15 julho 2015

Resenha Crítica: "Musarañas" (Shrew's Nest)

 A relação entre Montserrat (Macarena Gómez) e Nia (Nadia de Santiago) está longe de ser pacífica. Montserrat é a irmã mais velha, uma mulher de vestes negras, quase como se estivesse constantemente de luto, olheiras salientes, tiques nervosos e uma religiosidade latente, apresentando um dom para a costura que contrasta com a sua inabilidade a lidar com os seres humanos, padecendo ainda de agorafobia e alucinações. Esta tem uma personalidade obsessiva, decorando a casa com diversa iconografia religiosa que não é apreciada por Nia (o nome desta personagem nunca é mencionado no filme, embora nas descrições do filme apareça como Nia), a irmã mais nova, uma jovem que acabou de completar dezoito anos de idade. O aniversário de Nia, como é revelado no início do filme, corresponde ao dia da morte da mãe das protagonistas, com a progenitora a ter falecido após o parto, uma situação que conduziu ainda a terem vivido algum tempo com o pai (Luis Tosar), até este supostamente ter abandonado as mesmas. Sem praticamente sair de casa - um apartamento localizado na cidade de Madrid que gradualmente ganha características claustrofóbicas - devido ao pânico que tem dos espaços exteriores, Montserrat passa os seus dias a controlar a irmã e a elaborar os vestidos para algumas clientes que se dirigem a sua casa, entre as quais Puri (Gracia Olayo), a esposa de um médico que receita morfina para aliviar as dores de cabeça e alucinações da personagem interpretada por Macarena Gómez. A actriz tem uma interpretação que eleva um enredo que apresenta um último terço violento e intenso, onde até existe lugar para algum melodrama, com Macarena Gómez a sobressair nos gestos nervosos que incute à personagem que interpreta, algo visível até na sua forma de andar e falar. A irmã não tem as melhores impressões desta, guardando recordações dos tempos em que Montse (como é conhecida Montserrat) lia à noite histórias que a aterrorizavam, que se encontravam presentes na Bíblia, não desconfiando da diversidade de segredos guardados pela costureira ao longo de "Musarañas", o filme que marca a estreia de Juan Fernando Andrés e Esteban Roel na realização de longas-metragens. A narrativa encontra-se situada na década de 50, com Montserrat a procurar educar Nia de forma rígida, transformando a casa praticamente numa redoma, apesar de ser Nia quem vai entregar os vestidos às clientes e trabalha numa loja de roupa, com a jovem a procurar ter alguma independência e liberdade apesar de também não ser uma figura imensamente expansiva. Quando observa, através da janela, que Nia encontra-se a falar com um jovem, Montserrat logo agride a irmã, chicoteando as mãos desta, com a personagem interpretada por Nadia de Santiago a responder na mesma moeda e a passar a noite no patamar, onde dorme e é vista por Carlos (Hugo Silva), o seu vizinho de cima. Carlos também conta com os seus segredos, com uma queda abrupta pelas escadas, que resultou num ferimento grave numa perna, a prometer mudar a sua vida e o quotidiano das duas irmãs. Este bate à porta da casa, com Montserrat a procurar inicialmente que Carlos não entre no apartamento, até ajudá-lo e colocá-lo num quarto, com a perna ligada, fingindo que chamara um médico, algo que marca o início de um estranho jogo de mentiras, segredos e violência por parte desta mulher cujos desequilíbrios do foro mental não parecem ter limites.

 Montse procura que Carlos não contacte com Nia, embora esta última descubra o vizinho de cima, com esta jovem a procurar alertá-lo para o carácter pouco recomendável da irmã mais velha, algo que este inicialmente não parece acreditar até se deparar com a realidade. Nia teme o que a irmã pode efectuar a Carlos, enquanto esta mente em relação à vinda de um médico, para além de comentar que não têm telefone em casa e colocar morfina em doses acima da média na "água benzida" que oferece a este homem, procurando que o vizinho não saia de casa, quase que o tomando como refém. Carlos encontrava-se em fuga, algo que posteriormente descobrimos dever-se ao facto de o quererem obrigar a casar com Elisa (Carolina Bang), a sua namorada, devido a esta encontrar-se grávida. No entanto, o maior terror de Carlos encontra-se no interior do apartamento das duas irmãs, algo de que este se vai apercebendo quando Montse exibe o seu lado mais doentio. Inicialmente pensamos que pode ainda vir a existir algum triângulo ou jogo amoroso entre Nia, Carlos e Montserrat, embora o interesse deste indivíduo pareça sempre pender para a primeira, enquanto a última procura prendê-lo o máximo de tempo possível, mesmo que a perna esteja num estado próximo de gangrena e a vida do mesmo fique em perigo. Quando Carlos pede a Montserrat para esta ir buscar um livro a sua casa a costureira fica algo nervosa, já que não consegue sair do espaço das quatro paredes da sua habitação. O entusiasmo conduz a que a protagonista contacte o esposo de Puri, tendo em vista a tentar treinar para ultrapassar esta dificuldade. O primeiro passo centra-se em abrir a porta e tocar na parede do lado de fora, com Montse a ficar nervosa ao ponto de vomitar, com Macarena Gómez a explorar as fragilidades e exageros emocionais desta personagem reprimida que promete causar estragos. Esta cena é reveladora das dificuldades que Montse apresenta a nível mental, com a sua tentativa de sair, seguida de vómito, a exibir paradigmaticamente o quão difícil será para esta dar a volta a uma situação adversa que tem tendência para piorar, algo que remete para os traumas no seu passado. O passado de Montse é marcado por alguns episódios revoltantes e nem sempre agradáveis de se assistir, com esta a contar com uma relação traumática com o pai, um indivíduo que surge constantemente nas suas alucinações. Luis Tosar tem um papel fundamental ao longo do enredo, com o pai de Montse a aparecer de forma amiúde nos momentos de maior nervosismo ou até de aparente calma desta mulher, pronto a criticá-la e a expor as suas fragilidades. Numa revelação no último terço percebemos as razões deste trauma com o pai, com este a poder remeter para os comportamentos pouco equilibrados de Montse no presente, incluindo a nível da repressão sexual, bem como do seu pânico em sair de casa e das constantes mentiras que cria para contar aos outros e até a si própria, com esta a criar uma ilusão em relação a Carlos. A própria relação entre Montse e Nia é marcada pelo perfil tresloucado desta mulher que não tem problemas em utilizar a violência, contrastando com o brilho da jovem que procura aos poucos libertar-se das amarras da familiar. Nia aos poucos começa a soltar-se, ao mesmo tempo que tenta ajudar Carlos, embora a chegada de Elisa prometa ser a alavanca para um conjunto de actos hediondos e sangrentos que evidenciam o perigo que os distúrbios de Montse podem trazer àqueles que a rodeiam ou a contrariam.

Ao longo de boa parte da introdução e até durante um período do desenvolvimento de "Musarañas" tivemos o mistério e a incerteza a tomar conta da narrativa, algo que muda com o avançar do enredo, quando revelações são feitas, actos sangrentos são cometidos e aos poucos percebemos que a relação entre Nia e Montse nunca mais poderá ser como dantes. Macarena Gómez e Nadia de Santiago convencem como estas irmãs que apresentam uma relação marcada por alguma frieza, com Montse a ter uma postura controladora e castradora, por vezes mais próxima de uma mãe, enquanto Nia procura fugir a esta rigidez que marca o seu quotidiano algo solitário. Veja-se logo no primeiro terço, quando Montse obriga Nia a confessar-se e vergasta as mãos desta última em sinal de punição, num gesto que remete para a religiosidade da personagem interpretada por Macarena Gómez. A certa altura de “Musarañas” Montse salienta que faz "(...) coisas que são meio inexplicáveis", uma situação que podemos comprovar ao longo do filme, com esta a procurar a todo o custo proteger o seu santuário, ou melhor o seu lar, onde guarda alguns segredos hediondos, tal como na sua mente. A mente de Montse encontra-se em cacos, com o argumento a explorar os desequilíbrios desta mulher, inerentes quer à sua personalidade, quer aos traumas que sofreu durante a sua adolescência, com "Musarañas" a tornar algo previsível que esta foi alvo de abusos por parte do pai, uma situação que justifica a constante presença deste em diversos momentos da narrativa, inclusive após a protagonista discutir com Carlos, após este desarmá-la em relação às mentiras que conta. A relação entre Carlos e Montse torna-se gradualmente tensa, com o filme a também deixar de lado pequenos sinais como uma esponja e uma camisa ensanguentada para assumir uma faceta mais gore e macabra, mas também pontuada por alguns exageros e um momento excessivamente melodramático que quebra por completo, ou melhor não parece jogar, com o tom negro incutido na narrativa. No último terço assistimos a alguns momentos que, apesar de a espaços parecerem implausíveis, não deixam de expor uma faceta mais extravagante e intensa desta obra cinematográfica produzida por Álex de la Iglesia, um cineasta cuja carreira também se encontra bastante ligada ao cinema de género, com Esteban Roel e Juan Fernando Andrés a contarem com um apoio de peso para a primeira longa-metragem como realizadores. As mortes sucedem-se, os corpos e alguns actos são escondidos da nossa visibilidade, embora tenhamos direito a um momento ou outro prontos a fazer o estômago dar umas voltas, com o mistério e a atmosfera opressora do filme a darem lugar a uma intensidade notória. A banda sonora contribui para o ambiente tenso que marca "Musarañas" (excepção feito a um momento onde Nia se depara com uma fotografia onde a música parece contribuir mais para o melodrama), com Juan Fernando Andrés e Esteban Roel a não pouparem em algum mistério em relação ao destino de Carlos e aos próximos passos de Montse.

A cinematografia e o trabalho de montagem por vezes contribuem para o mistério e a tensão ao longo de “Musarañas”. Veja-se quando Montse sonha com a presença do pai, com a câmara a aproximar-se inicialmente deste, até a costureira acordar, com vários planos de curta duração a expressarem bem o nervosismo que assola a protagonista, algo latente no rosto desta personagem bastante devota. A religiosidade de Montse afecta não só o seu modo de vida mas também o cenário da casa, com o apartamento a encontrar-se recheado de figuras de santos, quadros com motivos religiosos, algo que parece desagradar a Nia, com esta a esconder regularmente debaixo da cama a cruz que se encontra na parede do seu quarto. O catolicismo e a sua iconografia surgem representados como elementos que incrementam a atmosfera opressora que a espaços envolve a habitação, numa obra onde Macarena Gómez tem uma interpretação que facilmente desperta a nossa atenção. Esta gera uma enorme obsessão por Carlos, com a chegada deste indivíduo a conduzir a que Montse cometa actos inexplicáveis como procurar prender o personagem interpretado por Hugo Silva a todo o custo, naquela que é uma forma algo estranha de se mostrar interessada. Este parece demonstrar algum interesse em Nia, com a jovem a visitá-lo às escondidas, até a chegada de Elisa mudar por completo o rumo do enredo. Verdades secretas surgem ao de cima, a violência aumenta (embora nem sempre fiquemos diante da colocação dos actos em prática), corpos são mutilados, numa obra que nem sempre surpreende nas suas reviravoltas mas nem por isso deixa de nos manter presos ao seu enredo. O título "Musarañas" diz respeito aos musaranhos, animais descritos no filme da seguinte forma: "Musaranhos são pequenos roedores que cavam longas tocas subterrâneas, longe de outros animais. Eles têm hábitos solitários e alguns têm glândulas venenosas para imobilizar as presas maiores", algo que nos remete para a figura de Montse, com esta mulher a prender um indivíduo na sua casa, encontrando neste um contacto com o mundo exterior. Montse tem na sua casa uma espécie de teia de aranha onde pretende prender as suas presas e os seus segredos, com Nia a procurar contrariar a irmã, apesar de viver durante algum tempo com o sentimento de culpa de ter sido o elemento propiciador da infelicidade da família. A certa altura, parece certo que estas mais tarde ou mais cedo vão ter de se travar de razões, com as revelações de Montse a irem, muito provavelmente, mudar a percepção que Nia tinha da família, com "Musarañas" a apresentar-nos a duas personagens femininas interessantes, com as actrizes a saberem aproveitar o argumento que têm à disposição. A realização de Esteban Roel e Juan Fernando Andrés é eficaz, com a dupla a contar com um argumento relativamente sólido e marcado por duas personagens femininas fortes, numa obra que tem como cenário central uma habitação pontuada por uma atmosfera opressora e uma iconografia religiosa pronta a fazer-se sentir. Entre segredos por revelar, traumas do passado, actos macabros e desejos reprimidos, "Musarañas" consegue manter o espectador preso ao desenrolar do enredo, com Macarena Gómez a sobressair como uma figura complexa e complicada que aos poucos revela todas as suas fragilidades e desequilíbrios.

Título original: "Musarañas".
Título em inglês: "Shrew's Nest". 
Realizadores: Esteban Roel e Juan Fernando Andrés.
Argumento: Juan Fernando Andrés e Sofia Cuenca.
Elenco: Macarena Gómez, Nadia de Santiago, Hugo Silva, Luis Tosar.

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