01 julho 2015

Resenha Crítica: "Tangerinas" (Mandariinid)

 Para o bem e para o mal, as nomeações aos Oscars, Globos de Ouro, entre outros eventos de popularidade semelhante, permitem muitas das vezes que obras cinematográficas de lugares algo remotos tenham um certo destaque e cheguem às salas de cinema em circuito comercial (veja-se recentemente o caso de "Timbuktu", um filme oriundo da Mauritânia). Nem sempre acontece, é certo, tal como nem todos os filmes que se encontram em destaque nas grandes cerimónias de prémios, ou são seleccionados para os festivais de maior prestígio, conseguem satisfazer-nos, para além de, por vezes, estrearem em Portugal com um atraso inexplicável em relação à sua data de estreia original. Serve esta ligeira divagação inicial para destacar a estreia de "Tangerinas" em Portugal, uma co-produção entre a Estónia e a Geórgia, duas nações cujas obras cinematográficas raramente chegam ao nosso burgo, com o filme a contar com nomeações para o Oscar de Melhor Filme em língua estrangeira, para o Globo de Ouro na mesma categoria, para além de uma miríade de participações em festivais de algum prestígio. A mensagem pacifista e de apelo à tolerância de "Tangerinas" contribui e muito para explicar alguma da aderência a esta obra cinematográfica mas também a realização sóbria de Zaza Urushadze (um cineasta originário da Geórgia), um argumento sólido a explorar as intrincadas dinâmicas entre um grupo restrito de personagens e uma interpretação magnífica de Lembit Ulfsak. Este interpreta Ivo, um estónio de idade algo avançada, que vive num território rural localizado na Abecásia durante a chamada "Guerra na Abecásia" (14 de Agosto de 1992 a 27 de Setembro de 1993), que opunha as forças governamentais georgianas e os elementos separatistas locais. Os elementos separatistas pretendiam a independência em relação à Geórgia, sendo apoiados por militares russos e arménios, num conflito que é exposto de forma minimalista mas emocionalmente sentida ao longo de "Tangerinas". É devido a este conflito que Ivo vive sozinho, numa habitação com alguns quartos livres e diversas fotografias da família, incluindo da sua neta, muito elogiada pela sua beleza, com todos os familiares que sobreviveram a terem partido para a Estónia tendo em vista a fugirem da Guerra. Ivo passa boa parte dos seus dias a trabalhar a madeira na sua oficina, localizada num espaço algo desértico, para fabricar as caixas para transportar as tangerinas que Margus (Elmo Nüganen), um dos poucos habitantes que não fugiram do local, pretende colher e vender, tendo em vista a que estes citrinos não sejam desperdiçados devido ao conflito bélico. Os dois são amigos de longa data ou parecem ser, surgindo como figuras discretas e cúmplices, com Margus a pretender viajar posteriormente para a Estónia e livrar-se deste conflito que mina a existência do território da Abecásia. O quotidiano destes muda quando encontram Ahmed (Giorgi Nakashidze), um mercenário tchetcheno que está do lado dos independentistas, e Niko (Mikheil Meskhi), um georgiano que se encontrava num contingente militar rival ao do personagem interpretado por Giorgi Nakashidze. Ahmed e Niko encontram-se feridos, sendo os únicos sobreviventes de um confronto entre as duas partes, com os mortos a serem enterrados por Ivo e Margus, após o veículo do primeiro e do seu colega ter embatido no muro junto à casa deste último.

O primeiro a ser recuperado é Ahmed, enquanto Niko é descoberto posteriormente, com ambos a serem transportados para a casa de Ivo, algo que promete atribuir uma nova dinâmica ao quotidiano deste homem que vai surgir muitas das vezes como mediador de dois representantes de lados distintos do conflito. Se Ivo é um camponês calmo, sensato, de roupas discretas, que tem sofrido na pele as consequências do conflito e da solidão, já Ahmed surge inicialmente como um indivíduo explosivo, marcado pelo ódio em relação aos georgianos, algo que o leva a ameaçar a vida de Niko quando descobre a presença deste último na mesma casa, com a co-existência dos dois a prometer ser tudo menos pacífica. Ahmed pretende vingar Ibrahim, o amigo e colega que falecera no tiroteio, embora prometa a Ivo que não elimina Niko na casa do camponês, apresentando um enorme respeito para com o protagonista, não só pela idade avançada do mesmo, mas também pela segurança, sobriedade e calma que este transmite. Niko encontra-se inicialmente num estado de saúde muito mais debilitado e grave do que Ahmed, tendo sido ferido na cabeça, apresentando um ódio ao tchetcheno que é recíproco, embora ambos não se conheçam (parte da estupidez da guerra, para além das mortes, ferimentos e destruição, centra-se exactamente em colocar frente a frente elementos cujas razões para odiarem-se surgem inerentes a um conflito militar que não é despoletado pelos mesmos, algo que é abordado de forma eficaz por "Tangerines"). Com enorme naturalidade, embora também seja certo que não está a explorar terreno propriamente inovador, Zaza Urushadze aborda a rivalidade destes dois homens, as suas personalidades e os seus ideais distintos, até colocar-nos aos poucos diante de uma détante entre a dupla que se encontra numa espécie de "Guerra Fria" no interior da casa de Ivo. A rivalidade é imensa, com Ahmed a prometer eliminar Niko mal este saia de casa e esteja recuperado, enquanto este último não tem problemas em atirar chá quente para o corpo do primeiro, num dos vários momentos tensos na casa de Ivo, com este último a surgir quase sempre como a voz da razão. A tensão entre Ahmed e Niko é latente logo nos primeiros momentos, com ambos a demonstrarem uma enorme fúria reprimida que aos poucos dilui-se e parece transformar-se em algo mais apolíneo, após alguns momentos de maior irrisão entre ambos. Embora a maioria dos elementos do elenco principal sobressaia pela positiva, entre os quais os intérpretes de Niko e Ahmed, é praticamente impossível não colocar a interpretação de Lembit Ulfsak acima de todas as outras. Ulfsak destaca-se não só pelo carisma e respeito que Ivo transmite, mas também pela forma como domina muitas das vezes as atenções, com o actor a explorar as possibilidades fornecidas por um argumento que apresenta uma solidez latente a desenvolver as dinâmicas entre os personagens. Ivo é um elemento fulcral para manter a paz na sua habitação e exibir as incoerências da guerra, contando com a peculiar companhia de dois indivíduos que são rivais num conflito militar, acabando aos poucos por formar uma relação de proximidade com ambos, ao mesmo tempo que procura ajudar Margus na colheita, embora não esteja sempre certo que esta é a melhor altura para tentar vender tangerinas. Ahmed e Niko, aos poucos, começam a perceber que existe muito a separá-los, mas também a uni-los, incluindo a lealdade e o respeito para com Ivo, com "Tangerinas" a explorar um outro lado da guerra, através de um território que está longe de se encontrar num plano central do conflito. É certo que também temos alguma violência, tiroteios e destruição, ficando particularmente na memória os momentos finais ou o bombardeamento da casa de Margus, mas é a explorar os relacionamentos deste quarteto que "Tangerinas" mais se destaca, com a casa de Ivo e as imediações da mesma a serem cenários fundamentais de uma obra cinematográfica que esconde alguma complexidade no interior da sua aparente simplicidade.

A casa de Ivo é um espaço que tanto tem de algo acolhedor, ou não fosse aqui que o protagonista guarda algumas das recordações da sua vida, como de claustrofóbico, ou não estivessem no seu interior dois homens que a qualquer momento podem explodir e passarem das palavras aos actos. Ivo, tal como Ahmed e Niko, é um homem de palavra, com "Tangerinas" a colocar-nos diante de três personagens marcados por um enorme sentido de dever. Enquanto Ahmed e Niko não têm problemas em ameaçar-se de morte, com Zaza Urushadze a utilizá-los como representantes de lados distintos da "Guerra na Abecásia", Ivo procura seguir a via pacífica e não tomar partido por qualquer dos lados, abominando a mesma, algo que fica latente num brinde que efectua num jantar com estes dois indivíduos, onde constava ainda Magnus. Ivo brinda à morte, numa mostra de desagrado em relação à forma como Ahmed e Niko abordam a presença um do outro, com o ódio a ser gerado mais pelo conflito em que participam do que propriamente por incompatibilidades relacionadas com a personalidade de ambos. Giorgi Nakashidze atribui uma faceta inicialmente rude e violenta ao personagem que interpreta, uma figura imponente e ameaçadora que respeita Ivo, jurando eliminar Niko apesar de gradualmente começar a perceber que ambos são dois elementos que se encontram a combater por causas distintas embora contem com valores morais e traços de personalidade que os aproximam. Niko era um actor, com Mikheil Meskhi a explorar a complexidade deste indivíduo que se voluntariou a participar na guerra, guardando consigo uma cassete de música danificada que procura recuperar, tendo uma animosidade inicial para com Ahmed, ao longo de uma obra cinematográfica algo previsível no seu desenvolvimento embora seja elevada pela já elogiada sobriedade incutida por Zaza Urushadze, para além das interpretações de bom nível do elenco principal. Lembit Ulfsak domina as atenções como Ivo, com este indivíduo de barba e cabelos grisalhos, sem paciência para a guerra, a procurar chamar os seus dois "hóspedes" à razão e ter paz no seu lar. Este é um representante das várias famílias oriundas da Estónia que viviam numa aldeia da Abecásia que, por motivos relacionados com a guerra, tiveram de regressar forçosamente ao seu país, ou ver os seus familiares e amigos a partirem, algo que poderia gerar uma enorme revolta neste homem, mas ao invés disso ficamos diante de uma figura de enorme carisma e sapiência. Nem por isso parece temer um conflito, chegando a ameaçar Ahmed quando este se desloca a sua casa, no início do filme, na companhia de um colega que viria a falecer, para além de se impor diante do tchetcheno e Niko expondo que o medo não parece fazer parte do seu quotidiano. Mais tarde descobrimos que o próprio já perdeu alguém que lhe era muito próximo no conflito, com "Tangerinas" a expor-nos à "Guerra na Abecásia" através de quatro homens de funções e personalidades distintas. Ivo e Magnus são dois camponeses, com o segundo a ter menos espaço para sobressair, embora a sua amizade para com o primeiro seja notória. Niko e Ahmed são dois indivíduos que participam efectivamente no conflito. Os quatro acabam por se reunir muitas das vezes na casa de Ivo, com a banda sonora a dar o mote para uma obra cinematográfica marcada pela sua mensagem pacifista e de tolerância, mas também capaz de explorar o lado negro da guerra através dos ódios que esta pode gerar para além da sua destruição, com a habitação do protagonista e as suas imediações a estarem longe de serem locais seguros. Diga-se que a tensão encontra-se sempre muito presente, seja de um bombardeamento que destrói a habitação de Magnus, seja a presença de militares separatistas que entram na casa do protagonista, seja inerente às discussões e ameaças entre Niko e Ahmed, com estes dois últimos a parecerem divergir em quase tudo, até na religião, com o tchetcheno a ser muçulmano, enquanto o georgiano é cristão.

A condução dos actores é sublime, com Zaza Urushadze a conseguir explorar as diferentes dinâmicas que vão sendo formadas ao longo da narrativa, numa obra cinematográfica que nos consegue tocar de forma profunda, apesar de estar longe de surpreender. Diga-se que esta "mensagem pacifista" de Zaza Urushadze na abordagem a um episódio ficcional de uma guerra real é um dos pontos fulcrais da narrativa de "Tangerinas", embora acabe por retirar algum peso ao conflito entre Ahmed e Niko quando percebemos o rumo que a narrativa está a tomar. É certo que nos vai compelir a respeitar ainda mais estes personagens e a sentir aquilo que o último terço lhes reserva, numa obra cinematográfica realizada de forma sóbria, marcada por protagonistas dotados de alguma complexidade, com Zaza Urushadze a permitir que Lembit Ulfsak tenha uma interpretação que facilmente fica na memória. A própria exploração dos parcos cenários, em particular a casa de Ivo, é merecedora de destaque, com "Tangerinas" a deixar crescer a tensão até reunir os dois rivais na mesma mesa com Ivo, com o enredo a contar ainda com um ou outro episódio que demonstra o óbvio, ou seja, que os relacionamentos humanos nem sempre são tão lineares como parecem, com a procura de vingança de parte a parte a parecer transformar-se gradualmente em respeito mútuo. Diga-se que para além da tensão inerente à guerra e ao relacionamento inicial entre Ahmed e Niko, "Tangerinas" conta ainda com algumas belas imagens, em particular quando nos deixa diante da plantação da fruta do título, para além de algum humor, algo notório no momento em que a carrinha onde se encontravam os soldados georgianos é empurrada para uma ribanceira e, ao não explodir, assistimos Markus a dizer que isso só acontece nos filmes, com Ivo a comentar de forma meio acabrunhada "O cinema é uma grande fraude". As tangerinas marcam parte do cenário externo da casa de Magnus, com este a procurar colher estes frutos tendo em vista a que não sejam desperdiçados, naquela que pode funcionar uma metáfora para as vidas humanas que se perdem nestes conflitos bélicos que muitas das vezes opõem seres humanos que noutra ocasião provavelmente até poderiam, ou não, ter formado amizade. Vale ainda a pena realçar que Magnus denomina este conflito de "Guerra dos Cítricos", pois ambas as partes da contenda encontram-se a disputar o território onde se encontram localizadas as suas tangerinas, algo que o atormenta. Diga-se que existe sempre a ameaça de, mais tarde ou mais cedo, a guerra também ir ter lugar naquele local, com os poucos habitantes que se encontram neste território rural a prepararem-se para possivelmente depararem-se com a destruição das suas propriedades. "Tangerinas" nunca procura explorar de forma profunda as raízes deste conflito, procurando algo mais contido, centrado num conjunto restrito de personagens masculinos (não existem personagens femininas), num enredo com uma mensagem anti-guerra que facilmente se torna universal. Estes homens parecem ser guiados por um sentido de honra muito próprio numa obra filmada na Geórgia, em cenários que procuram traduzir a realidade de um território rural da Abecásia como se fosse durante a data em que se desenrola o filme, com Zaza Urushadze a ter um enorme mérito na forma eficaz como explora e desenvolve as temáticas apresentadas. Se Magnus procura preservar as tangerinas e ganhar algum dinheiro com as mesmas, já Ivo introduz no interior da sua habitação uma dupla que prometia ser explosiva e aniquilar-se, com esta obra cinematográfica realizada por Zaza Urushadze a explorar como as dinâmicas entre os seres humanos podem ser complexas e como um filme pode esconder na sua aparente simplicidade um conjunto de temáticas que merecem reflexão.

Título original: "Mandariinid".
Título em Portugal: "Tangerinas".
Realizador: Zaza Urushadze.
Argumento: Zaza Urushadze.
Elenco: Lembit Ulfsak, Elmo Nüganen, Mikheil Meskhi, Giorgi Nakashidze, Raivo Trass.

3 comentários:

tardiolli disse...

Sugiro ao autor das críticas, a elaboração de dois textos, o primeiro, um compêndio de sua avaliação da obra, o segundo seguido dos verborrágicos textos que mais parecem uma promoção da cornucópia de saberes do mesmo.

Aníbal Santiago disse...

Se não quer ler os textos, nem aprecia os mesmos, tem bom remédio, é visitar outros espaço. O blog é algo pessoal, onde a remuneração é zero e a liberdade total, a partir daí escrevo como quero. No entanto, aproveito para elogiar a crítica construtiva e eloquente, recheada de saber e um discurso de merdas que não afecta minimamente o autor do texto.

tardiolli disse...

Tal qual o autor do blog, não seguirei conselhos, até porque o conteúdo é por demais rico e muito me agrada. Concordo com a parte que classifica de "merdas" meu discurso, talvez "infeliz" soasse mais elegante, "desnecessário" seria assertivo.