13 agosto 2015

Resenha Crítica: "Dark Places" (Lugares Escuros)

 Incapaz de apresentar o mínimo sentido de urgência na investigação principal, "Dark Places" surge como um thriller banal cujo constante deambular destrambelhado entre o passado e o presente contribui muitas das vezes por retirar o peso aos episódios que decorrem nos diferentes tempos da narrativa. Gilles Paquet-Brenner desperdiça o material promissor que tinha entre mãos, bem como uma interpretação de bom nível de Charlize Theron, ao não conseguir incutir algum nervo e vida a uma obra cinematográfica pueril, que promete fazer justiça ao título e ficar num lugar escuro da memória, ou pelo menos gerar uma indiferença mais assustadora do que aquilo que nos apresenta. É certo que no último terço brinda-nos com algumas revelações e momentos de tensão que dinamizam a narrativa, embora seja muito pouco para salvar uma obra tépida que parece muitas das vezes contentar-se com pouco, com o argumento de Gilles Paquet-Brenner a estar à altura do seu trabalho como realizador: insonso. "Dark Places" coloca-nos diante de Libby Day (Charlize Theron), uma mulher na casa dos trinta anos de idade, sem grandes perspectivas de futuro, que é contactada pelo "Kill Club", um grupo com um gosto mórbido por crimes sangrentos que também gosta de resolver casos aparentemente mal explicados ou julgados de forma aparentemente negligente em tribunal. O elemento que parece liderar este grupo marcado por personagens algo caricaturais, que raramente ganham dimensão, é Lyle Wirth, um tipo estranho, interpretado pelo pouco carismático mas competente Nicholas Hoult. Lyle possui duas lavandarias, um conhecimento notório sobre Libby, convidando esta mulher a aparecer numa reunião do "Kill Club", tendo em vista a expor os episódios que a levaram a testemunhar contra Ben Day (Corey Stoll), o seu irmão, no caso do assassinato da sua mãe e das suas irmãs. Em 1985, Libby tinha oito anos de idade, com o caso, intitulado de "Massacre do Kansas", a ter provocado um enorme escândalo, tendo conduzido à prisão de Ben, considerado o culpado pelos assassinatos. O discurso de Libby não parece ter convencido tudo e todos, nem as provas apresentadas, com Ben a parecer ter sido o alvo mais fácil para resolver um caso sangrento e polémico. Libby parece pouco interessada em participar na reunião com este grupo que acredita na inocência de Ben, mas encontra-se diante de uma situação financeira delicada, tendo vivido até então de doações de pessoas comovidas com a sua história. Esta aceita participar na reunião, mediante o pagamento de setecentos dólares, acabando, ainda que relutantemente, por aceitar ser financiada para investigar as pontas soltas do caso, algo que a leva a contactar pela primeira vez com Ben, desde os episódios nebulosos que ocorreram no passado. Ben surge estranhamente afável, enquanto Libby demonstra sempre alguma desconfiança. Esta irá mais tarde voltar a dialogar com o irmão começando aos poucos a relembrar episódios do seu passado traumático e a contactar com figuras do mesmo, incluindo Runner Day (Sean Bridgers), o pai de Ben, de Libby e das outras duas filhas de Patty Day (Christina Hendricks), para além de abordar Krissi Cates (Drea de Matteo), Diondra (Andrea Roth - no presente), entre outros, com esta última, a ex-namorada de Ben, a ter um papel fulcral na narrativa.

 Nos momentos do passado, em particular em 1985, exposto em flashbacks (muitas das vezes intrusivos), encontramos Ben (Tye Sheridan) como uma figura misteriosa, aparentemente satanista, fã de Heavy Metal, a ser acusado de abusar algumas jovens raparigas, entre as quais Krissi Cates (Addy Miller), algo que transtorna e muito Patty Day, a sua mãe, uma mulher a lidar com uma grave crise financeira. Estes vivem numa propriedade rural localizada em Kinnakee, no Kansas, um território marcado por gentes de ideais algo conservadores mas também por cultos satanistas, traficantes de droga e assassinos, com a crise financeira a conduzir a que Patty contacte Calvin Diehl (Jeff Chase), um homem de negócios com uma agenda negra. Ben mantém um caso com Diondra Wertzner (Chloe Moretz), uma jovem satanista, mimada, que apresenta uma enorme pancada, doses de safadeza e malvadez, aparentemente grávida do mesmo. A juntar a tudo isto temos ainda Runner, um indivíduo abusivo, envolvido em alguns negócios obscuros, que abandona o núcleo familiar ou, quando aparece, é para provocar o caos. No presente, Libby acaba por ser conduzida a procurar finalmente a verdade sobre o seu passado e as figuras que rodearam o mesmo, por razões pouco altruístas, é certo, já que foi a necessidade de dinheiro que a levou a participar na investigação. Curiosamente, o "Kill Club" acaba por raramente ser explorado, com os integrantes do grupo a interessarem-se pelo caso, sobretudo por, dentro de três semanas, o arquivo de Ben ir ser destruído, algo que conduziria a que este não tivesse a oportunidade de poder comprovar a sua inocência. Diga-se que Ben nunca apelou em sua defesa, algo que causa ainda maior estranheza, com "Dark Places" a deixar-nos quase sempre indicadores de que este encontra-se a esconder algo ou a proteger alguém que outrora lhe fora relevante. Aos poucos, episódios que eram tomados como verdades absolutas no passado são desmentidos no presente, com "Dark Places" a expor-nos a uma série de mentiras e figuras pouco confiáveis que obrigam Libby a contactar com uma realidade mais negra e complicada do que inicialmente poderia esperar, ao mesmo tempo que tem de lidar com os seus próprios esqueletos no armário. O enredo deambula de forma amiúde entre o passado e o presente, algo que pode acrescentar algum conhecimento sobre diversos personagens mas tira um peso enorme à investigação protagonizada por Libby, com Gilles Paquet-Brenner a parecer incapaz de reunir estes episódios de forma orgânica, com os flashbacks a parecerem muitas das vezes serem inseridos "a martelo" na trama. Diga-se que o argumento parece descurar muitas das vezes questões essenciais, abordando as mesmas pela rama, tais como as relações entre os membros da família Day e o seu quotidiano (veja-se que as irmãs de Libby e Ben nunca são devidamente aproveitadas), o funcionamento do "Kill Club", o papel da memória na percepção que Libby tem do massacre, tal como não consegue criar interesse na miríade de personagens que nos apresenta e até, a espaços, na própria investigação. Charlize Theron procura elevar "Dark Places" com uma interpretação em que consegue expressar a dor de uma personagem aparentemente traumatizada, pouco dada a grandes falas ou aproximações com outros seres humanos, que apresenta um estilo simples de vestir, quase masculino, com esta a pontuar Libby de algumas doses de dureza.

 A investigação que Libby leva a cabo promete confrontá-la com o passado, enquanto surgem algumas dúvidas, para não dizer certezas, de que o seu testemunho contra o irmão não foi o mais completo ou correcto. O que a terá levado a cometer este acto é algo que poderia e deveria ser explorado de forma mais assertiva, parecendo certo que esta terá sido sujeita a diversas pressões (uma situação exposta logo nos momentos iniciais quando é questionada se foi Ben quem matou as suas irmãs), enquanto as dúvidas que temos em relação a Ben ter ou não cometido o assassinato são desfeitas com o avançar do enredo. A par de Charlize Theron, outro dos elementos em destaque é Tye Sheridan, como um jovem algo bizarro, com a personalidade ainda em formação, com o actor a conseguir explorar as nuances desta figura aparentemente adoradora do Diabo, acusada de actos hediondos. Sheridan consegue incutir um pouco mais de complexidade ao personagem do que Stoll (tão mal aproveitado se tivermos em comparação o seu magnífico trabalho na primeira temporada de "House of Cards"), com este último a limitar-se muitas das vezes a surgir como uma figura aparentemente calma, cujos anos na prisão parecem ter mudado a sua pessoa. Vale ainda a pena salientar Chloe Moretz como Diondra nos flashbacks, com a actriz a comprovar mais uma vez que tem maior facilidade em sobressair a interpretar figuras com uma personalidade forte, longe de serem angelicais. Esta situação é notória quando se encontra com Ben e Trey Teepano (Shannon Cook), um amigo de ambos, num culto satânico, pedrados, a eliminarem animais com machados, num momento que exibe a bizarria destes personagens. Teepano é um dos casos dos personagens que raramente saem da caricatura ou evoluem, tal como Runner, Patty (Christina Hendricks quase sempre como a mãe sofredora que procura cuidar do filho e das filhas), Diane (Jennifer Pierce Mathus como a irmã de Patty), entre outros, com o elenco a ser maioritariamente desperdiçado. A certa altura da narrativa, Libby diz a Ben que este não a conhece. Este comentário poderia ser aplicado em relação a diversos personagens que rodeiam o enredo, numa obra cinematográfica que apresenta um potencial raramente explorado, naquele que é o segundo livro de Gillian Flynn a ser adaptado ao grande ecrã, após o sucesso de "Gone Girl". Se David Fincher soube criar uma obra negra, mordaz, capaz de nos surpreender e envolver, já Gilles Paquet-Brenner tem o "condão" de parecer procurar que nos desinteressemos ao máximo daquilo que nos exibe. Falta mais inspiração. Falta maior capacidade de fazer com que nos preocupemos com estes personagens e, sobretudo, com a inocência ou não de Ben. Falta mais mistério e crueza. Falta uma maior conjugação entre as cenas do presente e as do passado (o trabalho de montagem pouco memorável não ajuda). Falta uma cinematografia capaz de criar uma atmosfera opressora em volta deste caso. Falta um maior aproveitamento das questões associadas ao satanismo relacionadas com diversos personagens no passado, tal como poderia existir uma maior exploração deste território do Midwest. Ou seja, falta quase tudo, excepto uma boa premissa e uma protagonista talentosa, apesar de outros elementos positivos que já foram realçados. Sem conseguir incutir um sentimento de urgência à investigação conduzida por Libby, marcada por uma miríade de personagens secundários que não saem dos lugares-comuns, "Dark Places" surge como um thriller banal, onde Charlize Theron tem uma interpretação que merece ser elogiada, ao longo de uma obra cinematográfica marcada por uma realização e um argumento desinspirados por parte de Gilles Paquet-Brenner.

Título original: "Dark Places".
Título em Portugal: "Lugares Escuros".
Realizador: Gilles Paquet-Brenner.
Argumento: Gilles Paquet-Brenner.
Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz, Tye Sheridan, Sterling Jerins, Corey Stoll, Christina Hendricks.

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