11 agosto 2015

Resenha Crítica: "An American in Paris" (Um Americano em Paris)

 A certa altura de "An American in Paris", Jerry Mulligan (Gene Kelly), um antigo militar ao serviço dos EUA, agora a tentar ganhar a vida como pintor em Paris, após a II Guerra Mundial, começa a sonhar com Lise Bouvier (Leslie Caron), a jovem mulher amada. O sonho é marcado por um extravagante número musical, pontuado por um enérgico trabalho de câmara, coreografias arrebatadoras, cenas de ballet, sapateado, cenários inspirados em trabalhos de pintores famosos, não faltando cor, emoção, sentimento, com a ausência de diálogos a parecer ajudar ainda mais a adensar o impacto provocado por esta sequência que surge como um turbilhão de emoções que se acerca pelo ecrã e rouba toda a nossa atenção. O romance entre Jerry e Lise é atribulado, com Gene Kelly a exibir mais uma vez o seu enorme carisma e à vontade a atribuir alguma dimensão e simpatia aos seus personagens ao mesmo tempo que protagoniza alguns números musicais brilhantes (o seu à vontade a sapatear e movimentar-se em ritmos de dança são surpreendentes), enquanto que Leslie Caron tem aqui uma estreia digna de atenção com esta a não se deixar apagar pela presença do seu colega de trabalho. No início do filme, somos apresentados a Jerry através do próprio, com uma narração jocosa na primeira pessoa, enquanto nos exibe o seu apartamento pouco luxuoso, bem como a pouca confiança que tem no seu valor como artista. Procura seguir os grandes artistas que habitaram esta cidade, embora tarde em alcançar o sucesso profissional. Este é admirado pelas crianças do bairro onde habita, chegando a protagonizar com estes um número musical onde o inglês e o francês se juntam ("I Got Rythm") e o talento de Gene Kelly volta a vir ao de cima. Diga-se que Gene Kelly beneficia imenso da realização de Vincente Minnelli e da notória atenção que este atribui aos cenários, guarda-roupa, coreografias, exibindo todo um cuidado ao pormenor ao mesmo tempo que realiza "An American in Paris" com uma enorme fluidez, juntando com enorme sobriedade as cenas filmadas em cenários externos com os momentos nos cenários interiores. Nesse sentido, não vão faltar alguns planos a expor a cidade de Paris e os seus monumentos, tendo em vista a demonstrar como este espaço parece afectar a vida daqueles que habitam no mesmo, incluindo Jerry, embora e surpreendentemente "An American in Paris" tenha sido filmado maioritariamente nos estúdios da MGM na Califórnia. Jerry é amigo de Adam Cook (Oscar Levant), um pianista com claros problemas em encontrar trabalho a solo, que passa boa parte do seu tempo em casa a tocar piano ou a ir para o café. Cook é amigo de Henri Baurel (Georges Guétary), um cantor francês que alcançou algum sucesso a nível profissional, mantendo um relacionamento amoroso com Lise Bouvier. Esta é descrita inicialmente de diversas formas, desde boa dançarina, culta, relativamente calma, com Vincente Minnelli a proporcionar alguns momentos de humor ao exibir a actriz em diversas versões consoante o discurso de Henri, até reunir as várias imagens com as personalidades e vestes distintas no ecrã.

Durante uma das suas idas para vender quadros na rua, Jerry conhece Milo Roberts (Nina Foch), uma mulher que adquire duas das suas obras parecendo demonstrar interesse no mesmo. Milo é uma mulher financeiramente abastada que pretende investir emocionalmente em Jerry mas também ajudá-lo na sua carreira a ponto de procurar contactos para este organizar a sua própria exposição. O protagonista inicialmente rejeita esta mulher, embora a simpatia da mesma conduza-o a muitas das vezes aceitar a ajuda e companhia da mesma. É numa saída com Milo que Jerry conhece Lise num bar, procurando desde logo engendrar um esquema para meter conversa com esta e dançar com a mesma, desconhecendo que é namorada e posteriormente noiva de Henri. Lise inicialmente fica algo incomodada com Jerry mas aos poucos começa a apaixonar-se por este, um sentimento que é mútuo embora guardem segredos um do outro, incluindo as relações, ainda que a níveis distintos, que mantêm com Henri e Milo, respectivamente. A química entre Gene Kelly e Leslie Caron é latente, com a dinâmica entre os dois a ser sublime, algo visível em momentos musicais como "Our Love is Here to Stay", um momento romântico, marcado por alguma candura, muito típico da atmosfera leve que rodeia o filme. Se é marcado por uma atmosfera leve e alguma previsibilidade em relação ao desfecho, "An American in Paris" surpreende-nos com os números musicais magníficos, associados à dinâmica muito interessante entre Gene Kelly e Leslie Caron, para além de contar com uma boa utilização dos cenários exteriores, alguns personagens secundários dignos de interesse, entre vários outros elementos que elevam este musical realizado por Vincente Minnelli, um cineasta associado a obras do género. Diga-se que "An American in Paris" é produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer, a partir da divisão de musicais liderada por Arthur Freed, com este último a ter um papel notável no desenvolvimento de obras como "Singin' in the Rain", "On the Town", entre vários outros musicais. O próprio Gene Kelly é conhecido por ser uma estrela dos filmes do género, com "An American in Paris" a integrar ainda um período de ouro dos musicais, tendo vencido o Oscar de Melhor Filme para além de ter recebido mais uma quantidade generosa de estatuetas douradas, algo que na época gerou alguma polémica ou não tivesse ultrapassado a concorrência de "A Streetcar Named Desire". A partitura "An American in Paris" de George Gershwin foi uma inspiração para as músicas do filme, com este a ter contribuído para algumas letras das canções ao lado do seu irmão Ira (dois nomes conhecidos da História da Broadway), com a obra cinematográfica a contar ainda com músicas adicionais de Saul Chaplin. Os números musicais são na maioria notáveis, embora poucos consigam alcançar a genialidade da sequência em que Jerry sonha deambular com Lise por Paris em momentos completamente delirantes e entusiasmantes de cinema. Ritmo, coreografia, cor, sentimentos, emoções, ballet, cenários artificiais, roupas em constante mudança, tudo se junta neste número intitulado "An American in Paris", com Vincente Minnelli a elaborar algo que fica na memória e pede para ser revisto vezes sem conta, embora esta situação esteja sempre dependente do gosto de cada um em relação aos filmes do género.

Apesar de todos os números musicais recomendáveis, um dos elementos que no final mais sobressai em "An American in Paris" é o romance entre Jerry e Lise. Ele é um artista algo falador, mais expansivo, atrevido e descontraído, embora inseguro em relação às suas obras e pouco dado a receber críticas negativas. Ela é mais recatada, misteriosa, pouco dada a falar sobre si, com Leslie Caron a atribuir uma enorme candura a esta personagem. Ambos guardam segredos um do outro mas raro é o momento em que não acreditamos que devem ficar juntos, com Vincente Minnelli a apelar ao romantismo do espectador, apesar de todos os convencionalismos que marcam a relação destes dois personagens. Para a história de Jerry e Lise funcionar muito contribuem factores como o argumento, a interpretação de Gene Kelly e Leslie Caron, mas também um conjunto de personagens secundários que enriquecem este universo narrativo. Veja-se o caso de Milo, uma mulher que mora numa casa abastada, que colecciona casos falhados, mantendo uma rede de amigos influentes que podem ajudar Jerry, embora este último demonstre sempre pouco interesse na personagem eficazmente interpretada por Nina Foch. A relação entre o protagonista e Milo é desde cedo complicada, com esta a procurar um investimento emocional de Jerry que este não lhe está disposto a dar. Temos ainda Oscar Levant como Adam Cook, um pianista que tarda em atingir o sucesso na "Cidade-Luz", mantendo uma relação de grande amizade com o protagonista, entre outros elementos que povoam a narrativa. A relação de amizade entre Adam e Jerry é exposta num momento magnífico no qual o primeiro toca piano, ambos cantam e o segundo sapateia e dança de forma bem viva. O argumento dá espaço para os relacionamentos entre estes personagens serem desenvolvidos, enquanto os números musicais são inseridos maioritariamente no contexto da narrativa, com a sequência do sonho de Jerry a simbolizar toda a extravagância que um momento do género pode ter. Diga-se que esta cena marcada por números de ballet custou algo a rondar os quinhentos mil dólares ao estúdio, na altura um valor considerável, com Arthur Freed a conseguir esta avultada quantia para uma sequência onde se notou que a maquia foi bem aproveitada. É certo que nem todos os elementos do enredo envelheceram bem mas a atmosfera algo sonhadora e irrealista de "An American in Paris" permitem que muitas das vezes nos abstraiamos destas situações, com Vincente Minnelli a realizar uma obra cinematográfica digna de "nota artística". Com um romance envolvente, uma interpretação enérgica e carismática de Gene Kelly, uma história agradável e números musicais que facilmente ficam na memória "An American in Paris" sobressai como mais um interessante filme do género produzido pela MGM.

Título original: "An American in Paris". 
Título em Portugal: "Um Americano em Paris".
Realizador: Vincente Minnelli.
Argumento: Alan Jay Lerner.
Elenco: Gene Kelly, Leslie Caron, Oscar Levant, Georges Guétary, Nina Foch.

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