24 agosto 2015

Resenha Crítica: "L'assassin habite au 21" (O Assassino Mora no 21)

 Entre o whodunit e a comédia, "L'assassin habite au 21" surge como a primeira longa-metragem realizada por Henri-Georges Clouzot para a Continental Films, uma empresa de produção cinematográfica da França ocupada fundada com capitais da Alemanha Nazi. É uma obra leve, marcada por algumas reviravoltas, humor e mistério, com este último a encontrar-se inerente aos assassinatos em série provocados por um indivíduo que se auto-intitula de "Monsieur Durand". Logo de início encontramos Alfred (René Génin), um individuo que ganhou a lotaria, a festejar o dinheiro fresco a beber de forma exagerada em bares, até ser morto. Junto ao seu corpo é colocado um cartão a dizer "Monsieur Durand", algo que se repete para as outras vítimas, surgindo como um modus operandi deste indivíduo cuja identidade é desconhecida. É então que são dados dois dias para o Comissário Wenceslas Vorobeïtchik, mais conhecido por Wens (Pierre Fresnay), deter este criminoso, tendo uma pista fornecida por Turlot, um indivíduo que inicialmente encontramos a ironizar com um polícia, contando com uma série de cartões a dizer "Monsieur Durand". Turlot revela a Wens, mediante um pagamento pela informação, que não conhece a identidade do assassino mas sabe que este se encontra a viver na Avenida Junot, numa pensão familiar denominada de "Las Mimosas", localizada no número vinte e um. É então que o protagonista decide dirigir-se ao local, disfarçando-se de padre, deixando uma carta para os seus superiores que apenas deverá ser aberta se não regressar dentro de dois dias. A carta é deixada a cargo de Mila Malou (Suzy Delair), uma aspirante a cantora cuja carreira encontra-se longe de alavancar, com um empresário a afiançar que a contrata se esta conseguir ter o seu nome nos jornais ao efectuar algo de relevante. Mila, a namorada de Wens, procura desde logo envolver-se na investigação e descobrir a identidade de Durand, acabando mais tarde por aparecer na pensão, fingindo desconhecer o segundo, agora disfarçado de padre. Se Wens surge como uma figura perspicaz, marcada por algum bom humor e observadora, já Mila aparece mais extrovertida e pouco dada a grandes subtilezas. No interior da mansão, Wens depara-se com alguns hóspedes que despertam a sua atenção, embora não saiba qual destes é o assassino, procurando aferir informações sobre cada um deles. Entre estes encontram-se: Lalah-Poor (Jean Tissier), um mágico e faquir com uma personalidade peculiar e extravagante; Théodore Linz (Noël Roquevert), um indivíduo aposentado que exerceu a função de médico quando se encontrava nas colónias, conhecido por permitir a prática de aborto e parece admirar a conduta do assassino; Colin (Pierre Larquey), um artesão que fabrica bonecos; Cuq (Maximilienne), uma escritora que tarda em ver os seus trabalhos publicados; Kid Robert (Jean Despeaux), um antigo pugilista que se encontra invisual, estando quase sempre aos cuidados de uma jovem enfermeira. A pensão é ainda marcada pela presença da Madame Point (Odette Talazac), a dona do estabelecimento, e Armand (Marc Natol), um funcionário do local que tem como hobbie ensinar os pássaros a cantar. Todos parecem igualmente inocentes e suspeitos, pelo menos até o disfarce de Wens ser arrasado por uma precipitação de Mila, com a morte de Cuq, na banheira da pensão, a conduzir à detenção de um elemento consensualmente considerado como o "Monsieur Durand". No entanto, quando "Monsieur Durand" volta a entrar em acção, com o suposto culpado detido, o protagonista logo percebe que a resolução do caso prepara-se para ter tanto de intrincada como de surpreendente.

A identidade do(s) assassino(s) e os planos do(s) mesmo(s) em relação a Wens e Mila são alguns dos componentes fulcrais da narrativa, com Henri-Georges Clouzot a procurar manter a atenção do espectador através destes elementos após estabelecer uma série de personagens marcados por diversas idiossincrasias. A pensão da Madame Point é um dos cenários essenciais do filme, ou não fosse o espaço onde se encontra presente "Monsieur Durand", com Henri-Georges Clouzot a procurar despertar as nossas dúvidas em relação a diversos residentes, ao mesmo tempo que lhes atribui alguns traços que lhes concedem alguma dimensão e humanidade (a própria decoração de cada quarto remete para as suas personalidades e ofícios). Está longe de ser uma obra complexa, algo visível na forma como Mila é introduzida na investigação e como o caso é resolvido, com Clouzot a realizar um policial que nos remete para diversas obras do género como a saga "The Thin Man" onde, curiosamente, também tínhamos um casal e algum humor. Nesse sentido, encontramos Pierre Fresnay  e Suzy Delair, dois elementos que viriam a colaborar mais tarde com Henri-Georges Clouzot, a terem algum destaque. Fresnay como um inspector conhecido pela sua competência e personalidade algo jocosa, com o actor a atribuir alguma leveza ao personagem que interpreta, algo visível na relação entre Wens e Mila. Já Suzy Delair interpreta uma aspirante a cantora (uma profissão que repetiria em "Quai des Orfèvres" de Clouzot), de personalidade algo extrovertida e meio destrambelhada, que procura ficar conhecida pelo feito de descobrir a identidade de "Monsieur Durand" de forma a ter mais facilidade em conseguir os seus intentos no mundo da música. No interior da pensão encontramos também uma série de figuras que permitem aos actores e actrizes, alguns que futuramente viriam a colaborar com Clouzot, destacarem-se pela positiva: Jean Tissier como Lalah-Poor, um faquir peculiar, com alguns dotes para a magia, parecendo ser inofensivo apesar de aos poucos reservar-nos umas quantas surpresas em relação à sua personalidade; Pierre Larquey como Colin, um pequeno artesão, aparentemente pacato e simples, que efectua bonecos do "Monsieur Durand"; Noël Roquevert como Théodore Linz, um antigo médico que coxeia de uma perna, admirador das façanhas do assassino, mantendo sempre a dúvida sobre os seus actos, entre outros personagens que nos são apresentados quando o protagonista se disfarça inicialmente de padre para investigar os residentes da pensão. A maioria são figuras falhadas ou que nos levantam algumas suspeitas, com as dúvidas em relação aos mesmos a serem imensas, enquanto a polícia anda num alvoroço. Os crimes continuam a ser cometidos, a vida de Wens e Mila encontra-se em perigo, numa investigação que a espaços começa a ganhar contornos mais sérios, num filme inspirado livremente no livro "L’Assassin habite au 21" de Stanislas-André Steeman (o mesmo autor de "Légitime Défense" que Clouzot adaptaria livremente em "Quai des Orfèvres"). O final mescla alguma tensão e leveza, mas também algum pessimismo de Clouzot em relação ao ser humano, algo discernível quando descobrimos a(s) identidade(s) do(s) assassino(s), com a maioria dos residentes da pensão a despertar as nossas dúvidas. Sem contar com a atmosfera claustrofóbica e misteriosa de "Le corbeau", ou o tom negro deste último e "Les Diaboliques" ou a crueza de “Le salarie de la peur”, "L'assassin habite au 21" surge como um thriller competente, pontuado por algum humor, que consegue fazer com que nos interessemos pelos personagens e em descobrir a identidade do assassino, com Henri-Georges Clouzot a criar uma obra cinematográfica competente e envolvente.

Título original: "L'assassin habite au 21".
Título no Brasil: "O Assassino Mora no 21". 
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri-Georges Clouzot.
Elenco: Pierre Fresnay, Suzy Delair, Jean Tissier, Pierre Larquey, Noël Roquevert.

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