03 agosto 2015

Resenha Crítica: "Mildred Pierce" (1945)

 Com uma utilização exímia do recurso aos flashbacks, elevados valores de produção, uma cinematografia exemplar na utilização do chiaroscuro e um ambiente negro pronto a exibir que o subgénero noir engloba obras cinematográficas com características relativamente distintas, "Mildred Pierce" apresenta-nos a Joan Crawford no topo das suas qualidades como intérprete, com esta a brilhar como a personagem do título, uma mulher que ascendeu a pulso na vida, enquanto procurou sempre agradar e ceder aos devaneios de Veda (Ann Blyth), a sua filha mais velha. A relação entre as duas é tempestuosa, com Mildred a procurar ceder a todos os pedidos da filha (a femme fatale da protagonista), enquanto Veda revela-se uma jovem impertinente, incapaz de gerar a nossa empatia, que procura a todo o custo desfrutar de luxos, desprezando muitas das vezes os esforços da progenitora para lhe dar a melhor vida possível. Ann Blyth cria uma personagem desprezível, que gradualmente até consegue gerar alguma revolta no espectador, uma jovem que menospreza a mãe e a profissão desta, mesmo que Mildred surja constantemente bem intencionada em relação à filha. A relação entre as duas é um dos elementos fulcrais do enredo, bem como a busca pela identidade do assassino de Beragon (Zachary Scott), o segundo marido de Mildred, após se ter divorciado do primeiro esposo. A fase final do crime é exposta nos momentos iniciais de "Mildred Pierce", com Beragon a dizer o nome de Mildred, enquanto o rosto do assassino não nos é exposto. Ficamos diante da sala, marcada por uma luz difusa, bem como um espelho algo deteriorado pela bala, enquanto o corpo de Beragon cai inanimado. Lá fora, o tempo é de nevoeiro e incerteza, Mildred parece cogitar atirar-se da ponte, mas um polícia logo trava os seus intentos. Esta logo acaba por se reunir com Wally Fay (Jack Carson), um pretendente de longa data que a ajudou a abrir o seu primeiro restaurante, tendo outrora colaborado no negócio da venda de imóveis com Bert Pierce (Bruce Bennett), o primeiro esposo da personagem interpretada por Joan Crawford. Mildred convida Wally a ir até a sua casa, ao local do crime, parecendo entrar num jogo de sedução com este, até sair deste espaço, a polícia entrar e o corpo ser descoberto. Wally é inicialmente um suspeito, mas as culpas recaem primordialmente em Bert, pelo menos até Mildred ser chamada e não se acreditar nessa possibilidade. É então que se iniciam os célebres flashbacks, com Michael Curtiz a recorrer com eficácia aos mesmos, bem como à narração na terceira pessoa por parte de Joan Crawford, com esta a relatar diversos episódios relevantes da sua vida, sempre do seu ponto de vista, enquanto assistimos às mudanças graduais de Mildred ao longo de um determinado período da existência desta figura feminina. Esta começa por ser apresentada como uma mulher casada com Bert, de quem tem duas filhas, Veda e Kay (Jo Anne Marlowe). O casamento entre Mildred e Bert parece estar a dar as últimas, com os excessivos mimos da primeira a Veda a serem um dos vários pontos de desacordo entre ambos. Junte-se a isso um caso extra-conjugal por parte de Bert, bem como o seu recente desemprego e o caldo fica relativamente entornado, com algumas das incompatibilidades entre ambos a virem ao de cima, embora ainda pareçam nutrir sentimentos um pelo outro.

Bert e Mildred decidem separar-se, com a protagonista a deixar as lides de dona de casa e aventurar-se pelo mercado de trabalho. Começa num restaurante, contando com o apoio inicial de Ida (Eve Arden), a sua supervisora e posterior melhor amiga, uma mulher bastante directa na exposição das suas opiniões. O trabalho de Mildred como empregada de mesa envergonha Veda, enquanto Kay ainda é bastante nova para perceber muito do que a rodeia, contando com dez anos de idade, ao contrário da sua irmã que inicialmente tem dezasseis anos. Mildred ainda tenta esconder o emprego de Veda, mas esta logo descobre o mesmo, oferecendo a farda da progenitora a Lottie (Butterfly McQueen), a empregada doméstica, tendo em vista a humilhar a protagonista. A relação entre Mildred e Veda é sempre complicada e complexa, com ambas a terem visões distintas em relação à vida, bem como personalidades muito diferentes. Mildred é uma lutadora. Veda quer uma vida recheada de luxos e facilidades. A diferenças conduzem a que muitas das vezes colidam, apesar de Mildred fazer de tudo para agradar à filha, com Joan Crawford a ter uma interpretação digna de relevo como esta mulher complexa, simultaneamente marcada por uma enorme força interior e coragem mas também por fragilidades e dúvidas. Veja-se que muitas das vezes descura Kay, parecendo a única que não tem a real noção do "monstro" em que Veda se está a tornar diante de um quotidiano onde tudo parece ser feito para a agradar, com a crescente ambição e gastos de Mildred a estarem associados ao estilo de vida da jovem. Fora da MGM, Joan Crawford teve em "Mildred Pierce" o seu primeiro papel de destaque na Warner Bros., uma colaboração que começou da melhor maneira, com esta a ser premiada com o Oscar de Melhor Actriz num papel que desafiou a passagem do tempo e permitiu à actriz voltar ao topo após uma fase mais cinzenta. Vale a pena recordar que esta chegou a ser catalogada como "Box Office Poison", numa lista onde constavam ainda nomes notáveis como Marlene Dietrich, Greta Garbo, Katharine Hepburn, entre outros. Crawford reergueu-se, conquistando o público e a crítica com "Mildred Pierce", num papel que exibe a versatilidade e talento desta magnífica actriz que nem sequer era a primeira escolha para o papel, tendo de se sujeitar a um teste para o mesmo, algo pouco comum para uma intérprete com o seu currículo. É certo que o argumento de Ranald MacDougall (e dos não creditados William Faulkner e Catherine Turney) é uma mais valia, contribuindo para a densidade dos diversos personagens que rodeiam a narrativa e para a devida exploração das temáticas e relacionamentos, para além da realização sóbria e eficaz de Michael Curtiz, mas Joan Crawford consegue elevar e muito o material que tem entre mãos, tanto sobressaindo quando a sua personagem é uma empregada de mesa, como nos momentos em que se torna dona de um restaurante que atinge um enorme sucesso. Diga-se que, aos poucos, qual Joan Crawford, Mildred consegue reerguer-se das cinzas e ganhar coragem para abrir o seu próprio restaurante, com esta a conseguir uma propriedade vantajosa com a ajuda de Wally. Este é um indivíduo falador, algo descarado, por vezes meio oportunista, que nunca perde a oportunidade de se "fazer" a Mildred, conseguindo que esta fique com uma propriedade pertencente ao endividado Beragon em situações bastante peculiares, embora coloque a condição desta se ter de separar formalmente devido às dívidas do esposo. Bert reluta mas, perante o interesse de Mildred em Beragon e a morte da filha mais nova, acede ao pedido, com esta a iniciar uma relação complexa com o personagem interpretado por Zachary Scott. Este sobressai a interpretar Beragon, parecendo ter retirado um enorme prazer a dar vida a este indivíduo falido, que vive do seu nome aparecer nas colunas sociais e do estatuto da sua família, apesar de na realidade ser um conquistador barato que procura fazer de tudo para não trabalhar, desenvolvendo ainda uma relação de demasiada proximidade com Veda. É mais um relacionamento "venenoso" de Mildred, com esta a ter em Beragon e Veda duas figuras que praticamente a conduzem à perdição.

Mildred aos poucos tem de lidar com o sucesso dos restaurantes que abre, bem como com as constantes desavenças com Veda, parecendo disposta a tudo para agradar à jovem, embora os esforços da protagonista nunca pareçam ser suficientes. Veda parece gerar algum interesse em Beragon, com o filme a ganhar contornos cada vez mais negros e pouco felizes para a protagonista, com esta a muitas das vezes envolver-se em caminhos menos agradáveis para agradar à filha. De revelação em revelação, vamos ficando a conhecer mais sobre Mildred até ser desvendado o assassino de Beragon, numa obra cinematográfica pontuada por uma narrativa fluida, bem construída, marcada por uma atmosfera simultaneamente fria, inquietante e misteriosa, bem ao estilo noir, embora mesclado com elementos de drama, ou não estivesse a relação entre uma mãe e a sua filha no cerne de "Mildred Pierce". É um drama onde os sentimentos são expostos de forma bem viva, onde uma mãe procura fazer de tudo para agradar à sua filha embora esta pareça sempre pronta a arruinar as suas pretensões. As relações entre pais e filhos por vezes podem ser complicadas, que o digam Mildred e Veda, com Joan Crawford e Ann Blyth a protagonizarem alguns momentos emocionalmente intensos. A dinâmica entre Crawford e Blyth é convincente, com estas a conseguirem explanar aquilo que une e separa as personagens que interpretam, bem como as suas divergências, ao longo de mais uma obra cinematográfica marcante da carreira de Michael Curtiz. Cineasta de talento nem sempre reconhecido, embora conte no currículo com obras cinematográficas como "Angels with Dirty Faces", "Casablanca", "The Adventures of Robin Hood", "Yankee Doodle Dandy", "We're no Angels", "Captain Blood", "The Unsuspected", entre outras, Michael Curtiz tem em "Mildred Pierce" um dos pontos altos da sua carreira como realizador. Os flashbacks são utilizados com eficácia, as relações entre os personagens construídas com habilidade, o balanço entre os elementos de thriller noir e drama é efectuado na justa medida, enquanto Curtiz consegue extrair uma interpretação que marcou a carreira de Joan Crawford pela positiva. A cinematografia de Ernest Haller contribui também para elevar o filme, algo latente no plano final, marcado pelo nevoeiro e uma saída marcante de uma esquadra, com o destino da protagonista e do elemento que a acompanha a serem tão incertos como essa neblina. Existe ainda um enorme cuidado em elementos como o guarda-roupa e o design dos cenários interiores, reveladores dos bons valores de produção que pontuam "Mildred Pierce". Veja-se o caso do guarda-roupa de Mildred, mais luxuoso de acordo com a sua posição social e económica com o evoluir da narrativa, ou a casa com vista para a praia de Beragon, local de momentos temporariamente idílicos para a protagonista. A própria casa desta é decorada a preceito para agradar a filha, não faltando a presença do piano, enquanto o restaurante surge quase como a segunda casa desta mulher que procura vingar na vida. Temos ainda locais como o clube nocturno (ou algo que se pareça) adquirido por Wally, um espaço onde este aparece com Mildred antes de entrar na casa onde se encontra o corpo, com o primeiro cenário a ser marcado pelo forte fumo emanado pelos cigarros consumidos, bem ao estilo noir, adensando a atmosfera algo dúbia que envolve estes personagens. A busca pela identidade do assassino marca boa parte do enredo, com a culpa a recair entre vários personagens, até o(a) homicida ser revelado(a). Tal como em diversos filmes noir, também "Mildred Pierce" é uma adaptação de uma obra literária, em particular do livro homónimo de James M. Cain, um autor que teve diversos livros que resultaram em fitas deste subgénero, entre os quais, "Out of the Past" e "The Postman Always Rings Twice", com Michael Curtiz a dotar este drama humano de características negras, algum mistério e tensão.

 A imoralidade domina alguns personagens, em particular Beragon e Veda. Beragon vive das aparências, para o momento, não tendo problemas em aproveitar-se de Mildred ou de tentar seduzir a filha desta, com Veda a também ser tudo menos uma santa. Se Veda pode ser considerada a femme fatale que envolve Mildred em problemas e a promete poder conduzir à desgraça (algo bem salientado por Rob Nixon no seu artigo publicado no site do TCM), também Beragon pode ser associado com uma figura venenosa que rodeia a protagonista e lhe pode trazer problemas. Diga-se que Beragon e Veda parecem estar bem um para o outro, apesar do primeiro ser muito mais astuto, enquanto a jovem está disposta a tudo para irritar a mãe, para além de ter uma relação fria com o progenitor. Bruce Bennett transmite sempre alguma incerteza em relação à personalidade do personagem que interpreta, embora pareça certo que Bert ainda tenha sentimentos por Mildred, com o actor a atribuir alguma credibilidade a este personagem nos momentos em que lhe é dado algum destaque. Bert é um dos muitos homens que marcaram a vida de Mildred, com este filme realizado por Michael Curtiz a colocar-nos diante de uma personagem feminina complexa, marcada por relacionamentos nem sempre felizes, que procura conjugar a sua vida familiar e profissional embora por vezes nem sempre consiga manter a clareza a nível de sentimentos e pensamentos. Veja-se a decisão de casar com Beragon, com Mildred a procurar fazer de tudo para agradar à filha, mesmo que isso a coloque em situações pouco agradáveis, como podemos verificar ao longo do filme. Joan Crawford consegue explorar a fragilidade de Mildred perante a filha, enquanto Michael Curtiz explora de forma exímia este relacionamento venenoso que se prepara para trazer maus frutos. Mildred procura dar tudo o que pode à filha, seja roupas caras, seja um carro topo de gama para a época, seja uma boa educação, embora tudo pareça insuficiente, com Veda a pedir por vezes um tratamento mais duro que travasse os seus devaneios e ilusões. Veda espera que quase tudo caia do céu, enquanto Mildred surge como o exemplo da mulher que ascendeu a pulso, num enredo que tem como pano de fundo um local dos subúrbios dos EUA, longe do escritório pouco luxuoso de Philip Marlowe. Se a construção da maioria dos personagens é praticamente impecável, já Lotte, a criada de Mildred e funcionária no seu primeiro restaurante, é provavelmente o elo mais fraco do filme, representando o estereótipo da mulher a dias negra, de voz aguçada e sempre subserviente. Era escusada uma representação tão pueril num filme marcado por personagens dotados de alguma complexidade, com o argumento a pecar neste quesito. Marcado por um conjunto de boas interpretações, com Joan Crawford a sobressair em relação aos demais colegas de elenco, "Mildred Pierce" mescla de forma orgânica os elementos de drama familiar com filme de investigação e noir, ao mesmo tempo que Michael Curtiz explora com eficácia o recurso aos flashbacks e aproveita ter entre mãos um argumento acima da média para elaborar uma obra cinematográfica marcante.

Título original: "Mildred Pierce".
Título em Portugal: "Alma em Suplício".
Realizador: Michael Curtiz.
Argumento: Ranald MacDougall.
Elenco: Joan Crawford, Jack Carson, Zachary Scott, Eve Arden, Ann Blyth.

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