29 agosto 2015

Resenha Crítica: "Le salaire de la peur" (O Salário do Medo)

 O pessimismo de Henri-Georges Clouzot atinge um dos seus pontos elevados em "Le salaire de la peur", um dos seus trabalhos mais elogiados e memoráveis, com o cineasta a desfazer-nos os nervos por completo ao longo da narrativa onde encontrarmos quatro motoristas a guiarem dois camiões com uma quantidade elevada de nitroglicerina enquanto procuram lutar pelas suas vidas e desafiar o destino. Sentem medo e transmitem-nos isso mesmo, enquanto Clouzot inquieta-nos em relação ao destino que traçou para os personagens, tendo a ironia final de mesclar uma cena de um baile com uma morte violenta, onde a banda sonora parece adensar a tragédia de uma felicidade que não se chega a concretizar. Diga-se que os momentos iniciais de "Le salaire de la peur" são exactamente marcados por esse pessimismo, com a cidade de Las Piedras, localizada numa zona desértica de uma nação da América Latina, a ser apresentada como um local pontuado por gentes provenientes de territórios distintos, sem rumo, pouco trabalho e ainda menos dinheiro, que parecem encontrar-se num limbo difícil de sair. Entrar em Las Piedras parece fácil e barato. Sair é complicado, sobretudo por esta não ser uma cidade dada a proporcionar grandes condições financeiras aos seus habitantes, quase que a fazer recordar os momentos em que o personagem interpretado por Humphrey Bogart andava a pedir esmola no início de "The Treasure of the Sierra Madre", num desolador espaço urbano mexicano. Las Piedras surge como um espaço poeirento, marcado por locais muitas das vezes sem pavimentação ou estradas de alcatrão, gentes a viver em condições miseráveis, um aeroporto por onde circula um avião que traz novos habitantes e a correspondência, com o bar de Hernandez (Darío Moreno), um indivíduo com um feitio peculiar, nem sempre dado a grandes simpatias ou demonstrações de afecto, a aparecer como um cenário central deste território que parece saído do Velho Oeste. Este bar é frequentado por um bando de indivíduos muitas das vezes sem posses, entre os quais Mario (Yves Montand), um tipo machista, pronto a correr riscos e a formar amizades com estranhas figuras, mantendo um caso com Linda (Véra Clouzot), uma mulher que o venera apesar do desprezo que este lhe brinda. Yves Montand surge quase sempre com uma camisola de manga de cava branca, pronto a exibir a sua descontração, pouca preocupação e uma "estampa" imponente. Mario trava conhecimento com Jo (Charles Vanel), um antigo gangster que chega a este local com mais conversa do que dinheiro, com os melhores tempos da sua vida a já parecerem ter passado, apesar de isso não o impedir de ter as suas ambições. Jo e Mario formam amizade, com o primeiro a conhecer Bill O'Brien (William Tubbs), um indivíduo que outrora participara em golpes ao lado do personagem interpretado por Charles Vanel que, agora, dirige a filial da Southern Oil Company, uma companhia petrolífera dos EUA, que exerce uma enorme influência no local. A Southern Oil Company é conhecida pelo poder que tem, bem como pelo desprezo em relação aos direitos laborais e à segurança dos trabalhadores (existe um claro discurso anti-capitalista), algo que conduz a um acidente, em particular um incêndio num poço de petróleo, que vitima uma quantidade considerável de seres humanos, com estes a serem tratados como mera mercadoria.

Bill inicialmente recusa oferecer emprego a Jo, apesar do pedido deste último, temendo que o passado nebuloso fosse descoberto, algo que poderia conduzir ao despedimento de ambos. Diga-se que Jo é um foco de confusões, sendo pouco apreciado por Linda e Luigi (Folco Lulli), um italiano que se encontra a trabalhar nas obras, amigo de Mario. A juntar a estes personagens temos ainda Bimba (Peter van Eyck), um holandês que, durante a II Guerra Mundial, foi colocado a trabalhar numa mina de sal, que agora labora para Hernandez. Todos estes elementos têm em comum frequentarem ou trabalharem no bar de Hernandez, um espaço que parece ser uma referência desta pequena cidade. A vida destes personagens é marcada por muita procrastinação, alguns arrufos e a devoção de Linda por Mario, algo que a levará a temer o próximo passo que este vai tomar na sua carreira profissional, em particular conduzir um camião com uma quantidade considerável de nitroglicerina. A Southern Oil Company efectua um recrutamento para seleccionar quatro motoristas tendo em vista a que estes conduzam dois camiões com nitroglicerina até a um posto mais distante, algo que permitiria provocar uma explosão que cercearia o fogo no poço de petróleo. A decisão é arriscada, já que a companhia não tem veículos especializados para a função, uma situação que conduz Bill a contratar indivíduos sem grandes laços familiares e muito pouco a perder, para o caso de poucos darem pela sua falta se falecerem em serviço. O número de candidatos é elevado, algo revelador da grande quantidade de gente desesperada que se encontra pronta a arriscar a sua vida, com a escolha a recair em Mario, Bimba, Luigi e Smerloff (Jo Dest). Quem se encontra numa situação pior é Jo, ao ter sido colocado fora das escolhas iniciais, embora, numa conversa com O'Brien, consiga ficar com o estatuto de substituto. Nesse sentido, quando Smerloff, um candidato que se tinha safado melhor do que a maioria, desaparece misteriosamente, logo as atenções viram-se sobre Jo, com os olhares questionadores a dizerem mais do que qualquer palavra. Mario fica com Jo no camião, enquanto Luigi fica com Bimba, com o veículo dos primeiros a partir com trinta minutos de avanço para evitar que a possível explosão de um destes meios de transporte afecte o outro. A segurança é quase nula, o mínimo impacto pode fazer com que os galões expludam, as condições laborais são praticamente inexistentes embora o salário seja demasiado tentador para que estes homens desistam. Existe um discurso crítico em relação às grandes corporações e à conduta das mesmas em relação aos trabalhadores, com Henri-Georges Clouzot a efectuar um retrato pouco simpático desta empresa dos EUA que se encontra em Las Pedras a explorar os trabalhadores locais. Poderíamos extrapolar para os dias de hoje se a situação poderá ou não ter mudado assim tanto, com polémicas associadas a algumas marcas e afins cujos produtos são fabricados em países "exóticos" a não terem deixado completamente de ser assunto. O próprio discurso crítico remete para a procura dos EUA em ingerirem-se em países que contam com petróleo, exibindo uma procura de entroncar a ficção na realidade. Diga-se que a versão inicialmente exibida de "Le salaire de la peur" nos EUA foi sujeita a diversos cortes devido à representação da companhia petrolífera yankee, com o filme a ser acusado de anti-americanismo (embora Clozout já esteja habituado a algumas polémicas, ou não tivesse outrora sido suspenso do seu ofício devido a ter trabalhado na Continental Films, uma empresa da França ocupada financiada pela Alemanha Nazi, onde desenvolveu o controverso e recomendável "Le corbeau", uma obra cinematográfica que está longe de poder ser considerada como propaganda). A viagem é marcada pelo medo constante sentido pelos quatro elementos e pela tensão que se gera junto do espectador. As comparações que efectuam entre Henri-Georges Clouzot e Alfred Hitchcock fazem algum sentido nas cenas em que Jo, Mario, Luigi e Bimba partem em direcção a um posto do SOC, com o cineasta a saber inquietar o espectador, com a presença dos galões com nitroglicerina a deixar sempre a certeza que a qualquer momento poderemos assistir a alguma explosão. É impossível que nos esqueçamos disso, tal como será complicado para Luigi, Bimba, Jo e Mario não terem a noção que transportam material explosivo que, ao mínimo erro, promete arrasar com as suas vidas.

As dinâmicas entre os personagens são essenciais, com todos a serem movidos pelo dinheiro. Jo, até então mais fanfarrão, parece amedrontar-se, a ponto de num momento de maior perigo chegar a fugir, deixando Mario a ter de se desenvencilhar sozinho. Diga-se que esta situação não deixa de ser algo irónica, sobretudo se tivermos em conta que Mario apresentou mais dúvidas inicialmente do que Jo, com este último a encorajar o companheiro. Luigi e Bimba apresentam maior espírito de entreajuda e companheirismo, com o primeiro a já fazer planos para o futuro, embora esses desejos devessem ser refreados pela realidade já que se encontram quase sempre mais perto da morte do que da glória de chegarem com vida ao destino e finalmente estabilizarem as suas finanças com o pagamento de dois mil dólares. Pelo caminho encontram vários percalços. Desde territórios montanhosos e arenosos, passando por estradas que obrigam a uma velocidade mínima ou pelo menos a concentração necessária para utilizar um ritmo contínuo que não faça o camião saltar um pouco e tudo explodir, até uma plataforma composta por tábuas de madeira cujos alicerces despertam pouca segurança, entre outros exemplos. A cinematografia é exemplar, quer a explorar os espaços da cidade de Las Piedras e exibir a atmosfera desoladora que rodeia a mesma, tal como o forte calor e as parcas condições que oferece aos cidadãos, mas também nas cenas de maior inquietação. Veja-se quando se foca nas rodas a atravessarem a perigosa plataforma constituída por tábuas de madeira, enquanto Bimba e Luigi procuram, em enorme espírito de entreajuda, fazer com que tudo corra bem. Quando uma tábua se parte, os nervos destes dois homens parecem ficar em franja, tal como os do espectador, mas Luigi logo exibe o seu enorme voluntarismo, algo que não irá acontecer entre Jo e Mario. A viagem de Jo e Mario é sempre mais atribulada, tendo como ponto alto a entrada do veículo numa cratera que se encontra inundada por petróleo que ameaça fazer com que o camião fique encalhado lá no meio. Esperamos uma decisão mais humana mas o espírito de sobrevivência fala mais alto, com estes homens a procurarem manter as suas vidas no meio deste território inóspito. A presença de nitroglicerina conduz a que Clouzot crie algumas cenas inquietantes, com boa parte desta jornada pelas estradas a ser marcada pelo medo dos personagens e o nosso em relação ao destino dos mesmos, com o cineasta a saber criar o receio junto do espectador ao mesmo tempo que permite explorar a reacção destas figuras diante de situações extremas e pelo caminho questionar-nos sobre o que faríamos num caso idêntico. Não é um caso fácil, com cada elemento a ter de confiar a sua vida ao parceiro do lado, com o quarteto de actores a evidenciar-se a interpretar estes personagens de personalidades distintas. Peter van Eyck é aquele que surge inicialmente mais lacónico, atribuindo ao personagem que interpreta alguma frieza que se parece conjugar na perfeição com o voluntarismo e simpatia que Folco Lulli concede a Luigi. Este é um italiano que trabalha nas obras cujas parcas condições laborais conduziram a que os seus pulmões estejam queimados de cimento, algo que, a continuar assim, poderá levar à sua morte. No entanto, os elementos em maior foco são quase sempre os personagens interpretados por Yves Montand e Charles Vanel (um colaborador habitual de Clouzot). Yves Montand pelo estilo meio despreocupado, meio confiante, algo machista e irreverente, pronto a tentar sair do buraco em que se encontra a sua vida, parecendo ter em Jo um líder apesar de facilmente perceber que este homem está longe de transmitir a confiança que poderia esperar do mesmo, algo que vai causar algumas fissuras entre ambos durante a viagem. Essa situação é visível quando encontramos Jo a fugir, ou Mario a tomar uma decisão moralmente questionável para preservar a sua existência. Charles Vanel surge como um elemento estranho que se insere no interior deste espaço citadino enquanto arranja alguns problemas, com o actor a interpretar de forma sublime esta espécie de manda-chuva em decadência, cujos hábitos não se adequam ao seu estado actual, algo visível quando a meio da viagem começa a demonstrar os seus receios. O medo consome-o. Diga-se que todos os personagens, de maior ou menor forma, acabam por nutrir este sentimento, embora seja mais saliente em Jo, com este a temer o final da sua vida.

O calor é latente, as condições para circular com os camiões são pouco recomendáveis, numa obra que mescla temáticas presentes em obras como "They Drive By Night", associadas aos perigos vividos pelos camionistas, embora de forma mais crua e intensa do que o filme de Raoul Walsh, mas também "The Treasure of Sierra Madre", onde a ambição toldou muitas das vezes o discernimento do personagem interpretado por Humphrey Bogart. No caso de "Le salaire de la peur", o medo e a ambição descontrolam estes personagens que são praticamente obrigados a ter nervos de aço para cumprirem os seus objectivos. As relações entre estes homens são marcadas por alguns momentos que facilmente ficam na memória. Veja-se quando encontramos Luigi num momento de maior fricção com Jo no bar de Hernandez, ou quando o personagem interpretado por Charles Vanel decide subir um espaço íngreme em fuga, ou as rodas de um camião são colocadas em destaque quando o veículo encontra-se a atravessar uma zona marcada por tábuas de madeira, algo que realça que ao menor deslize poderemos ter a morte de alguns personagens, ou quando Bimba lidera a procura de destruir um pedregulho com nitroglicerina para desobstruir o caminho, um acto que pode colocar a vida de todos em perigo, entre outros episódios. Temos ainda os magníficos momentos finais, emocionalmente arrasadores e surpreendentes, que atomizam alguma ideia que poderíamos ter em relação à felicidade de alguns personagens, com Clouzot a espelhar uma visão desencantada que nos assola a alma após o término de "Le salaire de la peur". Neste universo narrativo dominado maioritariamente por personagens masculinos, a única figura feminina em realce é Linda, interpretada por Véra Clouzot, a esposa do cineasta, com esta a incutir alguma sensualidade e candura a um elemento que maioritariamente é desprezado por Mario. Veja-se quando despreza a procura desta em evitar que o mesmo parta (atirando-a porta fora em direcção ao chão), ou a trata como se fosse um mero objecto, embora Linda continue a manter uma enorme devoção para com este homem. Apesar de ser praticamente a única mulher em destaque, Linda surge também como aquela que nos desperta mais simpatia, que parece ter melhores intenções e boa índole (embora a representação dos mexicanos esteja longe de ser simpática) numa obra cinematográfica marcada por uma atmosfera negra, onde a procura pelos protagonistas em melhorar as suas condições de vida prepara-se para sair demasiado cara. Estão longe de ser heróis altruístas, pensando sobretudo no seu bem estar, com Clouzot a exibir mais uma vez algum pessimismo em relação ao ser humano. Já tinha sido assim em "L’assassin habite au 21" e "Le corbeau", onde qualquer um poderia ser o suspeito, tal como seria em "Les diaboliques", uma obra onde a única personagem capaz de despertar alguma simpatia tem um destino pouco feliz, ou em "La vérité", onde a imoralidade parece rodear as várias figuras que pontuam a narrativa, algo que se repete em "Le salaire de la peur". Inspirado livremente no livro homónimo de Georges Arnaud, "Le salaire de la peur" surge como um drama tenso, marcado por uma enorme crueza, personagens complexos que se encontram longe de serem exemplos a seguir e uma cinematografia capaz de se ajustar a este ambiente negro e inquietante, onde a qualquer momento esperamos uma explosão, seja esta provocada pela nitroglicerina ou pelos sentimentos, com Henri-Georges Clouzot a criar uma obra cinematográfica sublime.

Título original: "Le salaire de la peur".
Título em Portugal: "O Salário do Medo". 
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri-Georges Clouzot e Jérome Geronimi.
Elenco: Yves Montand, Charles Vanel, Peter van Eyck, Folco Lulli, Véra Clouzot, William Tubbs.

Sem comentários: