30 julho 2015

Resenha Crítica: "The Talented Mr. Ripley" (1999)

 Tom Ripley (Matt Damon) é um jogador. Joga com as vidas humanas e os relacionamentos como se fossem meras peças de um tabuleiro de xadrez. É descrito como uma sanguessuga e em certa parte essa descrição não é assim tão descabida para caracterizar o protagonista de "The Talented Mr. Ripley", com este a exibir ao longo do enredo a sua enorme capacidade para assumir as identidades alheias. Como este salienta numa conversa, as suas maiores qualidades são "Falsificar assinaturas, contar mentiras, persuadir praticamente qualquer pessoa", algo que expõe paradigmaticamente o carácter deste personagem que não parece perder uma oportunidade para tirar benefícios das situações em que se envolve, mesmo que para isso tenha de prejudicar e matar aqueles que o rodeiam. No início deste filme cujo enredo se desenrola durante a década de 50, encontramos este personagem a tocar piano com a farda de Princeton, com Herbert Greenleaf (James Rebhorn) a acreditar que Ripley esteve na mesma turma que Dickie Greenleaf (Jude Law), o seu filho, um indivíduo que partiu para Itália, mais precisamente para Mongibello, um local situado no sul de Nápoles, tendo no jazz a sua grande paixão. Tom estava apenas a substituir o pianista que deveria estar no local mas Herbert não tem conhecimento disso, pensando que o personagem interpretado por Matt Damon conhece o filho. Herbert oferece-se a pagar mil dólares para Ripley convencer Dickie a regressar a casa, ao invés de ficar em Itália onde se encontra a gastar a mesada dada pelo pai, enquanto vive com Marge (Gwyneth Paltrow), a namorada, uma mulher que se encontra a escrever um livro. Tom Ripley inicialmente parece esboçar alguma relutância mas logo parte para Itália, procurando estudar Dickie ao máximo, ao ponto de aprender a falar italiano, observá-lo com Marge na praia, saber os seus gostos musicais, as suas saídas, até entrar em contacto com o mesmo. Primeiro fala com Dickie na praia, diz-lhe que o conhecia de Princeton embora o primeiro não se lembre de si. Ambos acabam por formar amizade, com Marge a também parecer apreciar a personalidade de Tom. Este parece fazer de tudo para agradar ao casal, algo que se deve sobretudo a ser um indivíduo estudioso, observador e dissimulado que aos poucos começa a assumir os trejeitos de Dickie em parte devido a admirar o mesmo. É então que revela a Dickie que o pai dele o enviou, com ambos a decidirem enviar uma carta a Herbert, enquanto utilizam o dinheiro do mesmo para proveito próprio. Ripley finge-se algo incomodado com a situação, mas vai aproveitando a mesma para estudar a letra do personagem interpretado por Jude Law, conhecer os seus amigos, entre os quais Freddie Miles (Philip Seymour Hoffman), um indivíduo com vários conhecimentos nos clubes nocturnos ligados a jazz, bem como Peter Smith-Kingsley (Jack Davenport). O protagonista fica a partilhar a casa de Dickie, surgindo quase como um irmão para este, embora aos poucos comece a existir alguma erosão no relacionamento entre ambos. Dickie é um indivíduo extrovertido, capaz de formar largas amizades, pensando em casar-se com Marge embora traia-a sem grandes problemas. O jazz é a paixão de Dickie, com "The Talented Mr. Ripley" a exibir isso mesmo quando desloca o personagem e Ripley a um clube nocturno e ambos participam na cantoria no palco, com a música a ter um papel de relevo no filme, enquanto Jude Law e Matt Damon exibem uma dinâmica convincente nos momentos de maior fraternidade  entre os personagens que interpretam. A morte de uma amante de Dickie, que se encontrava grávida do mesmo, traz algumas dúvidas sobre a personalidade deste homem, com uma discussão mais acalorada entre este e Ripley a conduzir o protagonista a eliminar aquele que supostamente deveria fazer regressar a casar. O assassinato parece dever-se mais a uma situação proporcionada pelo calor do momento do que algo premeditado, embora o protagonista aproveite a ocasião para expor a sua habilidade para a dissimulação.

Os momentos aparentemente idílicos em Itália poderiam tornar-se um pesadelo, mas Ripley começa um perigoso jogo ao assumir inesperadamente a identidade de Dickie. Ripley utiliza a assinatura de Dickie para levantar dinheiro do banco e comprar roupas caras, para além de alugar uma casa luxuosa, preparando-se para levar uma vida dupla ao mesmo tempo que procura esconder a verdade de Marge e dos conhecidos do personagem interpretado por Jude Law, uma tarefa que nem sempre será fácil. Matt Damon tem uma interpretação certeira como Tom Ripley, conseguindo explorar com a mesma facilidade tanto o lado observador e meticuloso do personagem que interpreta como uma faceta mais prática e violenta. A personalidade de Ripley é um enigma, com Matt Damon a conseguir explorar esta faceta enigmática do personagem que interpreta, enquanto o protagonista procura inicialmente agradar a tudo e a todos ao mesmo tempo que estuda os seus interlocutores. Não deixa de parecer um indivíduo dissimulado e pouco confiável, com o seu apagamento diante dos restantes elementos a surgir mais como uma estratégia do que propriamente algo inerente à sua personalidade, embora pareça inicialmente admirar Dickie e todo o estilo de vida deste. A sua relação com Dickie parece variar entre a cumplicidade, o interesse e o desejo sexual, com Jude Law a atribuir uma mescla de simpatia e egoísmo ao personagem que interpreta, um indivíduo que tanto é capaz de assumir a vontade em casar com Marge como traí-la com outra mulher. Dickie parece despreocupado com a vida, nunca tendo de lutar por nada para conseguir aquilo que pretende, habitando numa idílica e solarenga zona de Nápoles com a sua amada, tendo no jazz a sua maior paixão, apesar de não ter grande talento para a música, surgindo como um personagem nem sempre capaz de despertar a nossa simpatia. O relacionamento de Dickie com o pai é complicado, apesar da mãe estar doente, embora mais tarde até saibamos as razões para esta erosão da relação entre ambos, enquanto Marge fica num estranho papel da vida deste elemento, variando entre uma relevância e cumplicidade notórias e um afastamento latente devido a este por vezes dar prioridade aos amigos e não só. Marge chega a salientar que "Estar com Dickie é como o brilho do Sol estar sobre ti, quando ele se esquece torna-se muito, muito frio". Esta é uma mulher fiel ao namorado que parece amar mesmo Dickie e aos poucos desconfia de Tom, sobretudo após o desaparecimento do primeiro. Gwyneth Paltrow não tem muito para fazer, mas consegue dar à sua personagem a radiância que a levou a chamar a atenção de Dickie, surgindo como o elemento mais perspicaz a julgar Tom no último terço. O trio passa inicialmente por alguns momentos idílicos, exacerbados pela cinematografia de John Seale, mas também por diversas complicações, com Anthony Minghella a deixar-nos perante uma narrativa negra onde a imoralidade, a mentira e a dissimulação estão muito presentes. Desde o início a jornada de Tom é marcada por uma mentira, com este a não ter sido colega de Dickie, nem apreciar assim tanto quanto isso música jazz, acabando por formar amizade com a sua futura vítima ao mesmo tempo que tem de procurar estabelecer um plano pontuado por diversas improvisações para escapar incólume aos seus actos, após ter cometido um assassinato que não parece ter planeado. Pelo meio temos uma investigação policial e privada, com os pitorescos cenários italianos, explorados com acerto por Anthony Minghella, a facilmente ganharem uma aura sombria devido aos actos do protagonista desta obra cinematográfica, baseada em "The Talented Mr. Ripley" de Patricia Highsmith. O enredo facilmente consegue inquietar-nos em relação a Ripley e aos seus planos, fascinando-nos de forma mórbida pela sua desfaçatez de assumir uma identidade que não é a sua e esconder os seus actos, ao mesmo tempo que ficamos sempre com enorme curiosidade em saber os seus próximos passos, com o argumento de Anthony Minghella a sobressair pela forma sagaz como nos mantém presos a estes acontecimentos.

Ripley é um protagonista de uma malícia extrema e enorme capacidade para improvisar, mas nem por isso apaga os restantes personagens que o rodeiam. Veja-se os casos de Philip Seymour Hoffman como Freddie, um indivíduo bem relacionado, com uma personalidade semelhante a Dickie, mas também Cate Blanchett, com esta a interpretar Meredith, uma mulher que se envolve várias vezes no caminho de Ripley e ameaça poder perigar o disfarce deste. É no aeroporto, logo quando se encontra a chegar a Itália, que Ripley finge junto desta ser Dickie, algo que aos poucos passará a ser um hábito do protagonista a partir do momento que se livra do personagem interpretado por Jude Law. Anthony Minghella consegue quase sempre manter o nosso interesse nos próximos actos do seu protagonista. Irá escapar à justiça? Irá ser apanhado pelos amigos ou conhecidos de Dickie? Quais os seus próximos passos? "The Talented Mr. Ripley" deixa-nos perante os actos do protagonista como se este fosse um exímio jogador de xadrez, de uma frieza e inteligência extremas, antecipando-se aos seus opositores. Gradualmente envolve-se na vida de Dickie, passando a habitar na sua casa, passeando com este, Marge e Freddie no barco, para além de visitar o clube de jazz preferido do mesmo. Aos poucos começa até a assumir hábitos e um visual próximo a Dickie, algo revelador da aproximação entre ambos mas também de algum plano mais malicioso. Essa proximidade não impede que elimine Dickie de forma violenta e brutal. A violência é algo que está presente ao longo do filme, sobretudo devido aos actos do protagonista, com Matt Damon a conseguir, apesar de todos os gestos de Ripley, que este não seja um personagem que nos consiga repelir. É exactamente esse ar de "boa pessoa" que faz com que Ripley passe incólume perante tantas situações delicadas, sobretudo junto do pai de Dickie, quando este se desloca a Itália para saber novidades sobre o filho, com Matt Damon a nunca atribuir um tom temível ao personagem que interpreta. Existe um momento que define bem Ripley. Quando Dickie está prestes a colocá-lo fora, finge deixar cair a pasta que traz consigo, na qual se encontram vinis de cantores jazz. É revelador do calculismo de Tom Ripley, da sua preparação extrema e frieza nos momentos decisivos, conquistando desde logo o interlocutor com o gosto em comum. O próprio guarda-roupa combina com os personagens. Dickie e Marge quase sempre mais descontraídos, enquanto que Ripley mais introvertido e pronto a não se expor, até começar a aproximar-se do estilo do primeiro. A própria orientação sexual de Ripley não é inicialmente clara. Tanto procura seduzir Meredith como tem momentos de intimidade com Peter Smith-Kingsley e parece ter um claro interesse sexual em Dickie, com os últimos episódios a desfazerem as dúvidas em relação a este quesito, embora demonstre por várias vezes admirar e desejar o personagem interpretado por Jude Law. Ripley é um enigma que muitas das vezes procuramos decifrar, um homem que fica fascinado pelo estilo de vida que conquista ao assumir a identidade de outra pessoa, ao longo desta obra onde as lições morais são deixadas de lado, a imoralidade toma conta dos actos de vários personagens e os idílicos cenários italianos são palco de vários crimes, com Anthony Minghella a mesclar a beleza destes territórios com a morbidez de alguns actos do protagonista. Vale a pena realçar que esta é a segunda adaptação de "The Talented Mr. Ripley" ao cinema, com a primeira a ter o título "Plein Soleil" e a ser protagonizada por Alain Delon. Nem todos os remakes e novas adaptações são maus, algo comprovado por Anthony Minghella com este a controlar praticamente na perfeição os ritmos da narrativa e criar um thriller envolvente, permeado por romances fugazes e relações de interesse, amizades forjadas e destruídas, paisagens belíssimas e cenários luxuosos que se podem transformar em locais claustrofóbicos, num filme que nos compele a querer seguir todos os passos do seu dissimulado e intrigante protagonista, um elemento com uma enorme capacidade de improvisação, interpretado assertivamente por Matt Damon.

Título original: "The Talented Mr. Ripley".
Título em Portugal: "O Talentoso Mr. Ripley".
Realizador: Anthony Minghella.
Argumento: Anthony Minghella.
Elenco: Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law, Cate Blanchett, Philip Seymour Hoffman, Jack Davenport, James Rebhorn, Sergio Rubini.

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