26 agosto 2015

Resenha Crítica: "Match Point" (2005)

 Preso entre uma paixão marcada pelo ardente desejo carnal e um casamento sólido mas sem chama, Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) cria uma situação incontrolável que o vai conduzir a ter de tomar medidas drásticas em "Match Point", uma das obras-primas realizadas por Woody Allen, com o cineasta a voltar a pegar na temática do "assassinato perfeito" e as consequências morais associadas ao mesmo. Em "Crimes and Misdemeanors", Judah Rosenthal (Martin Landau), um oftalmologista com uma carreira reconhecida e um casamento sólido, depara-se com a procura de Dolores Paley (Anjelica Huston), a sua amante, em tornar o affair público. Judah toma a decisão drástica de deixar que o seu irmão contrate alguém para eliminar Dolores, terminando assim com o problema, ficando com a consciência pesada ao ter de conviver com o homicídio de um ser humano. Woody Allen aproveitou livremente elementos de "Crime e Castigo" de Fyodor Dostoyevsky em "Crimes and Misdemeanors", tal como irá aproveitar em "Match Point". Curiosamente, no primeiro terço do filme, encontramos Chris a ler este livro, com o seu destino a colocá-lo diante de situações moralmente duvidosas onde o seu lema sobre a sorte parece adequar-se paradigmaticamente: "O homem que disse 'prefiro ter sorte a ser bom', tinha uma grande intuição. Temos muita relutância em admitir que grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar que tanta coisa escapa ao nosso controlo! Há momentos num jogo em que a bola bate na orla da rede e por uma fracção de segundo a bola pode seguir ou cair. Com alguma sorte, segue em frente e ganhamos. Ou talvez não siga e perdemos". Chris é bafejado muitas das vezes pela sorte, quer seja na carreira profissional, quer seja em decisões do foro pessoal onde mesmo os seus actos mais imorais preparam-se para passar incólumes, numa obra cinematográfica negra, onde Woody Allen aproveita para explorar temáticas relacionadas com a moral, as diferenças de estatuto a nível social e a relevância que isso pode ter no ser humano, ao mesmo tempo que nos coloca diante das habituais relações intrincadas entre homens e mulheres. No caso de Chris, este é um antigo tenista, conhecido por um talento acima da média, tendo disputado partidas contra Agassi, que é contratado para dar aulas de ténis num clube em Londres, um estabelecimento que conta com uma clientela financeiramente abonada, de inscrição restrita e regras apertadas. É neste local que conhece Tom Hewett (Matthew Goode), o herdeiro de uma família de largas posses, que partilha gostos semelhantes ao protagonista a nível cultural, a ponto de convidar Chris para assistir consigo, o seus pais (Penelope Wilton como Eleanor Hewett; Brian Cox como Alec Hewett) e Chloe Hewett (Emily Mortimer), a sua irmã, a um espectáculo de ópera, algo que ambos apreciam. A ópera é uma parte relevante da banda sonora do filme e do enredo, dialogando por vezes com o mesmo, tendo sido num espectáculo do género que Chris conhece Chloe, aquela que viria a ser a sua esposa. Chris é um indivíduo de origem irlandesa, aparentemente frio a jogar ténis, tão perspicaz fora do court como é no interior do mesmo, tendo subido a pulso na vida. A mansão dos Hewett, bem como o estilo de vida dedicado aos luxos e à cultura, encantam-no, bem como a atenção dada por Chloe. Esta é uma mulher algo apagada, carinhosa e maternal, mas incapaz de despertar o fogo que Nola Rice (Scarlett Johansson) incita na alma deste personagem.

 Num encontro familiar, na casa de campo dos Hewett, Chris mata o tempo antes do jantar a jogar ténis com Tom e posteriormente com Chloe, com esta a revelar-se algo tímida e desastrada, embora o protagonista apresente sempre um tom compreensivo para com a mesma, com a educação e os gestos atenciosos deste indivíduo a despertarem a atenção de tudo e todos. A avançar pelas divisórias, encontra Nola, perto de uma mesa de pingue-pongue, com esta a desafiá-lo para uma partida. No jogo de ténis, encontramos algum distanciamento entre os corpos, enquanto neste breve jogo entre Chris e Nola assistimos a uma troca rápida da bola e de palavras, com este a passar ao ataque e tentar seduzir esta mulher, começando desde logo a destacar os seus lábios, com Scarlett Johansson a surgir mais sensual do que nunca, com Woody Allen a potenciar o talento da actriz a um nível bastante elevado. O momento em que Chris toca no corpo de Nola para o posicionar correctamente é marcado por algum erotismo e a certeza que o jogo de sedução entre ambos está a conhecer os primeiros passos, com "Match Point" a explorar o desejo mútuo que estes personagens despertam um no outro. Tal como Chris, também Nola é oriunda de uma família humilde, embora o primeiro tenha subido a pulso, enquanto a segunda ainda continua a tentar alcançar sucesso no mundo da representação, após ter saído dos EUA em direcção a Londres. Nola é namorada e noiva de Tom, algo que Chris apenas descobre depois de a tentar seduzir, apesar de mais tarde voltar à carga, com ambos a entrarem num jogo de sedução que promete trazer graves repercussões. Scarlett Johansson tem em Nola um dos grandes papéis da sua carreira, surgindo como uma das várias personagens femininas complexas que figuram nas obras cinematográficas de Woody Allen, com a actriz a incutir uma enorme sensualidade e até alguma safadeza a esta personagem que, mais tarde, irá ceder ao desejo, tal como Chris. A voz de Scarlett Johansson e os seus gestos são aproveitados ao máximo, com a própria câmara de filmar a parecer contribuir para transformar Nola num objecto de desejo que facilmente seduz Chris e o espectador. A relação entre Chris e Chloe avança, apesar dos dois não parecerem ter uma paixão fulgurante, enquanto Nola continua o seu namoro com Tom, apesar da mãe deste último não aprovar o mesmo devido à falta de perspectivas desta jovem e de ter planeado que o rebento casasse com outra mulher. Se Chris começa a trabalhar numa empresa e a integrar-se na família, apreciando os luxos pelos quais Nola também foi seduzida, já esta última pouco consegue agradar aos Hewett, parecendo quase sempre um "peixe fora de água" que mais cedo ou mais tarde vai ser repelido deste meio. Após uma discussão com Eleanor, assistimos Nola a sair da sala de estar da casa de campo, num estado visivelmente abalado, em direcção ao espaço campestre que rodeia a habitação, enquanto lá fora uma forte chuva abate-se sobre os cenários. A chuva cai de forma forte, selvagem, tal como o batimento cardíaco de Chris quando decide extemporaneamente sair da habitação em direcção a Nola, com os dois a beijarem-se e a protagonizarem uma cena de sexo que diz muito do quanto ansiavam por consumar este desejo mútuo. É uma cena onde assistimos a dois corpos cederem por completo aos seus instintos, sem pensarem nos perigos que poderiam correr se fossem apanhados neste momento de prazer momentâneo que irá deixar marcas em ambos. Chris sempre apresentou um certo interesse por Nola, visível quando tenta marcar encontros a quatro com a namorada, o cunhado e a personagem interpretada por Scarlett Johansson. A partir daqui o desejo intensifica-se. No entanto, Tom entedia-se de Nola, conhece outra mulher, apaixona-se por esta última e abandona a anterior namorada, casando com a sua nova cara-metade. Nola regressa aos EUA mas logo volta a Londres, novamente sob o signo do fracasso profissional, com o reencontro com Chris a prometer diversos episódios quentes. Apesar de se encontrar casado com Chloe, o protagonista não tem pejo em procurar escapulir-se sempre que pode para estar com Nola, parecendo mais forte do que ele, apesar de saber que, para manter o estilo de vida ao qual se habituou, não poderá abandonar a esposa.

 Com Nola assistimos a um desejo sexual fulgurante, enquanto a relação de Chris com Chloe surge muito marcada pelo desejo desta em ser mãe, com o sexo entre ambos a ser quase uma obrigação. A razão manda-o continuar com Chloe, uma mulher atenciosa e calma, enquanto o coração (e não só) mandam-no para os braços (e não só) de Nola, uma jovem volátil, que tanto tem de sensual como de frágil. No entanto, uma notícia surpreendente e a procura de Nola em ser reconhecida vai colocar o protagonista num abismo onde os seus valores morais vão ser testados e terá de confiar na sorte e no destino para sair incólume a uma situação intrincada na qual se envolveu. Jonathan Rhys Meyers é o elemento em maior destaque ao longo do filme, com o personagem que interpreta a envolver-se no interior de um núcleo familiar e viver uma série de episódios que prometem mudar a vida de diversos elementos. Este interpreta com enorme à vontade um indivíduo que procura apresentar uma mescla de cordialidade e frieza no quotidiano, cujos sentimentos nem sempre são discerníveis, com excepção de quando se encontra com Nola até aos acontecimentos do último terço, com os dois a parecerem "farinha do mesmo saco", ao procurarem um lugar de destaque numa sociedade onde não nasceram com a fortuna dos Hewitt. A relevância das diferenças sociais e de como estas podem ser difíceis ou não de ultrapassar é uma temática abordada ao longo do filme, com Chris a apresentar diversas mudanças ao longo da narrativa. Começa por habitar num pequeno apartamento em Londres, veste roupas menos dispendiosas, até começar a frequentar a casa dos Hewett, a viver numa habitação luxuosa após o casamento com Chloe e a utilizar vestimentas semelhantes ao cunhado, chegando inclusive a trabalhar num escritório, onde sobe facilmente de cargo graças à influência do sogro. Já Nola habita num apartamento barato, numa zona marcada por alguma criminalidade, uma vizinha da frente que lida com uma praga de ratos, com esta a tardar em conseguir alcançar as suas aspirações. A química entre Scarlett Johansson e Jonathan Rhys Meyers é latente, com estes a conseguirem transmitir o desejo mútuo dos personagens que interpretam, com a tentação a toldar muitas das vezes o discernimento de Chris e Nola. Já o relacionamento entre os personagens interpretados por Jonathan Rhys Meyers e Emily Mortimer é pontuado por uma maior frieza, com o protagonista a parecer procurar manter a relação com a esposa devido à segurança que esta lhe oferece do ponto de vista financeiro, laboral e emocional. Mortimer interpreta uma mulher pouco enérgica, algo tímida e frígida, que pretende abrir uma galeria de arte e ser mãe, com a actriz a incutir um perfil discreto a esta personagem que surge sempre na sombra da outra figura feminina. Chloe sempre teve tudo aquilo que pretendeu, com o envolvimento com Chris a parecer ter a aprovação dos pais desta mulher. Chris gera a simpatia de Tom, um indivíduo bon vivant, que gosta de apreciar os luxos da vida, mas também a dos seus futuros sogros, transmitindo uma aura de credibilidade numa obra cinematográfica onde Woody Allen volta a abordar temáticas relacionadas com traições, as intrincadas relações matrimoniais ou entre homens e mulheres, as diferenças sociais, naquele que é um dos seus filmes mais famosos da sua fase "europeia". As filmagens de "Match Point" decorreram em Londres devido ao financiamento ter vindo em parte do Reino Unido (conta ainda com fundos do Luxemburgo), com o cineasta a aproveitar os espaços urbanos ao serviço da narrativa, tais como o Tate Modern, a Royal Opera House, o Palace of Westminster, entre outros, sem que isso pareça forçado, transportando a sua visão muito própria da vida para este local. Allen sai de Nova Iorque para efectuar uma das suas obras recentes mais inspiradas, deixando de lado o humor presente em alguns dos seus filmes marcantes, mas a manter a qualidade na escrita dos argumentos e a extrair o que de melhor o seu elenco tem para dar.

 A qualidade do argumento é visível não só na construção dos personagens e dos seus relacionamentos, a ponto de conseguir atribuir dimensão a elementos tão secundários como os pais de Chloe e Tom, mas também a desenvolver os mesmos e a abordar temáticas já realçadas ao longo da resenha. A cinematografia de Remi Adefarasin, que viria posteriormente voltar a colaborar com Allen em "Scoop" (desprezado por alguns sectores da crítica mas apreciado aqui por esta pessoa), sobressai não só no aproveitamento dos cenários exteriores de Londres, mas também a explanar a riqueza dos interiores. Veja-se a casa de campo dos Hewlett, marcada por diversos livros, mobiliário caro, cavalos, espaço para caçarem, uma piscina, court de ténis, algo que transmite a opulência financeira destes personagens, contrastando com o apartamento quase vazio de Chris no início do filme, existindo mérito não só de quem decorou os mesmos mas também de como foram filmados de forma a contribuírem para o enriquecimento da narrativa e destas figuras que marcam o enredo. A câmara de filmar é ainda essencial para a exposição de alguns momentos mais tensos ou mais quentes do ponto de vista emocional, ficando particularmente na memória a cena entre Nola e Chris à chuva, ou quando este agarra subtilmente o seu corpo para a ensinar a mexer na raquete de ping-pong, ou no último terço quando o personagem interpretado por Jonathan Rhys Meyers se envolve numa situação perigosa para algumas figuras que o rodeiam e até para o próprio. Diga-se que sobressaem ainda alguns close-ups, em particular no rosto de Nola, com esta figura feminina de cabelos loiros, fumadora, que por vezes bebe em excesso, a surgir quase como uma mulher fatal, embora conte com as suas fragilidades emocionais. Raramente é totalmente levada a sério pela família de Tom, com a sua condição laboral e financeira a ditar este preconceito, mas também a procura desta em não ceder nos seus ideais. A situação gera algum desconforto na relação com a mãe de Tom, algo visível quando esta última, já algo embriagada, não tem problemas em atacar a falta de perspectivas de Nola, expondo a sua opinião pouco simpática à frente de tudo e todos. É um acto revelador da personalidade fria de Eleanor, numa obra onde diversos personagens contam com os seus pecados e imoralidades. Por sua vez, Chris aceita ser "comprado" para o interior deste mundo, com a sua esposa a procurar que o pai prenda desde logo o genro a um emprego com estatuto elevado, algo que facilmente seduz o protagonista. Marcado por um caso adúltero quente, relações de interesses, crimes que podem ou não ser punidos, uma banda sonora preenchida por temas de ópera, personagens de forte personalidade e interpretações de grande nível, "Match Point" é um triunfo de Woody Allen, transportando-nos para o interior de uma narrativa negra onde os protagonistas tornam-se muitas das vezes um joguete do destino, com o papel deste e da sorte a estarem muito presentes ao longo do filme.

Título original: "Match Point".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Brian Cox, Matthew Goode, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Jonathan Rhys Meyers, Penelope Wilton.

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