23 julho 2015

Resenha Crítica: "Minions" (Mínimos)

 "Minions" fica entre a prequela e o filme derivado de "Despicable Me" e "Despicable Me 2", tendo como protagonistas Stuart, Kevin e Bob, três minions, com estes seres amarelos, dados a procurarem seguir aqueles que parecem malvados e fãs de bananas, a ganharem o protagonismo após serem figuras secundárias que facilmente despertavam à atenção nas duas obras cinematográficas anteriores. Se "Minions" fica entre a prequela e o filme derivado, já o seu resultado como obra de animação pode ser classificado como inconsequente e inconsistente, que procura sobreviver à custa de um conjunto de gags (uns mais inspirados do que outros) que no seu todo não chegam para justificar a existência do filme, para além do motivo óbvio de espremer a franquia ao máximo e aproveitar a enorme popularidade destes personagens. Nesse sentido, fica quase sempre a ideia que estes personagens meio tresloucados e irreverentes funcionariam muito melhor num sistema de curtas/episódios semelhante a "Looney Tunes", "Tom & Jerry" (curiosamente a violência e os momentos non-sense, a espaços, fazem-nos recordar algumas das curtas dos exemplos dados), entre outros com cerca de dez minutos de duração, onde se notaria muito menos o arrastar da narrativa ao longo de mais de uma hora e vinte quando não existe conteúdo nem para metade. Os Minions são inicialmente apresentados como figuras que existem ainda antes da Humanidade, que desde sempre procuram seguir os vilões. Ao avançar para 1968, a narrativa exibe que estes se encontram fartos de não terem nada para fazer, na Antártida, onde assentaram a sua vida após seguirem dinossauros, humanos pouco inteligentes, o Conde Drácula, Napoleão Bonaparte, entre outros, algo que conduz Kevin a instigar os seus colegas a acompanharem-no numa missão para encontrar um vilão que possam seguir e assim poderem cometer actos malvados. É nesse sentido que Stuart, um minion que estava a dormir e vê o seu braço levantado por outros elementos da sua espécie, e Bob, um minion prestável embora seja seleccionado praticamente contra a vontade de Kevin, surgem como o trio que vai iniciar a demanda em busca de um mestre para seguir. Stuart gosta particularmente de tocar ukulele, Bob é um minion algo atrapalhado e a espaços medroso, que vai acompanhado pelo seu urso de peluche, enquanto Kevin é o líder deste trio que se dirige até Nova Iorque onde se depara com um anúncio na TV de um canal ilegal que envolve a Villain-Con, uma feira localizada em Orlando, a remeter para a Comic-Con, que reúne os maiores vilões do Mundo. Pelo caminho encontram uma família de assaltantes que os transporta até ao local, onde estes se deparam com Scarlet Overkill (Sandra Bullock num trabalho vocal completamente insípido), aquela que supostamente é a maior vilã em actividade (pelo menos até aparecer outra figura bem conhecida da franquia no final do filme a fazer-nos recordar a falta que fez nesta obra cinematográfica, bem como um argumento), uma mulher de vestes e gestos berrantes. Esta lança um desafio que passa por contratar como ajudante aquele que lhe conseguir roubar um rubi, com os minions a alcançarem esse desiderato com sucesso. Scarlet transporta-os para a sua casa, em Londres, onde também habita o esposo, Herb (Jon Hamm), um inventor com uma personalidade deveras peculiar, embora raramente explorada a ponto de o tornar num personagem secundário de peso.

 Kevin chama os restantes companheiros (cuja viagem da Antártida até Londres promete trazer mais uns gags soltos) mas, enquanto estes não chegam, é incumbido, a par de Stuart e Bob, de roubar a coroa da Rainha Elizabeth II. Scarlet pretende a coroa para ser considerada Rainha, ter poder e ser adorada por todos (sim, a justificação dada pelo argumento é quase tão simples e pueril como esta resenha), com os Minions a utilizarem um conjunto de engenhocas fornecidas por Herb, incluindo um aparelho para hipnotizar (na posse de Stuart), uma arma de lava (oferecida a Kevin) e uns tentáculos de metal que servem de "roupa extensível" (ficam com Bob), tendo em vista a cumprirem esse desiderato. Os Minions envolvem-se ainda numa série de peripécias que os colocam perante a fúria violenta e espalhafatosa de Scarlet, numa obra cinematográfica que não nos tem a dar mais do que isto, para além de um conjunto de gags reunidos por um argumento pueril e inconsequente que não consegue aproveitar estes personagens como força motriz do enredo. É verdade que "Minions" é um filme de animação, é verdade que é destinado aos mais jovens, mas esses argumentos não implicam que uma obra cinematográfica tenha de se apresentar maioritariamente sem inspiração ou dotada de pouca complexidade que, se for comparada com outros trabalhos do género que estrearam este ano em Portugal, ficará sempre a perder. Veja-se os casos de "O Conto da Princesa Kaguya", "As Asas do Vento" e "Divertida-Mente", três obras capazes de chegar a adultos e crianças, inteligentes, com um inspirado trabalho a nível de animação e criação dos personagens e cenários, com tudo a parecer pensado ao pormenor. Talvez estejamos mal habituados, é certo, com obras como "Inside Out" a apresentarem um argumento com uma inteligência e criatividade que fazem roer de inveja muitas obras cinematográficas com actores reais, algo que se repete para "O Conto da Princesa Kaguya", com esta última a ter ainda a particularidade de nos despertar um sentimento de encanto e de exibir paradigmaticamente o quão apaixonante pode ser a Sétima Arte. No caso de "Minions", a ideia que fica é que o primeiro pensamento dos envolvidos deverá ter passado por fazer render financeiramente um conjunto de personagens queridos por um público alargado (apreciados por esta pessoa), sem existir uma ideia coesa e inventiva do que fazer com os mesmos. A irreverência dos Minions e a sua saudável loucura é contrastada com a narrativa pouco inspirada, que pega referências de filmes de monstros, de ficção-científica, road movie, comédia, acção, assalto, terror, sempre sem conseguir algo coeso. É certo que não aborrece, mas também não impressiona, causando uma estranha indiferença numa obra cinematográfica a quem se pedia tudo menos isso, ou pelo menos algo mais do que ter os Minions a fazerem umas parvoíces no interior de uma estrutura narrativa relativamente convencional onde os heróis ou neste caso os anti-heróis têm de enfrentar o vilão, ou a vilã. As próprias referências e os gags funcionam esporadicamente de forma isolada mas não organicamente dentro de uma narrativa que, apesar de em alguns momentos fazer rir, está longe de impressionar. Veja-se logo os momentos iniciais, provavelmente os melhores do filme, onde ficamos diante dos Minions ao longo da História e a sabotar, ainda que de forma involuntária, vários dos tiranos, com dinossauros a caírem em vulcões, o Conde Drácula a ser exposto diante da Luz, Napoleão Bonaparte a não ter a melhor das sortes, até assentarem as suas vidas na Antártida. Diga-se que este prólogo deixa-nos quase sempre a ideia do quão genial poderia ser o filme se nos deixasse com um enredo onde os Minions estivessem efectivamente numa aventura com o Conde Drácula ou no meio do Antigo Egipto, com as possibilidades a serem mais do que muitas, embora provavelmente desse mais trabalho a quem tem de escrever o argumento que preferiu um caminho mais convencional e menos arriscado.

 O argumento a espaços aproveita o facto do enredo desenrolar-se maioritariamente em 1968 para utilizar programas televisivos da época (entre os quais "Bewitched"), expor elementos do movimento hippie, protestos, cartazes de Ricard Nixon, e até a presença dos The Beattles que, em parte, funcionam de forma isolada e procuram piscar o olho aos adultos, mas raramente acrescentam algo de concreto, pese ainda as diversas liberdades históricas, uma situação que se estende à representação dos ingleses através de estereótipos dos mesmos (o jornalista a apresentar o telejornal a beber chá ou o polícia a beber a mesma bebida são exemplo disso). É certo que ninguém pede a um filme de animação destinado maioritariamente ao público infantil que apresente rigor histórico, nem que fuja a algumas parvoíces para tentar fazer rir ou conte com uma história demasiado complexa, mas "Minions" parece constantemente apresentar uma falta de consistência gritante, visível desde logo na presença de Scarlet Overkill, com esta a ser uma vilã genérica que pouco sentido de perigo consegue trazer e pouco interesse desperta. Já entre os Minions, Kevin surge como o líder do trio, com este a ter de salvar o dia, tendo em Stuart e Bob uma curiosa dupla de ajudantes ao longo de uma aventura por Londres onde roubar a coroa da Rainha de Inglaterra promete envolver uma diversidade de episódios rocambolescos, com a cidade a ficar em polvorosa. Pierre Coffin e Kyle Balda, a dupla de realizadores (Coffin co-realizou "Despicable Me" e "Despicable Me 2" ao lado de Chris Renaud), elaboraram um filme de animação que está longe de entusiasmar ou surpreender, "destacando-se" pela sua inconsequência, colocando os Minions numa série de episódios que dinamizam a narrativa mas nem por isso contribuem para criar algo que permaneça na memória. Tem alguns momentos de humor que resultam, muitos deles pela sua extrema parvoíce, mas, em excesso, ou fora de uma estrutura narrativa forte, perdem impacto, com o argumento de Brian Lynch a ser um dos pontos negativos do filme. Com algumas piadas que funcionam, sobretudo os inspirados momentos iniciais, "Minions" procura minorar os estragos do seu argumento pueril com uma estrutura narrativa que se desenrola a um ritmo elevado de forma a tentar que o espectador pense o menos possível, com estes simpáticos personagens, prontos a envolverem-se em trapalhadas e a sabotar involuntariamente os planos dos seus líderes, a raramente justificarem esta aventura a solo que conta com a sua banda sonora como um dos pontos altos. Noutros tempos, "Minions", muito provavelmente teria como destino o mercado home video, como obras como "Aladdin 2: The Return of Jafar", "The Lion King II: Simba's Pride", entre outras que poderiam para aqui ser chamadas, embora o mercado cinematográfico esteja bastante mudado, para melhor ou pior, só o tempo o dirá. Em "Despicable Me" e na sua sequela existia uma história para contar e um protagonista com personalidade, em "Minions" parece que o foco principal são as receitas que estas criaturas apelativas podem trazer ao estúdio, com a saída de Cinco Paul e Ken Daurio, a dupla de argumentistas dos dois primeiros filmes, e a entrada de Brian Lynch a fazerem-se notar pela negativa. Dito isto, continuo a gostar dos Minions como personagens tresloucados que a espaços me fazem rir, no entanto, isso não chega para que o resultado final da obra realizada por Pierre Coffin e Kyle Balda me tenha satisfeito, bem pelo contrário.

Título original: "Minions". 
Título em Portugal: "Mínimos".
Realizador: Pierre Coffin e Kyle Balda.
Argumento: Brian Lynch.
Elenco vocal: Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allison Janney, Pierre Coffin, Steve Coogan, Geoffrey Rush.

Classificação em: http://bogiecinema.blogspot.pt/2015/06/classificacoes-atribuidas-filmes.html

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