o cientista a parecer não ter aguentado lidar com as consequências dos seus feitos científicos. Johnny vai ainda lidar com elementos como Pagliacci (Larry Tucker), um doente e colega de quarto que teima em cantar imenso, para além de enfermeiros que trabalham no local como Wilkes (Chuck Roberson), um personagem que terá uma especial relevância no último terço. Ficamos diante de um universo narrativo rendilhado por um conjunto de personagens interessantes, com o trio de doentes que Johnny procura contactar a revelar como situações inerentes à sociedade da época contribuíram para a queda de ambos num abismo mental, algo que se sucederá ao protagonista. Gradualmente, o entusiasmo de Johnny vai ser acompanhado pela deterioração da sua mente e do seu corpo, com este personagem a deixar a loucura começar a possuí-lo, com a busca pela verdade sobre o assassinato a estar por vezes colocada em causa. A violência está muito presente em diversos trabalhos de Samuel Fuller, com "Shock Corridor" a não ser diferente, algo notório quer a nível psicológico, quer nos tratamentos, quer nos actos de alguns presos, com o último terço a contar com uma intensa cena de pancadaria. Não falta ainda a cena meio peculiar, até algo kitsch, de Johnny a entrar numa ala de mulheres onde é atacado por um grupo de ninfomaníacas, num momento tenso, embora algo caricato, quase a roçar o exploitation, que exibe mais uma vez a violência no local. Fora do hospital psiquiátrico encontramos ainda uma sensual cena de dança protagonizada por Cathy, com esta a surgir muitas das vezes na mente do protagonista enquanto este sonha, embora pareça tarde para voltarem a conseguir ter um futuro em conjunto, com Johnny a deixar-se levar em demasia pelo caso e pela atmosfera claustrofóbica que o rodeia, num filme que viria, em parte, a inspirar Martin Scorsese na elaboração de "Shutter Island". "Shock Corridor" surge assim como uma das obras maiores de Samuel Fuller, com este a criar um enredo capaz de abordar questões complexas, pertinentes e polémicas associadas a uma investigação jornalística, com o cineasta a ser capaz de potenciar a qualidade do elenco e criar um trabalho memorável.

Título original: "Shock Corridor".
Realizador: Samuel Fuller.
Argumento: Samuel Fuller.
Elenco: Peter Breck, Constance Towers, Gene Evans, James Best.

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