23 agosto 2015

Resenha Crítica: "Adventureland" (2009)

 Se as dúvidas que surgem com o terminar do ensino secundário são mais do que muitas, então após o término da licenciatura estas parecem adensar-se ainda mais: surge a incerteza em relação a prosseguir com os estudos num mestrado, pós-graduação ou o que quer que seja; decidir ir trabalhar nas férias ou aproveitar as mesmas para sair com os amigos sabendo que a maior parte daquelas amizades podem ou não ser esbatidas com o passar do tempo; optar de uma vez pelo mercado de trabalho mesmo que o curso tirado nem para lavar escadas sirva, com o destino a trazer a sua dose de imponderáveis à equação. No caso de James Brennan (Jesse Eisenberg), o protagonista de "Adventureland", este esperava desfrutar de umas férias na Europa com os amigos, conhecer diversos locais e divertir-se, até deslocar-se para Nova Iorque onde iria tirar uma pós-graduação em jornalismo, após se ter licenciado em Literatura Comparada e Estudos Renascentistas na Universidade de Oberlin. Este é um jovem que pouco sucesso tem com as mulheres da sua idade, ainda virgem, que sonha escrever "literatura de viagens" ou melhor "relatar o verdadeiro estado do mundo (...) como Charles Dickens, que escreveu supostos livros de viagem, mas visitou prisões e manicómios", apresentando uma visão algo sonhadora da vida. No entanto, a realidade imediata vai ser mais complicada do que James pensa, sobretudo quando os seus pais (Wendie Malick e Jack Gilpin) revelam que o progenitor foi destacado para um cargo mais baixo da empresa onde trabalha pelo que vão ter de reduzir custos, ou seja, não podem financiar os estudos e estadia do protagonista em Nova Iorque. Inicialmente este desespera, até decidir procurar um emprego de Verão, algo que resulta na sua chegada ao parque de diversões do título, gerido pelo peculiar casal formado por Bobby (Bill Hader) e Paulette (Kristen Wiig), com estes a apresentarem um enorme entusiasmo no cumprimento do seu ofício e uma política de empregabilidade que passa basicamente por alguém aceitar as condições de trabalho e não dar borlas. O parque, marcado por material barato e manhoso, fica localizado em Pittsburgh, na Pennsylvania, onde Brennan habita, com o Verão a ser o de 1987, algo que permite a Greg Mottola, o realizador e argumentista, explorar o tom da época e aproveitar uma banda sonora sublime que se adequa na perfeição à atmosfera de "Adventureland" e dos seus protagonistas. É um filme sobre a transição para a idade adulta ou se preferirmos onde alguns elementos tomam consciência que já são efectivamente adultos, marcado por um romance intrincado e convincente, uma dupla de protagonistas com uma química notória, uma banda sonora composta por temas que variam entre canções de Lou Reed (o herói de vários personagens, algo que abona ainda mais a favor de "Adventureland", com músicas como "Pale Blue Eyes" e "Satellite of Love" a fazerem parte do enredo), Falco ("Rock Me Amadeus"), Judas Priest ("Breaking the Law"), entre outros numa obra cinematográfica capaz de captar com enorme assertividade as relações e inquietações dos jovens. A entrada de Brennan no parque vai, ainda que sem que este se aperceba inicialmente, nem esteja à espera, mudar a sua vida e a percepção do mundo que o rodeia, com este primeiro emprego a sério a fazê-lo ter de lidar com situações e gentes distintas àquele "casulo" que tinha formado para si, tendo de aprender a desfazer os sonhos criados, elaborar novos objectivos ao mesmo tempo que conhece o primeiro grande amor da sua vida na figura da simultaneamente estranha e atraente Emily, mais conhecida por Em (Kristen Stewart), uma jovem complexa e inteligente que facilmente desperta a atenção do personagem interpretado por Jesse Eisenberg, algo que parece ser recíproco, com ambos a trabalharem na secção dos jogos do parque.

 Emily vive com o pai e a madrasta, duas figuras com quem pouco se relaciona, encontrando-se a trabalhar no parque de diversões para matar o tempo nas férias de Verão e assim estar afastada da família (que conta com posses suficientes para que a jovem não se tenha que preocupar em laborar no período de férias). Esta estuda na NYU, tendo um caso que procura esconder de tudo e todos com Mike Connell (Ryan Reynolds), o indivíduo responsável pelas reparações do parque, que é casado, músico em part-time, tendo supostamente tocado uma vez com Lou Reed. A relação entre estes dois fica mais instável a partir do momento em que Em conhece Brennan. Esta defende-o de um cliente mais agressivo, enquanto Brennan facilmente forma amizade com esta jovem de falas sagazes, algo misteriosa e rebelde, cujo rosto nem sempre é decifrável, com Kristen Stewart a exibir mais uma vez que, com o argumento e o realizador certo, consegue sobressair e explanar algum do seu talento (catalogá-la simplesmente pelo trabalho em "Twilight" não faz o mínimo sentido). A química entre Stewart e Eisenberg é latente. Ela mais misteriosa, capaz de explanar com precisão as contradições de Em, uma jovem que tanto apresenta confiança e experiência como alguns receios e fraquezas. Os receios em relação a avançar com um envolvimento mais sério com Brennan são latentes, sobretudo quando ainda parece sentir algo por Connell, embora, aos poucos, este último cada vez lhe pareça dizer menos. Não tem problemas em defender os colegas, seja Brennan, seja o atrapalhado Joel (Martin Starr), um indivíduo que é vítima de anti-semitismo, com Kristen Stewart a destacar-se como esta jovem que facilmente desperta a nossa simpatia, algo que também acontece com Jesse Eisenberg. Este surge como o tipo inexperiente, ainda meio infantil e a espaços marcado por algum nervosismo que é demasiado crente em relação àqueles que o rodeiam, sobretudo no que diz respeito a Connell. Diga-se que apresenta alguma coragem, quer seja a defender Em, quer seja a expor os seus sentimentos, embora cometa alguns erros pelo caminho, tal como a personagem interpretada por Kristen Stewart. É conhecido por ter marijuana, algo que lhe promete proporcionar alguns momentos de descontração com os amigos, com os biscoitos feitos com erva a terem efeitos delirantes. O parque é composto ainda pela presença de diversas figuras: Joel, um indivíduo de óculos, entre o pessimista e realista em relação à vida, de poucas posses financeiras, amigo de Em e James; Tommy Frigo (Matt Bush), um tipo extrovertido, que conhece James desde a infância e tem o estranho vício de dar um murro nas partes baixas deste último; Lisa P. (Margarita Levieva), a jovem que desperta a atenção de tudo e todos no parque, acabando por sair com James, embora nunca pareça ser capaz de fazer perigar totalmente a relação deste com Em, algo notório quando a primeira logo corta um diálogo do protagonista sobre Charles Dickens e exibe a sua vacuidade; Sue O'Malley (Paige Howard), uma amiga de Em, que mantém um caso de uma noite com Joel, entre outras figuras que envolvem o enredo de "Adventureland". Temos ainda o casal de gerentes, com Bill Hader e Kristen Wiig a sobressaírem nos poucos momentos em que estão no grande ecrã. Hader pelo entusiasmo que incute ao personagem que interpreta, um tipo de bigode que apresenta uma enorme alegria a efectuar actos tão simples como relatar uma corrida de cavalos numa máquina, embora não tenha problemas em surgir feroz diante dos clientes mais incorrectos. Wiig como a esposa que parece admirar incondicionalmente o marido. No centro de quase tudo está a relação entre Em e James, com estes a formarem uma elo de grande proximidade que gradualmente se transforma em algo mais, algo que é incrementado pela química entre Kristen Stewart e Jesse Eisenberg mas também pelo argumento de Greg Mottola, capaz de abordar este envolvimento de forma a que o mesmo soe sincero e verdadeiro junto do espectador. Veja-se quando esta se oferece para lhe dar boleia e parece que começa a existir algum interesse entre ambos, ou a festa de anos em casa de Em, com James a surgir como um dos poucos indivíduos disponíveis para ouvi-la, enquanto a personagem interpretada por Kristen Stewart parece genuinamente gostar do estilo culto e atrapalhado do protagonista. A banda sonora ajuda à festa, com o momento em que observam o fogo de artifício e o rosto um do outro, pontuado pela música “Don't Dream it's Over” de Crowded House, a transformar esta cena em algo ainda mais romântico. Temos ainda o momento em que dançam no Razzmatazz, a discoteca aparentemente frequentada por todos os jovens locais, com James a exibir a sua habilidade para a dança, em mais um momento onde é notório que existe uma enorme delicadeza a estabelecer e desenvolver este relacionamento.

Não vão faltar os célebres mal-entendidos, mas também alguns episódios marcantes, que vão desde um beijo mais romântico, a um momento mais quente na piscina onde a agitação do protagonista gera uma situação cómica quando pretende sair da água, passando por um reencontro comovente, até a mais dramáticos quando este se apercebe do caso que a jovem tem com Connell. Ryan Reynolds surge como o tipo aparentemente cool, que na realidade tem um casamento frustrado, cujo maior feito ninguém sabe se é real, e nas conquistas de jovens uma situação que exibe muito do seu carácter duvidoso. A relação de Connell com Em é algo complexa, com este a parecer como o ídolo "rock" decadente que atrai as mulheres, embora a chegada de James troque as voltas à protagonista, com este último a parecer ser sincero naquilo que nutre em relação às qualidades e aos defeitos da mesma, algo notório quando salienta: "Sim, vejo a pessoa que fez asneira, mas também vejo a pessoa que me salvou de ser apunhalado por causa dum panda gigante, que me apresentou as bolachas de chocolate psicotrópicas e que defendeu o Joel, que não tenta desculpar-se. A minha teoria é que não podemos evitar todos com quem metemos água (...)", num momento inspirado do argumento, com Jesse Eisenberg a convencer-nos dos sentimentos do personagem que interpreta. Greg Mottola explora com engenho o ambiente que rodeia o parque, que aos poucos se transforma num espaço quase familiar, ou numa "segunda escola", onde um grupo de personagens, marcado pelas suas idiossincrasias e alguma rebeldia, vive um conjunto de episódios relevantes, com especial atenção para Em e James. O espaço onde estes trabalham é marcado por um conjunto de diversões que, na sua maioria, estão aldrabadas para os clientes perderem o dinheiro, algo que vai desde manequins com os chapéus colados, um arco de basket deformado, entre outras, enquanto a música toca de forma incessante, em particular "Rock Me Amadeus" de Falco, que parece perseguir o protagonista. Este entrou no parque sem saber metade dos episódios que viria a viver no mesmo, deparando-se com um espaço onde as maiores lições que aprende nem parecem ser do foro profissional, com a realidade que encontra a ajudá-lo a compreender o mundo que o rodeia. Pode ser considerado um emprego pouco motivante, algo que não acontece só a James, com Greg Motolla a captar algumas das sensações que podemos ter neste tipo de trabalhos que seleccionamos quando estamos no primeiro emprego ou num limbo de indecisões ou simplesmente não temos mais por onde escolher. O cineasta é ainda exímio na escolha da banda sonora, com esta a adequar-se não só ao tom dos personagens (veja-se que tanto Em como James são fãs de Lou Reed, com a primeira a utilizar um t-shirt com a face do mesmo, enquanto o segundo tem um poster), mas também ao espírito que rodeia a narrativa de uma obra cinematográfica que se revela uma agradável surpresa. Não foge a alguns lugares comuns dos romances e dos filmes de adolescentes (incluindo o célebre momento à chuva), mas consegue abordar as temáticas com alguma subtileza, humor e enorme humanidade (o simples gesto de James a entregar uma cassete com músicas a Em ganha um enorme significado no contexto do enredo), ao mesmo tempo que é capaz de abordar uma série de temáticas associadas à idade dos personagens. Desde as incertezas profissionais às amorosas, passando pelas dúvidas em relação ao futuro e à relação nem sempre fácil com os pais, até às alegrias e desilusões, as experiências que marcam positivamente e negativamente para a vida, vários são os elementos que pontuam "Adventureland", com muito a estar concentrado na história de Em e James. É nestes dois que se concentra boa parte do enredo, com a relação entre ambos a conhecer avanços e recuos, enquanto James procura juntar dinheiro para a faculdade, apesar da tarefa nem sempre ser fácil. Aos poucos começa a conhecer melhor Em e vice-versa, tal como começamos a conhecer mais sobre estes dois personagens que são bem mais complexos do que aparentam e, vale mais uma vez realçar, beneficiam da dinâmica entre Kristen Stewart e Jesse Eisenberg, com os dois a contribuírem para a enorme empatia que criamos (ou pelo menos eu criei) com estas duas figuras. Diga-se que o argumento também contribui para este quesito, atribuindo os melhores diálogos a estes dois personagens, com James a parecer mais sonhador, adequando-se na perfeição ao estilo mais confuso e misterioso de Em. Com uma banda sonora marcada por algumas canções memoráveis que se adequa na perfeição à narrativa, uma dupla de protagonistas capaz de despertar o nosso interesse, romance, algum humor e pitadas de drama, "Adventureland" expõe-nos com assertividade a uma história pontuada por diversas temáticas associadas aos jovens adultos que conseguem ressoar no espectador, com Greg Mottola a realizar uma obra cinematográfica que se exibe como uma agradável surpresa.

Título original: "Adventureland". 
Realizador: Greg Mottola.
Argumento: Greg Mottola.
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Ryan Reynolds, Martin Starr, Bill Hader, Kristen Wiig.

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