28 agosto 2015

Resenha Crítica: "Le corbeau" (1943)

 A vida de Rémy Germain (Pierre Fresnay), um médico que labora em Saint-Robin, uma pequena cidade francesa, onde quase todos se parecem conhecer, não anda fácil. Este é o protagonista de "Le corbeau", um filme marcado pelo mistério, onde os habitantes deste território começam a receber cartas assinadas por um elemento anónimo que se auto-denomina de "O Corvo", que procura manchar a reputação do médico. A atmosfera é opressora e pouco auspiciosa para o protagonista, quer a nível pessoal, quer a nível profissional, com este a ter de lidar com uma série de três partos mal-sucedidos no espaço de seis semanas, onde as mães permaneceram com vida embora os rebentos não tenham conhecido a mesma sorte. A cinematografia de Nicolas Hayer contribui de forma amiúde para essa atmosfera opressora, com as sombras a sobressaírem muitas das vezes sobre as luzes, os espaços fechados a poderem ganhar características claustrofóbicas, quer seja uma igreja frequentada por uma miríade de pessoas ao Domingo (a religião e religiosidade dos habitantes, em contraste com o ateísmo do protagonista, é uma das temáticas), quer seja uma sala de aula onde a caligrafia dos suspeitos é testada. As cartas são enviadas para quase todos os habitantes da cidade, procurando inquietar os mesmos, tendo em vista a descredibilizar Rémy, mas também a suscitar algumas dúvidas sobre outros destinatários, numa obra cinematográfica que nos coloca diante dos efeitos dos boatos infundados num território pequeno e conservador. Remete para uma atmosfera próxima da que vamos encontrar em alguns filmes noir, marcada por alguma malaise, traições, personagens imorais, onde a fronteira entre o bem e o mal por vezes assiste a um esbatimento perigoso, ao mesmo tempo que assistimos a uma série de acontecimentos que adensam o mistério em volta do "corvo" e do destino de Rémy. Este mantém uma relação de proximidade com Laura Vorzet (Micheline Francey), a esposa de Michel Vorzet (Pierre Larquey), um chefe da ala psiquiátrica do hospital onde Rémy trabalha, que recebeu uma carta a expor um possível affair entre a esposa e o protagonista. Laura e Rémy encontram-se secretamente, com um possível envolvimento entre ambos a desagradar a Marie Corbin (Héléna Manson), a irmã da primeira, uma enfermeira austera a nível de sentimentos que, aos poucos, apresenta alguns comportamentos que indiciam que poderá ser a autora das cartas. Se Marie surge quase sempre representada como uma personagem desagradável, tendo outrora mantido um relacionamento com Michel, com Héléna Manson a procurar manter a rigidez desta enfermeira na exposição dos sentimentos, algo latente na pouca atenção dada aos doentes, já Laura aparece como uma figura feminina que facilmente desperta a nossa simpatia, embora também esta seja alvo do "corvo". Laura trabalha como assistente social, frequentando regularmente o hospital, tendo recebido recentemente uma carta do "corvo" sobre os encontros com Rémy, com esta inicialmente a pensar que foi o protagonista que revelou alguns episódios que dizem respeito à intimidade da dupla, algo que não corresponde à verdade, como a primeira irá perceber devido à imensidão de missivas do género. Também Rémy recebe uma carta, ainda no primeiro terço, onde é avisado para não voltar a ver Laura, com esta a ser descrita como prostituta no texto, naquela que será uma das várias missivas que o médico recebe. 

É notório o desconforto que estas cartas geram no protagonista, com a descoberta das mesmas a ser acompanhada por alguma tensão e mistério ou o seu autor não fosse um indivíduo cuja identidade apenas é descoberta no final do último terço. As cartas não se ficam por aqui: Delorme, o superior do protagonista no hospital, recebe uma missiva a dizer que Rémy aproveita-se de mulheres vulneráveis, com a carta a colocar em causa a honestidade de Bonnevie (Jean Brochard), o tesoureiro; Bonnevie recebe uma carta onde Rémy é mencionado como o abortador, sendo ainda insinuado que Jeannette, a filha do primeiro, anda a passar demasiado tempo na sala do médico-chefe (Delorme); François (Roger Blin), um doente que padece de cancro no fígado, que conhecemos inicialmente quando pede para sair da cama treze, comete suicídio ao ver revelado numa carta que tem apenas duas semanas de vida, entre outras que procuram não só difamar o protagonista mas também expor alguns temas relacionados com os visados. O mais afectado com todas estas cartas é Rémy, ou não fosse este o principal alvo das missivas. O objectivo do envio das cartas nem sempre é claro, parecendo existir uma vingança pessoal que visa minar a reputação do protagonista e denunciar pelo caminho alguns podres dos restantes habitantes de Saint-Robin. Diga-se que esta temática, da utilização das cartas anónimas como meio de denúncia e boato, pode ser geradora de alguma polémica se tivermos em linha de conta que esta obra foi produzida pela Continental Films. Não são apenas os cidadãos desta pequena cidade que contam com os seus "rabos de palha", também "Le corbeau" contou durante vários anos com o estigma de ter sido uma produção da Continental Films, uma companhia francesa criada com fundos alemães, durante a II Guerra Mundial, por Joseph Goebbels, sendo dirigida por Alfred Greven. No entanto, a produção teve o "mérito" de não agradar aos elementos da Resistência e da França de Vichy, algo comentado por Remi Fournier Lanzoni em "French Cinema" (citado pelo artigo sobre o filme no site do TCM): "(...) a large number of viewers were reluctant to praise the film, some because they had trouble categorizing it, while others were morally offended by it. Le Corbeau was indeed besieged from both sides of the political scene. The anti-Nazi activists and members of the Resistance considered Le Corbeau pro-Nazi propaganda and fiercely fought (in the clandestine press) against the screening of the film. To them, it exemplified a collaboration with and submission to the German authorities by portraying a gloomy image and the malicious character of French people...The right wing and Vichy supporters also demanded the film be banned for its immoral values". Ou seja, por um lado temos a denúncia através das cartas anónimas, uma situação utilizada para incriminar aqueles que não eram afectos ao regime ditatorial da França de Vichy, por outro também temos uma representação pouco simpática do povo francês, com o filme a apresentar algum pessimismo em relação ao ser humano, no geral, que lhe retira o peso de poder ser considerado como uma obra cinematográfica de propaganda. A própria representação dos perigos provocados pelas cartas e uma personagem que salienta que não é uma delatora, um termo utilizado de forma pejorativa, exibe que estamos longe de uma mera obra de propaganda, bem pelo contrário.

Como salienta Dennis Schwartz no seu texto sobre o filme no site Ozu's World, "Le corbeau" surge como uma: "misanthropic exposé of occupied France: it mocks all those in authority and every class is shown to be hypocrites, with the upper-class doctors coming off the worst. It looks and feels like film noir, though noir didn't become discovered until post-WWII". Esta situação conduziria a que Henri-Georges Clouzot fosse despedido dois dias antes da estreia do filme, com "Le corbeau" a ter o efeito de ter desagradado aos elementos da Continental, à Resistência e à Igreja Católica. Diga-se que, ao ser visualizado sem o conhecimento prévio do ano em que o filme foi lançado e o seu contexto de produção, boa parte desta linha de interpretação até poderia ir por água abaixo, já que estamos diante de uma obra que, na sua essência, nem se distingue assim tanto do pessimismo presente em alguns noir dos EUA e até do corpo da obra de Clouzot, com este a marcar boa parte dos seus trabalhos com alguma crueza e pessimismo em relação à Humanidade. A Pierre Fresnay cabe interpretar um médico que desperta a atenção das figuras femininas, um indivíduo com um passado marcado por um desgosto que conduziu à sua mudança para este local, encontrando-se visivelmente agastado com toda esta situação. A habitação de Rémy fica localizada numa escola dirigida por Saillens (Noël Roquevert), o pai de Rolande (Liliane Maigné), uma jovem que trabalha no posto dos correios, cuja conduta também não escapa ao "corvo". Saillens é irmão de Denise (Ginette Leclerc), uma mulher que procura despertar a atenção do protagonista, surgindo como uma figura conquistadora que aos poucos revela algumas fragilidades emocionais que procura esconder por detrás da sua faceta sedutora e emotiva. Denise é uma mulher extremamente maquilhada, que coxeia de uma perna devido a um acidente, procurando assumir uma postura conquistadora junto do protagonista, a ponto de fingir estar doente para ser consultada pelo mesmo. Esta é outra das suspeitas, tendo problemas em lidar com algumas rejeições por parte do protagonista, apesar de um momento de aproximação trazer consequências que ambos inicialmente não esperavam. Rémy parece sentir algo por Denise, mas também por Laura, embora esta última seja casada, com os encontros entre ambos a terem ainda de ser mais secretos devido às acções do "corvo". Aos poucos gera-se um clima de suspeição e paranoia em volta de um conjunto de personagens onde a maioria pode ou não ser culpada do caso, com Henri-Georges Clouzot a deixar-nos presos a este meio opressor, marcado pelo mistério relacionado com o remetente das cartas, numa obra cinematográfica onde a maioria dos personagens tem "rabos de palha". O argumento, escrito por Henri Chavance e Henri-Georges Clouzot, não só nos coloca diante de uma visão algo pessimista da Humanidade como nos embrenha para o interior deste espaço quase rural onde assistimos a cartas que contêm calúnias e revelações, mas também a traições, mentiras, personagens moralmente questionáveis, mortes, enquanto o "corvo" promete afectar boa parte da população deste território. A tensão atinge níveis elevados quando François comete suicídio, sendo organizado um funeral público, onde boa parte dos olhares estão virados para Marie, a principal suspeita de ter enviado a carta a revelar a este indivíduo que tinha pouco tempo de vida. Mais tarde sabemos que esta não é a culpada, mas encontramos expostos os efeitos que os boatos podem gerar numa turba descontente, com a população local a partir em fúria em direcção a Marie, com esta a ter de fugir até sua casa, onde descobre que parte dos objectos da habitação foram destruídos. Os momentos são inquietantes, com Marie, uma mulher de personalidade rígida e incapaz de gerar simpatia, a ter de fugir de tudo e todos.

Héléna Manson consegue destacar-se pela positiva como esta personagem algo fria e religiosa, num filme onde as figuras femininas também apresentam alguma relevância. Denise Saillens parece sentir-se apaixonada e atraída pelo protagonista, embora este, a certa altura, pareça pretender deixar a cidade e esta mulher. Laura apresenta uma relação ambígua com Rémy, enquanto a jovem Rolande, uma adolescente de catorze anos de idade, aparentemente inocente, também comete algumas atitudes reprováveis e suspeitas. A mãe de François (Lucy) procura descobrir quem conduziu o filho a cometer suicídio, surgindo como uma figura soturna que tenta efectuar justiça pelas próprias mãos, cabendo-lhe um papel decisivo no último terço. Temos ainda outros personagens que sobressaem, tais como Vorzet, com Pierre Larquey a ter uma interpretação convincente como um médico aparentemente simpático, com uma barba cuidada, quase sempre acompanhado pelo seu chapéu de coco, que tem uma visão da vida algo distinta do protagonista (algo que lhe chega a salientar quando comenta que Rémy é demasiado extremista ao dividir tudo entre o bem e o mal), embora também esteja longe de não contar com os seus pecados. Poucos são os personagens completamente impolutos ao longo de "Le Corbeau", com o enredo a colocar-nos diante de um conjunto de figuras que nos deixa imensas vezes na dúvida em relação ao que pensarmos sobre as mesmas. No entanto, cabe a Pierre Fresnay ser o elemento em maior destaque do elenco, com este a incutir quase sempre alguma credibilidade e cinismo ao personagem que interpreta, um indivíduo que procura exercer o seu ofício com profissionalismo, que parece muitas das vezes pronto a desistir e sair da cidade, tendo em Denise uma figura que o atrai e repele, numa obra que causa o mesmo efeito no espectador ao arrastá-lo para o interior deste pequeno espaço citadino, onde a força dos boatos prepara-se para causar estragos, onde nada nem ninguém parece totalmente confiável. Diga-se que o início é marcado desde logo por um tom pessimista, com uma mãe a perder o seu filho à nascença, enquanto o protagonista parece simultaneamente afectado por não ter conseguido salvar o rebento e aliviado pela progenitora do mesmo ter permanecido com vida. Este recebe diversas cartas provocadoras e insultuosas ao longo do filme, vê a sua personalidade, passado e currículo profissional serem colocados em causa diante dos restantes habitantes e do espectador, numa obra onde poucos são os personagens que se podem orgulhar da sua conduta. Veja-se quando se dirige para visitar uma doente e logo é barrado por uma familiar que apresenta uma enorme simpatia para com Rémy mas logo muda o discurso quando este vira costas, ou a falta de protecção que tem por parte dos colegas e das autoridades. Os próprios governantes locais estão longe de serem representados como figuras competentes, com "Le corbeau" a parecer retirar um enorme prazer em explorar este local pontuado por seres humanos que na sua maioria estão longe de ser um exemplo a seguir, independentemente de irem aos Domingos à missa. “Le corbeau”, em parte, até remete para "L’Assassin habite au 21", a primeira longa-metragem do cineasta para a Continental, onde um investigador da polícia tinha de procurar descobrir a identidade de um serial killer, com as possibilidades a serem mais do que muitas. O próprio tom negro do filme parece remeter para outras obras do cineasta, tais como "Les diaboliques" onde a única personagem capaz de despertar alguma simpatia tem um destino pouco feliz, ou "La vérité", onde a imoralidade parece rodear as várias figuras que pontuam a narrativa, algo que se repete em "Le salarie de la peur". Marcado pela atmosfera opressora que envolve boa parte da narrativa e os espaços de uma cidade de província francesa, diversos personagens cujos comportamentos estão longe de ser os mais recomendáveis e um médico que encontra a sua vida a ser escrutinada e alvo de boatos devido a um conjunto elevado de cartas, "Le corbeau" surge como uma obra cinematográfica pontuada pelo mistério e tensão gerados pela correspondência enviada pelo "corvo", com a identidade deste homem ou mulher a intrigar-nos ao longo de boa parte da narrativa, bem como as diversas figuras que povoam este filme que merece ser avaliado mais pelos seus méritos do que pelo facto de ter sido produzido por uma empresa de um regime ignóbil.

Título original: "Le corbeau". 
Título no Brasil: "Sombra do Pavor". 
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri Chavance e Henri-Georges Clouzot.
Elenco: Pierre Fresnay, Ginette Leclerc, Pierre Larquey, Micheline Francey.

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