14 agosto 2015

Resenha Crítica: "Blind" (2014)

  A possibilidade de perder a visão pode deixar qualquer um em pânico. Perde-se um dos cinco sentidos, a possibilidade de visualizar aquilo que nos rodeia, embora, para alguns, seja uma situação impossível de evitar. Ingrid (Ellen Dorrit Petersen), a protagonista de "Blind", outrora utilizara lentes de contacto mas dispunha da sua visão, tendo perdido a mesma devido a problemas no nervo óptico, algo que a conduz a ter de utilizar a imaginação e as memórias que guardou para ultrapassar um quotidiano solitário no qual os dias desenrolam-se maioritariamente nos espaços fechados do seu apartamento. Teme sair de casa, enquanto somos expostos às divagações da sua mente e ao seu contacto com este espaço, procurando ter o máximo cuidado a deslocar-se, utilizando aparelhos que, em parte, permitem um pouco de autonomia, tais como a voz no micro-ondas, que por vezes irrita Ingrid com frases óbvias, e um aparelho que permite detectar a cor das roupas. No entanto, por vezes actos tão simples como transportar o recipiente com comida do micro-ondas até à bancada da cozinha pode ser trágico, algo notório quando encontramos Ingrid a deixar a comida cair ao chão, num momento particularmente tocante. A casa é marcada por tonalidades brancas, situada num edifício alto em Oslo, surgindo como o local onde Ingrid passa boa parte dos seus dias apesar de Morten (Henrik Rafaelsen), o esposo, pretender que esta tente sair do apartamento. O espaço da casa é amplo, composto ainda por uma série de caixas por abrir, mas também alguma impessoalidade, com Ingrid a encontrar-se ainda a adaptar-se ao local e à solidão que marca o seu quotidiano. Diga-se que uma das qualidades do filme, que inicialmente estranha-se mas depois entranha-se, é o design dos cenários e a forma como estes são aproveitados e expostos de acordo com aquilo que Ingrid está a tocar ou a imaginar que se encontra no local, com "Blind" a parecer a espaços contar com alguns problemas de continuidade, mas estes devem-se acima de tudo a uma procura do realizador Eskil Vogt em transmitir-nos as sensações desta mulher. O próprio comentou isso numa entrevista ao Indiewire: "(...) Because everything we see in the movie is connected to her consciousness. That's also the reason that we sometimes we would empty the room of everything. Sometimes it's just a white space around her and maybe the chair that she's going to sit down on because she's is concentrating on that. And maybe when she sits down there's things in the window that weren't there the shot before (...)". A imaginação de Ingrid é fértil, uma situação que conduz a que nem sempre confiemos naquilo que nos é apresentado ao longo da narrativa, com Eskil Vogt, o realizador e argumentista, a ter umas quantas cartadas para dinamizar o enredo, alicerçadas num magnífico e dinâmico trabalho de montagem. Ainda nos momentos iniciais de "Blind", encontramos Ingrid a salientar o seguinte: "(...) não é tão importante o que é real enquanto posso visualizar claramente", naquele que é um trecho de uma narração efectuada em off, em que esta exibe a sua procura em "guardar" todos as memórias do mundo que a rodeia, enquanto tinha visão. Durante a narrativa de "Blind", o espectador, agraciado por ter a sua visão, começa a perceber que muitas das vezes fica diante de realidades distorcidas ou criadas pela mente fértil de Ingrid, enquanto esta escreve, com auxílio do computador, ou apenas sonha acordada, sobre figuras reais e irreais, que não sabemos se são inspiradas em alguém que conheceu ou até apresentam traços de si própria (parece-me, sobretudo, que remetem imenso para traços da protagonista), com a imaginação desta mulher a surgir como um meio para esta lutar contra a sua limitação do foro visual, bem como para enfrentar os seus medos e a solidão.

Ingrid passa boa parte do tempo no interior da sua nova casa a escrever no portátil, a efectuar actos aparentemente tão banais como fazer chá, embora no caso dela a dificuldade seja acrescida, a imaginar situações que ocorrem, incluindo com o esposo. Veja-se quando pensa que Morten pode estar em casa a observá-la, com "Blind" a deixar-nos diante de alguns momentos onde não sabemos se este encontra-se ou não no local, criando-se uma certa tensão que até não tem grande razão de ser já que o esposo até parece gostar desta e não tenciona fazer-lhe mal. Temos ainda o momento em que Morten diz que se encontra ao portátil a enviar os convites para um evento, o que Ove-Kenneth, um colega de trabalho, se esquecera de efectuar, tendo ainda de elaborar algumas revisões num trabalho, algo que deixa a esposa na dúvida. O marido de Ingrid é um arquitecto que inicialmente expõe à esposa a planta do projecto que será apresentado num evento da sua empresa, deixando-a tocar no objecto, pretendendo que a cara-metade esteja presente no certame. Ingrid começa a imaginar, ou talvez não, que este se encontra a comunicar online com outra mulher, em particular Elin (Vera Vitali), ou talvez outra figura feminina, embora na mente da protagonista seja esta a personagem que criou nos seus escritos, enquanto ficamos com uma troca de mensagens do foro sexual que não sabemos bem se são fruto da ficção ou de episódios passados que a protagonista se recorda no presente e imagina que se estejam a repetir. Ellen Dorrit Peterson não só é a protagonista mas também muitas das vezes a narradora de serviço, com esta figura complexa a apresentar-nos a Morten, Elin e Einar (Marius Kolbenstvedt), com estes quatro elementos a serem essenciais para a narrativa, independentemente dos dois último existirem apenas na imaginação de Ingrid, ou não fossem dois personagens criados por esta enquanto se encontra a escrever. Elin e Einar são dois personagens que Ingrid, aparentemente, desenvolveu nos seus escritos, com esta mulher a procurar inserir os mesmos na sua realidade a ponto de Morten também fazer parte da história. "Blind" surge como um filme que mostra as limitações da memória e da perda de visão, mas também o processo de fruição artística, com a narrativa a assumir muitas das vezes a forma desconjuntada de Ingrid escrever, algo notório em diversos trechos do filme. Veja-se quando Morten e Einar, supostamente dois antigos colegas de faculdade, encontram-se, aparentemente, num café, para logo de seguida parecer que se encontram no interior de um meio de transporte e de novo no estabelecimento e por aí fora, com "Blind" a desarmar-nos inicialmente com estas deambulações onde a realidade e a ficção se encontram e atomizam, ou não estivéssemos por vezes diante da imaginação de Ingrid. Ellen Dorrit Peterson apresenta regularmente um semblante vazio, com o seu rosto a parecer muitas das vezes um enigma que gostaríamos de decifrar, com a actriz a sobressair pelo à vontade com que utiliza o corpo para explorar as diferentes dimensões de uma personagem que é bem desenvolvida pelo argumento. Exibe um enorme cuidado nos gestos de Ingrid, quer a andar, quer no toque, quer a dar a ideia de que esta é mesmo invisual (a actriz não padece da mesma limitação), sobressaindo momentos em que são efectuados planos detalhe sobre a sua mão enquanto toca em maçãs ou na água que escorre pela torneira, com esta a parecer não só querer sentir os mesmos mas também procurar imaginá-los fisicamente. Quando os close-ups fixam-se no rosto desta mulher ficamos diante da sua inabilidade em ver, utilizando a imaginação para tentar colmatar algumas das suas lacunas, surgindo como uma figura complexa cuja subjectividade inerente à sua condição aumenta ainda mais as dúvidas em relação ao seu quotidiano. A cinematografia é muitas das vezes essencial para a exposição destes episódios que envolvem Ingrid e a sua mente, quer nos exemplos já dados, quer nos planos mais abertos, quer na utilização da luz natural, com este último recurso a ter sido salientado pelo realizador Eskil Vogt ao Indiewire: "So almost everything was shot with natural light or the practical light sources you see on the screen. He took so many risks! One of the key things was that she doesn't need electrical light, she can sit in an apartment that gets darker and darker and darker and she doesn't see it. And then her husband comes home and turns on the electric light and that contrast… that became key".

A relação de Ingrid com o esposo é marcada pelas ausências deste e as dúvidas da mesma, quer em relação à possibilidade deste por vezes poder estar em casa a observá-la sem avisar, quer devido a poder ter uma amante. A possível amante é criada, ou pelo menos parece, na mente de Ingrid, com esta mulher a ser Elin, uma sueca que se mudou para Oslo há mais de dez anos para estudar e trabalhar. Esta é uma professora divorciada e solitária, tendo um filho do ex-marido e poucos amigos para além das pessoas que conhece no local de trabalho. Elin é uma mulher algo apagada cuja personalidade raramente conhecemos, até percebermos que isso em parte é resultante da imaginação de Ingrid, algo visível quando a primeira cega, deixando de ver totalmente num encontro com Morten, passando posteriormente a ter uma filha ao invés de um filho. Aos poucos alguns episódios da vida de Elin parecem estar ligados ao quotidiano de Ingrid, com esta última a escrever uma história desconexa ao computador cujos personagens ganham vida da mesma maneira no ecrã, com Eskil Vogt a não ter problemas em arriscar e desarmar-nos muitas das vezes em relação àquilo que estamos a ver. Veja-se quando Elin aborda Einar no supermercado devido a este encontrar-se a ouvir música de uma banda sueca que a mesma admira, com a narrativa a sofrer um corte e posteriormente a dar a entender que o diálogo não chegou a existir devido a estar a ser escrito pela protagonista ao computador, com Ingrid a alterar o mesmo. Marius Kolbenstvedt interpreta convincentemente uma figura algo frágil e pouco confiante na sua pessoa, um cinéfilo que se encontra aparentemente desempregado, habitando sozinho num apartamento onde passa boa parte dos seus dias a ver pornografia. No início do filme, Ingrid descreve este indivíduo, criado pela sua mente, como alguém viciado em pornografia, que desenvolveu um conjunto variado de fetiches, com Einar a surgir também como uma maneira de explorar a abertura sexual da protagonista, enquanto Elin permite abordar a falta de visão, o receio de uma possível traição e o medo de engravidar e não saber como poder cuidar do filho ou filha. Einar parece começar a interessar-se por Elin, a sua vizinha da frente, com os dois a chegarem mais tarde a manter contacto, numa obra onde os personagens ficcionais criados pela protagonista atravessam a realidade desta. Na sua longa-metragem de estreia como realizador, após ter escrito o argumento de "Reprise" e "Oslo, August 31st" ao lado de Joachim Trier, Eskil Vogt não parece ter problemas em correr riscos, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista do desenvolvimento da sua protagonista, criando uma figura complexa, que perdeu a sua visão mas não ficou privada da sua imaginação e de desejo sexual, com os dois personagens que cria a parecerem reflectir alguns dos seus receios e desejos. É uma estreia em grande nível por parte de Eskil Vogt, com este a surpreender-nos pela complexidade com que aborda a temática da perda de visão, ligando uma série de figuras a Ingrid que aos poucos conseguem prender a nossa atenção, independentemente da maioria ter saído dos escritos da protagonista e tomado conta da narrativa de "Blind". A imaginação desta mulher é fértil, bem como a sua procura em manter vivas as memórias daquilo que viu quando tinha visão, procurando transportá-las para o seu quotidiano, algo que explica as mudanças no cenário de acordo com aquilo que esta mulher tem ou não percepção. A certa altura desarma-nos por completo quando se despe e expõe o seu corpo contra o vidro da janela, com esta a mulher a manter a sua sexualidade bem activa, no meio de um quotidiano solitário onde escreve ao computador, cria narrativas nem sempre coerentes, bebe vinho, ouve televisão e procura manter a sua dignidade. Ao terminarmos de assistir a "Blind" percebemos que Eskil Vogt criou uma obra cinematográfica que surpreende pela complexidade e criatividade com que explora a sua premissa, extravasando a mesma enquanto nos coloca diante de uma mulher complexa cuja perda de visão não a fez perder a imaginação e os desejos, com o cineasta a ter uma estreia de luxo na realização de longas-metragens.

Título original: "Blind"
Realizador: Eskil Vogt.
Argumento: Eskil Vogt.
Elenco: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali, Marius Kolbenstvedt.

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