07 julho 2015

Resenha Crítica: "The Painted Veil" (O Véu Pintado)

 As relações sentimentais nem sempre são fáceis. Por vezes existem erros cometidos, incompreensões mútuas e decisões que acabam por marcar a relação, que o digam os protagonistas de "The Painted Veil". Kitty Garstin (Naomi Watts) mal conhece Walter Fane (Edward Norton) e não o parece amar mas aceita o pedido de casamento deste de forma a fugir ao quotidiano da sua família, apesar de viver acima da média. Walter é um bacteriologista que trabalha na China e se interessa por esta desde que a encontrou pela primeira vez numa festa. Ela é cheia de vida, gosta de falar, socializar e tocar piano. Ele é algo reservado, taciturno, gosta de falar apenas quando é para dizer algo e não só para dizer que fala, sendo um indivíduo dedicado ao trabalho. A Lua de Mel entre ambos decorre em Veneza, a sua vida em comum decorre inicialmente em Xangai, em 1925. Não esperamos grande sucesso deste casamento, tal como não deveriam esperar Kitty e Walter, os protagonistas de "The Painted Veil", a terceira longa-metragem realizada por John Curran. Em Xangai ficamos perante a beleza do território e a crescente ruptura dos locais em relação aos elementos britânicos. É nesta cidade, durante um evento, que Kitty entra em contacto com Charles Townsend (Liev Schreiber), um vice-cônsul britânico conhecido pelos seus affairs, embora estes nunca cheguem a importunar totalmente o casamento que ele mantém com Dorothy (Juliet Howland). Existe algo em Charles que fascina Kitty. Talvez a personalidade distinta de Walter, com Charles a surgir mais decidido do ponto de vista sexual e expansivo, embora isso não signifique que o personagem interpretado por Liev Schreiber seja verdadeiro na exposição dos sentimentos. Um mexer da porta, enquanto se encontrava na cama num momento de sexo com Charles, conduz a que Kitty desconfie que o esposo descobriu a traição. Este é demasiado discreto para revelar logo a situação e assumir o fracasso do casamento. No entanto, Walter não esqueceu o incidente, decidindo exercer as funções de médico, para além de investigador, em Mei-Tan-Fu, uma terra situada à beira de um afluente do rio Yangtze, numa zona rural assolada por um surto de cólera. O médico do exército chinês faleceu e Walter decidiu voluntariar-se para o cargo, pretendendo levar Kitty consigo. Ela rejeita a decisão, algo que é contraposto pelo pedido de divórcio de Walter devido ao caso desta com Charles Townsend. Esta também se quer separar e salienta o seu amor por Charles. Walter sabe que este não passa de um oportunista, decidindo testar o mesmo ao salientar que concede o divórcio se Charles abandonar a esposa e casar com Kitty. Este rejeita a proposta e Kitty vê-se na contingência de ir para Mei-Tan-Fu, tendo de lidar de perto com o desprezo e até alguma crueldade inicial de Walter e as provações de um território aparentemente idílico mas conspurcado pela morte e pela crescente violência dos nacionalistas contra os britânicos, após actos pouco recomendáveis destes últimos (o contexto histórico não é esquecido ao longo do filme). A epidemia de cólera aumenta cada vez mais. Walter não se vacina e Kitty decide tomar a mesma decisão. Ambos parecem desafiar a morte e não temer a mesma, com a infelicidade a fazer parte do quotidiano deste casal. No território de Mei-Tan-Fu conhecem o simpático Waddington (Toby Jones), um comissário interino que desde cedo percebe que algo não vai bem entre Kitty e Walter, formando amizade com o casal. Os relatos dos locais sobre a dedicação de Walter e as privações e dor que encontra no local conduzem a que Kitty decida ajudar num convento de freiras. 

Naquela que foi uma viagem marcada por remorso, dor, algumas doses de vingança e passagens por territórios pontuados por uma beleza que nunca chegou a ser devidamente apreciada pelos mesmos, Walter e Kitty começam finalmente a compreender-se mutuamente e ter os momentos de intimidade que raramente partilharam. Ele desprezara-se a si próprio por a ter amado. Ela sente-se inútil. Aos poucos unem-se neste espaço onde a epidemia de cólera e a violência intensificam-se, tal como os seus sentimentos ao longo deste filme baseado no livro "The Painted Veil" de W. Somerset Maugham, com John Curran a deixar-nos perante uma obra de ficção marcada por sentimentos bem reais. Acompanhado por uma banda sonora maravilhosa de Alexandre Desplat, "The Painted Veil" apresenta-nos a uma relação matrimonial intrincada, marcada por um casal que revela enormes dificuldades em encontrar a felicidade. Edward Norton e Naomi Watts são fundamentais para acreditarmos nestes personagens e conseguirmos torcer pelos mesmos. Norton procura dotar o personagem de restrição e uma enorme complexidade de sentimentos, variando entre o amor exposto de forma pouco viva, o ressentimento e um inesperado calor humano. Watts surge inicialmente como uma personagem algo mimada e egoísta que se decide casar não por amor mas para fugir à sua família. A traição desta marca a relação de ambos de forma indelével, bem como a incompreensão mútua e o ressentimento. Existe um momento decisivo no filme onde Kitty salienta que "Foi um disparate procurarmos um no outro qualidades que não tínhamos". Este parece ter sido o grande erro de ambos, algo que procuram evitar voltar a cometer, ao mesmo tempo que se começam a compreender melhor e a procurar contribuir para um território marcado por uma enorme beleza mas também pela morte. No meio da relação destes dois personagens temos o contexto político, com a presença britânica no território a ser mal vista. Como salienta o Coronel Yu (Anthony Wong), um soldado chinês que não é lá grande apreciador dos britânicos mas forma uma relação de respeito com Walter: "(...) seria agradável combatermos a epidemia juntos sem ter as armas do seu país apontadas ao meu povo". Walter pouco pode fazer em relação a essa situação, sendo um indivíduo dedicado à sua causa, pouco preocupado com a política, começando aos poucos por nutrir uma verdadeira afeição pela esposa que culmina em alguns dramáticos momentos finais onde a tragédia se abate sobre ambos, não sem que antes tenham finalmente a oportunidade de se amar. A banda sonora atribui toda uma atmosfera entre a beleza e a melancolia ao enredo, enquanto a relação dos dois protagonistas surge como uma das temáticas centrais da narrativa, com Naomi Watts e Edward Norton, protagonistas e produtores, a convencerem-nos dos sentimentos dos personagens que interpretam e da dinâmica que apresentam em conjunto, algo essencial para "The Painted Veil" resultar junto do espectador. 

Se Naomi Watts e Edward Norton são o grande destaque de "The Painted Veil", já Liev Schreiber nem sempre tem espaço tem para sobressair, com John Curran a apresentar o affair entre Charles e Kitty de forma rápida e concisa. Percebemos que Charles Towsend é um indivíduo influente no território, capaz de seduzir as mulheres e claramente mais competente na oratória do que Walter, embora a sua personalidade esteja longe de ser recomendável, algo que Kitty percebe da pior maneira. Vale ainda a pena realçar Toby Stephens, um actor cujo talento nem sempre é reconhecido mas tem em "The Painted Veil" um papel de relevo, surgindo como um apoio britânico aos Fane no hostil território de Mei-Tan-Fun. Estes chegaram ao mesmo pelo caminho mais longo, prontos a serem infelizes, mas aos poucos começam a compreender-se mutuamente, com John Curran a conseguir que estas mudanças de comportamentos soem verdadeiras junto de nós, numa obra que se destaca ainda pelos bons valores de produção, incluindo um guarda-roupa de época, a decoração dos cenários e até os comportamentos, com a dificuldade de Kitty em casar a ser vista inicialmente como um problema para a sua família. Em Xangai, Kitty e Walter encontram um território belo e exótico, marcado por novas experiências para a primeira, mas madrasto para o casamento de ambos. Em Mei-Tan-Fung deparam-se com um território marcado pelas montanhas e vários espaços verdes mas também pelo surto de cólera e uma aproximação sentimental. Kitty e Walter erram muito ao longo de "The Painted Veil". Erram a julgar a personalidade e sentimentos um do outro. Erram nos actos tomados. No entanto, conseguem tomar consciência desses erros a tempo, com a morte e as privações que os rodeiam em Mei-Tan-Fung a certamente terem contribuído para essas alterações comportamentais. Os cenários interiores surpreendem pelo cuidado na construção, ficando particularmente na memória a primeira vez que Walter entra numa sala preenchida com doentes que padeciam de cólera. Existe toda uma atmosfera de malaise a rodear a sala, com John Curran e os gestos de Walter a quase deixarem-nos sentir o cheiro putrefacto que assola o local. Temos ainda um momento de maior dramatismo e intimismo no último terço entre Kitty e Walter, num trecho definidor de "The Painted Veil", com tudo a resultar e o episódio a deixar marca no espectador. Drama marcado por traições, ressentimento e um amor que nasce num momento inesperado, "The Painted Veil" surge como uma obra bela e tocante, onde os sentimentos fluem com enorme naturalidade e a dupla de protagonistas comprova o enorme talento para a representação.

Título original: "The Painted Veil".
Título em Portugal: 
Realizador: John Curran.
Argumento:
Ron Nyswaner.
Elenco: Naomi Watts, Edward Norton, Liev Schreiber, Toby Jones, Anthony Wong.

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