10 julho 2015

Resenha Crítica: "Notting Hill" (1999)

 Por vezes costuma-se utilizar a expressão "só acontece nos filmes". "Notting Hill" apresenta-nos a um romance que apenas parece poder surgir nos filmes, mas ao mesmo tempo nos faz recordar do porquê de continuarmos a gostar ser encantados pela Sétima Arte e por obras aparentemente simples mas que nos conquistam com uma facilidade surpreendente. Não é um filme que sobressai pela sua cinematografia fora do comum ou por profundas questões existencialistas, ou até pela sua narrativa complexa que nos procura desafiar e confundir. É sim um romance que nos consegue tocar no coração, despertar alguns risos e surpreender pela forma inteligente como utiliza as velhas fórmulas das comédias românticas e mesmo assim consegue manter-nos presos para sabermos se a dupla de protagonistas vai mesmo terminar junta. Já sabemos desde o início que podem acontecer alguns revezes, "Notting Hill" não nos poupa a isso, mas também não desperdiça a oportunidade de explorar a enorme química entre a dupla de protagonistas, o excelente argumento de Richard Curtis recheado de falas que facilmente nos conquistam e uma banda sonora adequada ao tom romântico deste filme que tem como pano de fundo o local londrino do título. A realização de Roger Michell é exímia a explorar os relacionamentos entre os personagens, aproveitando um elenco coeso para nos deixar perante alguns elementos secundários com alguma dimensão e personalidade, sobressaindo as figuras interpretadas por Rhys Ifans, Emma Chambers, Tim McInnerny, Gina McKee, entre outros. No entanto o grande destaque passa mesmo pela dupla interpretada por Hugh Grant e Julia Roberts, com estes a darem vida ao casal improvável que inicia uma relação de uma forma que parece mesmo "saída dos filmes" mas que facilmente nos convence e delicia. Grant interpreta William Thacker, um indivíduo divorciado, que tem uma livraria especializada em livros de viagens que poucos exemplares consegue vender, dividindo o seu apartamento localizado num prédio azul com Spike (Rhys Ifans), um elemento com uma personalidade excêntrica. Roberts interpreta Anna Scott, uma estrela de cinema de Hollywood, seguida com toda a atenção pela imprensa, que se encontra em Londres para apresentar o seu novo filme junto da comunicação social e do público. Anna está para William como Alicia Vikander, Carey Mulligan, Scarlett Johansson, Margot Robbie, entre outras, que apenas conhecemos do que vemos no grande e pequeno ecrã, estão para este blogger, com "Notting Hill" a colocar-nos diante de um romance improvável entre uma estrela de cinema e um tipo aparentemente comum. No entanto, para espanto de William, esta entra na sua livraria para comprar um livro, curiosamente num momento em que um indivíduo se encontra prestes a roubar um exemplar da loja, algo que gera um momento de maior leveza e humor. William procura aconselhar Anna no livro a comprar, apresentando uma personalidade simultaneamente faladora e atrapalhada, com os dois a parecerem ter por ali o primeiro e último encontro. Claro que a história destes dois não fica por aqui. William vai comprar sumo de laranja para o seu funcionário e, quando se encontra a dobrar a esquina, vai contra Anna e suja-a de sumo, num momento caricato onde ainda tenta limpar a camisola esquecendo-se que também está suja na zona dos seios. Inesperadamente esta aceita o convite para trocar ou limpar a camisola na casa de William que vive mesmo em frente, com este a procurar ainda que Anna tome alguma bebida ou coma damascos com mel, embora esta rejeite tudo, com o protagonista a despedir-se com um "Foi surreal... mas encantador" para descrever a situação que partilharam, num momento típico onde escolhe as frases mais estranhas e nos desperta o riso com a sua atrapalhação em frente à estrela de cinema. Fecha a porta mas Anna logo volta a tocar. Esquecera-se do outro saco que tinha trazido. Inexplicavelmente esta beija-o, ele retribui, mas tudo parece ficar por aí, pelo menos até ela deixar um recado que Spike só dá a William passado alguns dias.

 William reúne-se com Anna, pensando ser algo em privado, embora ainda esteja a decorrer a sessão de entrevistas para a imprensa, com este a fingir que é o enviado da "Horse and Hound", uma revista sobre cavalos e cães de caça, protagonizando uma entrevista falsa meio surreal com esta onde evidencia o seu interesse em voltar a reunir-se com a mesma, algo que parece recíproco, embora ela diga que está ocupada. Temos ainda um momento delirante onde este é obrigado a entrevistar os restantes elementos do elenco, sem saber nada sobre o filme, ou sobre cinema. Anna acaba por aceitar o convite, embora seja o dia de aniversário de Honey (Emma Chambers), a irmã mais nova do protagonista. Surpreendentemente Anna aceita ir ao jantar de aniversário que é dado na casa de Max (Tim McInnerny) e Bella (Gina McKee), um casal amigo de William, encontrando-se ainda no local Bernie (Hugh Bonneville). Max é um cozinheiro falhado que tem um enorme amor e cumplicidade com Bella, uma mulher que se encontra numa cadeira de rodas devido a um acidente. Estes não podem ter filhos, enquanto Bernie demonstra o seu desgosto pela incompetência que tem como corrector da bolsa. Já Honey apresenta uma atitude algo histérica quando vê Anna, com a actriz a integrar-se surpreendentemente bem no seio da família, tendo ainda um momento de enorme romantismo com William quando invadem um jardim privado que tem um banco com as inscrições de um casal que se manteve unido para sempre. No dia seguinte vão ao cinema e a um restaurante, mas a felicidade do casal dura pouco, com Anna a convidar William para o seu quarto de hotel, embora o protagonista encontre Jeff King (Alec Baldwin), o namorado desta, no local, com o personagem interpretado por Alec Baldwin a surgir de surpresa. Anna não tinha revelado que tinha namorado, algo que coloca um balde de água fria na relação, com esta a regressar aos Estados Unidos da América. Vários meses depois, com William ainda deprimido devido à descoberta sobre a amada e a sua partida, Anna volta a Londres para encontrar conforto junto deste, um dos poucos elementos anónimos junto da imprensa que a actriz conhece, após um escândalo relacionado com as fotos desta nua que aparecerem pelos jornais e revistas. Os dois parecem finalmente poderem ser felizes, mas Spike revela num bar que esta se encontra no local e no dia seguinte a habitação está rodeada de elementos da imprensa, algo que conduz Anna a procurar sair da forma mais rápida possível da casa de William, após uma discussão entre ambos, com "Notting Hill" a procurar explorar alguns contratempos na relação deste casal que conta com uma enorme química, para além de abordar o constante escrutínio e falta de intimidade a que estão sujeitas algumas estrelas de cinema. A dinâmica entre a dupla de protagonistas deve-se não só ao argumento de Richard Curtis e ao sublime trabalho do realizador Roger Michell, mas também a Hugh Grant e Julia Roberts, com os dois actores a explorarem paradigmaticamente as características dos seus personagens e as dicotomias que os fazem funcionar de forma tão agradável quando estão reunidos. A química entre Grant e Roberts é visível desde logo no momento da livraria, com o sarcasmo desta a funcionar bem com o humor e atrapalhação do protagonista, já para não falar no jantar dos anos da irmã de William, a cena da entrevista sobre o filme que ele não viu, entre outras situações.

Hugh Grant, na sua segunda obra escrita por Richard Curtis (a primeira foi "Quatro Casamentos e Um Funeral"), é capaz de interpretar de forma credível um tipo aparentemente comum, que conta com um grupo restrito de amigos, duas relações falhadas no passado e um relacionamento complicado no presente com uma estrela de cinema. Também é credível a demonstrar os seus momentos de maior depressão quando Anna parte, parecendo certo que se esta não regressar, este não voltará a encontrar tão cedo uma mulher que lhe desperte tão fortes sentimentos. Quando estão juntos estes parecem apenas dois elementos comuns, embora a presença constante da imprensa e os comentários dos populares logo demonstrem que Anna é constantemente alvo de escrutínio ao mesmo tempo que contamina uma relação que parece ter tudo para dar certo (no contexto do filme). Esta situação é um dos vários elementos que conduzem Anna a recear avançar na relação. Diga-se que inicialmente é esta quem tem um comportamento incorrecto ao não revelar que tem um namorado, embora o romance pareça estar por um fio. Julia Roberts parece sentir-se como "peixe na água" a interpretar esta personagem que tanto parece ter das suas experiências pessoais complicadas a lidar com a imprensa e o público, atribuindo uma enorme afabilidade a Anna, uma actriz que está longe de apresentar tiques de vedeta. Anna é uma personagem com alguma complexidade, consciente das vantagens e desvantagens da fama, bem como da facilidade com que esta pode desaparecer. Ambos os protagonistas são duas figuras simpáticas e afáveis, que nem sempre tomam as decisões mais acertadas mas parecem complementar-se de forma quase perfeita. Roger Michell desenvolve o romance entre os dois de forma sublime, ao mesmo tempo que explora um conjunto de personagens secundários que os rodeiam que dão outra dimensão ao filme. Veja-se desde logo Rhys Ifans como Spike, um elemento com um conjunto de t-shirts peculiares, uma personalidade excêntrica, que não tem problemas em andar com calças a ver-se o rego e deixar-se fotografar de cuecas junto dos vários elementos de imprensa que rodeiam a casa do amigo. Spike nem sempre dá os melhores conselhos e vive de forma meio estranha, mas parece o mais sensato para falar ao protagonista quando este comete decisões erradas com Anna. Temos ainda elementos como Emma Chambers como a extravagante irmã de William, uma mulher que por vezes até  chega a ser inconveniente no primeiro encontro com Anna, embora seja bem intencionada. Vale ainda a pena realçar Tim McInnerny e Gina McKee, como o casal de amigos do protagonista. McInnerny interpreta o melhor amigo do protagonista, um homem com más decisões na cozinha mas enorme coração. McKee dá vida a uma ex-namorada do protagonista, agora casada com o seu melhor amigo, uma mulher cujo acidente que a colocou numa cadeira de rodas e a impossibilidade de ter filhos não tiraram uma enorme alegria e vontade de viver. Estes ainda tentam encontrar uma nova namorada para William, mas as escolhas raramente parecem dar certo, apesar das boas intenções de Max e Bella. Todo o filme é bem intencionado nos seus propósitos, com Roger Michell a procurar aquecer-nos o coração com uma comédia romântica leve e divertida, marcada por alguns momentos memoráveis, onde a banda sonora dá um toque especial a uma obra cinematográfica marcante deste subgénero.

Roger Michell consegue criar todo um universo narrativo capaz de sobressair, tornando a livraria do protagonista memorável, bem como a sua casa no prédio com a porta azul e o território de Notting Hill, já para não falar nos vários momentos entre a dupla de protagonistas. A certa altura do filme vemos um indivíduo a falar desagradavelmente sobre Anna num restaurante, com William a evidenciar desde logo o desconforto que esta situação lhe provoca, exigindo respeito pela mesma, embora a protagonista até já esteja habituada a estas situações. A noite em que passam em conjunto, quando Anna regressa a Inglaterra, parece ser o culminar da relação entre estes dois elementos de dois Mundos diferentes, mas logo volta a correr mal, com Richard Curtis a voltar a utilizar aspectos que foram bem sucedidos em "Four Weddings and a Funeral", tais como o elemento inglês que se apaixona por uma mulher dos EUA, um grupo de personagens secundários com alguma relevância e densidade, entre outros. Michell aproveita o facto das filmagens terem decorrido em Notting Hill para explorar as particularidades deste espaço e das suas gentes, apresentadas logo de início durante a narração em off do personagem interpretado por Hugh Grant. A livraria é o espaço icónico do filme. É ali que tudo começa entre William e Anna. É um espaço diminuto, com livros muito específicos, que conta com um cliente fixo que procura livros de ficção embora a livraria só venda guias de viagens. Anna surge sóbria no local mas vai irromper pelo coração adentro de William numa relação que é explorada com enorme romantismo, algo que evidencia a enorme capacidade de Richard Curtis para este tipo de filmes. É óbvio que não poupa em algumas reviravoltas esperadas mas será que queríamos que o filme seguisse outra estrutura? Se formos mais cínicos talvez possamos dizer que sim, mas depois de todo o investimento emocional colocado nos personagens interpretados por Hugh Grant e Julia Roberts parece certo que a separação não é o caminho mais aprazível para terminar o filme. Temos ainda um leve comentário sobre a fama e a Sétima Arte, numa obra que procura despertar no imaginário do espectador ou da espectadora como seria se este ou esta iniciasse um caso improvável com uma estrela de cinema, com "Notting Hill" a abordar não só o lado positivo mas também negativo da popularidade dos actores e actrizes (e não só), ao mesmo tempo que deixa latente que esta pode ser efémera, algo que é exposto por Anna num dos seus diálogos. No final torcemos para que Anna e William fiquem juntos, com "Notting Hill" a surgir como o palco de um romance inesperado entre uma estrela de cinema e o dono de uma livraria em decadência, numa comédia romântica irresistível, onde Julia Roberts e Hugh Grant demonstram uma química exemplar como a dupla de protagonistas.

Título original: "Notting Hill".
Realizador: Roger Michell.
Argumento: Richard Curtis.
Elenco: Julia Roberts, Hugh Grant, Rhys Ifans, Alec Baldwin, Emma Chambers.

1 comentário:

Mônica Ferreira disse...

Linda crítica! Mônica Ferreira RJ - Brasil