29 julho 2015

Resenha Crítica: "The Silence of the Lambs" (O Silêncio dos Inocentes)

 Durante alguns momentos de "The Silence of the Lambs" podemos ver Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) numa prisão semelhante a uma jaula após ter sido transportado num acordo para ajudar a revelar informações sobre "Buffalo Bill" (Ted Levine), o nome dado a um perigoso serial killer. A cela ainda parece ter algum espaço, embora seja diminuta em termos de mobilidade, encontrando-se instalada num local marcado por apertada vigilância da polícia. Se esse espaço pode parecer claustrofóbico, em nada se compara com a enorme clausura e tensão que Jonathan Demme nos coloca ao longo de "The Silence of the Lambs", onde uma procura para encontrar um psicopata que retira a pele das suas vítimas resulta numa intrincada investigação que tem como elemento principal a jovem Clarice Starling (Jodie Foster), uma promissora candidata a agente do FBI que se encontra a treinar na academia em Quantico, na Virginia, quando é chamada por Jack Crawford (Scott Glenn), o director da Behavioral Science Unit. O local é marcado pela presença predominante de figuras masculinas, com Clarice a parecer quase uma intrusa num espaço onde aparentemente apenas os melhores e mais aptos parecem ter lugar, embora as mulheres não pareçam ser lá muito apreciadas para além das qualidades físicas. Crawford vê qualidades a nível de trabalho e físicas que considera poderem ser valiosas para Clarice poder entrevistar o psicopata canibal Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), tendo em vista a avaliar o perfil psico-comportamental do mesmo e assim conseguirem pistas para outros casos de serial killers. Lecter rejeitou todos os outros elementos, pelo que a ida de Clarice ao local é uma jogada para Crawford ir apalpando terreno para ver até que ponto o serial killer e antigo psicólogo está disposto a colaborar na captura de "Buffalo Bill". Após um momento de leve assédio por parte de Frederick Chilton (Anthony Heald), o elemento do Baltimore State Hospital for the Criminally Insane responsável por dar informações sobre Lecter e de indicar a Clarice como se deve comportar diante do criminoso, a protagonista tem de finalmente encontrar-se com o psicopata. As instruções e apertadas medidas de segurança já nos deixam de pé atrás, bem como as tonalidades vermelhas que antecedem a entrada no corredor onde se encontra a cela do canibal, mas nada nos prepara para as cenas entre Clarice e Lecter. Esta é uma agente determinada e perspicaz, que treina de forma dura, mas é aparentemente algo frágil em alguns momentos mais emocionais embora procure mostrar sempre um lado mais frio. Jodie Foster tem uma interpretação de encher o olho como esta mulher que sobressai num meio dominado por homens, com a actriz a ser capaz de cometer a proeza de não se deixar apagar e até estar ao nível da memorável interpretação de Anthony Hopkins como Hannibal Lecter. De fala calma, quase sibilina, comportamentos a parecerem de fino trato, Lecter é um assassino inteligente, capaz de jogar com o lado psicológico do seu interlocutor, avaliá-lo e desarmá-lo. Clarice procura estar à altura deste desafio, enquanto assistimos a uma utilização exímia dos planos e contraplanos entre os personagens, com os close-ups a incrementarem a atmosfera claustrofóbica que rodeia estes momentos inquietantes nos quais a dupla dialoga. Assistimos quase a um jogo de pingue pongue onde cada jogada pode ser decisiva e o mínimo erro fatal para este duelo mental entre Lecter e Clarice. Esta continua a procurar encontrar pistas junto desta misteriosa figura que a coloca perante um conjunto de anagramas. Primeiro diz para esta contactar Martin de Oseque, que remete para o anagrama "O que resta de mim", com Lecter a parecer tirar um enorme prazer destes jogos psicológicos onde expõe a sua inteligência e desafia a dos seus interlocutores, algo que por vezes os coloca à beira de um ataque de nervos.

Anthony Hopkins transforma-se neste personagem macabro e representativo do mal, que tanto é capaz de demonstrar uma enorme inteligência como uma enorme irracionalidade nos seus actos. É um jogador hábil, conduzindo o companheiro da cela ao lado ao suicídio, enquanto a investigação decorre. No local indicado por Lecter, a protagonista encontra uma cabeça, guardada pelo personagem interpretado por Anthony Hopkins embora saibamos que não foi este o assassino. A entrada de Clarice no armazém é marcada por enorme inquietação, com esta a ter alguma dificuldade em passar pelo portão, conseguindo abrir uma pequena fresta no mesmo, existindo sempre a possibilidade da queda desta divisória, algo que poderá conduzir à morte da protagonista. O espaço é apenas iluminado pela lanterna utilizada pela protagonista, com a descoberta da cabeça de um antigo paciente de Lecter a trazer mais uma pista ao caso. É então que é encontrado o corpo de mais uma vítima, embora consigam efectuar a descoberta de um novo elemento: a presença de uma Sphingidae, um insecto oriundo da Ásia, que tem de ser importado, no interior do corpo da mulher assassinada. Lecter diz saber quem é o assassino, uma informação que lhe dá uma maior importância quando "Buffalo Bill" rapta Catherine Martin (Brooke Smith), a filha de uma senadora dos EUA. É feito um transporte meticuloso do criminoso para Tennessee, onde este contacta com a senadora Ruth Martin (Diane Baker) utilizando anagramas e fazendo perguntas sobre os seus seios que a atormentam, percebendo que o personagem interpretado por Anthony Hopkins não está disposto a dar grandes facilidades. Com Lecter em risco de poder escapar, Clarice e o FBI em plena busca por "Buffalo Bill" antes que este assassine Catherine, "The Silence of the Lambs" coloca-nos perante momentos de enorme inquietação, onde nada nem ninguém parece estar em segurança e o perigo aparenta estar em qualquer lugar. O lado mais feroz de Hannibal vem ao de cima, enquanto Clarice começa a juntar as peças, protagonizando um momento de enorme tensão no último terço, onde a cinematografia sobressai, bem como o trabalho de montagem, capazes de contribuírem para o aumentar do sentido de perigo que rodeia a protagonista. Jonathan Demme tem em "The Silence of the Lambs" um dos grandes filmes de terror psicológico da História do Cinema, tendo sido a primeira obra cinematográfica do género a ser agraciada com os Oscars de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Melhor Actriz e Melhor Argumento Adaptado (não é que estes prémios sejam indicadores precisos de qualidade, mas permitem expor a aceitação gerada pelo filme). O cineasta cria uma obra inteligente e inquietante, emocionalmente e visualmente violenta, onde parecemos enjaulados perante os acontecimentos que são expostos dos quais dificilmente conseguimos sair. É quase hipnótico ver Hannibal a falar, sendo fenomenal ver este a revelar informações sobre o serial killer em troca de pormenores sobre o passado de Clarice, algo que nos permite conhecer mais esta mulher mas também a frieza deste homem a estudar os seus interlocutores. É isso que o leva a conseguir algo impensável, com o filme a deixar-nos perante os seus actos canibalescos mas também diante da sua inteligência. Jodie Foster (sublime no trabalho a nível vocal e corporal, conseguindo explanar na perfeição os sentimentos da personagem que interpreta) e Anthony Hopkins (arrepiante e sombrio como Lecter) quase que apagam os restantes actores e actrizes presentes no elenco, embora valha a pena realçar Scott Glenn como Jack Crawford, o superior de Clarice, um elemento que a coloca na "toca do lobo" e descobre ter nesta mulher uma das suas agentes mais competentes. Curiosamente, nem Anthony Hopkins, nem Jodie Foster eram as opções iniciais de Jonathan Demme, com o cineasta a pretender inicialmente Sean Connery e Michelle Pfeiffer, uma dupla que em boa hora rejeitou os papéis. Hoje parece praticamente impossível imaginar este duelo psicológico entre Clarice e Hannibal sem Foster e Hopkins, com a dupla a conseguir ter uma enorme dinâmica, ancorada na realização sublime de Jonathan Demme. A iluminação e a paleta cromática que rodeiam o filme contribuem muitas das vezes para a frieza e a atmosfera macabra que rodeia os assassinatos e até os encontros entre a protagonista e Hannibal, com Jonathan Demme a voltar a contar com Tak Fujimoto como director de fotografia, um nome bastante competente e colaborador habitual do cineasta que contribui para o dinamizar da narrativa.

O argumento do filme teve como base o livro "The Silence of the Lambs" de Thomas Harris, com  Jonathan Demme a ter aqui uma das obras mais populares da sua carreira. O cineasta fez por isso. Os personagens têm dimensão e evoluem ao longo da narrativa, a criação da tensão é feita de forma gradual e com enorme classe, ao mesmo tempo que ficamos perante elementos típicos deste tipo de filmes, tais como a protagonista no terreno em busca de pistas, algumas reviravoltas e um assassino em série que se esconde com enorme habilidade (no caso de "Buffalo Bill", este esconde-se no interior da sua habitação, após caçar as suas vítimas fora da mesma). Os cenários exteriores são bem aproveitados, mas é quando encontramos Hannibal e Clarice frente a frente em espaços fechados, por vezes marcados por pouca iluminação, que o filme ganha toda uma outra dimensão. Existe malícia da parte dele. Existe determinação da parte dela. Ambos são inteligentes mas parece certo que Hannibal é o elemento mais sagaz, procurando jogar com as informações das quais dispõe. Aos poucos esta desrespeita ordens internas para falar com o antagonista, um elemento com maior profundidade do que "Buffalo Bill", contando com enorme conhecimento sobre os instintos de um psicopata. Ted Levine atribui alguma extravagância ao personagem que interpreta, um assassino louco cujos únicos sentimentos demonstrados parecem ser para com a sua caniche branca, retirando a pele das suas vítimas. A psicologia deste personagem é explorada através da investigação de Clarice e das pistas de Hannibal, que contactara o namorado de "Buffalo" outrora, embora não pareça facilitar na exposição de informação. Do lado do FBI parece existir já algum desespero para encontrar este criminoso, algo que justifica o contacto de Clarice com Hannibal, embora estes dois pareçam estar quase à altura um do outro. A certa altura do filme esta revela que fugiu dos familiares que a acolheram, após o assassinato do pai em serviço para a polícia, devido a ouvir cordeiros a gritar por estarem a ser eliminados para posterior venda. Esta ainda os tentou libertar mas à noite ainda ouve a espécie de choro destes animais. O título remete para este episódio, com Clarice a procurar silenciar o barulho dos cordeiros que atormentam-na à noite, mas também a honrar a memória do seu pai e revelar-se uma agente competente. Quem também apresentou enorme competência foram os elementos responsáveis pela criação dos cenários interiores, sobressaindo desde logo a cela com divisórias de vidro onde se encontra inicialmente Hannibal Lecter, com a câmara de filmar a gerar regularmente a sensação de que esta barreira não existe, uma situação que aumenta ainda mais a inquietação em volta das falas trocadas entre Clarice e o psicopata. Intenso, inteligente, emocionalmente envolvente e contundente na abordagem das suas temáticas, "The Silence of the Lambs" é um dos grandes filmes de terror psicológico da História do Cinema e uma das obras mais memoráveis de Jonathan Demme.

Título original: "The Science of the Lambs". 
Título em Portugal: "O Silêncio dos Inocentes". 
Realizador: Jonathan Demme.
Argumento: Ted Tally.
Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine.

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