31 julho 2015

Resenha Crítica: "La prochaine fois je viserai le coeur" (Na Próxima, Acerto no Coração)

 Franck Neuhart (Guillaume Canet), o protagonista de "La prochaine fois je viserai le coeur", é um gendarme aparentemente tímido, de gestos relativamente comedidos, que parece dado a cumprir as regras e pouco disposto a admitir faltas de respeito para com a sua pessoa, estando, em conjunto com os seus colegas, a investigar o caso de um serial killer que se encontra a atacar brutalmente jovens mulheres e a entregar cartas ameaçadoras às autoridades (uma espécie de "Zodíaco"). A identidade do assassino não nos é escondida, bem pelo contrário, com Cédric Anger, na sua terceira longa-metragem como realizador, a jogar as suas cartas na tensão gerada por esta situação, colocando o espectador a saber mais do que a maioria dos personagens, um método utilizado de forma sublime por cineastas como Alfred Hitchcock em obras como "Rope". Ficamos desde os momentos iniciais diante da identidade do serial killer, uma revelação que é gerida de forma assertiva por Cédric Anger, com este a colocar as incertezas em relação ao momento em que o assassino será descoberto como um dos pontos fortes do enredo, com o cineasta e argumentista a saber explorar esta situação de forma competente. O assassino é Franck Neuhart, com este a assumir simultaneamente a faceta de defensor da autoridade (durante o horário de trabalho) e criminoso (durante o período de pós-laboral, ou seja, uma espécie de identidade secreta ainda que para fins menos recomendáveis), algo que permite ao argumento explorar esta dualidade do protagonista, com Guillaume Canet a conseguir desenvolver tanto o lado mais delicado deste personagem como o mais feroz, ficando quase sempre implícita uma homossexualidade reprimida do mesmo que ajuda a explicar alguma falta de conforto em relação às mulheres. Este tanto é capaz de embater brutalmente com o seu veículo em Alice (Jade Henot), uma jovem que se encontra a circular de mota, como logo de seguida, percebendo que esta continua viva, procura interrogá-la no hospital e pega suavemente na sua mão, prometendo encontrar o culpado. Este toque na mão, bem como a delicadeza inicial com que trata Sophie (Ana Girardot), são alguns dos exemplos da faceta mais "angelical" deste personagem que é visto inicialmente como um homem da confiança por parte de Lacombe (Jean-Yves Berteloot), o seu superior. Diga-se que a confiança que este personagem gera na nossa pessoa é quase sempre muito pouca, algo notório quando procura que o carro que utilizara para atropelar Alice expluda assim que seja aberto, não tendo problemas em deixar um colega seu abrir o mesmo, com Tonton (Patric Azam), o indivíduo que se encontrava a liderar o quarteto responsável por se dirigir ao local, após a tentativa de assassinato por parte Franck, a ordenar para abrirem o veículo, sem esperarem pelas autoridades competentes para o fazer. A noite é pontuada não só pela escuridão mas também pela frieza que marca a mesma, com o carro a apresentar sinais de se encontrar molhado pela chuva, com o quotidiano fervilhante destes personagens a contrastar com a temperatura ambiente.

 A explosão do carro foi um bom sinal para Franck que se esquecera das luvas no veículo, enquanto logo de seguida assistimos a mais estranhos hábitos deste homem tais como auto-flagelar-se, em actos punitivos sobre a sua própria pessoa, entre os quais vergastar-se nas costas, ou andar com pedras nos sapatos, ou a prender arame farpado no braço, mas também a escrever cartas anónimas onde revela que "Meninas de dezanove anos que passeiam de forma provocante à noite são os alvos que mais me atraem", para além de expor junto da polícia que voltará a atacar, com os seus textos a exprimirem uma certa revolta para com a humanidade. O personagem interpretado por Guillaume Canet é um indivíduo desequilibrado que vive sozinho, num apartamento que mais tarde descobrimos contar com espaços fechados que dizem muito da desorganização da sua mente e dos objectivos do protagonista, com uma das cenas iniciais, onde a iluminação, oriunda da luz reflectida nos estores, praticamente indica umas grades, a simbolizar imenso, em particular um futuro onde este gendarme será detido. Este recurso da iluminação reflectida através dos estores a dar efeitos de grades remete para os filmes noir, com o próprio enredo a ser marcado por personagens moralmente duvidosos, a noite dominada pelo crime e insegurança, uma atmosfera de malaise a ponto de não se poder confiar nem na polícia, entre outros exemplos que podem servir ainda para fazer a ligação a este subgénero que nos brindou com alguns magníficos exemplares cinematográficos. A atmosfera que rodeia o enredo de "La prochaine fois je viserai le coeur" é de malaise, com a narrativa a decorrer no período a rondar os anos de 78 e 79 do Século XX, durante o Inverno. O argumento de Cédric Anger foi baseado no livro "Un assassin au-dessus de tout soupçon" de Yvan Stefanovitch, inspirado num caso real que ocorreu entre 1978 e 1979 no departamento de Oise, em França, com "La prochaine fois je viserai le coeur" a procurar expor esta situação logo no início do filme: "Este filme foi baseado numa das mais estranhas histórias criminais francesas. O que é apresentado foi retirado de documentos oficiais, processos verbais e entrevistas com pessoas envolvidas. Sendo um filme de ficção, por vezes os autores usaram a própria imaginação para fazerem a interpretação deles da história real". Cédric Anger procura atribuir algum realismo ao enredo, algo  que, em diversos momentos, torna complicado de seguir o mesmo, parecendo quase impossível sentir simpatia pelo personagem interpretado por Guillaume Canet, com o actor a contribuir para isso, pese os momentos em que esboça alguma humanidade. Veja-se quando oferece um vinil a Sophie, ou ensina treino militar a Bruno (Arthur Dujardin), o seu irmão mais novo, ou procura demonstrar algum interesse na personagem interpretada por Ana Girardot embora não consiga esconder o pouco desejo sexual que tem pela mesma (e por qualquer outra mulher), uma situação que piora devido à sua mente ser caótica e, muitas das vezes, auto-destrutiva. O momento em que se encontra no bosque, com o irmão, é simbolizador das dicotomias deste personagem, que tanto parece estar próximo do familiar como apresenta uma frieza letal a ensinar a disparar uma espingarda. Franck tanto se encontra a meditar num momento de aparente calmaria como logo observa um conjunto de minhocas a remexerem-se na lama de forma desordenada, quase a parecer a sua mente disfuncional a trabalhar, em situações onde a cinematografia de Thomas Hardmeier se destaca, com este a fazer sobressair o território selvagem, marcado por árvores despidas, pouca iluminação e tonalidades pouco garridas, transmitindo uma frieza que muitas das vezes permeia os actos do personagem interpretado por Guillaume Canet. A luz natural é particularmente bem aproveitada nestes momentos, com a pouca presença da mesma e as tonalidades acinzentadas dos céus a contribuírem para expor toda uma atmosfera que está longe de transmitir os sentimentos mais radiantes ou felizes, embora exibam o cuidado colocado a nível estético na elaboração de "La prochaine fois je viserai le coeur". 

A saída com o irmão mais novo é precedida de um almoço de Franck na casa dos pais, onde a mãe (Hélène Vauquois) expõe a preocupação por este continuar solteiro, com o pai (Jean-Paul Comart) do protagonista a pedir algum comedimento apesar de também se rir sobre uma piada relacionada com a falta de capacidade do gendarme em perceber que Sophie encontra-se interessada no mesmo (a má relação com a mãe pode servir como outra das explicações dos ataques de Franck às mulheres). Franck é um indivíduo que vai da calma à fúria com enorme facilidade, parecendo muitas das vezes tão frio como incapaz de controlar os seus ímpetos, com algumas das suas acções contra as vítimas a nem sempre estarem totalmente preparadas contra alguns contratempos de última hora. Quando se encontra a urinar na casa de banho de um bar, Franck encontra um papel com um número de telefone de uma prostituta, procurando os serviços da mesma, embora tenha uma surpresa caricata e desagradável que vai despertar o seu lado mais violento. O enredo é repartido entre as acções de Franck durante a sua vida pessoal e a sua rotina profissional, com o protagonista a estar envolvido numa busca onde o elemento procurado é ele próprio, uma situação que lhe concede uma vantagem aparente, sobretudo por inicialmente ninguém parecer suspeitar que o assassino encontra-se no interior da própria unidade de investigação. A busca é marcada por esta situação caricata, onde ficamos na dúvida em relação ao momento em que Franck será ou não capturado e condenado, para além de observarmos algumas rivalidades entre os gendarmes e os investigadores da polícia, embora estes últimos raramente sejam devidamente desenvolvidos. A investigação é demorada e, por vezes, parece que não vai dar a lado nenhum, sendo marcada por algumas rondas efectuadas pelos polícias, sobretudo a partir do momento em que uma vítima que sobreviveu elaborou uma descrição visual do criminoso, algo que permitiu desenvolver um retrato que apresenta semelhanças notórias com o protagonista. O retrato é o primeiro sinal que a situação começa a ruir para Franck, com este a receber a notícia no interior da esquadra onde se encontra a sua unidade, um cenário utilizado de forma esporádica ao longo do enredo. Os crimes fazem parte do quotidiano de Franck com este a não conseguir controlar os seus ímpetos, ficando particularmente na memória a forma desprovida de sentimento como este atira as suas vítimas porta fora dos veículos, com Cédric Anger a apresentar-nos aos ataques de formas distintas, tornando-nos quase cúmplices destes actos do psicopata. Aos poucos sentimo-nos também culpados por estes crimes, com Cédric Anger a deixar o espectador diante da rotina deste personagem, tornando-nos quase voyeurs, algo notório em casos como aquele em que transporta Melissa (Alice de Lencquesaing) e o realizador mantém-na a falar com o protagonista, aumentando a tensão até este irromper com tiros e o carro ficar coberto de sangue. Segue-se outro ataque onde, ao invés de ficarmos maioritariamente com o serial killer e a vítima no interior do carro, o cineasta prefere optar por nos deixar a uma certa distância, enquanto assistimos aos disparos que ocorrem de rompante no veículo. O nojo que o protagonista sente em relação ao sangue é latente, bem como a sua preocupação em limpar rapidamente o veículo e retirar todas as suas impressões digitais do mesmo. Diga-se que as matrículas destes veículos são falsificadas por Franck, algo exposto ao som da canção "The Black Angel's Death Song" dos Velvet Underground, com a banda sonora a ter uma relevância notória na narrativa, sobretudo para adensar esta atmosfera de tensão e malaise que rodeia este enredo negro, onde os desequilíbrios do foro mental do protagonista prometem conduzi-lo à desgraça.

 Ficamos diante de um gendarme pouco confiável, um criminoso desequilibrado cujos actos são imprevisíveis, escolhendo as vítimas ao acaso, desde que sejam jovens mulheres, enquanto enceta fugas que nem sempre parecem poder vir a correr bem. Ainda tenta manter um caso com a bela Sophie mas cedo demonstra a sua frieza de sentimentos, tanto sendo capaz de procurar abraçá-la atrapalhadamente numa dança como de enxotar o gato desta ou dormir com a personagem interpretada por Ana Girardot e logo de seguida mostrar-se algo repugnado e pedir para esta não se maquilhar muito para não se parecer com uma puta. A sua visita a uma zona conhecida por encontros entre homossexuais demonstra o quanto este reprime a sua orientação sexual, algo ainda latente quando um colega fala de forma pejorativa sobre o possível gendarme homossexual que procuram, com o olhar de esguelha que lhe lança a ser mais revelador do que mil palavras. O argumento explora a complexidade deste personagem de forma assertiva, colocando-nos diante do quotidiano de um louco que deveria defender a lei mas ao invés disso prefere eliminar jovens mulheres, com Guillaume Canet a conseguir sobressair como este personagem que facilmente consegue deixar marca. A espaços alguns colegas da esquadra têm peso na narrativa, sobressaindo Jean-Yves Berteloot como Lacombe, um indivíduo com uma presença forte, que inicialmente parece acreditar no protagonista, embora a figura secundária que mais se destaque talvez seja Sophie, com Ana Girardot a interpretar uma mulher que também conta com os seus segredos, embora bem menos negros do que aqueles que o protagonista esconde. Se Canet interpreta um personagem com alguma dificuldade em expressar-se de forma calorosa, já Girardot apresenta um brilho que facilmente nos convence do interesse de Sophie neste estranho gendarme, com a actriz a procurar algo que parece muito difícil de concretizar, ou seja, ser amada por Franck. Aos poucos ainda nos questionamos sobre o que poderá acontecer a esta mulher, com Franck a ser imprevisível em relação aos seus gestos, com os longos momentos em que circula pelo carro a poderem simbolizar que está em trabalho ou que vem aí perigo. Não vão faltar momentos de Franck a circular pelas estradas ou por terrenos lamacentos ou isolados, com este a alugar carros de forma amiúde, procurando escapar-se dos seus colegas embora percebamos que será uma questão de tempo até ser capturado. Os momentos dos gendarmes na estrada revelam algumas das suas dinâmicas de trabalho, embora as cenas que mais despertam à atenção são quando Franck se encontra isolado diante dos seus mórbidos pensamentos e percebemos que este tem enormes dificuldades, inclusive a conviver consigo próprio e as suas ideias. Thriller que nos transporta para o lado negro de um polícia com traços de serial killer, "La prochaine fois je viserai le cœur" embrenha-se pela mente deste homem complexo, mentalmente desequilibrado e perigoso de cujos actos aos poucos nos tornamos cúmplices, numa obra tensa, bem estruturada e marcada por uma interpretação bastante recomendável de Guillaume Canet.

Título original: "La prochaine fois je viserai le coeur".
Título em inglês: "Next Time I'll Aim for the Heart". 
Título no Brasil: "Na Próxima, Acerto no Coração".
Realizador: Cédric Anger.
Argumento: Cédric Anger.
Elenco: Guillaume Canet, Ana Girardot, Jean-Yves Berteloot, Patrick Azam, Alice de Lencquesaing.

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