17 agosto 2015

Resenha Crítica: "Les diaboliques" (As Diabólicas)

 Não parece ser por acaso que Henri-Georges Clouzot é descrito de forma amiúde como o "Hitchcock" francês. Por um lado pode ser considerado como um elogio, por outro parece um insulto a um cineasta que merece ser reconhecido pelo corpo do seu trabalho ao invés de ser comparado ao "mestre do suspense". No entanto, em "Les Diaboliques" essa comparação torna-se relativamente pertinente, com Henri-Georges Clouzot a saber criar o mistério e tensão em volta do enredo, numa obra marcada por uma atmosfera negra onde duas mulheres conspiram para eliminar um indivíduo que marcou negativamente as suas vidas. Este indivíduo é Michel Delassalle (Paul Meurisse), o director de um colégio interno que apresenta comportamentos violentos para com Christina (Véra Clouzot), a sua esposa e financiadora deste espaço, uma mulher oriunda da Venezuela. Michel tem ainda casos com diversas mulheres, entre as quais Nicole Horner (Simone Signoret), uma professora da escola que também é alvo da violência deste indivíduo que raramente consegue despertar a nossa simpatia. Para surpresa de tudo e todos, Christina e Nicole apresentam alguma proximidade, com as duas a planearem em segredo o "plano perfeito" para eliminarem Michel. Christina parece mais frágil e temerosa, embora não queira avançar para o divórcio devido às suas fortes crenças religiosas, algo que a leva também a ter algumas reservas no acto de eliminar o esposo. Nicole parece mais decidida a ponto de incitar Christina a viajar até ao seu apartamento em Niort, tendo em vista a convencer Michel a deslocar-se ao local. O plano, maioritariamente arquitectado por Nicole, passa por colocar um forte soporífero no whisky, tendo em vista a afogarem este indivíduo na banheira e posteriormente colocarem o corpo na piscina da escola de forma a parecer que se afogou no local. Paul Merisse explora o lado odioso do personagem que interpreta, uma figura que se encontra longe de despertar a nossa simpatia e dos seus funcionários, que maltrata as duas mulheres, fisicamente e verbalmente, tendo pouco ou nenhum prazer na actividade como director da escola e ainda menos paciência para aturar os alunos. Por sua vez Véra Clouzot interpreta eficazmente uma figura frágil, que padece de problemas cardíacos, algo receosa, embora tenha a coragem de dizer ao esposo que pretende o divórcio para atraí-lo até ao apartamento. Nicole dirige-se até ao apartamento dos seus dois inquilinos, um casal, enquanto Christina fica a sós com o esposo. A garrafa de whisky fica quase sempre visível. Henri-Georges Clouzot coloca-nos diante de momentos de grande dúvida e tensão (um pouco a fazer recordar quando nos deixou com os nervos em franja quando os protagonistas de “Le salarie de la peur” transportavam dois camiões com nitroglicerina, com o perigo a estar quase sempre presente). Será que Michel vai ingerir a bebida alcoólica? Será que Christina terá coragem para levar este plano adiante? A chegada de Michel adensa estas dúvidas, com este a revelar mais uma vez a sua personalidade desprezível, enquanto Véra Clouzot exibe um receio latente no seu rosto, como se temesse ambas as possibilidades: o plano ir ou não ir adiante. Michel acaba por beber três copos, adormecendo, até Nicole entrar em casa e não ter problemas em encher a banheira de água e afogar este indivíduo. Se Véra Clouzot interpreta uma mulher frágil e religiosa, que apresenta alguns valores morais que se prepara para quebrar embora não os esqueça totalmente, já Simone Signoret transmite quase sempre a maior confiança de Nicole, com esta a parecer claramente farta dos maus tratos deste indivíduo, embora esconda uma agenda muito própria. As duas actrizes surgem em contraste, com Signoret a surgir como uma figura mais fria e dissimulada, confiante e sem escrúpulos, explorando a falsa confiança que Nicole transmite, enquanto Véra Clouzot exibe paradigmaticamente as fragilidades emocionais de Christina, uma mulher que aos poucos vê-se enredada numa teia de mentiras e começa a despertar a nossa simpatia.

O espaço da casa de Nicole transforma-se num antro da morte, com Michel a ser afogado, após momentos de enorme inquietação, com Henri-Georges Clouzot a criar toda uma atmosfera de suspense em volta da presença do personagem interpretado por Paul Meurisse, com uma simples garrafa na mesa e o conhecimento prévio sobre as figuras que povoam a narrativa a contribuírem para a situação, com o cineasta a revelar não só uma capacidade exímia em inquietar o espectador mas também um domínio latente da mise-en-scène. A inquietação não se fica por estes momentos. Seja uma corda do baú que se abre quando se encontram a transportar o recipiente com o corpo com a ajuda do inquilino, seja a presença da polícia a controlar o trânsito, seja um militar alcoolizado que pretende boleia, são vários os episódios que inquietam as duas mulheres e nos deixam na dúvida se conseguirão ou não ser bem sucedidas embora, nesses momentos, a "procissão ainda vai no adro". O pior ainda está para vir, com o plano aparentemente perfeito a revelar as suas imperfeições (ou talvez não) quando estas mulheres deixam o corpo na piscina, durante a noite, e este desaparece. A paranoia adensa-se entre as duas mulheres, com Christina a parecer mais perturbada, enquanto Nicole procura manter a calma, apesar de facilmente começarem a apresentar alguma irrisão, com a primeira a não ter problemas em acusar a segunda em relação à decisão de cometer o homicídio. Exibem as primeiras divisões, com a relação entre ambas a apresentar níveis elevados de tensão e desconfiança, com a educação religiosa de Christine a contribuir para um sentimento de culpa do qual esta parece ter dificuldades em libertar-se. A entrada em cena de Alfred Fichet (Charles Vanel), um antigo polícia, agora detective privado que se interessa pelo caso do desaparecimento de Michel, vem trazer um novo condimento à narrativa, com Christine a temer as possíveis descobertas deste homem, embora provavelmente devesse ter cautela é com as pessoas com quem escolhe formar alianças. As dúvidas são mais do que muitas, com "Les diaboliques" a inquietar-nos inicialmente em relação ao desfecho do plano destas duas mulheres até colocar-nos perante as incertezas em relação a um corpo perdido que tarda em aparecer. O que terá acontecido ao corpo? Quais os planos individuais de Christine e Nicole? Será que Michel estará mesmo morto? Estaremos diante de um plano mais complexo do que aquele que inicialmente é apresentado? A tensão atinge níveis elevados, com o mistério a rodear os poros desta obra cinematográfica, com uma reviravolta no último terço a adensar esta situação e a puxar-nos o tapete em relação àquilo que provavelmente estávamos a conjecturar, ou talvez não. A cinematografia de Armand Thirard contribui para algum deste desassossego, com este a aproveitar o contraste entre a luz e as sombras, não faltando os célebres momentos em que os personagens encontram-se em espaços de iluminação diminuta e o reflexo dos estores e afins permitem dar uma ideia de prisão. Veja-se quando Christina encontra-se no Hotel Éden, em busca de uma pista, e logo se depara com um espaço onde a iluminação parece remeter para a clausura em que se encontra. Temos ainda os momentos finais, onde a iluminação, o trabalho de câmara e a sonoplastia funcionam praticamente na perfeição para a criação de uma situação inquietante, onde a pulsação da protagonista e do espectador prepara-se para bater a um nível elevado. O coração desta mulher é fraco mas as emoções que vive são bem fortes, com Henri-Georges Clouzot a não poupar as suas protagonistas e o espectador, numa obra onde mais uma vez este nos coloca diante de uma visão pouco optimista da humanidade. Veja-se que encontramos um indivíduo que comete violência sobre as mulheres, duas figuras femininas que decidem cometer um assassinato, mentiras e traições numa obra onde nem sempre tudo é como parece indicar.

O cineasta volta a recorrer a diversos colaboradores habituais, entre os quais Charles Vanel, Véra Clouzot (a esposa de Henri-Georges Clouzot, uma mulher que viria a falecer aos quarenta e seis anos de idade, vítima de problemas cardíacos, algo que daria ainda maior impacto a este filme), Paul Meurisse, conseguindo extrair interpretações dignas de atenção da parte da maioria destes elementos ao longo de "Les diaboliques", uma obra livremente inspirada no livro "Celle qui n'était plus" de Boileau-Narcejac. Charles Vanel sobressai como um detective que vai mudar o paradigma da narrativa, parecendo surgir como aquele que mais sabe sobre os segredos que se preparam para ser desvendados em relação a Christina, Nicole e Michel. Véra Clouzot consegue explorar o lado mais frágil da personagem que interpreta, uma mulher que comete um acto do qual aos poucos se parece arrepender, deparando-se com uma teia de mentiras e perigos que podem colocar a sua vida em perigo, parecendo confiar em demasia em Nicole, com Simone Signoret a dar vida a uma figura que aos poucos começa a despertar-nos algumas dúvidas e a exibir o seu lado mais negro. A dinâmica entre Véra Clouzot e Simone Signoret é muitas das vezes fundamental para a narrativa, com estas a parecerem manter alguma proximidade, até começarem a exibir as suas diferenças e motivações. Já a Paul Meurisse cabe interpretar um indivíduo frio e violento, de quem poucos parecem gostar no interior da escola, cuja punição para os seus actos vai ser mais surpreendente do que esperávamos. Diga-se que o último terço é pródigo em surpresas, incluindo um pedido para o espectador não revelar o final de "Les diaboliques", um thriller marcado por uma atmosfera negra e inquietante. As mentiras são mais do que muitas, a morte parece pairar pelo enredo, enquanto o espaço da escola aos poucos transforma-se em algo de sufocante, com o medo e a inquietação a dominarem, bem como os segredos. A escola é um dos cenários predominantes do filme, com "Les diaboliques" a colocar-nos em alguns momentos diante do funcionamento da mesma e das traquinices dos seus alunos, embora o foco central esteja no triângulo formado por Christina, Michel e Nicole, com Fichet a vir a ter um papel fulcral no desenrolar da narrativa. O filme remete para o pessimismo em relação à humanidade e tom negro de outras obras cinematográficas de Clouzot, em particular “Le corbeau” e “Le salaire de la peur”, ambas marcadas por uma atmosfera negra, tensão, personagens moralmente duvidosos, com poucos elementos a serem capazes de despertar a nossa simpatia. Inquietante e misterioso, "Les diaboliques" surge como um thriller negro, onde o pessimismo de Henri-Georges Clouzot parece vir ao de cima, mas também o seu talento para a realização, com o cineasta a conseguir criar uma obra cinematográfica emocionalmente intensa, preterindo os sustos avulsos em favor de um enredo sólido cuja atmosfera é marcada por enorme tensão.

Título original: "Les diaboliques".
Título em Portugal: "As Diabólicas".
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri-Georges Clouzot e Jérôme Géronimi.
Elenco: Simone Signoret, Véra Clouzot, Paul Meurisse, Charles Vanel.

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