22 agosto 2015

Resenha Crítica: "Bande de Filles" (Bando de Raparigas)

 No início de "Bande de Filles" encontramos dois grupos de adolescentes a jogarem futebol americano. Os corpos embatem, as disputas são acirradas, as corridas mais do que muitas, até aos cumprimentos habituais no final do encontro. Na vida, muitas destas jovens vão ter de disputar lutas tão ou mais acirradas do que estas partidas, sejam estas contra o destino, contra os preconceitos e estereótipos, contra aquilo que os outros decidem para elas, contra os tabus, embora não tenham a protecção proporcionada por estes equipamentos. É no corpo e na alma que os golpes são sentidos, que o diga Marieme (Karidja Touré), a protagonista de "Bande des Filles", a terceira longa-metragem realizada por Céline Sciamma, com a cineasta a colocar-nos diante de pequenos episódios que contribuem para a formação desta adolescente e para a sua passagem para a idade adulta. No final temos a certeza que esta terá aprendido lições para a vida, que voltará a errar e a cometer actos reprováveis mas, certamente, não se deixará vergar facilmente perante aquilo que a sociedade lhe reserva, exibindo uma personalidade que aos poucos nos impressiona, com o argumento e a interpretação de Karidja Touré a contribuírem para elevar esta personagem. Esta é uma jovem inicialmente introvertida, que vive com Asma (Binta Diop), a sua mãe, bem como com as suas duas irmãs mais novas e Djibril (Cyril Mendy), o seu irmão, um indivíduo conservador e agressivo para quem a sexualidade feminina parece ser um crime. Diga-se que o estilo conservador de Djibril também é fruto de todo o contexto que o rodeia e da sua educação, habitando num bairro onde todos se parecem conhecer e partilhar os mesmos ideais, que o diga Marieme que, quando decide ter relações sexuais com Ismaël (Idrissa Diabaté), um amigo do irmão, logo é descrita como puta. Marieme parece estar numa encruzilhada. Em casa tem de ajudar em boa parte das tarefas, entre as quais cuidar das irmãs mais novas, com a mãe a ter pouco tempo para si e o irmão a tratá-la de forma nem sempre cordial. Na escola a situação não é muito melhor do que em casa, com a coordenadora a obrigá-la a seguir para o ensino profissional quando esta pretendia prosseguir normalmente pelo secundário. A justificação da coordenadora reside nos fracos resultados que Marieme apresentou ao longo do ano lectivo, com a jovem a desesperar, enquanto nos apercebemos que quase todos parecem querer decidir a vida pela protagonista, dando-lhe pouca margem de manobra. A mãe trabalha nas limpezas e pretende que a filha labore no mesmo ofício durante as férias de Verão. O irmão não pretende que esta se aproxime de rapazes, demonstrando poucas vezes alguns sinais de afabilidade. Na escola parecem ter decidido o seu futuro profissional, ainda que esta se mostre disponível a lutar por outro rumo. Ismaël parece ver nesta uma futura dona de casa, com Marieme a ter outros planos para o futuro. Céline Sciamma aborda e explora com sucesso alguns fragmentos da vida desta jovem que tem no episódio em que é contactada por Lady (Assa Sylla), a líder de um grupo de adolescentes que é formado ainda por Adiatou (Lindsay Karamoh) e Fily (Mariétou Touré), um momento fundamental da sua vida.

Não deixa de ser curioso verificar o timing em que ocorre o encontro entre Marieme e o grupo de Lady. Marieme tinha saído da reunião com a coordenadora, encontrando-se desolada com a decisão que tomaram para o seu futuro, com a sua face a exibir a personalidade algo apagada e a repressão de sentimentos que a protagonista apresenta nesta fase da narrativa, com Lady, Adiatou e Fily a serem fundamentais para esta se começar a libertar. Lady, uma jovem impertinente, carismática e extrovertida, chama-a e convida-a para ir com o grupo até ao centro de Paris. Marieme inicialmente rejeita, parecendo simultaneamente temer e desejar participar na saída. Pouco depois, repara num grupo de rapazes a cumprimentar Lady, Adiatou e Fily, apercebendo-se da aparente facilidade que estas têm em socializar. As vestes de Marieme são simples e discretas, enquanto as das restantes integrantes do grupo são bem mais berrantes e prontas a exibirem o gosto destas jovens em afirmarem-se e quebrarem as regras, mesmo que para isso criem rivalidades com outros bandos de adolescentes. Inicialmente, Marieme está pouco à vontade com estas jovens, uma situação exemplarmente demonstrada no autocarro, onde se senta no banco do lado, quando existe uma vaga no meio do grupo no interior do meio de transporte. Aos poucos liberta-se, com estas jovens que parecem querer quebrar com as regras que lhes impõem a despertarem um certo fascínio em Marieme, com o grupo liderado por Lady a contribuir para que a protagonista se solte um pouco dos seus grilhões e tenha uma liberdade que não encontra no meio opressor em que vive. Estas passeiam, visitam lojas de roupa, são alvo de racismo, roubam, divertem-se, extravasam as suas emoções, com Marieme aos poucos a soltar-se, quer a nível da exibição da sua personalidade, quer a nível do vestuário. A estreante Karidja Touré é sublime a interpretar esta jovem, com a actriz a conseguir convencer-nos com enorme naturalidade das transformações de Marieme ao longo do filme. Começa frágil, discreta, pronta a cumprir as regras, pelo meio começa a soltar-se e a apresentar um comportamento mais feminino, visível nas suas roupas e nos seus gestos, até apresentar uma atitude mais agressiva e tomar opções que a levam a procurar esconder a sua feminilidade. O seu rosto e o seu olhar parecem ter muito a esconder mas também muito a exprimir, sobretudo dúvidas e inquietações, com os seus actos a nem sempre terem justificação. Touré tanto sobressai a incutir um sorriso terno a Marieme como a expor a dor ou a confusão que lhe vai na alma, ou a determinação e raiva que sente, com a actriz a saber explorar o argumento de Céline Sciamma, uma cineasta que traça um retrato sobre estas adolescentes marcado por alguma crueza, realismo, humor e inteligência. A realizadora cria uma obra bastante centrada em figuras femininas, deixando os homens quase sempre nas margens, colocando as adolescentes no centro, sem medo de arriscar na exposição das suas ideias e ideais, tendo-se inspirado numa realidade que observou no seu quotidiano, algo que salienta no press kit do filme: "The characters themselves sparked the project. The teenage girls that I would regularly see hanging out in the vicinity of Paris’ Les Halles shopping center, or in the metro, sometimes in Gare du Nord train station: always in a gang, loud, lively, dancing. Wanting to delve deeper, I sought out their blogs and came to be fascinated by their esthetics, styles and poses".

É neste grupo de raparigas que se centra boa parte da narrativa, com Marieme a inserir-se no interior do mesmo, tendo nos momentos em que dança e canta ao som da canção "Diamonds" de Rhianna actos de libertação e descontração. Estas reuniram dinheiro, em parte ilegalmente, com a protagonista a chegar a roubar, tendo em vista a alugarem um quarto de hotel, onde se preparam para ter uma noite de diversão. As tonalidades oriundas das luzes azuis predominam pelo cenário (boa utilização da paleta cromática e da iluminação), bem como a libertação dos corpos, como se este espaço, associado à presença da música e do consumo de álcool e droga, permitisse que momentaneamente estas quatro raparigas se soltassem das amarras do meio em que habitam, com a canção de Rhianna, utilizada brilhantemente de forma diegética na narrativa, a adornar um episódio de relevo deste grupo. A cinematografia é exemplar, bem como a decoração do cenário interior para se adequar ao momento, com Céline Sciamma a exibir ainda outro dos pontos forte de "Bande de Filles": a banda sonora e a sua utilização para incrementar a narrativa. A banda sonora de "Bande de Filles" ficou a cargo de Para One (nascido Jean-Baptiste de Laubier), naquela que é a segunda colaboração com Sciamma, após terem trabalhado juntos em "La Naissance des Pieuvres", uma obra onde também eram abordadas temáticas associadas à adolescência e à sexualidade, com a parceria entre ambos a revelar-se frutuosa. Diga-se que esta situação resulta de uma hábil coordenação entre ambos, algo salientado pela cineasta: "We agreed that we preferred to limit the score to one theme that would return several times during the course of the film. Thus each time richer (in composition and length) and therefore following the character’s evolution. The musical theme would be developed as the story and the character progressed". A esta banda sonora original, que sobressai em diversos trechos da narrativa, tais como a cena em que Marieme deambula à noite pelas ruas após ter sido agredida pelo irmão, ou observa as amigas num gesto marcado pela melancolia e saudosismo de saber que os bons momentos que viveram muito provavelmente não se voltarão a repetir, juntam-se ainda temas como Diamonds, facilmente discerníveis, com Rhianna a surgir como um ídolo para estas adolescentes. A música diegética é bem utilizada, algo ainda visível quando encontramos um grupo de jovens, incluindo Marieme, Lady e companhia, no meio de uma praça central, ao som de música alta, enquanto os corpos se movem e os sentimentos são extravasados. Ainda vamos ter mais momentos destas jovens a divertirem-se e a exporem alguns traços das suas personalidades, mas também a envolverem-se em episódios mais problemáticos, inclusive em conflitos violentos contra outros grupos que resultam de forma amiúde em situações de pancadaria. A violência rodeia o quotidiano destas jovens, seja no espaço exterior às suas habitações, seja no interior das mesmas, seja a nível físico, seja a nível psicológico. Veja-se quando Djibril pede para que Marieme atenda sempre o telemóvel, com o seu braço a irromper pelo pescoço da jovem, num gesto ameaçador, onde este procura impor a sua autoridade junto da irmã através da força. Diga-se que este não é o único a recorrer à força, algo que é notório quando encontramos Lady em plena pancadaria com a líder de um grupo rival, com tudo a ser filmado por um conjunto de jovens, até a amiga de Marieme ser derrotada e colocada com o soutien à mostra. É um momento em que é exibida a violência que pode estar associada a estes bandos, com Céline Sciamma a procurar explorar a complexidade dos mesmos, sem diabolizar ou efectuar uma apologia relacionada com estes grupos, procurando antes exibir de forma realista a interacção entre os seus integrantes. A luta surge como um dos momentos que marcam Lady e Marieme, com esta última a utilizar o "nome de guerra" de Vic (associado a Victoire) e a imitar a conduta da amiga, quer para a defender, quer para se afirmar, até tomar um conjunto de decisões que que vão afectar a sua vida não só no presente mas também no futuro, ao mesmo tempo que colocam em causa as amizades formadas e as relações familiares.

"Bande de Filles" explora o quotidiano de Marieme, ao mesmo tempo que nos traça um retrato das gentes do espaço onde esta habita, sempre com algum realismo à mistura, com Céline Sciamma a abordar temáticas relacionadas com a adolescência e a transição para a idade adulta, ao mesmo tempo que espelha, sem falsos moralismos, como muitas das vezes algumas decisões externas, associadas a algumas escolhas pessoais, podem conduzir a certos rumos para a vida, com o destino a também poder ter um papel preponderante nesse quesito. A cineasta explora com enorme realismo e vivacidade o quotidiano desta jovem no interior do La Noue Clos Français, um bairro situado em Montreuil, nos arredores de Paris, marcado por prédios elevados povoados por gentes que vivem em condições nem sempre aprazíveis, onde a violência parece muitas das vezes estar na ordem do dia, seja como uma forma de afirmação, humilhação ou necessidade. "Bande des Filles" evita as armadilhas de tratar estas personagens como se fossem elementos à margem, colocando-as no centro, explorando as características deste espaço e das suas gentes, numa obra cinematográfica de pendor feminista, sem ser panfletária, onde todos os protagonistas são negros (algo que contrasta com “Naissance des pieuvres” e “Tomboy”, os dois primeiros filmes de Céline Sciamma, onde os personagens principais eram de raça branca, moradores em casas nos subúrbios de Paris). Mais do que estar preocupado em exibir diferenças raciais ou sociais, "Bande de Filles" procura fugir aos estereótipos e, acima de tudo, apresentar-nos a um grupo de jovens que nos habituamos a ver nas margens, com Céline Sciamma a transportá-los para o centro do enredo da sua terceira longa-metragem. O resultado é um drama humano, marcado por temáticas do foro social, muitíssimo interessante, cujo valor vai muito para além dos seus méritos cinematográficos. É certo que os personagens masculinos nem sempre ganham a dimensão das figuras femininas. Diga-se que nem todas as adolescentes do quarteto sobressaem de igual modo. Marieme é o destaque óbvio, com esta a ser a personagem que vamos encontrar a evoluir ao longo da narrativa num arco habilmente construído ao longo de uma estrutura algo episódica, onde Céline Sciamma explora com enorme acerto uma miríade de temáticas associadas à adolescência e à transição para a idade adulta ou pelo menos para obrigações e responsabilidades que remetem para as mesmas. Desde as dúvidas em relação ao futuro, passando pela formação da personalidade e a procura de afirmação, até à descoberta da sexualidade e a colocação da mesma em prática, vários são os temas abordados, sempre sem descurar o lado humano destas personagens que estão longe de ser santas ou de não cometerem actos pouco ponderados. Estas faltam às aulas, roubam, apresentam atitudes violentas, surgindo como espíritos livres que se procuram afirmar na sociedade, com a conjugação dos seus defeitos e virtudes a atribuir-lhes uma enorme humanidade. Lady é uma das figuras de relevo numa determinada fase da vida da personagem interpretada por Karidja Touré, com esta figura de piercing no nariz, cara maquilhada, enorme carisma e aparentemente inabalável a trazer Marieme para o interior de todo um novo mundo de descobertas. Aos poucos descobrimos também alguma sensibilidade no interior desta personagem aparentemente durona, com Assa Syla a dotar Lady de uma enorme humanidade, com o argumento a incutir algumas subtilezas que ajudam e muito à construção desta líder de um grupo feminino que facilmente desperta a nossa atenção.

 Se Assa Syla e Karidja Touré apresentam algum espaço para sobressaírem, já Lindsay Karamoh e Marietou Touré não têm tantas oportunidades, embora as personagens que interpretem surjam como figuras essenciais para atribuir credibilidade a um grupo unido, marcado por algumas diferenças (veja-se Adiatou sempre pronta a dançar e a demonstrar de forma exagerada os seus sentimentos), tendo em comum o gosto por descobrir aquilo que a vida lhes pode oferecer, ao mesmo tempo que desafia as barreiras colocadas pelo destino. Não é fácil e estas adolescentes cedo percebem isso. Seja na derrota num combate, seja numa má opção profissional ou numa decisão do foro sexual que afecta a reputação, seja a lidar constantemente com o conservadorismo deste núcleo social onde se encontram envolvidas, não são poucos os empecilhos colocados no caminho destas personagens, enquanto formam a sua identidade como mulheres. Estes empecilhos são sobretudo visíveis na figura de Marieme, ou Vic, com esta a enfrentar uma situação delicada em casa, mas também fora da mesma, enquanto tem de discernir um rumo para a sua vida ao longo de "Bande de Filles". Céline Sciamma tem o mérito de explorar com assertividade as temáticas que aborda, criando toda uma realidade que se torna credível e sensível ao olhar do espectador, ao mesmo tempo que nos obriga a reflectir um pouco sobre todo este quotidiano destas jovens. A escolha de um elenco principal composto maioritariamente por estreantes é acertada, com estas a conseguirem traduzir o espírito juvenil das personagens interpretadas, com Karidja Touré a surgir como o especial destaque, tal a forma como nos convence das transformações vividas pela protagonista. O próprio guarda-roupa parece ter sido pensado para reflectir estas mudanças, embora a protagonista nunca utilize uma protecção tão forte como os jogadores de futebol americano, apesar da sua enorme capacidade de aguentar os choques com o destino. O filme apresenta ainda um notório cuidado na representação dos cenários interiores, algo latente na já citada sequência do quarto do hotel, mas também no momento de maior intimidade entre Marieme e Ismaël ou, no quarto deste último, um espaço também muito marcado pelas tonalidades azuis. A casa da protagonista surge como um apartamento modesto, onde a encontramos inicialmente a jantar com as suas irmãs, a observar sorrateiramente através da janela o seu irmão a falar com Ismaël, embora seja um espaço nem sempre aprazível, algo latente na relação de Marieme com Djibril. A própria exibição dos cenários exteriores é efectuada com competência. Veja-se o plano geral que nos deixa com a protagonista diante dos prédios elevados, marcados por tonalidades cinzentas, bem como as cenas nas quais ficamos diante das gentes deste espaço. Diga-se que a boa utilização dos cenários internos e externos é algo que marca as três longas-metragens realizadas por Céline Sciamma, bem como elementos e temáticas como as relações de amizade entre as jovens, a formação da identidade e personalidade, descoberta da sexualidade, uma sociedade ainda marcada por alguns tabus e preconceitos que pode oprimir as protagonistas, elencos compostos maioritariamente por estreantes ou novatos, as cenas marcantes onde a música e a dança predominam, entre outros exemplos. Drama inteligente, profundamente humano e dotado de uma interpretação surpreendente de Karidja Touré, "Bande de Filles" aborda com alguma eficácia e realismo um conjunto de temáticas relativamente universais associadas à adolescência e à transição para a idade adulta, bem como ao relacionamento entre os jovens, com Céline Sciamma a realizar um trabalho bastante competente.

Título original: "Bande de Filles".
Título em Portugal: "Bando de Raparigas".
Título em inglês: "Girlhood".
Realizadora: Céline Sciamma.
Argumento: Céline Sciamma.
Elenco: Karidja Touré, Assa Sylla, Lindsay Karamoh, Mariétou Touré, Idrissa Diabaté, Binta Diop, Cyril Mendy.

Classificação em: http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/06/classificacoes-atribuidas-filmes.html

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