28 julho 2015

Resenha Crítica: "L.A. Confidential" (1997)

Lynn Bracken (Kim Basinger): "You say "fuck" a lot".
Bud White (Russell Crowe): "You fuck for money".

 Entre polícias corruptos e agentes da autoridade que pretendem respeitar a lei, crimes cometidos que trazem na sua génese segredos melindrosos para um ideal de modelo de vida criado para a cidade de Los Angeles e revelações surpreendentes, "L.A. Confidential" não poupa em reviravoltas, momentos de tensão, inquietação e um cuidado latente na representação deste espaço citadino em plenos anos 50, com Curtis Hanson a contar ainda com um elenco de luxo a elevar o enredo, povoado por nomes como Russell Crowe, Kevin Spacey, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito, James Cromwell, David Strathairn, entre outros. Desde o guarda-roupa aos cenários, incluindo uma sala de cinema a exibir "The Bad and the Beautiful" de Vincente Minnelli, passando pelas menções a várias estrelas da época como Veronica Lake e uma piada hilariante a envolver Lana Turner, esta adaptação do livro homónimo de James Ellroy, realizada por Curtis Hanson, um cineasta com uma carreira extremamente irregular, consegue transportar-nos com sucesso para uma visão sobre esta época, com a citação colocada no topo deste texto a surgir como um dos exemplos dos vários diálogos mordazes que envolvem alguns dos personagens de "L.A. Confidential". No caso, um dos intervenientes é Bud White, um polícia conhecido por ser impulsivo e agressivo, sobretudo quando se depara com agressões a mulheres, formando geralmente dupla com Dick Stensland (Graham Beckel), outro agente da autoridade com uma conduta nem sempre recomendável. Estes reportam as informações que recolhem ao capitão Dudley Smith (James Cromwell), uma figura aparentemente respeitável embora, tal como na maioria dos filmes noir, não seja completamente confiável, com o avançar do enredo a brindar-nos com algumas surpresas em relação a este personagem. Diga-se que este aparentemente encontra-se a efectuar um bom trabalho, apesar da conduta nem sempre própria dos elementos às suas ordens, com muitos dos actos à margem da lei até a serem incentivados por Dudley. A certa altura do filme começamos a encarar este indivíduo como uma variante mais elegante e polida do personagem interpretado por Orson Welles em "Touch of Evil", um polícia aparentemente respeitável e com um currículo imaculado que conta com alguns segredos obscuros. A menção a "Touch of Evil" não é gratuita. Esta obra cinematográfica é considerada como um dos últimos exemplares dos filmes noir, com Orson Welles a colocar-nos perante um filme onde as forças policiais nem sempre são confiáveis, com Miguel "Mike" Vargas (Charlton Heston) a ser uma das raras excepções. No caso de "L.A. Confidential", o duplo de Mike quase que poderia ser Edmund Exley (Guy Pearce), um elemento conhecido mais pelo seu trabalho de escritório que procura sair da sombra do legado deixado pelo seu pai, procurando sempre respeitar a lei. A certa altura do filme, Dudley elogia Edmund, mais conhecido como Ed, mas não deixa de salientar que este não tem estômago para a função de detective da polícia, a ponto de questionar se este seria capaz de colocar provas falsas para incriminar um suspeito evidente, ou eliminar um criminoso para este não ter hipótese de ser solto com um bom advogado, ou agredir um delinquente para conseguir uma confissão, um conjunto de situações com as quais o personagem interpretado por Guy Pearce recusa a comprometer-se, não apresentando intenções de o fazer (embora ao longo do filme seja colocado diante de episódios que o vão fazer questionar os seus ideais). Na esquadra, na divisão de narcóticos, encontramos ainda Jack Vincennes (Kevin Spacey), um indivíduo carismático, também pouco dado a seguir as regras, conhecido por ter detido Robert Mitchum, mas também por ser o consultor da série policial "Badge of Honor", mantendo ainda uma ligação de proximidade com Sid Hudgens (Danny DeVito), o editor da "Hush-Hush", um tabloide (inspirado no Confidential).

 Sid arranja muitas das vezes os furos de escândalos relacionados com alguma celebridade ou figura mais conhecida, procurando saber desde cedo quando se encontram a planear efectuar algo considerado indecoroso ou passível de manchar a sua reputação. Hudgens é uma figura que se move pelo submundo, surgindo inicialmente como o nosso narrador ao expor que Mickey C., o líder principal do crime organizado, foi detido devido a evasão fiscal, ou seja, à Al Capone, com o personagem interpretado por Danny DeVito a salientar de forma sardónica que a medida não poderia ser "(...) nada de muito original, pois isto é Hollywood", em mais um momento onde o olhar ácido de Curtis Hanson é exposto. Mickey C. contou ainda com Johnny Stompanato como guarda-costas principal, um indivíduo que terá alguma relevância no desenrolar da trama ao servir esporadicamente como informador, sobretudo quando "apertado" pelos polícias. É sobretudo este grupo de personagens que vai povoar o enredo de "L.A. Confidential", com os momentos iniciais a colocarem-nos diante da violência de White no cumprimento do dever ao agredir um indivíduo que se encontrava a espancar a esposa. Posteriormente, White segue com Dick até uma loja, tendo em vista a comprar um conjunto generoso de bebidas alcoólicas para comemorar o Natal na esquadra com os seus colegas. Neste espaço, White depara-se com Lynn Bracken, uma prostituta sensual, de longos e cuidados cabelos loiros, conhecida pelas feições semelhantes a Veronica Lake, encontrando-se vestida de forma misteriosa. Na saída, o personagem interpretado por Russell Crowe encontra Susan Lefferts (Amber Smith), uma mulher com um curativo na zona do nariz, no interior de um carro, pensando que esta fora agredida, detendo imediatamente Leland "Buzz" Meeks (Darrell Sandeen), um antigo polícia, cujo passado mais tarde descobrimos ter sido marcado por casos pouco recomendáveis, envolvendo elementos ainda no activo. White logo é travado pelo colega, dirigindo-se até à esquadra onde um grupo de criminosos mexicanos, que supostamente agrediu dois colegas dos polícias, encontra-se a ser levado para a prisão. Gera-se um burburinho, com Dick a agredir brutalmente os presos, White a envolver-se na escaramuça, bem como Vincennes, com Ed a procurar travar todo este conflito, parecendo o elemento à parte desta esquadra onde a brutalidade parece dominar as acções da maioria dos polícias. O que estes não esperavam é que um jornalista tirasse fotografias deste caso e este tivesse direito a capa de jornal com o título: "Bloody Christmas". Ninguém parece disposto a testemunhar contra os colegas, com excepção de Ed e posteriormente Vincennes, com o primeiro a ser odiado pelos seus pares, uma situação resultante ainda do facto de Dick ter sido demitido. No entanto, Ed é colocado à prova num macabro caso de assassinato no Nite Owl, um café onde Dick é eliminado, bem como Susan, com os principais suspeitos a serem três indivíduos de raça negra, que contam com caçadeiras e um Mercury coupé avermelhado. Dois elementos são capturados e interrogados de forma exímia por Ed, com este a revelar uma frieza impressionante sem utilizar a força, conseguindo jogar psicologicamente com estes dois elementos. Por sua vez, White procura desde logo encontrar Lynn, devido a uma possível conecção com Susan, descobrindo que esta trabalha com Pierce Patchett (David Strathairn), um indivíduo de largas posses, conhecido por investir nos negócios das estradas mas também por ser o proprietário do Fleur-de-Lis, um espaço que proporciona aos seus clientes serviço de luxo com prostitutas que se parecem com estrelas de cinema. O encontro entre Patchett e White é marcado pelo estilo confrontador do segundo, embora não consiga obter grandes informações. No entanto, White acabará aos poucos por envolver-se com Lynn, a típica mulher fatal que pode trazer problemas ao protagonista, embora Kim Basinger atribua algumas fragilidades a esta personagem que lhe vão dar características muito especiais, sobretudo quando está na companhia do primeiro. Russell Crowe tem uma interpretação intensa como este polícia a fazer recordar alguns personagens interpretados por Dana Andrews nos filmes noir, tais como "Where the Sidewalk Ends", com ambos a partilharem traumas em relação à figura do progenitor mas também atitudes violentas diante dos criminosos. A relação com Lynn é marcada por uma mescla de desejo e da atitude protectora de Bud em relação às figuras femininas, com Kim Basinger a explorar o lado misterioso e sensual da personagem que interpreta, uma femme fatale pronta a atrair os homens embora também se pareça deixar seduzir verdadeiramente pelo protagonista.

É com Lynn que Bud apresenta algumas das fragilidades e traumas do passado, apresentando uma atitude muito distinta quando está diante de Ed, com este último a representar o polícia disposto a tudo para subir na carreira, embora sempre a cumprir as leis, o que não agrada ao protagonista. Guy Pearce interpreta aquele personagem que mais surpreende ao longo do enredo, com este a efectuar um arco onde começa como um indivíduo aparentemente inapto para as funções que aos poucos começa a assumir um papel activo e corajoso numa investigação, não tendo problemas em colocar a sua reputação em causa quando descobre que os criminosos que eliminara não eram os verdadeiros responsáveis pelo assassinato no Nite Owl, com a conspiração a envolver elementos nos sectores mais elevados da polícia, ex-agentes da autoridade, entre várias outras figuras que povoam o enredo, com "L.A. Confidential" a mesclar elementos neo-noir com filme policial, numa narrativa marcada por diversas reviravoltas e algumas surpresas em relação a diversos personagens. Num filme noir, é sabido que nem sempre podemos confiar dos personagens, incluindo nos protagonistas, com "L.A. Confidential" a respeitar diversos elementos deste subgénero. Não falta a femme fatale, o clube nocturno, a utilização do chiaroscuro (veja-se a inquietante cena no último terço onde Bud e Ed encontram-se isolados num espaço escuro a procurarem defender-se de um tiroteio para os silenciar de vez, ainda que esta técnica seja utilizada com muita parcimónia), uma narrativa convulsa, personagens moralmente ambíguos, entre outros elementos. Embora tenham formas diferentes de encarar a função, Bud e Ed procuram acima de tudo fazer justiça, com o segundo a procurar seguir as regras, surgindo muitas das vezes como o "polícia bom", enquanto o primeiro é a espaços o "polícia mau" que não tem problemas em fazer uso da força bruta. Essa situação é latente logo nos momentos iniciais, mas também quando Bud agride Ed, ou quando utiliza a força para que Ellis Loew (Ron Rifkin), um procurador do Ministério Público, ceda informações sobre o caso, com este último a sentir-se comprometido devido a existirem fotos que comprovam a sua homossexualidade e um caso esporádico com um jovem que supostamente cometeu suicídio. Este fora fotografado pelo personagem interpretado por Danny DeVito, com o actor a conseguir mesclar um lado mais leve de Sid com outro mais aproveitador, surgindo como uma figura próxima de Vincennes. Kevin Spacey interpreta um personagem muito ao seu estilo, marcado por um enorme carisma e sarcasmo, um pouco de malícia, embora no final os valores deste pareçam falar mais alto. Diga-se que esta é uma situação com a qual vários dos personagens de "L.A. Confidential" vão ser confrontados ao longo do enredo, com diversos elementos a terem de escolher entre a decisão certa ou o lucro fácil da corrupção. Ed, Bud e Vincennes a certa altura acabam por ver uma investigação interligar os seus destinos, com os dois últimos a deambularem pelas margens da lei, embora procurem fazer justiça. Já Patchett simboliza a promiscuidade entre o poder político e policial e os elementos civis, conseguindo agir muitas das vezes sem grandes problemas, tendo apenas em Bud e Ed duas figuras sem pejo em confrontá-lo, encontrando-se envolvido num negócio de tráfico de droga que remete ainda para figuras como Stensland e Buzz. Como se pode reparar pela menção a este último, até os personagens mais secundários acabam por ter algum relevo no desenrolar de "L.A. Confidential", com o argumento de Curtis Hanson e Brian Helgeland a apresentar uma densidade e coesão notáveis na forma como consegue explorar estas diferentes peças e interligá-las de forma orgânica.

 A densidade do argumento, pontuado por um conjunto de diálogos marcantes, permite fazer sobressair os intérpretes. Veja-se os casos já citados de Russell Crowe, Guy Pearce, Kim Basinger, Kevin Spacey e Danny DeVito, com os dois primeiros a serem relativamente desconhecidos na época, mas também James Cromwell e David Strathairn. Cromwell por manter sempre a ambiguidade do personagem que interpreta, embora apresente alguma aura de respeitabilidade que se vai desvanecendo com o avançar da narrativa. Percebemos que Dudley Smith parece pouco preocupado com as regras desde que os criminosos sejam punidos, tendo em Bud White um valente "cão de caça", pelo menos até este último e Ed começarem a descobrir alguns segredos em relação ao primeiro, bem como Vincennes. Já David Strathairn interpreta um proxeneta dado a luxos que parece agir com uma enorme impunidade, algo que vamos perceber ao longo do filme, embora esta situação não dure sempre. Aos poucos percebemos que existe uma enorme teia de corrupção a envolver a esquadra e a cidade, com as ramificações a atingirem até elementos ligados a cargos políticos, com o lado negro de Los Angeles a vir ao de cima. Curtis Hanson lança gradualmente as peças, por vezes de forma algo solta, embora pareça ficar quase sempre claro que Ed resolveu demasiado cedo o caso do Nite Owl, uma situação que o próprio percebe quando Inez Soto (Marisol Padilla Sánchez), uma mulher violada pelos supostos culpados do crime expõe peremptoriamente que mentiu. Esta revelou que não tinha a certeza do horário em que saíram do Nite Owl, tendo dito a mesma hora do assassinato para que fosse efectuada justiça pelos actos cometidos contra si. Parecia fácil demais e o próprio estereótipo dos negros com armas que efectuam um assalto a parecer ser uma solução que não encaixaria na complexidade da trama, embora remetesse para um estigma da época. Se a perseguição a estes elementos é marcada pela violência, já no último terço assistimos ainda a um conjunto de mentiras e jogos psicológicos que vão resultar naquele que é um dos momentos mais claustrofóbicos de "L.A. Confidential", em particular quando Curtis Hanson isola Ed e Bud no mesmo espaço, como se fossem dois bastiões da lei a lutarem sozinhos contra a corrupção. Pelo meio ocorrem diversas mortes de personagens de relevo, enquanto Ed e Bud aproximam-se gradualmente da verdade, com diversos reveses pelo caminho que expõem a decadência e os podres da cidade de Los Angeles, num ambiente já desencantado, ou não estivéssemos no tempo da narrativa no período do pós-II Guerra Mundial. Em certa parte Curtis Hanson quase que nos remete para os filmes noir de Otto Preminger, onde este procurava explorar o lado psicológico dos personagens que rodeavam a narrativa, algo visível em obras como "Laura", "Daisy Kenyon", o já citado "Where the Sidewalk Ends", entre outras. O cineasta procura também esconder muitas das vezes algumas peças importantes do jogo, deixando-nos de forma amiúde com dúvidas em relação ao rumo da narrativa e dos personagens que a povoam, inclusive no que diz respeito às justificações para o crime cometido no Nite Owl, ao mesmo tempo que aproveita para abordar questões relacionadas com a época que retrata. Este é também um filme que explora os exageros do culto das celebridades, quer pelo aparecimento e florescimento de revistas que ganham os seus rendimentos através de mexericos, quer no serviço de prostituição onde as mulheres têm de fazer plásticas para se parecerem com vedetas dos filmes, entre outros exemplos. Marcado por uma atmosfera negra, diálogos por vezes mordazes, alguma sensualidade inerente à figura da personagem interpretada por Kim Basinger, polícias corruptos e outros que procuram fazer justiça, "L.A. Confidential" transporta-nos sem grandes nostalgias e contemplações para outro período da História de Los Angeles e dos EUA, resultando num filme neo-noir complexo, bem estruturado e marcado por interpretações de relevo.

Título original: "L.A. Confindential".
Título em Portugal: "L.A. Confidencial".
Realizador: Curtis Hanson.
Argumento: Curtis Hanson e Brian Helgeland.
Elenco: Kevin Spacey, Russell Crowe, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito.

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