12 agosto 2015

Resenha Crítica: "Anchors Aweigh" (Paixão de Marinheiro)

 É praticamente impossível não associar desde logo "Anchors Aweigh" ao magnífico número musical que coloca Gene Kelly a dançar com o Rato Jerry numa cena típica do sonho/imaginação que encontramos em alguns musicais produzidos pela Metro-Goldwyn-Mayer. Originalmente os produtores pretendiam o Rato Mickey, mas a rejeição por parte de Roy Disney conduziu a que o célebre personagem criado por William Hanna e Joseph Barbera tivesse mais um momento de brilho, com o estúdio a beneficiar de uma tecnologia que permitiu tornar este momento relativamente credível. O momento é sublime, cheio de cor, ritmo e fantasia e serve paradigmaticamente para descrever um pouco do tom desta obra cinematográfica marcada por romance, humor, alguns mal-entendidos e um final relativamente esperado que surge pronto a deixar o espectador bem disposto. É uma obra cinematográfica leve, marcada por alguns números musicais de relevo, sobretudo quando a imaginação toma conta dos protagonistas, com as cantorias, a dança e o sapateado presentes em algumas destas sequências a servirem muitas das vezes para expressarem os estados de espírito dos personagens que povoam o enredo deste filme realizado por George Sidney. Existe espaço para o desenvolvimento dos personagens e dos seus relacionamentos, enquanto ficamos diante da história de Clarence "Brooklyn" Doolittle (Frank Sinatra) e Joseph "Joe" Brady (Gene Kelly), dois marinheiros que se encontram a gozar de quatro dias de licença em Hollywood. Joe salvara outrora Brooklyn da morte, com ambos a formarem uma amizade que se vai estender do barco para os locais urbanos, com o segundo a procurar que o personagem interpretado por Gene Kelly o ensine a lidar com as mulheres. Não deixa de ser curioso ver Frank Sinatra a interpretar um indivíduo tímido, que não sabe lidar com as mulheres, recatado e envergonhado, algo que em parte até vai contra toda a figura criada em volta do cantor e actor que nos convence com uma interpretação bastante sóbria e eficaz. Por sua vez, Gene Kelly interpreta um marinheiro conhecido pela sua habilidade em conquistar mulheres, tendo um suposto caso com Lola, uma mulher de que muito ouvimos falar. A reunião com Lola é adiada por uma miríade de situações que vão desde Clarence procurar que este o ajude a encontrar uma mulher, até ser abordado pela polícia, em conjunto com o personagem interpretado por Frank Sinatra, para se deslocar à esquadra para convencerem um jovem a revelar a sua morada após ter sido avistado na rua, sozinho, a salientar que se pretendia alistar para a marinha. O jovem é Donald Martin (Dean Stockwell), um rapaz que facilmente é persuadido por Joe a revelar a sua morada, bem como a ir às aulas, com estes dois a formarem uma enorme amizade, ou não fosse o personagem interpretado por Gene Kelly em alguns momentos uma criança em corpo de adulto. Donald é órfão de pais, vivendo com Susan Abbott (Kathryn Grayson), a sua tia, uma aspirante a cantora, que se limita muitas das vezes a cantar no café de um grupo de amigos. Clarence fica desde logo apaixonado por Susan, embora tarde em exprimir os seus sentimentos, enquanto Joe pouco se parece preocupar com a mesma.

Numa tentativa de ajudar o amigo a conquistar Susan, Joe finge que Clarence é amigo do famoso pianista e compositor José Iturbi (José Iturbi a interpretar uma versão ficcional de si próprio), revelando que o personagem interpretado por Frank Sinatra arranjou-lhe um teste que irá ocorrer dentro de alguns dias. Estes temem o que poderá acontecer se a mentira for descoberta, com ambos a procurarem entrar no estúdio da MGM e a deslocarem-se a vários locais para tentarem contactar com Iturbi. Se conseguirem encontrar Iturbi parece difícil, o mesmo se pode dizer em relação à (falta de) química entre Clarence e Susan, algo visível nos momentos de silêncio em que este não lhe tem nada para dizer ou quando não dança com esta por não saber movimentar-se àqueles ritmos, deixando quase todas as tarefas para Joe. O personagem interpretado por Gene Kelly procura a todo o custo ajudar o amigo mas aos poucos acaba por se apaixonar por Susan, ao mesmo tempo que forma amizade com Donald. Enquanto isso, Clarence conhece uma empregada do café (Pamela Britton) nascida no Brooklyn, que logo o encanta e deixa à vontade para falar. Escusado será dizer que vamos ter alguns imbróglios amorosos, mal-entendidos, algumas doses de romantismo, confusão e muitos números musicais numa obra cinematográfica marcada por alguma fantasia e bom humor que revela a vitalidade dos filmes deste género neste período entre cerca dos anos 40 e final dos anos 50 na MGM. A dinâmica entre os personagens é vital para o enredo funcionar. Gene Kelly e Frank Sinatra convencem como dois compinchas que são bastante diferentes a nível de personalidade mas formam uma sólida amizade, com os dois actores a protagonizarem números musicais como "We Hate to Leave", "I Begged Her" e "If You Knew Susie", com o primeiro a exibir uma maior energia e mobilidade para a dança, enquanto o segundo apresenta uma voz mais facilmente notável. Diga-se que o momento onde cantam "If You Knew Susie" é hilariante, com ambos a procurarem afastar um pretendente de Susan ao exibirem uma suposta música criada na marinha devido às supostas várias relações desta mulher, algo que logo afasta o indivíduo que se preparava para jantar com a protagonista feminina. Sem uma relação de amizade convincente entre Joe e Clarence o filme não funcionaria, tal como não funcionaria sem as mudanças graduais do primeiro. Joe começa o filme como um conquistador gabarolas e termina como um tipo sensível e romântico que necessita de recorrer a um número musical que parece saído de um conto de fadas para expressar os seus sentimentos, com Gene Kelly a convencer-nos destas transformações e a conquistar a nossa atenção para as sequências musicais que protagoniza. A relação deste com a personagem interpretada por Kathryn Grayson é também fulcral para o enredo, com a dinâmica entre Joe e Susan a ser desenvolvida de forma gradual, com estes aos poucos a começarem a perceber os sentimentos um pelo outro. Susan procura singrar no mundo da música, colocando grandes esperanças no teste que vai efectuar com Iturbi, embora não saiba que Joe e Clarence ainda não conseguirem marcar nada, nem conhecem este indivíduo.

Joe e Clarence bem tentam, com George Sidney a aproveitar o acesso aos estúdios da MGM para explorar os cenários para o filme, colocando a dupla de protagonistas a deambular pelos mesmos, tal como nos exibe um pouco os ensaios de elementos como Iturbi e deixa o espectador nos bastidores da elaboração de uma banda sonora. Clarence é sempre o mais atrapalhado e pouco confiante, enquanto Joe é o elemento que "transpira" carisma e confiança. Os dois acabam por ver as suas voltas trocadas a nível sentimental, algo paradigmaticamente exposto quando encontramos Frank Sinatra a cantar "I Fall in Love Too Easily", no espaço vazio do Hollywood Bowl. É um dos números musicais do filme, com "Anchors Aweigh" a não poupar em momentos que deixam marca no espectador, sendo muito mais do que a obra cinematográfica que colocou Gene Kelly a ensinar Jerry a dançar. Temos ainda a presença do, na época, jovem Dean Stockwell como Donald, com o petiz a ter uma interpretação digna de alguma atenção, formando uma boa dupla com o personagem interpretado por Gene Kelly. O argumento dá espaço para estes personagens serem minimamente apresentados e desenvolvidos, com George Sidney a realizar "Anchors Aweigh" de forma eficaz, reunindo um conjunto de ingredientes que facilmente despertam a nossa atenção. Os números musicais em alguns casos são memoráveis, com Kathryn Grayson a ter um momento inspiradíssimo no último terço, já para não voltar a repetir as várias sequências citadas, numa obra cinematográfica que faz ainda um notável aproveitamento da cor. É um filme leve, a espaços extravagante, que procura acima de tudo dispor bem o espectador com o grupo de personagens relativamente simpáticos que povoam o enredo e as situações em que eles se envolvem. A boa dinâmica entre Frank Sinatra e Gene Kelly conduziu a que ambos protagonizassem mais dois filmes, entre os quais o popular "On the Town", onde voltaram a interpretar dois marinheiros, embora no caso da obra cinematográfica em questão tenha calhado a Gene Kelly interpretar o elemento mais romântico. Recheado de números musicais que ficam na memória, uma enorme dinâmica entre Gene Kelly e Frank Sinatra, personagens que facilmente criam empatia com o espectador e uma história sempre agradável de acompanhar, "Anchors Aweigh" convence-nos habilmente a abraçar o seu enredo, numa obra cinematográfica onde não falta música, dança, romance, humor, muita cor, fantasia, extravagância e acima de tudo muitos sentimentos.

Título original: "Anchors Aweigh".
Título em Portugal: "Paixão de Marinheiro". 
Realizador: George Sidney.
Argumento: Isobel Lennart.
Elenco: Frank Sinatra, Kathryn Grayson, Gene Kelly, José Iturbi, Dean Stockwell.

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