10 agosto 2015

Resenha Crítica: "On the Town" (Um Dia em Nova Iorque)

 Primeira de três colaborações na realização cinematográfica entre Stanley Donen e Gene Kelly, "On the Town" surge como um musical leve, fantasioso, divertido, recheado de cor e ritmo, algo exuberante, que mescla de forma homogénea as cenas filmadas em cenários reais e as sequências filmadas no estúdio, enquanto somos colocados diante de três marinheiros que pretendem aproveitar ao máximo a licença de vinte e quatro horas em terra. "On the Town" é parte fundamental de uma era de ouro dos musicais, com a Metro-Goldwyn-Mayer a revelar-se mais uma vez especialista neste género (mais uma vez a presença de Arthur Freed na produção revelou-se fulcral), numa obra cinematográfica que conta com diversos elementos que vão ser transversais a filmes do estúdio como "Singin' in the Rain", "An American in Paris", entre outros, onde não falta romance, humor, fantasia, momentos musicais que ficam na memória e permitem simultaneamente avançar com a narrativa e/ou expor estados de espírito dos personagens, sapateado, algumas doses de loucura e uma enorme leveza. Diga-se que "On the Town" chega a ser descrito como um musical essencial na história dos filmes do género em Hollywood, com James Steffen a salientar isso mesmo no site do canal TCM: "Up to that time, musicals were entirely studio-bound, with rare exceptions such as the Brooklyn Bridge sequence in It Happened in Brooklyn (1947). Directors Stanley Donen and Gene Kelly wanted to use extensive locations, but the studio allowed only one week of shooting in New York. It proceeded at a breathless pace, often using hidden cameras to avoid crowd problems. Another innovative feature, also part of the Broadway stage production, is their use of modern dance to advance the plot in sequences such as "Miss Turnstiles" and "A Day in New York"." Os marinheiros em questão são Gabey (Gene Kelly), Chip (Frank Sinatra) e Ozzie (Jules Munshin), três indivíduos que chegam pela primeira vez a Nova Iorque e logo exibem o seu entusiasmo em descobrir o território e, se possível, encontrarem companhia feminina. Chip leva um guia completamente desactualizado sobre a cidade, parecendo aquele que se encontra mais obcecado em descobrir os monumentos e locais históricos de Nova Iorque, enquanto os seus colegas parecem ter ambições diferentes. Gabey fica desde logo encantado com a descoberta de um retrato de Ivy Smith (Vera-Ellen) no metro, com esta a ser considerada a "Miss Turnstiles" do mês, algo que o protagonista pensa ser um título bastante importante. Sorte ou azar estes encontram Ivy no metro, com os responsáveis pela atribuição do título "Miss Turnstiles" a tirarem uma foto desta com Gabey, devido à jovem ter revelado o seu apreço pela marinha. Os dois separam-se mas Gabey logo inicia uma procura incessante pela mesma, utilizando para isso os gostos pessoais que surgem apresentados no poster de "Miss Turnstiles". Diga-se que os momentos que se seguem à visualização do poster são delirantes, com "On the Town" a apresentar-nos a um número musical onde o ideal de perfeição que estes homens criam de "Miss Turnstiles" é apresentado, com Vera-Ellen a demonstrar o seu enorme talento para sequências do género. 

É nessa busca por Ivy que o trio se depara com Hildy Esterhazy (Betty Garrett), uma taxista impetuosa, bastante directa, que exibe desde logo o seu interesse em Chip, apesar deste estar mesmo preocupado é em ajudar rapidamente o amigo e descobrir os vários locais de Nova Iorque. Durante a busca, estes vão ao Museu de História Natural, onde Ozzie conhece Claire Huddesen (Ann Miller), uma antropóloga que fica interessada nas semelhanças deste com a representação de um homem pré-histórico que têm no museu. Esta situação conduz a alguns momentos de humor, bem como a mais uma sequência musical, intitulada de "Prehistoric Man", com esta a revelar mais uma vez o cuidado colocado nestes números por parte dos envolvidos na elaboração de "On the Town". Para não variar, a visita dá trapalhada, com Ozzie a derrubar uma réplica de um dinossauro, algo que conduz o responsável do museu a denunciar o caso à polícia. Claire foge com os três no táxi de Hildy, com estes a separarem-se para supostamente ser mais fácil encontrarem Ivy, um desiderato que apenas vai ser cumprido por Gabey. Este é um indivíduo sonhador, que pode na descrição parecer algo "stalker" mas o tom do filme é sobretudo marcado por uma enorme ingenuidade, fantasia, algum humor e romantismo com tudo a ser feito para tentar dispor bem o espectador ao longo da duração do mesmo. Veja-se desde logo esta busca de Gabey, com o mesmo a deixar-se encantar por esta mulher que trabalha como dançarina num palco de rua para pagar as aulas de dança. Os dois encontram-se novamente num estúdio localizado no Symphonic Hall, onde Ivy encontra-se a ter aulas de dança com a rígida Madame Dilyovska (Florence Bates). A dinâmica entre Gabey e Ivy é construída de forma rápida, simples e eficaz, com Gene Kelly e Vera-Ellen a contribuírem para dar alguma credibilidade ao envolvimento destes dois elementos algo peculiares que se parecem complementar praticamente na perfeição. Gene Kelly atribui uma ingenuidade latente a Gabey, um personagem bem intencionado, romântico e persistente, oriundo de uma pequena cidade que parece encontrar em Ivy o ideal de uma bela mulher moderna de uma grande metrópole. Vera-Ellen consegue criar algum mistério em volta da personagem que interpreta, com esta mulher a não revelar inicialmente a Gabey a pouca relevância do título de "Miss Turnstiles", bem como as suas origens e profissão, parecendo algo lisonjeada pelo cortejo do personagem interpretado por Gene Kelly. A química entre Kelly e Vera-Ellen é ainda visível nos números musicais, algo latente em "When You Walk Down Mainstreet with Me", bem como no momento do sonho/imaginação de Gabey após observar o cartaz do espectáculo "A Day in New York". Os dois logo marcam encontrar-se no Empire State Building, onde todo o grupo se reúne antes de partir para uma noite de farra. Pelo meio, Chip forma uma relação que envolve mais do que de amizade com a espevitada Hildy, com esta a apresentar-lhe o apartamento onde vive com Lucy Schmeeler (Alice Pearce), a sua atrapalhada parceira de pagamento de renda. Quando Chip e Hildy pretendem ter alguns momentos de intimidade, logo surge Lucy pronta a interromper os mesmos com os seus espirros, entre outros actos que praticamente obrigam a personagem interpretada por Betty Garrett a ter de expulsar temporariamente a amiga da casa. 

O trio, acompanhado por Hildy e Claire, reúne-se no Empire State Building, onde aguarda por Ivy. Ainda têm de se disfarçar para ludibriarem os elementos da polícia, num momento de algum humor, com Stanley Donen e Gene Kelly a raramente nos fazerem esquecer que os protagonistas encontram-se a ser perseguidos. A chegada de Ivy conduz a que Gabey fique numa enorme felicidade, com o sexteto a protagonizar um enérgico número musical intitulado "On the Town", onde expõem as suas expectativas em relação à noite na cidade. É um dos vários números musicais coreografados de forma sublime, marcados por alguma leveza e dinamismo. Veja-se desde logo o número musical "New York, New York", onde o trio sai do barco cheio de alegria e vontade de conhecer esta cidade, ou "You're Awful", no qual Chip parece muitas das vezes iniciar o discurso com palavras desagradáveis mas logo revela a sua admiração por Hildy. Frank Sinatra e Betty Garrett formam uma dupla convincente e agradável como este casal algo espevitado, com o talento do primeiro para a cantoria a ser notório, emprestando algum do seu enorme carisma ao personagem que interpreta. Diga-se que o elenco principal consegue sobressair na sua maioria, incluindo Alice Pearce (mais tarde conhecida pelo papel da intrometida vizinha Gladys na série "Bewitched") como a destrambelhada Lucy. No entanto, os elementos que mais sobressaem são mesmo Gene Kelly e Vera-Ellen, em grande parte devido ao romance entre os personagens que interpretam ser uma das forças motrizes da narrativa. Vera-Ellen interpreta uma personagem que é idolatrada por um homem que não sabe que esta também é uma perfeita desconhecida, atribuindo algum mistério a esta jovem que não é assim tão diferente de Gabey. Já o personagem interpretado por Gene Kelly não esconde todo o seu encanto em relação a Nova Iorque e a esta mulher que representa o seu ideal deste espaço citadino, embora, e curiosamente, ambos sejam naturais de Meadowville, uma pequena cidade. Gene Kelly volta a sobressair num filme musical, com o actor a destacar-se pela enorme energia e talento nos números musicais, quer pelos gestos corporais, quer pela convicção que coloca nestas sequências, quer pelo seu carisma. A dinâmica entre Gene Kelly e Vera-Ellen é fundamental para o filme funcionar, bem como entre o primeiro e Frank Sinatra e Jules Munshin. O trio convence como estes marinheiros com enorme espírito de companheirismo, amigos de longa data, desejosos de conhecerem Nova Iorque e prontos a desfrutarem das vinte e quatro horas de licença. Diga-se que este nem é o primeiro musical no qual Gene Kelly e Frank Sinatra interpretam marinheiros, com estes a terem protagonizado anteriormente o icónico "Anchors Aweigh", onde o primeiro protagonizara um número com o conhecido Jerry (do célebre desenho animado "Tom & Jerry"). 

O próprio "On the Town" está longe de fugir a vários elementos que encontramos em alguns musicais mais leves, não faltando o célebre romance, humor, números que ficam na memória, sapateado, alguma emoção e personagens que facilmente despertam a nossa atenção. No caso de "On the Town" sobressai ainda uma delirante fuga de carro protagonizada por Gabey, Chip, Ozzie, Claire e Hildy, com esta última a conduzir o bólide, até irem parar ao local onde Ivy trabalha, com os marinheiros a protagonizarem ainda um número musical vestidos de mulheres para tentarem ludibriar a polícia . É um momento delirante que mistura tensão, humor, música, cor, com "On the Town" a aproveitar de forma eficaz o talento dos elementos principais do elenco ao mesmo tempo que explora os diversos espaços de Nova Iorque. Nesse sentido, não vão faltar cenas em clubes nocturnos, no Empire State Building, no Museu de História Natural, entre outros espaços, com Stanley Donen e Gene Kelly a aproveitarem os cenários externos de forma exímia, integrando-os no enredo a ponto de Nova Iorque se transformar quase como uma das protagonistas de "On the Town". Em bom rigor da verdade, é realmente esta cidade e os ideais associados à mesma, em conjunto com o curto período de tempo que o trio de protagonistas tem para desfrutar em terra, que contribuem para o sentido de urgência destes episódios. Tudo tem de ser rápido: a formação das relações, a passagem pelos espaços urbanos, com a "cidade que nunca dorme" a fazer justiça ao epíteto ou a noite não fosse também aproveitada pelos marinheiros. O argumento, baseado no musical "On the Town", é eficaz a expor as personalidades dos personagens e a criar situações que nos levem a querer seguir os mesmos ao longo da duração do enredo, ao mesmo tempo que os números musicais são inseridos de forma coerente na narrativa e conseguem surpreender-nos em alguns momentos. Leve, divertido, cheio de ritmo, com alguns números musicais dignos de atenção, uma boa dinâmica entre os vários elementos do elenco principal, "On the Town" marca uma estreia bastante positiva por parte da dupla formada por Gene Kelly e Stanley Donen na realização cinematográfica.

Título original: "On the Town".
Título em Portugal: "Um Dia em Nova Iorque". 
Realizadores: Gene Kelly e Stanley Donen.
Argumento: Adolph Green e Betty Comden (baseado no musical On the Town)
Elenco: Gene Kelly, Vera-Ellen, Frank Sinatra, Betty Garrett, Ann Miller, Jules Munshin.

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