03 julho 2015

Resenha Crítica: "Magical Girl" (Rapariga Mágica)

 Com um enredo simultaneamente delirante, incoerente, violento, dramático e marcado por algum humor negro que desperta mais sorrisos nervosos do que gargalhadas sonoras, "Rapariga Mágica" surge como uma obra cinematográfica que tanto tem de distante como de misteriosa e surpreendente. Nem sempre nos agarra, tal como raramente nos larga, com esta segunda longa-metragem realizada por Carlos Vermut a ser um objecto estranho que tanto tem de comum como de incomum, enquanto nos coloca diante de um conjunto de personagens que apresentam uma enorme apetência para seguirem o caminho mais complicado e cometerem erros. Raro é o elemento principal que aparece representado como livre de defeitos, com o trio de protagonistas a ser marcado por alguma imoralidade, praticando alguns actos questionáveis, numa obra que nos desarma na maioria das vezes com as decisões algo surpreendentes de alguns dos seus protagonistas. Não faltam mortes, chantagem, traições, prostituição, violência e uma espécie de femme fatale, num filme neo-noir que, de acordo com o seu realizador, procurou tirar inspiração de algumas obras cinematográficas da Coreia do Sul, algo salientado no press kit de "Magical Girl": "In magical Girl, as it is the case for example in recent Korean genre films, the characters and the plot are inseparable. a man trapped by his past in a mysterious room for fifteen years (Old Boy), a mother leading the investigation into the suspicious murder charge hanging over her disabled son (Mother), a family coming together to fight a monster emerged from the river (The Host)… in these three cases, codes of genre cinema are used to get an interest in the characters, and the characters are used to evoke revenge, unconditional love or the subject of family. This method allowed the Korean cinema to become one of the most advanced in the world, triumphing in the most prestigious international festivals, while achieving very respectable admissions". O título original do filme, nomeadamente "Magical Girl", remete para uma série de anime que é admirada por Alicia (Lucia Pollán), uma jovem de doze anos de idade que padece de leucemia, encontrando-se num estado periclitante, algo notório quando se encontrava a dançar em frente ao espelho ao som do tema sonoro deste programa televisivo e acaba por desmaiar. Alicia habita com o seu pai, Luis (Luis Bermejo), um professor de literatura que se encontra desempregado, que procura a todo o custo cuidar da filha e satisfazer os últimos desejos da jovem, incluindo deixá-la fumar e experimentar gin tónico, antevendo que mais tarde ou mais cedo poderá perdê-la. Neste sentido, ao ler no diário de Alicia que esta pretende um vestido igual ao de Yukiko, uma das personagens principais da série "Magical Girl", Luis decide fazer de tudo para reunir os sete mil euros necessários para adquirir as vestimentas, protagonizando uma série de episódios que não vão abonar em nada a favor do seu carácter. É verdade que está em causa a procura de um pai em satisfazer um dos últimos desejos da filha, algo que inicialmente até desperta a nossa simpatia, mas os métodos que Luis vai utilizar vão deixar e muito a desejar do ponto de vista moral, com este a não ter problemas em extorquir uma mulher, iniciando um jogo perigoso com esta que a espaços é explorado pelo argumento e traz consigo episódios que são capazes de surpreender-nos.

Luis ainda tenta a via legal, ao vender diversos livros que tem na sua vasta colecção a uma loja que compra "obras literárias ao quilo", num comentário latente sobre a pouca valorização da cultura, para além de visitar uma amiga ou familiar (não é cabalmente esclarecido) que possui um café com o esposo para questionar se esta pode emprestar dinheiro. Também a dona do café e o esposo encontram-se a passar por algumas dificuldades, com o filme a introduzir subtilmente no enredo as temáticas da crise financeira e do desemprego em Espanha, até nos deixar diante da possibilidade de Luis assaltar uma joalharia, pelo menos até alguém vomitar-lhe em cima. Inicialmente não sabemos quem vomitou em Luis, com a narrativa a avançar para a história de Bárbara (Bárbara Lennie), uma mulher com problemas do foro mental que é casada com Alfredo (Israel Elejalde), um psiquiatra financeiramente abastado, algo que reflecte algum sucesso profissional, embora não pareça ter a mesma sorte no que diz respeito ao tratamento da esposa. A relação entre Alfredo e Bárbara é marcada quase sempre por algum afastamento e estranheza, surgindo condicionada pelos problemas inerentes à condição psicológica da mesma. Bárbara Lennie é provavelmente a actriz que mais sobressai ao longo do enredo, com o seu rosto a transmitir as inseguranças, enormes desequilíbrios e algum vazio da personagem que interpreta, uma femme fatale misteriosa com tendências aparentemente suicidas, que se auto-mutila e conta com um humor negro por vezes inconveniente. Veja-se quando Javier (David Pareja) e Laura (Eva Llorach), um casal amigo de Bárbara e Alfredo, visita-os com a sua filha recém-nascida e esta última ao segurar no bebé começa a rir-se diante da possível reacção dos convidados se resolvesse atirar a criança pela janela, algo que expõe em palavras e deixa todos os presentes chocados, enquanto o espectador fica sem saber lá muito bem se deverá esboçar um sorriso diante de um momento tão caricato ou temer o que esta mulher pode fazer. Segue-se um momento mais tenso entre Bárbara e o esposo, com este a obrigá-la a tomar um calmante bastante forte, com a personagem interpretada por Bárbara Lennie a parecer necessitar constantemente de ser medicada, um indicador de que Alfredo não parece ter grande sucesso no tratamento da esposa. Diga-se que o corpo de Barbara é marcado por diversas cicatrizes, incluindo de uma ferida na testa que efectua ao embater propositadamente com a cabeça no espelho, com estas marcas a evidenciarem o carácter auto-destrutivo desta misteriosa e estranha mulher. Quando acorda, esta toma comprimidos e mistura-os com uma bebida alcoólica, acabando por ir vomitar à janela, acertando em Luis, com estas duas cenas a ligarem temporalmente os acontecimentos que envolvem os dois personagens. Bárbara convida Luis a limpar a roupa em sua casa, com os dois a envolverem-se e a terem sexo, algo que exibe mais uma vez a capacidade do filme em desarmar-nos em relação aos actos dos seus personagens, com a dupla, até então desconhecida, a aproveitar o facto de Alfredo ter passado a noite fora de casa. Luis utiliza este acto para tentar extorquir o dinheiro para adquirir o vestido pretendido pela filha, ameaçando contar tudo a Alfredo, com Bárbara a optar por tomar outra opção surpreendente que a vai envolver numa teia de mentiras, violência, prostituição e actos aparentemente pouco ponderados que prometem conduzir diversos personagens à desgraça. Veja-se que Luis acaba por ser alvo da fúria de Damián (José Sacristán), um antigo professor de matemática de Bárbara, recentemente saído da prisão, que temia (com razão) reencontrar esta mulher que atormentava a sua existência quando era docente.

Damián é outro dos personagens moralmente questionáveis do filme, com este a não ter problemas em fazer uso da violência para um vendetta, que tem tanto de violenta como de extemporânea, com Carlos Vermut a saber jogar imenso com aquilo que não revela mas deixa implícito. Uma dessas situações acontece quando nos apresenta a um personagem a disparar sobre dois indivíduos, enquanto observamos este acto do lado de fora do café onde estas figuras encontram-se, com parte da cena a ser encoberta pela parede, porta e janela do estabelecimento. Veja-se ainda o momento em que Alicia aparece gravemente ferida, após prestar serviços como prostituta para ganhar o dinheiro pedido por Luis, com "Magical Girl" a nunca nos deixar diante do interior da divisória da casa de Oliver (Miquel Insua) que conta com um lagarto negro na porta. Ao invés disso, ficamos diante das consequências hediondas da entrada nesse espaço, onde o sexo parece surgir associado à violência, enquanto Carlos Vermut faz uma boa utilização das elipses. Oliver é um cliente algo excêntrico, de cadeira de rodas, milionário, que tem provavelmente uma das melhores falas do filme ao procurar evidenciar o conflito interno espanhol entre a emoção e a razão que surge representado paradigmaticamente no gosto pelas touradas de alguns sectores da população. A irracionalidade e pragmatismo presente na tourada quase que se aplica a "Magical Girl", com Carlos Vermut a mesclar elementos que se ancoram bastante na realidade, tais como a procura de um pai em satisfazer um dos últimos desejos da filha, uma mulher que procura esconder um erro do marido, problemas psicológicos, crise financeira, desemprego, entre outros, com toda uma intrincada teia narrativa, nem sempre coerente, por vezes marcada por episódios dotados de pouco realismo, com esta amálgama a conseguir manter bem viva a nossa atenção em relação ao filme. Oliver é mais um dos personagens misteriosos marcados por alguma imoralidade, com Carlos Vermut a não ter problemas em colocar-nos diante de figuras que tomam opções nem sempre simpáticas e a espaços surpreendentes. Um dos objectivos do realizador pareceu exactamente ritmar a narrativa ao sabor dos actos dos seus personagens, algo que este comentou no press kit: "Eu sabia então que queria fazer um filme com uma declaração simples, reviravoltas acentuadas e uma sobreposição de camadas complexa. Da mesma forma, queria que o enredo não representasse um obstáculo assim que o espetador abordasse o filme, mas em vez disso, eu queria que ele transmitisse uma sensação de complexidade. Este sentimento, esta separação entre forma e conteúdo, consegui-a através do tratamento do enredo com a mais pura simplicidade e das personagens com grande complexidade. Desta forma, o enredo e as personagens crescem juntas, não em separado. O enredo é como é, porque as personagens tomam as decisões que tomam e assim evoluem, porque o enredo lhes impõe esse ritmo". Como se pode reparar ao longo destes trechos desta espécie de resenha crítica, o enredo de "Magical Girl" é dotado de um conjunto peculiar de episódios que se sucedem com enorme facilidade, com Carlos Vermut a não ter problemas em expor-nos às consequências das decisões erráticas tomadas pelos personagens que povoam esta história negra, embora falhe muitas das vezes em atribuir uma maior profundidade e coerência à narrativa. Veja-se que o despoletar de vários dos acontecimentos do filme inicia-se, em parte, pela procura de Luis em conseguir um vestido e posteriormente um acessório para a filha, mas pouco vemos explorada a relação entre os dois, com Alicia a ser praticamente chutada para um nível bastante secundário da narrativa a ponto de raramente nos preocuparmos com a mesma.

As trocas de foco abruptas apresentadas pela narrativa nem sempre são bem amarradas, embora este recurso permita desorientar o espectador em relação ao que pensar sobre os personagens, com Luis, Bárbara e Damián a ganharem e perderem destaque consoante os momentos. Veja-se, a título de exemplo, no último terço, quando Damián fala no café com Luis, aparentemente de forma calma até irromper em fúria, com José Sacristán e Luis Bermejo a sobressaírem. As dinâmicas entre os actores funcionam na maioria das vezes, com Bárbara Lennie, Luis Bermejo e José Sacristán a explorarem a complexidade dos personagens que interpretam ao mesmo tempo que procuram fugir a algumas armadilhas das convulsões narrativas de "Magical Girl". Existe também uma procura em evocar algumas narrativas caóticas dos noir, bem como elementos e temáticas associadas aos mesmos, tais como personagens marcados por alguma imoralidade, a chantagem, traições, a femme fatale (veja-se a influência que Bárbara vai ter nas figuras masculinas), entre outras, com as atitudes das figuras principais a surpreenderem-nos em diversos momentos. É também neste jogo de decisões que a espaços nos surpreendem que Carlos Vermut muitas das vezes desperta a nossa admiração, ao mesmo tempo que atira subtilmente com elementos relacionados com a crise financeira e a nível de desemprego em Espanha, mas também com uma certa loucura marcada pelo irreal, com estes personagens que povoam "Magical Girl" a parecerem reger-se por regras muito próprias. Luis Bermejo exibe um duplo desgosto por se encontrar desempregado e por ver a sua filha num estado de saúde pouco recomendável, com o actor a ter uma interpretação relativamente eficaz, a dar vida a este indivíduo que inicialmente até desperta a nossa simpatia, mas aos poucos exibe um lado mais negro. Bárbara é uma mulher desequilibrada, que toma decisões como prostituir-se embora não seja adepta desta actividade, apesar de também não procurar outra opção, utilizando as verbas para encobrir que traiu o esposo com outro homem. As traições são várias ao longo do filme: Luis trai Bárbara ao chantageá-la após terem sexo; Bárbara trai o marido com Luis, mente em relação à traição e ainda prostitui-se, contando com a ajuda da irmã ou de uma amiga que é profissional da área (nunca fica claro se é uma familiar da protagonista ou uma amiga); Damián é enganado inicialmente por Bárbara apesar do próprio também não ter problemas em participar num jogo perigoso. A morte, as dúvidas e a violência permeiam o enredo de uma obra que procura constantemente desafiar as nossas expectativas e fazer com que queiramos seguir um conjunto de personagens que teria tudo para despertar a nossa antipatia. A menos culpada de tudo parece ser Alicia, uma jovem cuja vida encontra-se a conhecer os seus momentos finais, embora o enredo ainda traga uma reviravolta surpreendente em relação ao seu destino, com "Magical Girl" a sobressair muitas das vezes pela miríade de reviravoltas e episódios escabrosos que Carlos Vermut incute na narrativa.

O mistério é mais do que muito em relação aos próximos actos protagonizados pelos personagens, embora por vezes fique a ideia que deveria existir uma melhor exploração dos relacionamentos entre as diversas figuras principais, embora, valha a pena repetir, quando alguns elementos do elenco principal se reúnem, geralmente apresentam uma dinâmica convincente. No entanto, falta um maior desenvolvimento da dinâmica entre diversos personagens, entre os quais o estranho relacionamento da personagem interpretada por Bárbara Lennie e o esposo, algo abordado em alguns momentos mas raramente existe uma evolução em relação a estas duas figuras. Outro exemplo já realçado é o de Alicia e o pai e vice-versa, embora o momento entre os dois à mesa, enquanto este a deixa fumar e beber gin, exibam um pai que ama a sua filha e parece disposto a fazer de tudo para que esta seja feliz nos seus últimos dias, entre outros exemplos. Alicia é uma jovem fã de uma série de anime, com esta, bem como as amigas, a contarem com alcunhas de origem asiática, que evidenciam o apelo cada vez maior da cultura japonesa, uma situação latente quando esta se encontra a dançar ao som da música do desenho animado (ainda existe uma referência a uma bebida chamada "Sailor Moon" que também pode indicar mais uma homenagem de Carlos Vermut aos anime), mas também no desejo em ter um vestido semelhante a Yukiko, feito por Meiko Saori para a cantora Megumi. O dinheiro, ou a falta dele, é um dos temas centrais de uma narrativa que efectua ainda comentários de foro social e político, algo visível nos exemplos citados do desemprego, encerramento de estabelecimentos e a pouca valorização da cultura, mas também na ironia de Luis a pedir a Bárbara que esta deixe o dinheiro num livro da biblioteca que ninguém lê ou requisita: a Constituição Espanhola. Ou seja, temos bem presente o "esquecimento" do povo e não só em relação à Constituição, numa obra marcada por estranhos relacionamentos e figuras que aos poucos despertam a nossa atenção, independentemente da moralidade, ou melhor, a imoralidade dos seus actos. Esta é outra das temáticas que o filme aborda: o quão longe o ser humano está disposto a ir para cumprir os seus objectivos, com quase todos os personagens principais de "Rapariga Mágica" a parecerem não ter um travão moral que os impeça de seguirem com actos menos recomendáveis. Diga-se que o argumento não tem problemas em colocar-nos diante de situações que podem ser tão caricatas como um tipo desempregado preparar-se para arruinar a sua vida só para poder comprar um vestido e um acessório de quantias brutais, ou uma mulher que se prostitui para salvar um casamento que parece condenado para pagar a um chantagista, algo que atribui um tom nem sempre realista mas apelativo a um enredo com algumas pitadas de loucura. É um filme povoado por figuras peculiares, marcado por uma boa utilização das elipses, com Carlos Vermut a deixar-nos muitas das vezes diante dos episódios seguintes sem exibir aquilo que acontecera mas que fora mencionado, algo notório no já citado exemplo de nunca assistirmos ao que aconteceu na divisória com a porta do lagarto negro, nem ao primeiro acto sexual entre Bárbara e Oliver, entre outras situações. A cinematografia contribui para o tom misterioso de "Magical Girl", enquanto o argumento dota a narrativa de um conjunto de reviravoltas que a espaços nos surpreendem, num filme que, voltando a pegar nas palavras escritas no início do texto, "raramente nos larga", mesclando temáticas bem reais (a ironia da Constituição ser pouco lida deve ressoar e bem no público português, ou as notícias de propostas rejeitadas pelo Tribunal Constitucional não tivessem feito parte do nosso quotidiano recente) com outras irreais, com tudo a desenrolar-se numa miríade de cenários. Tanto temos a mansão de Oliver, marcada pelo mistério, como a casa cada vez mais vazia de Luis, ou o apartamento da protagonista onde não parece reinar o calor humano, ou um café que facilmente ganha características claustrofóbicas, existindo um notório cuidado a nível da decoração e aproveitamento dos cenários, sem que estes se sobreponham ao enredo. Carlos Vermut procura explorar os labirintos intrincados por onde os personagens principais se envolvem, contando com um conjunto de interpretações dignas de realce por parte de Bárbara Lennie, Luis Bermejo e José Sacristán, num filme que tanto tem de misterioso e violento, como de surpreendente e incoerente, conseguindo despertar o nosso interesse e justificar o facto de ter vencido o prémio de Melhor Filme da edição de 2014 do Festival de San Sebastián.

Título original: "Magical Girl".
Título em Portugal: "Rapariga Mágica".
Realizador: Carlos Vermut.
Argumento: Carlos Vermut.
Elenco: Luis Bermejo, Bárbara Lennie, José Sacristán.

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