16 julho 2015

Resenha Crítica: "Philadelphia" (1993)

 Não deixa de ser curioso que antes de "Philadelphia", o filme de ficção que Jonathan Demme tinha realizado anteriormente foi "The Silence of the Lambs". Sai do thriller psicológico para o drama comovente. Num inquieta-nos, no outro comove-nos e faz-nos pensar sobre a tolerância e intolerância na nossa sociedade. Em ambos temos uma dupla de protagonistas bem distinta mas que protagoniza alguns momentos que ficam na memória quando os dois elementos estão em conjunto. No caso de "Philadelphia" ficamos perante Andrew Beckett (Tom Hanks) e Joe Miller (Denzel Washington), dois advogados que no início do filme até encontramos em rivalidade. Beckett trabalha para a Wyant, Wheeler, Hellerman, Tetlow & Brown, uma poderosa empresa de advocacia de Filadélfia, na qual é aparentemente considerado um activo valioso, a ponto de lhe entregarem um dos casos principais, para além de ter uma boa relação com a maioria dos seus colegas. Miller é conhecido como o "advogado da televisão", tendo um anúncio onde se propõe a defender as causas dos clientes. Ambos amam a lei e defender a mesma, embora sejam bastante distintos. Joe Miller é casado com Lisa Miller (Lisa Summerour), de quem teve recentemente uma filha, sendo um elemento heterossexual e homofóbico. Andrew esconde a sua homossexualidade e a sua relação com Miguel Álvarez (Antonio Banderas), algo que não vai demorar muito tempo a ser revelado, sobretudo quando lhe aparecem as primeiras manchas na cara (sarcomas) e este descobre que foi contaminado com o vírus do HIV. A sua vida muda a partir daí. A vivacidade que apresentava é trocada por uma palidez e uma gradual deterioração do seu estado físico. É apoiado pela família, incluindo pelos seus pais, bem como por Miguel, apesar de ter contraído o vírus quando traiu o companheiro. No trabalho é despedido. Dizem ser por incompetência mas este sabe que é por preconceito, preparando-se para ter como um dos últimos grandes desafios da sua vida ganhar um processo em tribunal contra a sua entidade empregadora e provar a sua competência e dignidade. Andrew escolhe Joe como seu advogado. Este não sabe como lidar com a situação e inicialmente recusa o caso. Estamos perante dois elementos antagónicos: um homossexual e um homofóbico. Após um episódio de descriminação contra Andrew numa biblioteca presenciado por Joe, este decide defender o protagonista no caso contra a Wyant, Wheeler, Hellerman, Tetlow & Brown. O caso promete colocar Andrew na linha de fogo contra a sua antiga firma, incluindo Charles Wheeler (Jason Robards), um dos sócios maioritários da mesma e antigo amigo do protagonista, com o personagem interpretado por Tom Hanks a ter ainda de lidar com Belinda Conine (Mary Steenburgen) uma advogada que aos poucos começa a demonstrar um certo mau estar com o caso, num processo que ganha uma grande cobertura mediática. As cenas em tribunal são intensas. Ambos os lados querem ganhar e percebemos que Andrew tem razão, embora esteja demasiado combalido para conseguir reagir de forma ágil, tendo em Joe um fervoroso advogado de defesa. O momento em que Joe pede a Andrew para abrir a camisa e expor as manchas no seu corpo facilmente impressiona o espectador e os elementos no tribunal, surgindo como prova que as mesmas, quando estavam na face do protagonista, conduziram a que, Bob Seidman, um elemento que já tinha lidado com uma funcionária com Sida, desconfiasse da situação, ao mesmo tempo que são debatidas questões relevantes em tribunal. Para além de estar contaminado com o vírus da Sida, aquele que é considerado a "morte social" por parte do protagonista, Andrew ainda é descriminado pelas suas opções sexuais, com Jonathan Demme a abordar as temáticas com enorme delicadeza, tendo nas interpretações de Tom Hanks e Denzel Washington dois baluartes de peso, com ambos a criarem dois personagens principais de enorme relevo e dimensão.

Tom Hanks tem em Andrew mais um grande personagem de uma carreira marcada por alguns trabalhos dignos de registo. Nos momentos iniciais surge com enorme vivacidade, pronto a ganhar os casos e defender os seus clientes, até descobrir que padece de Sida e entrar numa fase descendente. Os gestos do personagem, os seus movimentos corporais e até a voz mudam, com Tom Hanks a conseguir explorar o deteriorar gradual do seu personagem. O protagonista ainda realiza uma festa onde participam vários amigos e Joe, naquela que é a primeira festa gay que este último frequenta. No final da festa, ambos reúnem-se para preparem o caso em tribunal. Andrew opta por ouvir a aria "La mamma morta" de Maria Callas e reproduzir o simbolismo da canção. O momento é de uma enorme intensidade emocional. Andrew sabe que desfruta dos seus últimos dias. Joe aprendeu a respeitar este homem. Não precisam de grandes falas um com o outro durante este momento, pois o episódio indica claramente o quão mudada está a relação entre ambos. Inicialmente, Joe é apresentado como alguém homofóbico e intolerante, algo que não muda de um momento para o outro, mas aos poucos vemos o advogado a ganhar um enorme respeito pelo seu cliente e até a formar amizade com o mesmo. Denzel Washington é um elemento de peso no elenco, encontrando-se ao melhor nível e não em modo "astro preguiçoso a trabalhar para o cheque" como em "The Equalizer", conseguindo expor a complexidade do seu personagem. O argumento é delicado na abordagem das temáticas. Joe aparece como alguém homofóbico mais por educação e preconceito do que por algo inerente a si, uma situação que explica a sua mudança comportamental ao longo do filme. Inicialmente chegamos a ver este a fazer comentários deselegantes sobre os homossexuais, bem como vários dos seus amigos, mas nem nestes momentos este deixa de defender Andrew com decisão, ao mesmo tempo que percebe que muito do que está em jogo no julgamento encontra-se exactamente na questão das opções sexuais do seu cliente. Diga-se que Joe é negro, com o filme a nunca expor o preconceito contra o mesmo, naquela que é uma abordagem típica de Jonathan Demme que podemos encontrar em obras como "Married to the Mob", "The Silence of the Lambs" e o mais recente "Rachel Getting Married", onde o cineasta é indiferente a raças, género e opções sexuais, ou seja, são todos representados como aquilo que são: seres humanos. No caso de "Rachel Getting Married" a personagem do título casa-se com um negro, com as famílias de ambos e a mescla de culturas e gostos a resultarem na perfeição, em "The Silence of the Lambs" tínhamos uma mulher como protagonista num meio dominado por homens, enquanto em "Married to the Mob" a personagem interpretada por Michelle Pfeiffer vai viver para um bairro onde também existe uma enorme mistura cultural. Nesse sentido, a delicadeza com que Demme aborda questões como a Sida, a homossexualidade, o preconceito, entre outras, não surpreende, num filme que procura despertar a atenção e consciência do público. O enredo do filme desenrola-se no início da década de 90, quando os efeitos e meios de propagação do vírus do HIV ainda não estavam totalmente divulgados, embora já fossem conhecidos. Como salienta Andrew, este vírus era encarado como "peste gay", o "cancro gay", embora faltassem informação de como o mesmo era transmitido. Mesmo o próprio personagem interpretado por Denzel Washington faz questão de perguntar ao médico se é seguro conviver com um elemento que padece de Sida e tocar no mesmo, tendo em conta que os efeitos do vírus ainda estão a ser estudados, com o filme a explorar ainda esse desconhecimento.

É esse preconceito que também conduz Andrew a ser despedido. Será que deveria ter dito que era homossexual e padecia de Sida? Tendo em conta que ambas as revelações certamente conduziriam a descriminação, é um acto que compreendemos, uma situação visível num flashback onde encontramos este com o seu chefe na sauna enquanto são contadas anedotas homofóbicas. Jason Robards empresta a sua credibilidade habitual ao seu personagem, um advogado conhecedor da lei e de boa oratória, preconceituoso e homofóbico, que tinha em Andrew um activo que considerava promissor. Aos poucos todos os elementos com cargos superiores na firma procuram desvalorizar o trabalho de Andrew de forma a defenderem-se em tribunal pelo acto do despedimento, com várias testemunhas a serem chamadas para depor. Os membros da firma de advocacia não são completamente diabolizados por Jonathan Demme, embora vários elementos estejam longe de despertar a nossa simpatia, com o cineasta a procurar apresentar a ferocidade de uma disputa em tribunal, naquela que será a última de muitas batalhas que Andrew travou nesta arena de combate onde a lei nem sempre vence. Tom Hanks tem alguns momentos que quase nos comovem quando fala sobre as razões de ser um excelente advogado: "Eu amo a lei. Conheço a lei e sou excelente a colocá-la em prática. (...) O que eu mais amo na lei? É que, de vez em quando, não com frequência, mas ocasionalmente, pode-se participar na justiça a ser feita. Isto é emocionante, quando acontece". Ficamos perante todo o amor deste personagem pela sua profissão, um homem que ama a advocacia e a lei, mas também os seus familiares e amigos. A relação de Andrew com Miguel é marcada por alguma sobriedade, com ambos a mostrarem enorme afeição um pelo outro, mesmo nos momentos de maior dificuldade. Antonio Banderas tem uma interpretação sóbria como este personagem que, tal como muitos dos grandes baluartes, se encontra na sombra do protagonista, pronto a ajudá-lo em todos os momentos. Diga-se que o filme conta com um elenco secundário capaz de incrementar o enredo, sobressaindo ainda elementos como Mary Steenburgen, com esta a interpretar uma advogada feroz e implacável nas questões que coloca. "Philadelphia" tem no tribunal alguns dos momentos de maior inquietação emocional, mas o filme não se restringe apenas aos mesmos, com Jonathan Demme a dar-nos também uma celebração da vida mesmo em momentos de maior dificuldade, com o espírito lutador de Andrew a ficar expresso de forma latente ao longo de todo este competente drama, mesmo quando o seu estado de saúde piora a olhos vistos. O cineasta volta a explorar os espaços citadinos, desta vez a cidade Filadélfia, seja o tribunal, sejam os cafés e os bares, seja a casa do protagonista, seja o cinema de pornografia gay, seja a biblioteca, entre outros espaços, ao mesmo tempo que ficamos com uma belíssima banda sonora que começa logo a abrir com a magnífica "Streets of Philadelphia" de Bruce Springsteen, passando por Maria Callas, entre outras canções. "Philadelphia" foi ainda o primeiro filme de Hollywood com um orçamento generoso e um elenco de actores de renome a abordar a temática da Sida, surgindo com uma função social e pedagógica relevante cuja mensagem não se perdeu com o passar dos anos, ou não estivéssemos perante uma obra sobre tolerância, luta pela vida e a procura de um homem em defender a sua dignidade. Tom Hanks e Denzel Washington são os elementos em maior destaque, com os seus personagens a aprenderem a respeitar-se, enquanto a dupla de actores tira da cartola duas interpretações meritórias. Drama competente que nunca descura o lado humano dos seus personagens, "Philadelphia" aborda com enorme delicadeza temáticas que ainda hoje são bastante sensíveis, com Jonathan Demme a conseguir não só passar com êxito as suas mensagens mas também a comover-nos num variado conjunto de situações, tal a forma como passamos a acreditar na história do personagem interpretado por Tom Hanks. É certo que Jonathan Demme poderia ter explorado mais a relação do protagonista com a família e por vezes apela em demasia ao lado sentimental do espectador, mas nem por isso nos sentimos enganados com aquilo que o cineasta tem para nos dar. Pelo meio perdemo-nos pelas ruas de Filadélfia, pelas memórias gravadas em vídeo da infância de Andrew e pela sala de tribunal, ao mesmo tempo que nos emocionamos e ficamos com a agradável sensação de termos visto um filme especial, sincero e delicado.

Título original: "Philadelphia".
Título em Portugal: "Filadélfia". 
Realizador: Jonathan Demme.
Argumento: Ron Nyswaner.
Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Jason Robards, Antonio Banderas, Mary Steenburgen.

Sem comentários: