19 agosto 2015

Resenha Crítica: "Naissance des pieuvres" (2007)

 Em "Naissance des pieuvres", a sua primeira longa-metragem como realizadora, Céline Sciamma começa desde logo a abordar temáticas relacionadas com as adolescentes ou pré-adolescentes, incluindo a formação da personalidade, os laços de amizade que se estabelecem, a sexualidade, os preconceitos e tabus, a busca pela afirmação, entre outras que surgem transversais a outras obras do seu currículo, em particular "Bande de Filles". Ainda que "Bande de Filles" apresente maior complexidade e classe, é possível encontrarmos diversas temáticas e elementos em comum entre ambas as obras, tais como as já citadas mas também uma boa utilização da banda sonora (composta por Para One nos dois filmes), uma cinematografia cuidada (de Crystel Fournier, que trabalhou com Sciamma nas suas três longas-metragens), um elenco jovem e talentoso, com Adèle Haenel e Pauline Acquart a sobressaírem acima da maioria dos colegas. Diga-se que Sciamma rodeia-se de um elenco principal formado maioritariamente por actores e actrizes estreantes ou que na época contavam com poucos trabalhos no currículo, incluindo Adèle Haenel (na sua segunda longa-metragem), com Pauline Acquart e Louise Blachère a efectuarem a sua estreia com desenvoltura. A narrativa foca-se sobretudo nas personagens interpretadas pelas três actrizes citadas, enquanto ficamos perante uma obra que procura e consegue despertar a nossa atenção para o quotidiano destas adolescentes que se encontram a lidar com situações como o desejo sexual e a definição das suas orientações, a formação da personalidade, bem como elementos comuns tais como os sucessos e desilusões amorosas, cabendo à personagem interpretada por Adèle Haenel surgir como a figura aparentemente mais confiante embora também tenha as suas fragilidades. Em certa parte até nos faz recordar Lady, a líder do grupo no qual se insere a protagonista de "Bande de Filles", uma jovem durona, de personalidade forte, que aos poucos deixa cair a sua máscara de figura inquebrável e expõe as suas vulnerabilidades. Adèle Haenel, uma actriz hoje já com um currículo assinalável e talento comprovado em diversas obras cinematográficas, interpreta Floriane, a capitã de um grupo de natação sincronizada, com fama de conquistadora e sedutora, aparentemente confiante, sendo pouco apreciada pelas colegas devido aos seus comportamentos diante das figuras masculinas e atitudes algo egocêntricas. Esta tem fama de ter mantido vários casos amorosos, incluindo com rapazes da sua idade e homens mais velhos, namorando actualmente com François (Warren Jacquin), um jovem da equipa de polo aquático que deseja ter relações sexuais, algo que a atormenta devido ao facto de ter a fama de ser sexualmente activa mas ainda ser virgem, um verdade que não pretende revelar. No início do filme encontramos Floriane a participar num espectáculo de natação sincronizada, onde os movimentos são treinados ao pormenor e efectuados com uma minúcia que mesclam arte, empenho e concentração, com estes momentos controlados a contrastarem com o quotidiano recheado de dúvidas e caminhos incertos por onde deslizam estas jovens. Diga-se que estes momentos iniciais quase que nos remetem mais uma vez para "Bande de Filles", iniciado com um jogo de futebol americano, entre duas equipas femininas que disputavam acirradamente o resultado. No caso, os equipamentos de futebol americano permitiam alguma protecção embora, fora do campo, estas jovens lidassem com embates que prometiam abalar os seus corpos e as suas almas sem contarem com algo para as proteger ou pelo menos atenuar a dor.

A assistir ao espectáculo de natação sincronizada encontra-se Marie (Pauline Acquart), uma jovem introvertida, de poucas falas e corpo franzino, com Pauline Acquart a ter uma interpretação marcada por um enorme naturalismo, conseguindo transmitir-nos as inquietações desta adolescente. Esta gera uma enorme admiração por Floriane, a ponto de pretender praticar natação e conseguir meter conversa com a personagem interpretada por Adèle Haenel para que esta a deixe ver os treinos de perto. A nadadora inicialmente reluta. Até então, Floriane ignorava a existência desta jovem mas, aos poucos, parece formar uma relação de amizade com a mesma. Marie promete ficar a dever-lhe um favor se a personagem interpretada por Adèle Haenel a deixar entrar no recinto, com o interesse a parecer marcar inicialmente a relação entre ambas: Floriane tem em Marie uma desculpa para poder sair de casa e encontrar-se com François, utilizando o argumento que vai sair com a segunda, enquanto esta espera um longo tempo pela "amiga"; Marie consegue estar próxima da nadadora, a ponto de assistir a um treino de perto, onde Céline Sciamma nos brinda com algumas cenas aquáticas visualmente belíssimas. Diga-se que o trabalho de Crystel Fournier conta com alguns momentos inspirados, com a cinematografia do filme a sobressair em diversos trechos de “Naissance des pieuvres”. Veja-se o caso citado desta cena onde os corpos se movem de forma segura e sincronizada debaixo de água, ou quando encontramos Floriane a dançar numa discoteca, quer sozinha, quer acompanhada por Marie, quer posteriormente com um estranho, com as tonalidades vermelhas a permearem um momento onde a música e a cor parecem contribuir para os sentimentos flamejantes e inquietos que rodeiam as duas protagonistas. Na cena da discoteca, já as duas apresentam maior intimidade, com o momento em que Floriane convida Marie para a pista a ser marcado por uma aproximação dos corpos, onde a personalidade mais sedutora da primeira vem ao de cima e a segunda não parece esconder alguma atracção. Diga-se que o último terço remete mais uma vez para a boa utilização da iluminação e da cor, com Céline Sciamma a brindar-nos com outra cena de dança, com Adèle Haenel a encontrar-se solitária, a mexer o seu corpo e os seus cabelos, num momento onde a banda sonora de Para One sobressai. A utilização eficaz da música diegética e não diegética parece ser uma imagem de marca de Sciamma, algo notório se nos recordarmos novamente de "Bande de Filles", com esta a criar um momento sublime onde coloca as jovens do título a dançar e cantar ao som de "Diamonds" de Rhianna e as tonalidades azuis tomam conta do cenário. Mas não nos dispersemos novamente por "Bande de Filles" e regressemos a "Naissance des pieuvres". A relação entre Floriane e Marie é marcada pela aparente segurança e sobranceria da primeira, com Adèle Haenel a conceder a esta personagem uma personalidade forte, capaz de nos surpreender pelos seus gestos e atitudes, não tendo problemas com o seu corpo e de se afirmar através do mesmo apesar de contar com problemas que apenas a amiga irá descobrir. Assistimos a um desenvolvimento gradual da amizade entre ambas, com Floriane a parecer sempre mais à vontade para abordar assuntos relacionados com a sua sexualidade, enquanto Marie reprime os seus sentimentos em relação à primeira, parecendo certo que sente algo mais do que admiração. Acima de tudo estão os sentimentos, que fogem a qualquer catalogação que queiramos colocar às personagens, com Céline Sciamma a colocar-nos diante de um universo narrativo dominado pelos adolescentes e pelas regras muito próprias dos mesmos. Marie parece atraída pela amiga, tomando atitudes tão estranhas como ir ao caixote do lixo da mesma para comer os restos da sua maçã, ou beijar um vidro tocado pelos lábios de Floriane, procurando ainda protegê-la de possíveis erros. Veja-se quando evita que Floriane tenha relações sexuais com um estranho só para o namorado não descobrir que é virgem, com o gesto a tanto ter de protector como parece envolver algum ciúme. Temos ainda episódios como Floriane a pedir para Marie cheirar o seu hálito, após ter vomitado e lavado os dentes, aproximando a sua boca da segunda, num momento marcado pelo pouco à vontade da personagem interpretada por Pauline Acquart diante da proximidade da nadadora, parecendo claro que procura reprimir o desejo que sente pela mesma, algo ainda latente nas cenas entre ambas no balneário. 

Céline Sciamma não parece ter problemas em abordar o desejo sexual dos adolescentes, independentemente da orientação sexual, tendo em Marie uma figura essencial para a narrativa, com a dinâmica entre Pauline Acquart e Adèle Haenel a funcionar "às mil maravilhas". Haenel como esta adolescente que ganha uma reputação que não corresponde à sua pessoa, embora procure manter a mesma bem viva, mesmo que isso lhe valha poucas amizades e o desprezo das suas colegas (algo latente em episódios como aquele em que se encontra a comer uma banana no balneário e surgem os trocadilhos óbvios). Acquart como uma jovem relativamente solitária, que parece ter uma relação afastada com os pais (os adultos nunca surgem como parte relevante da narrativa de "Naissance des pieuvres", com Céline Sciamma a estar sobretudo preocupado com as inquietações e vivências destas adolescentes), tendo em Anne (Louise Blachère) a sua melhor amiga, também ela praticante de natação, embora a amizade entre as duas conheça alguns contratempos a partir do momento em que Marie conhece Floriane. Assistimos a um desenvolvimento gradual da amizade entre Marie e Floriane, com esta última a começar a respeitar a primeira, embora mantenha uma atitude ambígua para com a mesma. As duas partilham alguns momentos de intimidade, algo notório quando saem juntas, ou ficam a conversar no quarto de Floriane, ou no de Marie, dois locais onde parecem poder libertar-se em relação aos segredos que guardam nos espaços externos às habitações, pelo menos no caso da personagem interpretada por Adèle Haenel. A nadadora por vezes choca Marie com as suas atitudes, com Céline Sciamma a procurar também atribuir alguma ambiguidade aos actos de Floriane, deixando-nos na incerteza se terá ou não cometido alguns episódios que são alvo de conversa. Veja-se quando encontramos o massagista da equipa de natação a procurar ficar a sós com Floriane, com Marie a deslocar-se para fora da sala onde os dois primeiros se encontram, com uma nadadora a descrever a primeira como puta, embora mais tarde até descubramos que não tiveram relações sexuais. Nesta fase, a relação entre as duas ainda parecia ser marcada por algum afastamento, embora, mesmo no último terço, também pareça certo que, apesar da amizade e de alguns episódios que as unem, também existe muito a afastá-las. No meio deste universo narrativo temos ainda Anne, uma adolescente algo anafada, cujo corpo apresentou um desenvolvimento maior do que o da maioria das jovens da sua idade, embora tenha uma mente que muitas das vezes se parece aproximar da de uma criança. Anne tem um fraquinho por François, deseja ser beijada e ter relações sexuais, embora aos poucos perceba que antes de tudo tem de ser amada. Esta é uma figura solitária que procura a todo o custo despertar a atenção de François, embora também apresente uma coragem notória para rejeitar falsos afectos ao aprender com os erros. A sua amizade com Marie é colocada em causa quando esta se aproxima de Floriane, mas também pelos comportamentos de Anne, com esta a ter atitudes que vão desde roubar bijuteria numa loja a exigir um Happy Meal porque pretende o brinquedo, tendo tanto de ingénua como de desbocada. Os momentos em que se encontra nua no balneário, demonstram uma procura em lidar com o seu corpo, mas também as suas inseguranças, com Louise Blachère a incutir alguma estranheza na personagem que interpreta, uma adolescente que procura chamar à atenção, embora seja algo destrambelhada e aos poucos comece a sentir-se colocada de lado, tendo em Marie um apoio importante. Os momentos em que Anne dança sozinha, numa festa que ocorre no início do filme, para despertar a atenção de François, tanto têm de ingénuos como de trágicos, ou esta não estivesse a ser ignorada, a ponto de encontrar o jovem a beijar Floriane, com o seu rosto a mesclar um misto de vergonha e desilusão. Anne é ignorada pela maioria dos colegas, com esta e Marie a parecerem quase invisíveis ao olhar dos outros, enquanto Floriane é objecto de desejo e inveja, apesar de também contar com as suas fragilidades. Curiosamente, a própria Marie por vezes descura em alguns momentos Anne, enquanto começa a conhecer sentimentos nunca antes vividos por Floriane, apesar desta ter interesse em rapazes (existe um acto particularmente relevante no último terço que não vamos aqui revelar, onde se nota a diferença daquilo que uma nutre em relação à outra, com Floriane a encará-lo como um favor que a amiga efectua enquanto Marie parece desejá-lo). Céline Sciamma cria um universo narrativo credível em volta destas três personagens, com especial destaque para Marie e Floriane, ao mesmo tempo que procura traçar um olhar bem vivo, marcado por sagazes observações sobre a adolescência, sempre com foco nas figuras femininas, numa obra cinematográfica que pode em alguns momentos cair em redundâncias e descurar os elementos masculinos mas nem por isso se deixa de revelar um drama acima da média.

O argumento é expedito a abordar estas temáticas e a explorar as personalidades e relações destas figuras femininas. Com Anne, encontramos Marie a ter alguns momentos mais infantis, mas também de alguma dureza, parecendo certo que a primeira não aprecia Floriane, quer pela fama que esta tem, quer por parecer estar envolvida com François, quer por lhe poder "roubar" a amiga. Marie procura inicialmente esconder a amizade com Floriane, tendo em vista a procurar não magoar Anne mas também por saber que são figuras que pertencem a universos completamente distintos. Com Floriane, encontramos Marie a vivenciar todo um mundo novo de descobertas e sensações. Em ambos os casos, Marie procura proteger as amigas de si próprias e evitar que cometam erros, embora pareça faltar-lhe uma figura que faça o mesmo por si. Marie é a mais observadora, aquela que surge muitas das vezes no centro da narrativa, mas que acaba também muitas das vezes por se ver ofuscada pelos actos das suas amigas, parecendo por vezes procurar esse isolamento, enquanto lida com as suas próprias descobertas. As diferenças entre estas três personagens são visíveis ainda no guarda-roupa. Floriane surge mais feminina e sedutora, por vezes com vestimentas prontas a fazerem realçar o seu corpo ou com o equipamento da natação. Marie mais discreta, menos aperaltada e até menos feminina. Anne mais destrambelhada, parecendo por vezes querer realçar já ter corpo de adulta embora seja algo que nem sempre lhe corre bem. "Naissance des pieuvres" apresenta-nos ao quotidiano destas jovens, aparentemente durante o período de férias das aulas, com o trio a parecer distante dos pais, enquanto vivem uma miríade de episódios e emoções. A rigidez, segurança e sincronia exigida na natação sincronizada não parece fazer parte do quotidiano de Marie, Floriane e Anne, com ambas a encontrarem-se em busca de si próprias, de amar, de viver, de sentir, cometendo erros pelo caminho, conhecendo alguns desgostos e alegrias, enquanto procuram formar as suas identidades neste processo de transição para a idade adulta que, para quem o vive, parece durar uma eternidade. Nesta fase da sua carreira, também Céline Sciamma se encontrava a procurar afirmar na realização cinematográfica, exibindo desde já uma habilidade magnífica a explorar universos narrativos ligados com jovens e as temáticas associadas à idade dos mesmos, concentrando as suas atenções nas figuras femininas. Sciamma apresenta uma notória atenção ao pormenor, algo visível na própria utilização dos cenários, com as festas organizadas pelas atletas da natação e os do polo aquático a envolverem uma miríade de sentimentos, com uns a conhecerem a felicidade, outros a terem desgostos e outros a libertarem-se diante da música. É também nas habitações das jovens que encontramos as mesmas a trocarem algumas confidências, ou a divertirem-se, ou até a descobrirem a sua sexualidade e emoções que até então nunca tinham vivido, com Sciamma a voltar a aproveitar os cenários interiores de forma bastante eficaz, sem descurar os espaços exteriores deste local urbano nos subúrbios de Paris. Temos ainda o espaço da piscina municipal de Cergy-Pontoise, utilizado para os treinos e espectáculos de natação sincronizada, com Céline Sciamma a aproveitar este recinto para nos expor ao complexo quotidiano destas jovens no interior das instalações deste cenário. Este é um universo narrativo dominado por adolescentes e pelas suas regras, ou seja, quase sem barreiras, onde as desilusões e alegrias podem ocorrer com enorme facilidade, com Céline Sciamma a procurar explorar as intrincadas personalidades e relacionamentos destas personagens. A cineasta apresenta logo na sua primeira obra um conjunto de elementos que vão estar presentes ao longo das suas três longas-metragens realizadas até ao momento (“Naissance des pieuvres”, “Tomboy” e “Bande de Filles”), tais como as relações de amizade entre as jovens, a formação da identidade, descoberta da sexualidade, uma sociedade ainda marcada por alguns tabus e preconceitos que pode oprimir as protagonistas, uma boa utilização dos cenários interiores e exteriores, elencos compostos maioritariamente por estreantes ou novatos, entre outros exemplos. Com um conjunto de interpretações bastante positivas por parte do trio de protagonistas, uma cinematografia cuidada e uma banda sonora assaz envolvente, "Naissance des pieuvres" explora com acerto diversas temáticas relacionadas com as adolescentes, com Céline Sciamma a lixar-se para os tabus ao mesmo tempo que nos oferece um drama merecedor da nossa atenção naquela que é a sua primeira longa-metragem como realizadora.

Título original: "Naissance des pieuvres". 
Título no Brasil: "Lírios d'água". 
Realizadora: Céline Sciamma.
Argumento: Céline Sciamma.
Elenco: Pauline Acquart, Louise Blachère, Adèle Haenel, Warren Jacquin.

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