20 julho 2015

Resenha Crítica: "The Look of Silence" ("O Olhar do Silêncio")


    Bem sei que isto pode parecer um tanto bizarro, mas confesso que tenho um especial interesse por livros relacionados com genocídios, especialmente se tiverem sido escritos por testemunhas especialmente observadoras. Penso também que alguns deles alteraram a minha maneira de pensar na raça humana, que é hoje em dia mais pessimista, mas, com tanta coisa perturbadora que já li, creio que de outra maneira não poderia ser. Obviamente nem pondero na possibilidade de me considerar um especialista neste tipo de assuntos, mas isso não me impediu de congeminar algumas reflexões que, aos olhos dos mais sapientes, até podem nem fazer sentido, mas que, ainda assim, me parecem relevantes para o que tentarei abordar nos próximos parágrafos.
     Comecemos então por considerar que muitos genocídios partiram das mentes de um grupo seleto de indivíduos que, por meios pouco civilizados, frequentemente pela via da força, imposta aos demais sem quaisquer tipos de escrúpulos, conseguiram ascender ao poder de uma nação, empenhando-se a partir daí em criar um governo intimidador, de carácter autoritário. Não tenho bem a certeza sobre as razões que os levaram desde esse ponto até à conceção de uma estratégia de exterminação de seres humanos, mas não descarto a possibilidade de as vítimas terem sido consideradas, nessa altura, uma ameaça à autoridade ditatorial. Seja como for, uma coisa é consensual: estando o plano delineado, a execução dos assassinatos em massa só poderia ser concretizada com a colaboração, ativa ou passiva, das populações governadas e, de facto, muitos desses genocídios foram perpetrados não apenas por militares mas, também, por grupos armados de civis.
     Alguns governos tiveram conhecimento dessa incontornável dependência e, não obstante a brutalidade que determinava quase todas as suas ações, foram sensatos o suficiente para reconhecer que o ato de matar seres humanos divergia, por um lado, do que fora até então ensinado na sociedade e, por outro, da própria natureza de certos indivíduos. Assim sendo, tornava-se necessário disfarçá-lo. Por essa razão, muitos desses governos, como o nazi e o indonésio de 1965, iniciaram uma estratégia de propaganda que justificava o assassinato das suas vítimas ao insistir, sonoramente, que elas não eram seres humanos, mas sim meros animais e, nalguns casos, piores do que isso. O sucesso dessa narrativa parece-nos difícil de acreditar mas não devia ser bem assim, pois mesmo atualmente a propaganda manipula a mente de muitos cidadãos, dando-lhes justificações para defenderem ideais que lhes sosseguem as ideias e que lhes concedem um certo sentido a este mundo demasiado confuso. Neste sentido, aquele tipo de narrativa deu aos indivíduos mais sanguinolentos uma justificação para descarregarem o ódio que tinham vindo a acumular, provavelmente há muitos anos, em criaturas indefesas, que eles tinham sido convencidos, recentemente, a odiar. O facto de mesmo esses indivíduos necessitarem de uma justificação para cometerem os seus homicídios é um sinal da sua complexidade.
     Existiu ainda uma chusma de contribuidores passivos que pode não ter sujado as mãos de sangue mas que, ainda assim, não está livre de ter incorporado a máquina genocida. Incluem-se nesse grupo os burocratas nazis como o célebre Adolf Eichmann e, se nos quisermos centrar no documentário em análise, há até o caso do tio do protagonista que, em 1965, na Sumatra, ficou encarregue de vigiar um grupo de prisioneiros comunistas, mesmo estando entre eles um dos seus sobrinhos, para se certificar que eles seriam posteriormente conduzidos, sem distúrbios, à beira de um rio para serem degolados ou esventrados, conforme os caprichos do seu capataz. Argumentam muitos destes indivíduos, quando questionados anos mais tarde, que não se sentem arrependido pelo que fizeram e asseguram-nos que estavam somente a cumprir ordens, acrescentando que, se desejássemos culpar alguém, então que fôssemos procurar antes pelos responsáveis pelas operações.
     As narrativas deste tipo não passam de construções artificiais e, como tal, são frágeis na sua essência, mas, neste caso específico, a sua reprodução permaneceu inquestionável durante cerca de cinco décadas, uma vez que muitos dos seus difusores nunca arredaram pé do governo indonésio. Além disso, apesar de este regime se autocaracterizar como uma democracia, sabem os seus cidadãos que, pelo menos até 2012, ele encobria-se por detrás de uma atmosfera opressiva, que intimidava quem desenterrasse os assuntos do genocídio. Provavelmente por essa razão o massacre de 1965 só foi devidamente abordado por um indivíduo vindo de fora, o realizador norte-americano Joshua Oppenheimer, sobre o qual já nos focaremos. A sua influência na sociedade indonésia só poderá ser compreendida após a elaboração de um breve contexto, pelo que relatarei, em primeiro lugar, os contornos dos meses mais sangrentos de 1965.
     Recuemos então cinco décadas no tempo, atentemos aos numerosos arquipélagos do sudeste asiático e debrucemo-nos, em concreto, sobre o indonésio. Como se sabe desenrolava-se a Guerra Fria e, como sucedeu noutros países da região, a Indonésia dividia-se politicamente entre, por um lado, o Partido Comunista (PKI), que ultrapassava os três milhões de apoiantes e dispersava-se por sindicatos e outras organizações, e, por outro, uma variedade de instituições que lhe fazia oposição, composta principalmente pelo exército e pelas instituições religiosas, fossem elas católicas ou muçulmanas. No trono da nação ia-se impondo o presidente Sukarno, que mediava as duas forças políticas e beneficiava do seu apoio para estabelecer um programa governativo que ele intitulava pomposamente de “Democracia Guiada”, que assentava numa espécie de populismo socialista em que ele, nas suas funções de comandante, tinha poderes reforçados. As diretivas presidenciais, porém, não resolveram a grave falta de infraestruturas que assolava o país, tornando insuficiente a sua produção agrícola e originando uma desastrosa crise económica.
     O statuos quo da Indonésia alterou-se no dia 30 de Setembro quando um grupo de homens armados, de inclinação política incerta, raptou e assassinou seis generais e um tenente do exército, despejando posteriormente os corpos num poço abandonado e anunciando, nalguns meios de comunicação, o advento de um governo revolucionário. Aproveitando a convulsão dos dias subsequentes, o exército culpou o Partido Comunista pelo golpe e ilegalizou-o, encerrando também, à força, todo o tipo de publicações esquerdistas. Possuindo o controlo das fontes noticiosas do país, os militares e os religiosos puderam, finalmente, iniciar a sua vingança e, movendo-se por um ódio acumulado há várias décadas, motivado pelo medo do crescimento comunista e pela oposição que o PKI lhes fizera veementemente, puseram em prática uma estratégia de propaganda que alarmava a população para o perigo e o sadismo dos comunistas, defendendo que se estes não fossem travados o mais provável era o país acabar por ser, mais tarde ou mais cedo, travado por eles.
     Aos incitamentos ao ódio seguiu-se, prontamente, uma caça violenta a quem quer que fosse, ou parecesse ser, comunista, ordenada pelo exército e pelo clero e prosseguida, também, pelas milícias locais. A seleção das vítimas variava conforme cada povoação: nalguns casos os militares dirigiram-se aos líderes de cada aldeia e forçaram-nos a revelar os nomes dos “inimigos do estado” e, noutros, as milícias já tinham conhecimento de quem deviam, ou queriam, aprisionar. Até a embaixada norte-americana deixou o seu contributo e, para evitar a sobrevivência dos comunistas mais discretos, ofereceu aos militares a identificação de cerca de cinco mil indivíduos considerados perigosos.
Nem todos os que foram detidos acabaram por conhecer a execução, mas calcula-se que foram assassinados, ao todo, cerca de quinhentos mil indivíduos num espaço de cinco ou seis meses. Os homicídios foram executados de forma desenfreada, muitas vezes impulsiva. Parte das vítimas foi alvejada, outra parte decapitada. Centenas de corpos de homens e de mulheres foram retalhados, ou degolados, ou esventrados e, em seguida, deixados a apodrecer nos rios mais próximos, tingindo as suas águas de sangue e obstruindo os leitos de cadáveres. Houve ainda quem chegasse a assassinar alguns imigrantes chineses, simplesmente porque não gostava deles. Insistiam os carrascos que decorria uma revolução e tentavam tirar dela o maior proveito possível. Não é de admirar que algumas povoações tenham ficado desertificadas, principalmente as que se situavam nas zonas em que o PKI tinha uma maior implantação.
     Por mais que nos custe a acreditar, os perpetradores deste massacre permanecem, ainda hoje, nalgumas esferas do poder indonésio. Os líderes dos esquadrões da morte, por seu turno, foram recompensados com dinheiro, e galardoados com prestígio. Além disso, até há poucos anos, ensinava-se nas escolas do ensino básico que, em 1965, os comunistas constituíam uma espécie de pestilência, cuja purga fora uma necessidade. Os pormenores dos massacres, no entanto, nunca foram bem explicitados, pois provavelmente pareceriam incompreensíveis aos ouvidos das crianças.
Foi este o panorama encontrado por Oppenheimer em 2001, quando o cineasta se dirigiu à Indonésia para filmar um documentário sobre os trabalhadores de uma plantação na Sumatra que, apesar de estarem a ser vítimas de exploração, e de serem cidadãos de uma alegada democracia, pareciam estar apavorados com a ideia de criar um sindicato. Explicou-nos mais tarde o realizador que «os trabalhadores das plantações tiveram um sindicato grande e ativo até 1965, quando os seus pais e avós foram acusados de serem “simpatizantes comunistas” (apenas por fazerem parte do sindicato) e colocados em campos de concentração, explorados como escravos e, finalmente, assassinados pelo Exército e por esquadrões da morte civis
     Intrigado por estas circunstâncias, o cineasta regressou ao território volvidos dois anos, para investigar os acontecimentos de 1965. Aí, ao escutar os relatos dos camponeses sobre os pormenores do massacre, apercebeu-se que havia um assassinato em particular que era várias vezes mencionado, uma espécie de recordação que, talvez pela sua brutalidade, simbolizava a violência que a povoação testemunhara. A vítima em causa chamava-se Ramli, e as particularidades do seu homicídio ser-nos-ão reveladas no decorrer de “The Look of Silence”, não pelos camponeses mas sim pelos seus próprios carrascos. Narram-nos eles com uma certa nostalgia que, no contexto das perseguições, Ramli foi identificado como um inimigo do estado e, portanto, intercetado por um grupo de soldados que o esfaqueou na barriga, ao ponto de expor as suas entranhas. Ainda assim o jovem conseguiu escapar e, esvaindo-se em sangue, refugiou-se em casa dos pais. Infelizmente os agressores sabiam onde ele morava e voltaram a capturá-lo, separando-o, à força, dos braços da sua mãe, defendendo que o levariam para um hospital para cuidar das suas feridas. Obviamente não o fizeram e arremessaram-no, pelo contrário, para o interior de uma carrinha, para cima de outros prisioneiros. Estacionaram, pouco depois, à beira de um rio. Encaminharam-no para a margem e forçaram-no a despojar-se das suas roupas. Começaram a retalhá-lo com um machete, ouvindo-o rogar por misericórdia mas sem fazer qualquer caso. Cortaram-lhe em seguida os genitais e, por uma razão desconhecida, abandonaram o cadáver numa plantação de óleo de palma, a três quilómetros da casa dos seus pais. Reconhecem os assassinos, no final do seu relato, que o Ramli até era boa pessoa, mas que «estávamos numa revolução, o que é que se havia de fazer?»
     Calcula-se que depois de escutar as brutalidades desta purga, Oppenheimer desejou denunciá-las e, também, explorá-las nos seus documentários. Foi a maneira como o fez que o distinguiu dos demais, e quem já viu “The Act of Killing” (o seu filme anterior, centrado no mesmo tema) saberá do que estou a falar. Aí, em vez de nos explicar os acontecimentos de ’65 através de imagens de arquivo ou de testemunhos orais, o cineasta focou-se num homem que, nesse ano, pertencera a um esquadrão da morte, e pediu-lhe que lhe explicasse, dirigindo-se à câmara de filmar, os contornos dos assassinatos que cometera. É provável que noutro canto do mundo o entrevistado não colaborasse, mas na Indonésia estes indivíduos possuíam numerosos admiradores a quem recordavam, com orgulho e naturalidade, as atrocidades cometidas. Assim, o homem não teve problemas em explicar-nos, pormenorizadamente, os seus assassinatos. É provável que se relembrem dos acontecimentos subsequentes mas explicá-los-ei na mesma, pois considero-os relevantes para a análise de “The Look of Silence”.
     Recapitulemos assim, por breves instantes, em que se centra a narrativa de “The Act of Killing”: em suma, o documentário seguiu primordialmente um indivíduo que assassinara homens e mulheres muitas vezes por puro sadismo e que, pior do que isso, pensava não ter feito nada de errado, uma vez que o governo indonésio sempre glorificara os massacres. Joshua Oppenheimer gravou os relatos deste indivíduo e limitou-se a desempenhar, ao nível das aparências, o papel de um espetador. Sabia perfeitamente que o homem que tinha à sua frente procedera de uma forma atroz, mas não tentou convencê-lo disso. Ao invés, incentivou-o a encenar algumas cenas violentas que protagonizara, levando-o, desse modo, a refletir naqueles tempos caóticos de forma profunda e prolongada, possivelmente inédita. O resultado foi assombroso pois testemunhamos, aos poucos, o homem a ir recuando na sua vanglória, começando a aperceber-se, por si próprio, da monstruosidade dos seus atos. Nos momentos finais do filme chega mesmo a ser acometido por uma epifania, adquirindo a perfeita noção dos assassinatos que perpetrara e de como vivera bem com isso, sem remorsos, durante décadas, o que resulta finalmente num ataque intenso de ansiedade.
     O mais impressionante em todo esse processo foi a forma como o documentário nos demonstrou como um homem pôde ser manipulado pelo governo ao ponto de deixar-se convencer, durante um período temporal extenso, de que não existiriam obstáculos morais em ceifar as vidas de seres humanos inocentes. É difícil de explicar o que isto diz da superficialidade humana, tendo em conta que houve vários exemplos deste género em muitos outros contextos, com resultados inevitavelmente desastrosos. Somos então assolados por dúvidas profundas, que até temos medo de pronunciar em voz alta. Será o número de indivíduos de uma sociedade que está disposto a matar, se lhes derem uma justificação, assim tão extenso? O que aconteceria se a nossa sociedade fosse temporariamente controlada por um grupo de malucos com intenções, e meios, para exterminarem um nicho da população? A improbabilidade disso acontecer no nosso país até pode ser inquestionável, mas estamos a fazer perguntas hipotéticas, concernentes à humanidade. Oppenheimer nunca exprime as respostas a essas questões, até porque sabe que elas são inexistentes, deixando ao invés o espetador a esboçar, perturbado, as suas próprias interpretações.
     “The Act of Killing” e “The Look of Silence” convergem por ambos se focarem nos massacres de 1965 ao evidenciarem, precisamente, os testemunhos de alguns dos seus executores mas divergem, essencialmente, na sua abordagem, pois enquanto o primeiro se foca antes de mais nos assassinos o segundo acompanha, em vez disso, Adi, o irmão de uma das suas vítimas, precisamente o jovem Ramli, cujo falecimento foi descrito há pouco mais do que um parágrafo.
Quando Adi nasceu já o seu irmão tinha falecido e, em 2012, parece ter uns quarenta anos de idade. Desconhecemos quando é que conheceu, ao certo, Joshua Oppenheimer, mas é possível que tenha sido pouco depois de o realizador se ter dirigido à Indonésia, em 2003, para investigar os acontecimentos de 65. Sabe-se, contudo, que ambos conheciam intimamente o silêncio que envolveu, durante cinco décadas, o assassinato das vítimas do genocídio indonésio, e partilhavam o desejo de, finalmente, quebrá-lo, denunciando-o ao mundo. Para tal decidiram partir de um caso particular, como se fizera em “The Act of Killing”, em concreto o do assassínio de Ramli, para ilustrar a brutalidade e a impunidade do governo indonésio.
     A estrutura do documentário demonstra a sagacidade de Oppenheimer na realização deste tipo de filmes tendo em conta a facilidade com que nos agarrara desde o início à narrativa, evidenciando na primeira cena o protagonista sentado numa cadeira a contemplar, num televisor, a gravação de um antigo membro de um dos esquadrões da morte, agora de idade já avançada, a explicar como costumava degolar as suas presas, começando a sua história num tom alegre, prosseguindo para a entoação de uma cantiga tradicional que sentencia que «o passado é o passado» e terminando, finalmente, num silêncio prolongado e reflexivo, como se estivesse a debater-se com a sua própria consciência. Esta cena ilustra muito do que se encontrará no decorrer do filme, pois é relevante não apenas na exposição da brutalidade dos massacres mas, também, na transmissão subtil da ideia de que os seus perpetradores começaram a experienciar, vários anos depois desses acontecimentos, um misto paradoxal de culpa e orgulho. A cena gera ao mesmo tempo empatia do espetador para com o protagonista, por vermos Adi a observar atenta e silenciosamente, e debatendo-se contra as lágrimas, esta gravação que parece ser tão casual e, no entanto, de uma brutalidade inacreditável.
     As cenas seguintes vão-nos apresentar à família de Adi, despertando muitas vezes a nossa simpatia, como sucede quando vemos a sua mãe, com os seus cerca de cem anos de idade mas com extraordinária vitalidade, a dar banho ao seu marido com uma extrema paciência, levantando-lhe os membros um a um e esfregando-lhe o corpo todo, desde a base dos seus pés até ao cume da sua cabeça calva. Este processo é inevitável porque o homem padece de uma doença há vários anos que o faz parecer ter o dobro da idade da esposa, impedindo-o de se conseguir mexer e, até, de compreender muitas vezes aquilo que lhe dizem. Conhecemos igualmente os dois pequenos filhos do protagonista, em concreto uma rapariga que deve ter uns seis ou sete anos e que parece ser muito simpática e engraçada, protagonizando algumas cenas adoráveis com o pai quando brinca ingenuamente com os seus óculos, e um miúdo que deve ser uns quatro ou cinco anos mais velho do que ela, ostentando um aspeto mais sério e obediente.
     A seleção das cenas protagonizadas por esta família pareceu ser feita de forma sagaz e com propósitos bem definidos: assim, por nos apresentar à boa natureza destas figuras, Oppenheimer reforça a nossa ligação tanto com elas como com o protagonista, motivando-nos a compreender os motivos da sua angústia e a desejar que a sua causa seja bem-sucedida. Adicionalmente, ao intercalar estes momentos mais leves com os encontros de Adi com os membros dos esquadrões da morte, por norma mais perturbadores e intensos, o realizador dá tempo ao espetador para relaxar e refletir no que acabou de ver, gerindo eficazmente o ritmo do documentário.
     Há no entanto algumas cenas com familiares de Adi que se enquadram, e aprofundam, o tema da purga de 65. Uma delas é a filmagem de uma aula frequentada pelo filho do protagonista na qual o seu professor vai explicando à sua plateia, com a maior das naturalidades, os acontecimentos que procederam o genocídio, enfatizando como os comunistas torturaram os generais raptados no golpe de 30 de Setembro, transmitindo assim às crianças a ideia de que esses tipos não passavam de um bando sádico e doentio. Em seguida o homem defende que quem quer que confronte o estado tem que ser, obviamente, travado à força se necessário, demonstrando que o governo indonésio até se pode intitular de democracia mas continua a defender os ideais de uma ditadura.
     Somos dados também a observar alguns momentos protagonizados pela mãe de Adi em que ela recua no tempo para se relembrar, com uma vívida expressão de sofrimento, na última ocasião em que viu o seu primogénito, recordando como o arrancaram dos seus braços para conduzi-lo à execução. É-lhe ainda questionada a sua opinião sobre os perpetradores do assassinato, que andaram a viver nas redondezas com a maior das impunidades, ao que ela começa por nos dar uma resposta politicamente correta, a de que Deus se encarregará de os castigar numa outra vida, mas mais tarde, quando lhe insistem no assunto, não reprime o seu rancor nem o seu frustrante sentimento de impotência.
     Há somente um aspeto nas cenas dos familiares de Adi que me causa perturbação, referente aos momentos em que Oppenheimer nos mostra as imagens do pai do protagonista a debater-se com os efeitos da sua doença. Há uma cena particularmente traumática quase no final do filme em que o homem se encontra sentado no chão de um pequeno quarto em ruínas e, subitamente, perde a memória de como foi lá parar, e é acometido por um fulminante ataque de pânico que o leva a implorar por ajuda e a rastejar sem sucesso para o exterior da divisão. O facto de o realizador se ter focado nesta cena parece-me incompreensível pois em nada se relaciona com a temática do filme, e, apesar de não passar de um pormenor entre tantos outros, pareceu uma decisão exagerada e sensacionalista.
     Independentemente da relevância das cenas até agora mencionadas, o principal foco de interesse do documentário reside nos numerosos encontros (chamemos-lhes assim) entre Adi e os executores do genocídio. A bem da verdade nem todos os interlocutores tiveram parte nos assassinatos; para além daquele tio que já mencionei, somente encarregado de vigiar os comunistas, Adi conheceu noutra ocasião a filha de um dos homicidas e, noutra situação ainda, confrontou a família inteira de um dos carrascos de Ramli.
     Estes encontros prendem a nossa atenção por vários motivos, sendo um deles o clima de tensão que constantemente os envolve que provém, por sua vez, da nossa noção de que tudo pode acontecer. Aliás, de outra maneira não poderia ser: em primeiro lugar porque nos preocupamos com o protagonista e com as suas causas bem-intencionadas; em segundo por sabermos que desenterrar este tipo de questões neste país é um processo pouco seguro; em terceiro, porque a ideia de Adi passa por responsabilizar indivíduos que retalhavam pessoas por gosto, que muitas vezes ficam nervosos com as perguntas que lhes são colocadas. De facto, naquele encontro entre Adi e a família de um dos carrascos do seu irmão, o protagonista e o realizador são recebidos com tamanha comoção que acabam por ser praticamente expulsos de casa.
     No entanto o interesse destes encontros, ou entrevistas, está acima de tudo no seu conteúdo, entendendo-se neste sentido não apenas as respostas dada pelos interlocutores mas, também, o que eles não revelam mas deixam escapar involuntariamente, através de gestos mais impulsivos ou da mudança das suas feições. Essas reações espontâneas são invariavelmente apanhadas pela câmara de Oppenheimer, e depois evidenciadas por vários segundos como se o cineasta nos estivesse a querer dizer, subtilmente, que o entrevistado pode ter um argumento nos lábios e, ao mesmo tempo, um bem distinto na sua cabeça que jamais poderá ser partilhado em voz alta. Já mencionei relativamente a esta questão os indivíduos que relataram animadamente os seus homicídios e que, depois, acabaram por entrar num silêncio prolongado com o olhar fixo no dia de ontem; ou o caso do tio do protagonista que recusava admitir a sua cumplicidade nos assassinatos, e insistia que não fizera nada de condenável e que, portanto, não devia sentir culpa nenhuma, apertando no entanto com toda a força um fio que tinha ao pescoço.
     Apesar de cada entrevistado ter reagido de forma diferente quando encostado à parede com a frontalidade de Adi, há umas quantas semelhanças entre eles que foram fáceis de observar. Inicialmente, os interlocutores com um papel direto nos assassinatos não se impressionaram com nenhuma questão, e responderam como se não tivessem nada a esconder e, de facto, não tinham, porque os atos que tinham perpetrado tinham sido aceites pelo governo indonésio. No entanto, quando Adi lhes revelou que o seu irmão foi morto por um esquadrão da morte, notou-se uma reação imediata na maior parte dos inquiridos. É como se, de um momento para o outro, as suas vítimas tivessem deixado de ser criaturas anónimas inventadas num mundo surreal para voltaram a ser seres humanos. Creio que essa alteração provocou um assomar dos pensamentos de culpa que os assassinos tinham resguardado, durante muitos anos, num canto resguardado da sua mente. Só assim se explica as suas repentinas hesitações, revestidas de vergonha. Ao passo que um dos indivíduos começou logo a chorar, outro ainda tentou refugiar-se na narrativa do governo indonésio, «os comunistas não acreditavam em Deus» e «os comunistas faziam todos sexo uns com os outros», insistiu, mas depois de ter sido contrariado por Adi limitou-se a anuir em silêncio e a olhar abatido para os sapatos, e a reiterar que não queria falar de política. Apesar das constantes hesitações nenhum dos assassinos admitiu a responsabilidade pelos seus atos, desculpando-se pelo contrário no contexto político e social desse tempo, mesmo que sem convicção ou torcendo as mãos de ansiedade. Desconheço se Adi lhes terá perdoado como era seu desejo, mas terá certamente compreendido esta atitude: ao admitirem a sua própria culpa estariam a reconhecer que tinham morto homens e mulheres indefesos por vontade própria, o que faria deles nada mais do que de monstros sanguinários. Curiosamente o único que conseguiu manter a sua compostura foi um que ascendeu socialmente até se tornar político, um tipo que espirrou demagogia por todos os orifícios do corpo e que escutámos com alguns traços de desprezo e outros tantos de ironia.
     A reação dos familiares dos assassinos foi semelhante num caso, mas completamente distinto noutro, que vale a pena mencionar. Relembremo-nos da cena em que um dos homicidas se fez acompanhar pela sua filha, que já deve ter uns trinta e tal anos de idade. Não compreendo a razão para o homem ter tomado esta decisão, mas suponho que ele calculava que ia ter, nessa conversa, uma boa oportunidade para instilar algum orgulho na filha, suposição que se coaduna com a atitude bem-disposta da mulher antes de começarem a chover as perguntas. Também desconheço o que é que o pai lhe tinha partilhado sobre o seu papel na purga, mas quando começa a explicar como degolava as suas vítimas e, depois, encostava um copo ao seu pescoço para enchê-lo de sangue e bebê-lo, «para não enlouquecer», ela começa a ficar transtornada. E quando Adi lhe revela que o seu irmão foi morto dessa mesma maneira, aí então ela desfaz-se em lágrimas e em pedidos de perdão. O pai por seu turno limita-se a tentar esquivar-se da conversa, mas, não conseguindo fazê-lo, mantém-se sentado à beira da cama, repentinamente mudo e incomodado.
     Mencionei no início do texto que tenho um especial fascínio por livros relacionados com genocídios, mas entretanto envolvi-me nesta conversa e esqueci-me de esclarecer porquê. Seja como for, ainda bem que deixei isso para a conclusão, porque entretanto apercebi-me que esse interesse não é exclusivamente meu, estendendo-se ao invés a uma imensa multidão. Será por essa razão que alguns livros de Primo Levi foram consideradas unanimemente como obras-primas, e que o mesmo sucedeu com documentários recentes como “The Missing Picture” e “The Act of Killing”. Não possuo nenhuma reposta categórica sobre as origens desse interesse coletivo, pelo que terão que se satisfazer com umas quantas teorias de carácter duvidoso.
     Acontece que essas obras desenrolam-se em contextos históricos extremos em que os valores morais foram subvertidos, e em que os detentores de poder anunciaram que era possível, e nalguns casos preferível, matar outros seres humanos. Neste tipo de circunstâncias a segurança reguladora da vida em sociedade foi quebrada, e sobressaiu necessariamente o instinto de sobrevivência de cada indivíduo. Sucederam-se episódios atrozes com consequências que marcaram perpetuamente os seus intervenientes não apenas nesse período específico mas, também, nos anos subsequentes, porque entretanto se originara uma cicatriz indelével na consciência dos sobreviventes. Por um lado existem as vítimas dos campos de concentração dos livros de Primo Levi (e de muitas outras testemunhas) que, mesmo após o fim da guerra, enfrentaram dificuldades a reintegrar-se numa sociedade que os fizera sentir como lixo humano; por outro, existem os perpetradores das atrocidades que são retratados neste documentário. O que se verificou em “The Look of Silence” não é muito diferente do que se observara no filme anterior de Joshua Oppenheimer, mas alterou da mesma maneira a nossa forma de pensar.
     Testemunhámos que os assassinos de 1965 não eram meros psicopatas, e ouvimos como muitos chegaram a enlouquecer pela brutalidade do que fizeram. Como nos foi revelado em duas entrevistas diferentes, muitos deles beberam o sangue das vítimas para evitar o enlouquecimento, como se, ao fazerem isso, estivessem a renunciar aos resquícios de humanidade que subsistiam no seu inconsciente. Finda a purga voltou-se à relativa normalidade, os anos foram passando e, em 2012, esses indivíduos já estão na terceira idade, isentos da raiva que os impeliu a matar comunistas nos seus tumultuosos tempos de juventude. Necessitando de justificar os atos cometidos, refugiaram-se na propaganda do governo indonésio. A julgar pelas suas reações nas entrevistas creio que, no fundo, a maior parte já tivesse noção do que tinham feito, e mesmo conseguindo evitar render-se a esse tipo de pensamentos durante cerca de cinquenta anos, acabaram por sucumbir à frontalidade do protagonista.
     Há algumas semanas estreou nas nossas salas um filme denominado “Timbuktu”, que eu próprio elogiei e mantenho a minha opinião, mas espantou-me a quantidade de críticos maravilhados com a forma como o seu realizador humanizou os terroristas, só porque os meteu a falar de futebol ou a fumar às escondidas, dando-nos a entender que eles são pessoas com sentimentos como se isso fosse novidade. Na minha benevolência vou acreditar que tenha havido um equívoco, e que eles se estivessem a referir antes a “The Look of Silence”, pois foi Joshua Oppenheimer que conseguiu demonstrar como os assassinos em massa conseguem ter uma consciência, imergindo pelo caminho nos seus receios e lutas internas e alterando mais uma vez a nossa perceção do que é, e não é, ao certo este bicho estranho e complexo que chamamos de ser humano.

Ficha técnica:

Título original: "The Look of Silence"
Título em Portugal: "O Olhar do Silêncio
Realização: Joshua Oppenheimer

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