21 julho 2015

Resenha Crítica: "La isla mínima" (Marshland)

 A carreira profissional de Pedro Suárez (Raúl Arévalo) e Juan Robles (Javier Gutiérrez), a dupla de protagonistas de "La isla mínima", já conheceu melhores dias, com os polícias a serem destacados de Madrid para uma pequena cidade onde boa parte da população parece conhecer-se e crimes hediondos encontram-se a ser cometidos. Pedro é aquele que parece mais desiludido em relação a toda esta situação, tendo sido destacado para este local remoto após ter enviado uma carta para um jornal a criticar um general, algo que é mal visto pelos seus superiores, num país ainda a lidar com os resquícios do "Franquismo" e as mudanças inerentes a um novo panorama político ao qual nem todos parecem estar habituados, com a nação a estar ainda em plena transição. Se Pedro é destacado pelo seu idealismo, por vezes considerado excessivo, já Juan Robles é um indivíduo com um passado nebuloso, que tem no álcool e nos comprimidos uma forma de se evadir, procurando omitir que outrora trabalhara para a Brigada Político Social, descrita como a "Gestapo de Franco". Diga-se que um dos vários motivos de interesse de "La isla mínima" centra-se exactamente na forma como mescla os elementos associados ao policial com características neo-noir e temáticas subentendidas sobre o passado e o presente de Espanha, algo notório na representação de greves de trabalhadores, uma habitação supostamente abandonada onde se pode ler uma inscrição de defesa a Franco mas também a forma como um povo se encontra a procurar habituar a uma nova realidade quando a ditadura fez parte do seu quotidiano. Juan Robles é um exemplo disso, com Javier Gutiérrez a interpretar eficazmente um personagem que guarda algum mistério em relação ao seu passado e nem sempre nos transmite confiança, pronto a entrar em agressões para conseguir os testemunhos que pretende, regendo-se por um modelo supostamente ultrapassado. Este representa ainda um elemento que serviu o regime ditatorial, com os actos negros do seu passado a serem revelados por um jornalista (Manolo Solo) que procura investigar ao máximo as notícias, surgindo a certa altura da narrativa como um importante ponto de informações para a investigação levada a cabo por Pedro Suárez. O personagem interpretado por Raúl Arévalo é uma figura mais lacónica, que pretende cumprir a lei embora também tenha a necessidade de a transgredir, com o actor a exprimir o desencanto de Suárez em ter sido transferido temporariamente para este cargo, sobretudo pela sua esposa, de quem espera um bebé, encontrar-se em Madrid. Se Juan Robles é um personagem que exagera no consumo de álcool e tabaco, já Pedro Suárez procura cuidar-se e apresentar uma postura mais profissional, com Alberto Rodríguez a evidenciar de forma lacónica a melhor preparação física do personagem interpretado por Raúl Arévalo quando o coloca numa correria por um território algo hostil e o protagonista facilmente ganha largos metros ao primeiro em busca de um suspeito. Alberto Rodríguez volta a abordar temáticas relacionadas com a polícia e não só, depois de ter realizado o bem sucedido e recomendável "Grupo 7" (estreou em Portugal na edição de 2012 do Cinefiesta), procurando atribuir alguma complexidade a uma obra cinematográfica com características de Whodunnit, com Juan Robles e Pedro Suárez a serem destacados para investigar o desaparecimento de Estrella e Carmen, duas irmãs ainda menores de idade, com a primeira a contar com dezassete anos e a segunda com dezasseis.

Carmen e Estrella desapareceram após uma festa, com os relatos a indicarem que foram transportadas num Dyane 6, um automóvel da marca Citroën. Rocío (Nerea Barros) e Rodrigo (Antonio de la Torre), os pais destas, encontram-se com os nervos em franja, com os conhecimentos da primeira a terem despoletado uma maior intensificação das buscas. Os pais das jovens vão ter alguma influência na narrativa, com Rocío a ser sempre mais cooperante com as autoridades, enquanto Rodrigo conta com alguns segredos que não abonam a seu favor. Num meio algo fechado como esta cidade quase tudo se sabe, incluindo que Carmen e Estrella são bastante "fáceis" no que diz respeito a envolvimentos amorosos, mas o desaparecimento das mesmas é um mistério que facilmente vai conduzir a dupla de protagonistas a envolver-se num emaranhado de informações, desinformações e personagens que podem ou não conter dados relevantes ou estarem a esconder algo. Parte do sucesso de "La isla mínima" centra-se na intensidade crescente que Alberto Rodríguez incute a esta investigação marcada por muito mistério, episódios macabros, violência sexual, mortes por explicar e tráfico de droga, com as revelações a surgirem com o avançar da narrativa enquanto o cineasta consegue que não larguemos o enredo, reunindo os diversos elementos que nos apresenta de forma coesa. Os planos aéreos exibem o território como um espaço pouco apelativo, quase labiríntico, marcado por terrenos planos, cuja divisão parece apresentar quase o formato de uma cruz embora os maiores fardos que os protagonistas carregam pareçam ser as dificuldades para resolverem o caso ou pelo menos em apresentarem provas convincentes aos seus superiores. O próprio passado problemático que os conduziu a serem destacados para este espaço remoto, marcado por terrenos agrícolas, matas, arrozais, pântanos, casas abandonadas ou alugadas a pessoas pouco recomendáveis, é outro dos problemas da dupla de protagonistas, com "La isla mínima" a colocar-nos diante de um conjunto de cenários que incrementa as dificuldades da investigação desenvolvida pelos dois polícias. Os planos gerais expõem-nos à magnitude do território, quase como se estivéssemos num western desencantado, onde os protagonistas estão longe de serem elementos da Cavalaria prontos a honrar a sua classe, sendo isso sim dois polícias muito distintos que parecem ter objectivos dicotómicos para as suas carreiras profissionais. "La isla mínima" aproveita este cenário aparentemente pouco acolhedor, marcado pelo mistério e a espaços algo claustrofóbico, para adensar as dificuldades inerentes a um caso que se revela macabro. Veja-se que Carmen e Estrella são encontradas mortas, com os corpos mutilados e com sinais de terem sido violadas ainda quando se encontravam com vida. A descoberta é feita após contactarem com Jesús (Salva Reina), um habitante local, considerado inicialmente suspeito, que logo foge da dupla de protagonistas até ser apanhado com um cervo que tinha caçado sem autorização, algo que motivou a sua fuga. Jesús ajuda-os a entrar numa quinta abandonada, temendo os fantasmas embora o maior perigo venha dos vivos, com este a ser uma das várias figuras que se vai envolver na investigação. Veja-se quando o namorado de Beatriz, uma jovem que fora morta, tendo sido mutilada, com o corpo a aparecer no rio, procura a todo o custo contactar com Pedro e Juan para expor o seu caso. Beatriz, tal como Carmen e Estrella, tinham uma relação de enorme proximidade com Quini (Jesús Castro), com quem aparecem numa foto, algo que desperta a curiosidade dos polícias em relação a este jovem e a um caso que pode ter ramificações mais alargadas do que aquelas que inicialmente esperavam. Quini mantém um caso com Marina (Ana Tomeno), uma jovem que irá contactar com a mãe de Carmen e Estrella, com a personagem interpretada por Ana Tomeno, tal como as falecidas, a ter sido alvo de episódios degradantes embora não os queira tornar públicos. Em comum, todas estas jovens receberam um panfleto de emprego para viverem num território distinto, pensando que iriam melhorar as suas vidas e fugir de um local que pouco lhes parecia dizer, embora a morte as esperasse. Diga-se que parte dos actos sexuais de Carmen e Estrella parece ter sido captada pelos negativos entregues pela mãe destas aos polícias, com Pedro a enviar os mesmos ao jornalista, tendo em vista a descobrir a possível identidade de quem comprou um rolo de uma marca considerada rara, algo que vai conduzi-lo a Quini.

O personagem interpretado por Jesús Castro facilmente desperta a nossa desconfiança e faz com que torçamos o nariz a uma hipotética inocência de Quini, quer por aquilo que nos é exposto verbalmente sobre o mesmo, quer pelos seus actos, embora seja inicialmente complicado comprovar a sua culpabilidade. Veja-se quando se encontra a ser vigiado por Pedro e Juan, irrompendo pelo carro dos polícias com uma faca, apesar de ser desde logo desarmado violentamente pelo segundo que não tem problemas em partir para a pancadaria, num modo de agir típico do personagem interpretado por Javier Gutiérrez. As falas e a postura pouco confiável de Quini não convencem Pedro e Juan nem o espectador, com este a surgir como o principal suspeito embora não seja o único, apesar de conter a mesma marca numa mão que um indivíduo misterioso, cujo rosto se encontra escondido, nas fotografias reveladas através dos negativos, nas quais Carmen e Estrella encontravam-se nuas, algo que identifica fortes suspeitas em relação a este jovem. Pelo meio, existe a descoberta de um homem com um chapéu que pode também estar envolvido no caso, com uma habitação para alugar no meio de um espaço rural praticamente desértico a parecer uma peça-chave da investigação, bem como Marina, com "La isla mínima", mesmo quando parece seguir um caminho mais previsível, a conseguir prender-nos a esta atmosfera sufocante criada em volta de uma investigação intrincada, quase labiríntica, pontuada por uma série de figuras secundárias que em alguns casos contam com alguma importância, embora raramente consigam tirar o destaque à dupla de protagonistas. A interacção entre Raúl Arévalo e Javier Gutiérrez é essencial para boa parte do enredo do filme funcionar, com estes a interpretarem dois elementos que procuram descobrir a identidade do ou dos serial killers, ao mesmo tempo que apresentam algumas idiossincrasias e modos de agir que nem sempre são conciliáveis, embora procurem a todo o custo resolver o caso para o qual foram designados. Pedro representa uma nova polícia, surgindo como um elemento considerado problemático devido ao seu idealismo. Juan carrega consigo o espectro de um passado nebuloso e um presente marcado por alguns excessos e um corpo massacrado pelos mesmos. Estes são ainda acompanhados por um elenco secundário com algum talento, com nomes como Nerea Barros, Antonio de la Torre, Jesús Castro e Salva Reina a destacarem-se. Nerea Barros e Antonio de la Torre como os pais das duas jovens desaparecidas, entretanto encontradas mortas, com a primeira a interpretar uma mulher marcada pela dor, que procura colaborar com a polícia e ceder o máximo de informação possível, apresentando uma personalidade discreta e vestes negras a condizerem com o estado pouco apolíneo da sua alma, enquanto o segundo explora a ambiguidade do seu personagem, um elemento com alguns segredos por revelar num filme onde muitas figuras principais estão longe de poderem dizer que são um exemplo moral. Jesús Castro é um dos actores que interpreta um personagem imoral, com Quini a ser um poço de problemas, despertando desde cedo a incerteza em volta da sua pessoa. O argumento coeso e arguto, escrito por Alberto Rodríguez e Rafael Cobos, sabe explorar as incertezas em volta da investigação e contribui para contarmos com dois protagonistas com densidade e complexidade suficiente para despertarem a nossa atenção, numa obra cinematográfica onde o mistério está sempre muito presente, com a própria banda sonora e os cenários externos a contribuírem para exponenciar as adversidades inerentes ao caso que Pedro e Juan pretendem resolver. A realização de Alberto Rodríguez confirma os bons indicadores deixados pelo cineasta em "Grupo 7", com este a saber manter a investigação bem viva, tal como o nosso interesse em relação à mesma, numa obra em que, tal como já foi salientado, sabe aproveitar o contexto político, social e económico que envolve a sua narrativa que se inicia a vinte de Setembro de 1980, ou seja, ainda muito pouco tempo depois do fim do "Franquismo". Assistimos a lutas por parte dos trabalhadores rurais por melhores remunerações e condições laborais, quer expostas na televisão, quer exibidas num protesto que ocorre em relação ao trabalho nas colheitas de arroz enquanto Juan observa um suspeito, para além da inserção de elementos que outrora estiveram ligados ao regime ditatorial que agora se encontram integrados nesta "nova sociedade" que ainda não se libertou totalmente das amarras do passado.

Embora entronque na realidade, "La isla mínima" coloca-nos diante de um crime livremente inspirado no livro "2666" de Roberto Bolaño, algo que Alberto Rodríguez comentou em entrevista ao Blog de Cine: "El crimen en concreto está sacado de una novela que también creo que me influyó bastante, sobre todo creo que a la hora de escribir cierto mundo interior del personaje de Raúl. La novela es '2666' de Roberto Bolaño, hay una parte en la que no paran de enunciar un crimen detrás de otro y el que se comete en la película podría ser uno más de los que hay en esa novela". A inspiração não veio só do livro citado, mas também de elementos como fotografias de Roberto Ayala, algo que parece reflectido na forma como Alberto Rodríguez e Alex Catalán, o director de fotografia, exploram e exibem o território: "La idea original surge a partir de un fotógrafo sevillano que se llama Atín Aya, que se dedicó a fotografiar las marismas del Guadalquivir a principios de los 90. Digamos que lo primero que hubo fue ese escenario crepuscular de las marismas que ni siquiera conocía 'Falete', es más por aquel entonces yo ni le conocía". O cenário tem um especial relevo na narrativa, algo visível nas próprias cenas de acção, que vão desde intensas corridas a perseguições de carro, passando por lutas corpo a corpo, embora fique particularmente na memória um momento à chuva no último terço, com Alberto Rodríguez a saber aproveitar as condições naturais ao serviço do enredo e criar alguns dos trechos mais inspirados do filme. Os próprios cenários fechados nem sempre inspiram confiança em relação aos acontecimentos que se podem seguir no enredo. Veja-se a casa de caça para alugar, marcada pela dúvida sobre quem se encontrava na mesma. Já o quarto do hotel dividido pela dupla de protagonistas surge praticamente como um local de passagem, onde estes passam algum do pouco tempo de descanso, com Pedro a ansiar pelo regresso a Madrid e uma promoção, enquanto o seu colega parece apenas querer que não o relembrem do passado. Diga-se que o presente de Juan também está longe de ser completamente livre de problemas, com este a ser conhecido por extorquir dinheiro a prostitutas e a donos de bares com negócios ilegais, apesar do próprio Pedro também ter problemas em manter a calma com o avançar da narrativa. O próprio espaço do quarto onde os protagonistas ficam é marcado por esses resquícios do passado que permeiam o presente, encontrando-se uma cruz de Cristo ladeada por figuras como Oliveira Salazar, Franco e Hitler, com o catolicismo e os regimes repressivos a não terem sido esquecidos de todo, tal como não deixaram de ser apoiados de um dia para o outro, com "La isla mínima" a entrar por temáticas complexas sem precisar de muitas falas ou longos diálogos a explorar as mesmas. O filme aborda ainda questões como as colheitas no território, com o arrozal a estar bem presente nos cenários num thriller que sobressai pela sua audácia e inteligência, não só a explorar algumas temáticas que fogem às expectativas iniciais mas também ao confiar na capacidade do público em interpretar a iconografia e os sinais presentes ao longo da obra cinematográfica. "La isla mínima" viria a receber dezassete nomeações na vigésima nona edição dos Prémios Goya, tendo vencido em categorias prestigiantes como Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor argumento original, com o resultado final desta obra cinematográfica a comprovar a merecida aclamação deste thriller intrigante e inteligente, marcado por um elenco coeso e um aproveitamento extraordinário dos cenários naturais.

Título original: "La isla mínima".
Título em inglês: "Marshland". 
Realizador: Alberto Rodríguez.
Argumento: Alberto Rodríguez e Rafael Cobos.
Elenco: Raúl Arévalo, Javier Gutiérrez, Nerea Barros, Antonio de la Torre.

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