05 agosto 2015

Resenha Crítica: "The Country Girl" (1954)

 É relativamente comum ficarmos, pelo menos alguns de nós, felizes quando alguém que está em baixo consegue dar uma reviravolta na sua vida, ultrapassar as adversidades e voltar a triunfar. No caso dos actores e actrizes a situação não é diferente. Veja-se o recente reconhecimento de Matthew McCounaghey, ou a uma escala diferente o regresso de Sylvester Stallone após quase uma década e meia ofuscado, isto para citar apenas dois casos recentes. Outros como Mickey Rourke e John Travolta parecem ter encontrado um renascimento mas logo voltaram a uma carreira errática, enquanto continuamos à espera que actores como Robert De Niro voltem a ter o especial destaque que mereceram num passado que não se encontra assim tão longínquo. "The Country Girl" coloca-nos diante de um actor que já não caminha para novo, com os seus cinquenta e poucos anos, cuja carreira conhece um período de enorme ocaso do qual parece praticamente impossível de sair. O próprio contribui para esta situação, contando com uma baixa auto-estima e um vício pelo álcool que tarda em largar, procurando esconder as suas debilidades do foro mental ao refugiar-se em Georgie (Grace Kelly), a sua esposa, uma mulher inicialmente apresentada como se fosse algo controladora e rígida, embora essa descrição não corresponda totalmente à realidade. O actor em questão é Frank Elgin (Bing Crosby), um indivíduo que outrora fora uma estrela de teatro, que agora ganha a vida a emprestar a sua voz para anúncios manhosos, encontrando-se descredibilizado ao ponto de ninguém lhe pretender dar um papel de destaque. O único encenador que parece confiar totalmente no talento de Frank e na sua capacidade de regressar à ribalta é Bernie Dodd (William Holden), a ponto de entrar numa longa disputa com Philip Cook (Anthony Ross), o produtor, para que o personagem interpretado por Bing Crosby assuma o protagonismo de uma adaptação para o teatro do livro "The Land Around Us". Dodd não se esquece da capacidade de representar e cantar que Elgin apresentou na peça "Lonesome Town", enquanto Cook, o produtor e financiador, mais pragmático, prefere recordar-se das atitudes erráticas do actor e teme que este volte a deixar mal aqueles que confiaram em si, procurando desde cedo demonstrar o seu desconforto em relação a esta opção. William Holden atribui ao personagem que interpreta uma confiança latente e alguma teimosia, algo que por vezes tolda o seu discernimento em perceber quando está ou não a ser enganado, com o actor a explorar a atitude quase paternalista que Dodd tem para com Elgin, mas também a relação algo distante que o encenador forma com Georgie, exibindo alguma misoginia e pouca capacidade em perceber a verdadeira personalidade desta mulher. Grace Kelly viria a vencer o Oscar de Melhor Actriz por este papel, algo que na época foi uma surpresa, embora a interpretação permita à futura "Princesa do Mónaco" exibir um talento latente para a representação, com esta a dar vida a uma mulher que procura manter o lar coeso, após a morte do filho e a queda do esposo em desgraça. Este é acima de tudo um filme de grandes interpretações, com George Seaton a conseguir explorar as dinâmicas entre o trio de protagonistas e trazer ao de cima o que de muito bom estes podem dar a nível de representação, com William Holden, Grace Kelly e Bing Crosby (no papel onde provou que “sabia” interpretar) a sobressaírem em grande nível numa obra cuja temática tem sido abordada de forma amiúde em diversas obras cinematográficas. Desde "Sunset Boulevard" a "Opening Night", passando por exemplos mais recentes como "Birdman" e "Clouds of Sils Maria", vários são os exemplos de filmes que abordam actores ou actrizes em crise que têm de lidar com um desafio ou recuperar o prestígio perdido, ou vivem numa fase menos positiva das suas vidas e carreiras, com "The Country Girl" a entroncar e muito nesta temática.

 O argumento de "The Country Girl" teve como base a peça de teatro homónima, com George Seaton a parecer respeitar as origens teatrais do filme, não só nas diversas vezes que nos deixa diante do palco e dos bastidores, mas também em momentos como os personagens a terem falas que por vezes se assemelham a longos monólogos, enquanto ficamos diante das dúvidas de um homem em saber se será capaz de fintar os seus medos, uma mulher que procura ajudá-lo e teme um possível falhanço e um encenador confiante que quer manter o seu sucesso e trazer Elgin de novo para a ribalta. A tarefa é difícil. Inicialmente, o processo de casting até parece correr bem, com Frank Elgin a expor um dos seus números de maior sucesso em "Lonesome Town" (bons momentos de Bing Crosby), com Bernie Dodd a ficar radiante perante a demonstração de talento do actor a cantar e interpretar, enquanto Cook apresenta uma postura menos optimista e mais pragmática. É um jogo de forças que se inicia entre o produtor e o encenador, com este último a conseguir levar a melhor, embora conheça o primeiro contratempo quando descobre que Elgin desapareceu do nada, algo que o conduz a deslocar-se a casa do personagem interpretado por Bing Crosby. No local, um apartamento modesto, marcado por condições reveladoras da situação financeira pouco confortável dos Elgin, encontra-se apenas Georgie, a esposa do protagonista, uma mulher que inicialmente assume um comportamento como se fosse mais velha do que realmente é, embora a postura protectora e maternalista em relação ao esposo tenha razão de ser. A relação entre Georgie e Dodd é desde o início marcada por alguma animosidade, com esta a descrever-se como uma mulher que veio da província, embora tenha uma cultura acima da média e um pragmatismo desarmante, sobretudo quando utiliza o seu sarcasmo, com a sua personalidade forte a chocar muitas das vezes com a do personagem interpretado por William Holden. Este propõe um contrato renovável de quinze dias a Frank Elgin, algo que conduz o actor a pensar, até se dirigir ao encenador e procurar explicar que a esposa é demasiado controladora, possessiva e depressiva, algo que aconteceu após a morte do filho do casal, justificando as reticências iniciais para assinar devido à personagem interpretada por Grace Kelly (supostamente) ter de aprovar a ideia. As histórias inventadas por Frank ainda aumentam mais a animosidade de Dodd, um indivíduo divorciado que claramente parece ter um trauma relacionado com as figuras femininas, para além de uma enorme dificuldade em compreendê-las, em relação a Georgie. Essa situação conduz a que Dodd inicialmente não perceba que as inseguranças advêm do próprio Frank, algo notório quando o actor erra algumas falas no ensaio, ou finge estar constipado para poder tomar um medicamento que tem uma larga quantidade de álcool. As mentiras de Frank não duram para sempre, com o próprio espectador, num flashback, a ter a noção de onde começou o trauma do protagonista, mas também de como este aproveitou o mesmo para esconder algumas das fragilidades ligadas aos seus insucessos. A relação entre Frank e Georgie é marcada pela lealdade desta e as tentativas da mesma para que o marido recupere, procurando acompanhá-lo nos ensaios e na primeira exibição da peça, algo que desagrada a Bernie que inicialmente acredita na história do actor e pensa que este apenas se faz de frágil para agradar à esposa, tendo em vista a que esta acredite que tem poder (apesar desta também parecer gostar de ter um papel preponderante na vida do marido). A realidade é bem mais complexa, com Bing Crosby a conseguir expor-nos as fragilidades do personagem que interpreta, um indivíduo inseguro, com medo de errar e de criar animosidades, uma situação que o conduz muitas das vezes a procurar que seja a sua esposa a fazer as críticas por si, algo notório quando pede para o seu substituto não andar a rondar o set enquanto ensaia. Georgie expõe algumas das queixas, embora Frank procure dar um ar de simpatia e faça parecer que esta foi uma ideia da esposa, parecendo necessitar da aprovação geral quando na realidade apresenta muitas das vezes uma impotência gritante em impor-se diante dos outros. Veja-se quando recebe as primeiras críticas, ficando frustrado com algumas das palavras negativas sobre a sua pessoa, algo que demonstra junto da esposa, apesar de fingir que estas pouco o afectaram junto de Dodds, comentando até que Georgie é que ficou preocupada com as mesmas, num dos vários diálogos onde procura enganar o encenador.

A simpatia que Frank desperta conduz a que Dodd tente inicialmente que Georgie saia de Boston, onde a peça vai estrear originalmente, e regresse a Nova Iorque, gerando-se entre os dois uma relação pouco agradável que aos poucos se desenvolve em algo mais, sobretudo quando o personagem interpretado por William Holden descobre a verdade. A cena em que se encontram na esquadra, quando Frank é detido e as mentiras deste são descobertas, é paradigmática do quão bem os elementos do elenco estão nos respectivos papéis, mesmo quando os diálogos atingem um ponto de lamechice elevado. Grace Kelly, sem nunca descurar por completo uma aura graciosa que a rodeia, surge desprovida de algum glamour que lhe víramos em filmes como "To Catch a Thief", surpreendendo como esta mulher de forte personalidade que se encontra demasiado na sombra do marido. Georgie é o cimento que aguenta uma relação mantida por fracos alicerces, com Frank a ser uma sombra do que era no passado, dependendo do apoio da esposa e de Dodds apesar de sabotar muitas das vezes o sucesso que todos esperam que este volte a alcançar. Se William Holden interpreta um indivíduo impetuoso, confiante, fumador, impaciente e pronto a lutar por aquilo que pretende e por colocar em prática as suas ideias, já Bing Crosby fica com uma figura mais fraca, que procura agradar a tudo e todos, uma sombra daquilo que fora outrora, enfrentando demónios interiores que o podem levar a fracassar novamente, enquanto o actor explora de forma sublime os dilemas do personagem a quem dá vida. Ambos os actores destacam-se, com Grace Kelly a também sobressair num filme que alicerça muito do seu sucesso nas interpretações e dinâmicas deste trio, ao longo de uma obra cinematográfica que procura explorar os bastidores de uma peça de teatro. Desde a escolha dos actores aos ensaios, passando pelas disputas internas e pelo receio em relação às críticas, indo pela insegurança de alguns elementos do elenco até à forma como esta profissão pode afectar a vida pessoal dos envolvidos, vários são os temas abordados ao longo de "The Country Girl". No entanto, falta claramente uma procura em atribuir uma maior espessura aos vários actores e actrizes secundários que contracenam com Frank na peça, algo que contribuiria para incrementar a narrativa. Já a vida pessoal de Frank é abordada e desenvolvida, com esta a afectar o trabalho e a ser afectada pelo mesmo, com Bing Crosby a interpretar uma figura complexa que parece muitas das vezes o seu maior inimigo ao criar uma fantasia sobre aqueles que o rodeiam da qual parece ser difícil de sair. Mente sobre a esposa, mente ao seu encenador, mente a si próprio, tendo uma enorme dificuldade em regressar ao estrelato e provar o seu valor. Este terá de voltar aos palcos, com o teatro a ser um dos cenários primordiais de "The Country Girl", bem como os seus bastidores, numa obra cinematográfica que conta ainda com uma cinematografia capaz de sobressair, sobretudo a nível da iluminação, de John F. Warren. Esses momentos onde a cinematografia sobressai são visíveis quando encontramos Frank e Dodd a conversarem, após um ensaio que correu mal, ainda não tinham decorrido trinta minutos de filme, com as luzes de palco apagadas, onde o primeiro mente sobre a esposa, fingindo que esta se tornou depressiva após a morte do filho e dominadora quando lhe foi dado poder para decidir sobre a carreira do esposo, com o personagem interpretado por William Holden a "engolir" a história, até Georgie chegar de rompante, misteriosa e pronta a mais uma vez apresentar algum antagonismo em relação ao encenador. O fumo emanado pelos cigarros de Dodd desliza por entre os cenários pouco iluminados, tal como estas verdades de Frank se vão esfumar com o desenrolar da narrativa e este expõe as suas fragilidades. Frank utiliza a esposa para procurar esconder o medo em assumir responsabilidades, quer para esta expor aquilo que lhe desagrada, quer como desculpa para situações como o nascer do vício pelo álcool, surgindo como uma figura complexa que tanto tem de frágil como de patética, tendo em Georgie o seu maior apoio embora nem sempre o admita junto de Dodd. É um drama marcado por interpretações sublimes de Grace Kelly, William Holden e Bing Crosby, com "The Country Girl" a colocar-nos diante das vicissitudes da procura de uma antiga estrela de teatro em regressar ao estrelato, ao mesmo tempo que explora a sua vida pessoal e as dificuldades que esta encontra em libertar-se dos grilhões que criou para si própria.

Título original: "The Country Girl".
Título em Portugal: "Para Sempre".
Realizador: George Seaton.
Argumento: George Seaton.
Elenco: Bing Crosby, Grace Kelly, William Holden, Anthony Ross.

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