18 agosto 2015

Resenha Crítica: "La vérité" (A Verdade)

 "La vérité" deixa-nos diante do julgamento de Dominique Marceau (Brigitte Bardot) e diversos flashbacks relacionados com o seu passado, com Henri-Georges Clouzot a realizar um filme de tribunal que nos mantém presos do início ao fim, marcado por um exímio trabalho de montagem, com a narrativa a beneficiar de um excelente recurso aos flashbacks, enquanto o enredo deambula entre os momentos que decorrem nesta instituição e os diversos episódios da vida da protagonista até ao assassinato de Gilbert Tellier (Sami Frey), o seu ex-namorado. No início do filme, encontramos esta mulher a ser chamada por uma freira que se encontra a abrir as portas das celas, com as sombras a sobressaírem neste cenário onde a luz está longe de dominar. Dominique contempla o seu rosto num vidro partido. Não sabemos bem o que pensa, embora no final de "La vérité" percebamos a utilidade que dá ao objecto onde observa parte do seu rosto, com este vidro que serve de espelho a reflectir apenas uma parte da face desta mulher. Curiosamente, ao longo do filme, também encontramos diversos fragmentos que nos permitem efectuar um retrato mais completo sobre Dominique, com Brigitte Bardot a dar vida a uma figura complexa que nem sempre toma as opções mais felizes, parecendo condenada à tragédia, com a ideia inicial que formulamos sobre a mesma a mudar com o desenrolar da narrativa. Em tribunal tem de se defender, expor a sua intimidade e um acto brutal que cometeu, em momentos intensos onde a sua dignidade como ser humano nem sempre parece ser defendida. É um filme onde os sentimentos andam à flor da pele, no qual a sala do tribunal permite um reavivar de actos antigos da protagonista e daqueles que a rodeiam, com o episódio onde os bombeiros encontram Gilbert assassinado e esta desmaiada com o gás ligado a ser fulcral para a vida desta mulher ou não tivesse conduzido à sua detenção. Guérin (Charles Vanel), o advogado de defesa, procura que esta seja julgada por um crime passional, algo que não lhe valeria a pena de morte. Éparvier (Paul Maurice), o advogado de acusação, ao serviço da mãe do falecido, procura que Dominique seja julgada por assassinato premeditado e condenada à pena de morte. A acusação começa por procurar estabelecer o perfil desta junto do júri, indo buscar episódios desde a juventude até à idade adulta, recorrendo a uma série de testemunhas. Desde uma boneca oferecida à sua irmã que estragou num acto de inveja quando tinha oito anos de idade, passando pela expulsão da escola devido a ter levado um livro considerado imoral, até a uma tentativa de suicídio aos dezoito anos de idade quando procurava convencer os seus pais a ir para Paris, vários são os episódios relatados, enquanto ficamos diante de diversos flashbacks sobre a vida desta mulher, intercalados com as cenas de tribunal. A ida para Paris, em particular para La Chapelle, um território que fica a uma hora do centro da cidade, marca de forma vincada as diferenças desta para a sua irmã. Annie (Marie-José Nat), a irmã de Dominique, é uma personagem discreta, de cabelos escuros, que procura estudar de forma a melhorar a sua habilidade no violoncelo, que se envergonha das atitudes desbocadas da familiar. É Annie quem tem de fazer as compras, tratar da casa e pensar no futuro, encontrando-se a estudar no conservatório (o motivo para a mudança para as imediações de Paris), enquanto Dominique parece viver para o presente, procurando desfrutar os prazeres da vida e conhecer de perto o mundo boémio de Paris. Nessas deambulações pela vida boémia, Dominique conhece elementos como Michel (Jean-Loup Reynold), um escritor com quem dorme uma noite, bem como Daisy (Barbara Sommers), uma jovem com quem vai dividir o quarto numa residência barata e pouco espaçosa.

A decisão para a mudança deve-se a mais uma discussão com a sua irmã, em particular quando Dominique se encontra nua, encoberta por um lençol, enquanto mexe o traseiro de forma provocadora ao ritmo da música, recebendo no apartamento Gilbert Tellier, um pianista que se encontra a estudar para dirigir orquestras, que parece interessar a Annie. No entanto, é Dominique quem acaba por conquistar Gilbert, com este a sucumbir facilmente aos encantos desta bela mulher que tem tanto de provocadora e sensual como de aparentemente ingénua e frágil, tendo a consciência do efeito que provoca nas figuras masculinas embora apresente uma visão inconsequente da vida que promete causar estragos, sobretudo à sua pessoa. Essa situação é visível no grupo de amigos no qual se integra, um conjunto boémio, pouco dado a grandes demonstrações de maturidade e responsabilidade, frequentando regularmente um café, enquanto deambulam pelos espaços da Rive Gauche de Paris. Este é também um filme sobre estas ruas de Paris, recheadas de bares, cartazes, personagens que aparentam viver para o momento, com a cinematografia de Armand Thirard a fazer sobressair os territórios apresentados que parecem simultaneamente influenciar e despertar a atenção daqueles que por lá habitam ou passam a viver. A inconsequência e rebeldia de Dominique são visíveis em actos tão distintos como sair com Gilbert e, enquanto este ainda se encontra consigo, aceitar subir na mota de um indivíduo que circula com a mesma a alta velocidade, com esta a parecer atraída pelos riscos. O acto deixa Gilbert desesperado, passando a noite na rua, à espera da amada, até a encontrar, de manhã cedo, com esta a não ter pruridos em salientar que teve relações com outro homem. Gilbert e Dominique acabam por sucumbir um ao outro, com esta a finalmente ter relações sexuais com o primeiro e a perceber que se encontra apaixonada pelo músico. A aproximação de Gilbert conduz a um afastamento ainda maior em relação a Annie, com uma visita de Dominique ao conservatório a parecer um acto de provocação à segunda, apesar desta última apenas procurar visitar o amado. Este parece ganhar outra confiança a partir do momento em que conhece Dominique, tendo a ambição de conduzir a sua própria orquestra e casar com esta mulher, embora ela não tenha tanta certeza em relação ao casório. Dominique e Gilbert são apresentados como personagens distintos, embora aos poucos percebamos que ambos são figuras complexas que mudam com o desenrolar da narrativa, ou melhor, que nos fazem mudar de perspectiva em relação aos mesmos. Ele tem projectos ambiciosos para o futuro, gosta de ouvir Bach, aparenta ser discreto e amar a protagonista, chegando a pedi-la em casamento numa fase da sua vida em que não parece ter nada a perder. Ela não parece saber lá muito bem o que pretende para o futuro, gosta de cinema e de Marlon Brando, tendo uma personalidade mais extrovertida e aparentemente verdadeira na exposição dos sentimentos, algo notório quando expõe as saudades do estilo de vida que levava antes de iniciar uma relação com Gilbert. Isso não a impede de o trair, algo que resulta num acto de violência por parte de Gilbert, onde ficamos diante dos gritos desta no fora de campo e a certeza que este acto é utilizado em tribunal para atacar moralmente a protagonista, ao mesmo tempo que ficamos a conhecer um lado mais frio do personagem interpretado por Sami Frey. A relação entre Gilbert e Dominique volta a conhecer momentos conturbados quando esta aceita trabalhar no Le spoutnik, um clube nocturno. Gilbert fica com ciúmes dos clientes e da relação de enorme proximidade entre a personagem interpretada por Brigitte Bardot e Ludovic Toussaint (André Oumansky), o chefe desta, algo que conduz ao terminar do namoro, embora Dominique não o esqueça. Gradualmente ficamos com os episódios que conduziram a protagonista a entrar numa fase descendente, a ponto de se ter de prostituir para ganhar a vida, com o homicídio de Gilbert a conduzi-la a este tribunal onde se procura aferir se esta pensou ou não em cometer o crime e as razões que conduziram ao mesmo. Ficamos a conhecer um pouco de Dominique, mas também de Gilbert e diversas figuras que os rodeiam, com Henri-Georges Clouzot a apresentar mais uma vez uma visão pouco apolínea sobre a humanidade, algo que já tinha acontecido em "Le corbeau".

Se em "Le corbeau" assistimos ao mistério relacionado com o envio de cartas por parte de um estranho que se denominava como "O Corvo", pronto a minar a reputação do protagonista e a expor os podres dos habitantes de uma pequena cidade de província, com Clouzot a expor-nos aos efeitos dos boatos provocados por estas cartas anónimas, ao mesmo tempo que nos coloca diante de um conjunto de figuras que, na sua maioria, contam com os seus "rabos de palha", em "La vérité" expõe-nos a um julgamento intrincado onde a personalidade de Dominique é escrutinada, exposta e avaliada por um conjunto de pessoas que, maioritariamente, não a parecem compreender e avaliam o caso de um ponto de vista algo misógino e conservador. A atmosfera de ambos os filmes, tal como a de outros trabalhos de Clouzot como “Les diaboliques” e “Le salarie de la peur”, a espaços revela-se claustrofóbica, com os episódios em tribunal a colocarem Dominique diante de uma situação emocionalmente violenta, com o advogado de acusação a parecer disposto a tudo para vê-la condenada à morte. Se Charles Varnier surge com uma postura mais ponderada e compreensiva a interpretar o advogado de defesa da protagonista, já Paul Meurisse apresenta uma atitude mais agressiva e intensa como Éparvier, com ambos a darem vida a personagens eloquentes, prontos a esgrimirem argumentos para validarem os seus pontos de vista distintos. Diga-se que a disputa destes dois advogados, com Éparvier a surgir quase sempre como uma figura mais fria e disposta a tudo para provar a culpa de Dominique, surge ainda como outro dos ingredientes que aquecem este julgamento, enquanto a protagonista vive uma multitude de sentimentos, sendo obrigada a procurar recordar-se e explicar uma série de acontecimentos da sua vida. Entre o passado e o presente, ficamos diante de diversos episódios e figuras relacionadas com Dominique, enquanto assistimos a esta mulher a procurar defender-se em tribunal, com a personalidade da protagonista e até de diversas testemunhas a serem colocadas em causa. Os dois advogados defendem os seus pontos de vista de forma acirrada, com o espectador a ser conduzido, ou se preferirem, praticamente convidado, a escolher um dos lados no qual acreditar, parecendo certo que Dominique amava Gilbert, ainda que à sua maneira, enquanto este encontrou-se longe de ser um poço de virtudes, com "La vérité" a reunir com enorme sucesso os elementos de filme de tribunal mesclados com drama. Brigitte Bardot surge como um elemento fulcral para "La vérité" funcionar. De olhar atento, mãos a segurar muitas das vezes a bancada, algo que permite apresentar a falsa segurança de alguém que está prestes a ver a sua vida a desabar quando se encontra em tribunal, Brigitte Bardot aparece sensual e provocadora como Dominique nas cenas iniciais em Paris, com a actriz a surgir pronta a utilizar o seu corpo e a explorar a extroversão da personagem que interpreta, uma figura complexa que aos poucos revela as suas inseguranças e fragilidades. A sua sensualidade e alguma ingenuidade são expostas quando a irmã sai de casa e Dominique tira os pés da cama, com a câmara a focar-se nos mesmos e nas pernas, até subir mais um pouco, com esta remexer-se nua, num momento onde ficamos diante do lado mais sedutor desta mulher provocadora de longos cabelos loiros e um olhar que é capaz de desarmar os mais prudentes. No tribunal surge de vestes pretas, de rosto mais carregado, tendo em Éparvier um indivíduo pronto a escrutinar a sua vida pessoal, de forma a tentar traçar um perfil pouco simpático sobre a sua pessoa, e em Guérin, um homem que procura defendê-la diante da acusação e amenizar algumas das situações relatadas. Henri-Georges Clouzot consegue extrair uma interpretação sublime de Brigitte Bardot, com esta a conseguir explorar as diferentes nuances da personagem que interpreta no passado e no presente. No presente, assistimos a Dominique de semblante mais carregado e sóbrio, com os movimentos corporais a indicarem alguma tensão, parecendo existir sempre um enorme cuidado na forma como esta mexe as suas mãos, algo que reflecte um certo nervosismo, enquanto a protagonista lida com uma série de acusações que visam formar um carácter pouco simpático sobre a sua pessoa. O último terço é pontuado por alguns momentos intensos, com Bardot a expor de forma bem viva o desespero da personagem que interpreta, com esta a ter de lidar com as dúvidas que lançam sobre a sua pessoa e os sentimentos que nutre (ou nutriu), quando parece certo que Gilbert também estava longe de ser uma figura completamente livre dos seus defeitos e pecados.

Ao longo do filme, encontramos diversos elementos a serem chamados a depor, incluindo a senhoria e vizinha (Simone Berthier) de Gilbert, Ludovic Toussaint (André Oumansky), o chefe de Dominique no Le spoutnik, com esta a ter começado a trabalhar no clube nocturno após o pai ter deixado de enviar dinheiro, até chegar a figuras como Michel, a porteira (Jackie Sardou) da nova habitação do personagem interpretado por Sami Frey, Annie, o médico responsável pela autópsia, entre outros que surgem durante um julgamento que ganha contornos emocionalmente intensos. O espaço fechado do tribunal é marcado pelo calor dos sentimentos, enquanto o desespero da protagonista é latente à medida que se depara com um advogado de acusação que não tem pejo em atacá-la, com esta mulher a parecer já ter sido julgada previamente devido à sua conduta quando, aos poucos, percebemos que a situação é bem mais intrincada. A relação com Gilbert começa e termina de forma complicada, com Sami Frey a interpretar eficazmente um personagem que inicialmente parece desejar e amar a protagonista até desprezá-la e tomar atitudes moralmente questionáveis, apresentando uma personalidade marcada por algum egoísmo, com o acto de obrigar Dominique a baixar a cabeça para não ser vista pela porteira a ter tanto de degradante como de paradigmático do carácter nem sempre recomendável deste indivíduo. Tal como em "L'Assassin habite au 21", "Le corbeau" e "Les diaboliques", não são poucos os personagens que contam com alguns actos imorais. Em "La vérité" encontramos desde logo o caso da protagonista, uma figura complexa, cujos sentimentos nem sempre parecem totalmente compreensíveis, tanto parecendo desprezar como amar Gilbert, efectuando uma série de decisões que prometem conduzi-la à desgraça, surgindo como uma figura que tanto tem de frágil como de sedutora. Gilbert inicialmente parece amar Dominique mas também não terá problemas em magoá-la, quer do ponto de vista físico, verbal e sentimental. Temos ainda testemunhas que mentem sob juramento em tribunal, mas também um último terço onde o pessimismo de Henri-Georges Clouzot em relação à humanidade parece vir ao de cima. Henri-Georges Clouzot recorre com enorme assertividade aos flashbacks, enquanto desperta a nossa curiosidade para saber mais sobre os acontecimentos que conduziram Dominique ao julgamento, com o argumento escrito pelo cineasta, Véra Clouzot, Simone Drieu, Jérôme Géronimi, Michèle Perrein e Christiane Rochefort a abordar com enorme eficácia e até complexidade as temáticas apresentadas. O arco de Dominique é exemplo dessa coesão do argumento, com a personagem a ser exemplarmente desenvolvida ao longo do filme, com as cenas dos flashbacks, em articulação com os momentos em tribunal, a permitirem termos uma noção das mudanças desta ao longo do tempo. Esta situação permite a Brigitte Bardot exibir o seu talento para a representação ao dar vida a uma personagem trágica, que exige alguma versatilidade por parte da actriz.

Dominique tanto surge como uma jovem sensual e extrovertida, simultaneamente ingénua e disposta a seguir um estilo de vida pouco dado a cumprir regras, como nos é apresentada como uma figura trágica que pode ou não ter cometido um crime passional. A certeza com que ficamos é que esta nem sempre é compreendida ao longo desta obra cujo argumento foi livremente inspirado no caso de Pauline Dubuisson, uma mulher julgada em 1953 por ter assassinado o seu ex-namorado, com "La vérité" a procurar expor-nos à "verdade" sobre Dominique. O ambiente em tribunal a espaços torna-se sufocante, com a cinematografia a contribuir para essa situação, numa obra que sobressai ainda pela decoração e aproveitamento dos cenários interiores e pelo guarda-roupa dos personagens. Veja-se o caso da personagem interpretada por Brigitte Bardot, com vestes mais sedutoras ou até pouca roupa na sua fase conquistadora, algo que muda quando se encontra em tribunal. Já a irmã de Dominique surge quase sempre com um guarda-roupa indicador da sua personalidade mais discreta em relação à irmã ou estas não apresentassem personalidades dicotómicas, partilhando apenas os mesmos sentimentos por Gilbert. A nível de cenários, é praticamente impossível não destacar o tribunal, onde se desenrola parte da narrativa, mas também a diferença entre as habitações de Dominique e Gilbert. Esta vai viver para um quarto barato até não ter dinheiro para pagar a renda, enquanto Gilbert tem no seu segundo apartamento uma habitação pontuada por diversos livros, a presença de um piano, para além de uma decoração que exibe o facto deste estar a começar a ter uma condição financeira "saudável", com estes dois personagens a aproximarem-se e afastarem-se ao longo da narrativa. A própria visão que temos dos mesmos altera-se ao longo do filme, uma situação comentada por Fiona Watson no seu artigo sobre o cineasta: "As the story unfolds, we begin to see that although Dominique is initially presented as unlikeable, she is in fact quite tragic and vulnerable, and that Gilbert, introduced to us at first as an innocent, serious-minded young musician, is a cold-hearted narcissist incapable of trust". Esta situação remete para o pessimismo que envolve as obras de Clouzot, com este a parecer muitas das vezes não ter a humanidade em boa conta. Veja-se em "L’Assassin habite au 21" e "Le corbeau", onde qualquer um poderia ser o suspeito de um caso de intrincada resolução, ou em "Les diaboliques", uma obra onde a única personagem capaz de despertar alguma simpatia tem um destino pouco feliz, ou em "Le salarie de la peur", um filme onde a maioria das figuras que povoam o enredo aparecem marcada pela imoralidade, independentemente de serem os aproveitadores capitalistas dos EUA ou os elementos mais depauperados, com todos a parecerem ser movidos pelo dinheiro. Entre o passado e o presente de uma mulher que se encontra a ser julgada por homicídio, "La vérité" mescla com eficácia elementos de filme de tribunal e drama, permitindo a Brigitte Bardot ter uma interpretação sublime, enquanto Henri-Georges Clouzot controla a narrativa de forma exímia numa obra cinematográfica emocionalmente intensa e envolvente.

Título original: "La vérité".
Título em Portugal: "A Verdade".
Realizador: Henri-Georges Clouzot.
Argumento: Henri-Georges Clouzot, Véra Clouzot, Simone Drieu, Jérôme Géronimi, Michèle Perrein e Christiane Rochefort.
Elenco: Brigitte Bardot, Charles Vanel, Paul Meurisse, Sami Frey, Marie-José Nat.

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