09 julho 2015

Resenha Crítica: "Rachel Getting Married" (O Casamento de Rachel)

 A certa altura de "Rachel Getting Married" podemos ver Kym (Anne Hathaway), a irmã da personagem do título, a revelar numa das várias reuniões de elementos em reabilitação que aos dezasseis anos de idade foi levar Ethan, o seu irmão mais novo, a passear, algo que resultou num desastroso acidente de viação com o carro a cair de uma ponte e esta a não conseguir tirar a criança do veículo. Esta encontrava-se totalmente pedrada, mas o episódio ainda está bem vivo na sua memória e na da sua família. Enquanto Kym efectua esta revelação, a câmara de filmar faz questão de focar-se nervosamente no rosto da personagem interpretada por Anne Hathaway, com a actriz a protagonizar um episódio tocante, pleno de sentimento, mas nunca demasiado melodramático, com o seu rosto e corpo frágil a parecerem acompanhar o estado caótico em que se encontra a sua mente. Kym tem plena consciência do erro que cometeu e sabe que nunca se irá conseguir perdoar por ter provocado um acidente que conduziu à morte do irmão, tendo como única alternativa aprender a lidar com a situação. Jonathan Demme permite a Anne Hathaway ter uma das grandes interpretações da sua carreira que destoa por completo daquela imagem por vezes sonsa que a actriz transmite em público. Kym é uma mulher fragilizada, nervosa, fumadora, ainda algo desequilibrada, a lidar com enormes dificuldades, uma situação que permite a Hathaway explorar com o mesmo êxito as várias vertentes desta personagem da qual quase todos esperam o pior ao longo da narrativa. Até nós por vezes sentimos pouca confiança no próximo acto de Kym, tal como ela sente esta situação. Nos momentos iniciais de "Rachel Getting Married", Kym encontra-se a sair do centro de reabilitação, tendo em vista a passar alguns dias na casa de Paul (Bill Irwin), o seu pai, e poder estar presente nos preparativos e no casamento da irmã. Inicialmente poderíamos esperar que o momento fosse de felicidade, mas esta família é um vulcão pronto a entrar em erupção com os episódios do passado a não terem sido esquecidos e serem relembrados com enorme facilidade. Paul procura a todo o custo que a filha se sinta bem, mas Kym entende isso como vigilância excessiva, enquanto a relação com a irmã começa inicialmente bem mas aos poucos vai-se degradando. Rachel (Rosemary DeWitt) parece inicialmente compreensiva com a irmã, mesmo quando Kym demonstra de forma notória o ressentimento pela primeira ter escolhido Emma (Anisa George), a sua melhor amiga, como madrinha de casamento. A relação entre Rachel e Kym é marcada por aproximações e afastamentos parecendo certo que não está tudo bem entre ambas, algo que fica paradigmaticamente representado no dia de preparação para o casamento, onde vários dos familiares e amigos discursam e a personagem interpretada por Rosemary DeWitt demonstra-se agastada pelas piadas sobre a recuperação e pela irmã apenas ter pedido desculpas naquela situação, encarando como mais um momento desta para procurar roubar as atenções. As duas protagonizam algumas cenas intensas, com Rachel a não se esquecer dos episódios negros da irmã no passado, bem como do facto do pai estar sempre preocupado com a personagem interpretada por Anne Hathaway. Jonathan Demme explora estas quezílias de forma bastante humana, apresentando-nos bem os personagens e os seus comportamentos, ao mesmo tempo que guarda alguns segredos que vão sendo desvendados consoante algumas das situações, incluindo o dito episódio dos discursos. Anne Hathaway e Rosemary DeWitt contribuem para a intensidade destes momentos, bem como a presença notória da câmara de filmar, sempre em enorme mobilidade e pronta a fazer-se sentir quase que nos tornando elementos participativos de todas estas cenas.

 Se Rachel e Kym por vezes discutem, já Paul procura apresentar uma postura apaziguadora, tendo em Carol (Anna Deavere Smith) a esposa do seu segundo casamento. Paul sofre pela situação da filha, sofre pela perda de Ethan há vários anos, mas encontra-se feliz pelo casamento de Rachel. Este encontra-se divorciado de Abby (Debra Winger), a mãe de Rachel, Kym e Ethan. Abby é uma mulher aparentemente fria, pouco dada a expor os seus sentimentos, embora tenha um momento explosivo com Kym. A filha acusa-a de ter deixado uma drogada que passava os dias a desmaiar e em condições físicas degradantes a tomar conta da criança, enquanto a mãe chama-a de assassina e salienta que Kym sempre tratou bem de Ethan. Dão uma estalada uma na outra. Pior do que as agressões físicas e verbais é ambas perceberem que as feridas abertas no passado não cicatrizaram e possivelmente nunca irão ficar devidamente saradas. Debra Winger e Anne Hathaway têm momentos de grande violência verbal e física, conseguindo inquietar-nos perante um episódio entre mãe e filha que tomamos quase como nosso. "Rachel Getting Married" tem esse condão. Aos poucos a história de Kym começa a fazer parte de nós e começamos a querer saber mais sobre esta e até a torcer para que consiga dar a volta por cima. Melhor do que ninguém esta está consciente de que o passado é difícil de esquecer, sobretudo em alguém com tanta apetência para errar, mesmo que seja num gesto casual. Veja-se quando Sidney (Tunde Adebimpe), o noivo de Rachel, se encontra a competir com Paul, para ver quem arruma mais loiça e de forma mais rápida na máquina de lavar. Estava tudo a correr bem, até Kym tirar uns pratos ao acaso e entre estes encontrar-se o prato de Ethan. Um dos poucos elementos que compreende Kym é Kieran (Mather Zickel), o padrinho de casamento e grande amigo de Sidney. Kym e Kieran conheceram-se na reunião de Narcóticos Anónimos. Os dois tiveram sexo pouco tempo depois de se terem conhecido, exibindo alguma empatia, embora a relação nem sempre seja explorada. Jonathan Demme está menos interessado no romance destes elementos do que na situação familiar de Kym e no casamento de Rachel. Os preparativos para o casamento são marcados por explosões de ferocidade e de alegria, com as duas famílias a juntarem-se e a parecerem claramente estar satisfeitas com a união. Sidney é um indivíduo calmo, muito semelhante a Paul, também apaziguador, que ama a esposa e tem uma família de enorme simpatia, com Jonathan Demme a ter em "Rachel Getting Married" um drama intenso e delicado, capaz de nos envolver e fazer com que torçamos por este conjunto heterogéneo de personagens. Sabemos que Kym necessita de atenção e por vezes quer mesmo ser o centro das atenções, mas também percebemos o lado de Rachel.

O argumento evita criar personagens principais unidimensionais. Kym tem as suas razões, tal como Rachel. Compreendemos os argumentos de ambas e talvez seja isso que nos faça acreditar com tanta facilidade nestas personagens. Durante um momento em que alguns elementos condenam Kym, existe um discurso que parece levar vários personagens à razão, nomeadamente de Kieran quando este salienta as dificuldades que teve em rever os familiares: "Sei que todos querem saber dela, onde está. A alta do tratamento é muito difícil e mais ainda é encarar toda a família. Quero dizer quando eu saí, eu não os via fazia anos. Isso requer um tempo (...)". A situação de Kym não é fácil. Esteve fora da família durante muito tempo, não tem conhecimento de vários episódios relevantes da vida da irmã durante esse período, ganhando a consciência de que passou ao lado de diversos momentos importantes da família, embora nem sempre pareça demonstrar isso com as palavras. Os confrontos com a irmã são exemplo disso quando parece amar a mesma, embora a sua situação não seja fácil. Já se imaginaram cair no fundo do poço e terem de enfrentar toda a merda que fizeram no passado? É isso que acontece a Kym. É óbvio que ela também tem culpas no cartório, mas na vida nem tudo é assim tão linear e o que "Rachel Getting Married" parece querer recuperar são essas pequenas subtilezas do real. A preparação para o casamento é outro dos pontos fulcrais do filme, com a família de Sidney a também ter alguma atenção, com esta cerimónia a ser de celebração. O regresso de Kym traz algumas complicações mas no final seria difícil imaginar a cerimónia sem a presença desta personagem, sobretudo quando lhe dão o papel de madrinha. Kym não é perfeita. É muitas das vezes inconveniente, explosiva, pronta a pensar em si própria, mas também é alguém de quem aprendemos a gostar e percebemos as suas dores e necessidade de atenção. Fuma quando todos lhe dizem para não o fazer, discute com a irmã breves momentos antes desta anunciar que está grávida, destrói um carro com a sua fúria, entra em quezílias com a mãe, faz sexo com o padrinho de casamento, demonstra afecto por Rachel e pelo pai. Kym é uma mulher recheada de imperfeições e qualidades que lhe dão algo de único e facilmente nos fazem gostar desta personagem. Os momentos finais podem não trazer aquilo que esperamos para Kym, a não ser que esta voltou a reconciliar-se com a sua irmã e parece ter finalmente conhecido um conjunto de episódios que a parecem colocar no caminho certo. O título do filme remete para o casamento de Rachel, um momento marcado por muita efusividade e a mescla de culturas e gostos das duas famílias, embora Jonathan Demme concentre as atenções nos episódios que o antecedem, seja nos preparativos, na reunião entre familiares e amigos, alguns deles desconhecidos até então, para além nos colocar perante a história de Kym. Jonathan Demme é um cineasta que já nos habituou a obras delicadas como "Philadelphia", onde também contávamos com um protagonista com uma personalidade forte mas fragilizado devido ao preconceito dos outros em relação a ser homossexual e padecer de Sida. Já Kym tem um passado problemático com álcool e drogas, uma mãe que parece pouco disposta a demonstrar afecto e um pai que aguarda ardentemente pela sua recuperação, enquanto esta personagem nos vai expondo as suas forças, fragilidades e enorme sarcasmo. No caso, Kym faz parte de uma família disfuncional que lida ainda com as dores do passado, procurando sarar as mesmas embora por vezes abra novas feridas, ao mesmo tempo que tenta conviver entre si. Com uma interpretação maravilhosa de Anne Hathaway, uma realização sublime e marcada por uma enorme sensibilidade de Jonathan Demme, uma utilização assertiva da música diegética, um argumento competente na abordagem das temáticas e vários diálogos acima da média, "Rachel Getting Married" é um dos grandes filmes lançados em 2008, merecendo continuar a ter a atenção dos cinéfilos ao longo dos vários anos que se aproximam.

Título original: "Rachel Getting Married".
Título em Portugal: "O Casamento de Rachel".
Realizador: Jonathan Demme.
Argumento: Jenny Lumet.
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Anna Deavere Smith, Tunde Adebimpe, Debra Winger.

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