06 julho 2015

Resenha Crítica: "Inside Out" (Divertida-Mente)

 Terno, sensível e delicado, "Inside Out" mexe com as emoções da sua protagonista e do espectador, naquela que é um das obras cinematográficas mais inspiradas da Pixar, com o estúdio a criar um filme de animação inteligente, emotivo, divertido e a espaços comovente, capaz de abordar temáticas complexas sem nunca esquecer que o seu público maioritário são as crianças. Ao longo do filme são abordadas temáticas como a memória, o funcionamento das sensações humanas, a facilidade com que nos esquecemos de muitos dos episódios que outrora foram relevantes na nossa vida, a necessidade de aceitarmos as diferenças daqueles que nos rodeiam, o crescimento de uma jovem, entre tantas outras exploradas ao longo de "Inside Out", uma obra cinematográfica audaz e ambiciosa que praticamente, para não dizer que chega mesmo, entra pelos meandros da psicanálise embora, e acima de tudo, o seu maior poder seja a forma como consegue mexer com as emoções do espectador. Os mais novos encontram uma série de gags e personagens que despertam a atenção, enquanto os adultos deparam-se com episódios que certamente já viveram, parecendo quase impossível visualizar "Inside Out" e não reflectir sobre as nossas próprias experiências ao longo da vida. Existe um (entre vários) episódio que facilmente promete dizer mais aos adultos do que às crianças, em particular quando um grupo de "trabalhadores da mente" encontra-se a aspirar algumas esferas onde se encontram guardadas recordações da infância de Riley (Kaitlyn Dias), uma jovem que, quando a narrativa avança, após a apresentação inicial, tem onze anos de idade. Estas esferas, que contêm memórias de longa duração, tais como os nomes das bonecas de Riley, são consideradas desnecessárias devido a não serem "utilizadas", sendo atiradas para uma espécie de "lixeira", um cenário para onde são lançadas aquelas memórias que vão parar a uma zona recôndita da nossa mente, tornando-se improvável que nos voltemos a recordar das mesmas. Este episódio, no qual assistimos a recordações outrora relevantes a serem atiradas para a lixeira, conduz a que "Inside Out" torne praticamente impossível que não pensemos em diversos momentos que foram fulcrais na nossa vida e aos poucos vão perdendo relevância com o passar do tempo, sendo muitas das vezes ultrapassados pela formação de novas memórias que se sobrepõem a outras do passado. Não é que nos esqueçamos de tudo, mas é praticamente impossível relembrarmos de imediato a totalidade daquilo que vivemos, com várias memórias da infância, adolescência e até de um passado recente a serem, por vezes, pequenos fragmentos dos quais apenas recordamos algumas situações marcantes. É algo natural da vida, com "Inside Out" a saber jogar com diversos conceitos (por vezes abstractos) associados ao crescimento, à mente e ao pensamento do ser humano, enquanto nos deixa simultaneamente com aquilo que se passa no interior da mente de Riley e o seu funcionamento, bem como a vida desta jovem. Pete Docter e Ronnie Del Carmen, a dupla responsável pela realização de "Inside Out", estabelece desde os momentos iniciais quase tudo aquilo que necessitamos de saber sobre as estruturas e as dinâmicas que ocorrem no interior da mente de Riley e como tudo pode mudar num enorme ápice, tendo em vista a explorar estes conceitos ao longo deste belíssimo filme. O trabalho a nível de animação é de excelente nível, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor, incluindo as cores, o visual e o guarda-roupa de cada uma das emoções de Riley, em particular, Joy (Amy Poehler), Sadness (Phyllis Smith), Fear (Bill Hader), Disgust (Mindy Kailing) e Anger (Lewis Black).

Os relacionamentos e as tarefas de cada um dos elementos do quinteto são abordadas com assertividade, sobressaindo o carácter efusivo de Joy, uma espécie de fada reluzente de cabelos azuis, com esta a nem sempre compreender a deprimida Sadness, apesar de aos poucos perceber que esta última é fundamental para o bom funcionamento da estrutura que coordenam a partir de uma espécie de sala de controlo, sobretudo a partir do momento em que os pais de Riley decidem mudar-se da cidade de Minnesota, onde a jovem tem todos os seus amigos, participa na equipa de hóquei em patins local e guarda algumas das suas melhores recordações, tendo em vista a habitarem em San Francisco. A chegada a San Francisco torna-se num desafio para o quinteto, não só por Riley apresentar pouco entusiasmo em relação à mudança de casa e ter algum receio em relação à nova escola e colegas, mas também devido ao facto do pai ter menos tempo para si, algo relacionado com problemas laborais. A mãe de Riley parece ser mais compreensiva, enquanto a jovem procura adaptar-se à nova cidade, onde nem a saída a uma pizzaria parece correr bem ou este local não fosse marcado pela presença de pizzas de brócolos, a especialidade da casa, algo que deixa Disgust pouco agradada. Disgust é uma personagem de tonalidades verdes, penteada e arranjada, que procura decidir aquilo que é bom ou não, com esta a ter uma personalidade bastante peculiar que ganha outra dimensão com a voz de Mindy Kailing. Diga-se que o elenco vocal é bastante inspirado, sobressaindo desde logo Amy Poehler com uma tonalidade meio controladora, meio nervosa e impulsiva que teima em nos fazer recordar a inesquecível Leslie Knope de "Parks and Recreation". Poehler empresta a sua voz a Joy, a protagonista do filme, ou pelo menos uma das personagens de maior relevo, com esta a ser a líder das operações, embora aos poucos pareça perceber que todos são necessários para a vida de Riley funcionar da melhor maneira. A vida, as nossas experiências e o nosso "crescimento" como seres humanos não se fazem só de alegrias, com Sadness, uma personagem azulada, de roupa discreta, quase sempre deprimida, de óculos de massa pretos, cujos comportamentos estão longe de ser os mais entusiasmantes, a ser essencial para Riley e para a narrativa. Já Anger está sempre pronto a explodir, com a sua cor vermelha, voz forte e fogo que sai pela sua cabeça nos momentos de maior fúria a exprimirem bem a personalidade desta figura deveras peculiar. Temos ainda Fear, um personagem receoso que procura evitar alguns descuidos da protagonista. Todos estes cinco elementos são fundamentais para manter a solidez de Riley, com esta a apresentar alguma tristeza devido à mudança, tendo na sua mente uma série de ilhas como a "Ilha da Amizade", a "Ilha da Personalidade", a "Ilha da Honestidade", a "Ilha da Família", entre outras que precisam de ser alimentadas por novas experiências que a jovem rapariga protagoniza e permitem criar mais memórias e formar a sua personalidade. Quando encontra-se a efectuar a apresentação diante da professora e da nova turma, Riley entra numa onda de enorme tristeza, começando a recordar-se da sua cidade-natal, onde vivera até aos onze anos de idade, em parte devido a Sadness ter tocado na máquina de controlo que as cinco emoções possuem na sala onde exercem as suas funções, algo que torna uma memória considerada essencial como triste. Joy procura evitar que uma memória basilar da vida de Riley se transforme numa recordação triste ao tentar que a esfera que guarda as recordações dessa experiência (a apresentação na nova escola), de cor azulada, devido à influência de Sadness, não seja transportada para o arquivo principal. Acaba por criar uma enorme confusão, sendo transportada num tubo, em conjunto com Sadness, para uma área perto da lixeira e dos aparentemente intermináveis corredores das memórias de longa duração, trazendo consigo algumas memórias base que são consideradas essenciais para o grupo "gerir" a mente da protagonista.

Cada episódio que Riley vive permite a criação de novas memórias ou recordações que se traduzem numa espécie de esfera que tanto pode ser azul se for triste, vermelha se contiver raiva, um amarelo reluzente se for feliz e por aí fora. As memórias base, consideradas de maior relevância, ficam numa espécie de arquivo nas imediações da sala onde as cinco emoções actuam, enquanto as outras são transportadas para um território algo labiríntico marcado por uma enorme diversidade de armários onde as memórias de longa duração são preservadas até serem atiradas para a lixeira. Vale ainda a pena realçar que cada memória base molda uma personalidade de Riley, tal como a Ilha do Hóquei, a Ilha da Família e por aí fora, ou seja, estas estão sempre dependentes dos episódios vividos pela protagonista. Enquanto Sadness e Joy procuram a todo o custo regressar à base, aventurando-se pelas imediações das ilhas, encontrando pelo caminho o simpático e destrambelhado Bing Bong (Richard Kind), um elefante cor de rosa, de bigodes salientes, que foi durante muito tempo o amigo imaginário de Riley, já Fear, Anger e Disgust procuram tomar conta das operações, instigando a jovem rapariga a procurar fugir de casa, algo que torna a missão das duas primeiras ainda mais premente. Aos poucos, assistimos não só ao desmoronar de vários dos pilares da mente de Riley, mas também ao conjunto de locais existentes no interior da mesma, com "Inside Out" a ser um regalo a nível visual e de argumento. "Inside Out" sobressai pela capacidade de nos despertar diversas emoções semelhantes àquelas que se encontram na mente de Riley, com o filme a tanto ser capaz de nos fazer esboçar alguns sorrisos (ok, na piada da "Ilha dos Romances Trágicos dos Vampiros", quando Riley já tem doze anos, confesso que soltei uma gargalhada), deixar-nos comovidos (é praticamente impossível a qualquer espectador não sentir alguma nostalgia quando encontra aquelas esferas aparentemente inúteis a serem atiradas para a "lixeira", deixando-nos com a estranha sensação de que vamos ganhando e perdendo muito ao longo da vida), tristeza (não vou aqui colocar spoilers, mas existe o desaparecimento de um personagem que facilmente desperta a nossa simpatia), entre outras. O filme desperta-nos ainda a sensação de estarmos diante de uma obra cinematográfica marcada pelo bom gosto, para além de gerar alguma raiva por muitas películas com actores reais não terem o cuidado que "Inside Out" apresenta na construção dos personagens e das suas dinâmicas, mas também na criação de um universo narrativo criativo e bem desenvolvido. A criatividade parece ser uma das palavras-chave para "Inside Out", bem como a ambição, com o filme a explorar de forma apelativa questões ligadas com o funcionamento da mente humana, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor. Veja-se a diferença entre as tonalidades pálidas da lixeira ou das ruas quando Riley procura fugir de casa e as cores radiantes de alguns espaços que rodeiam a mente da jovem, ou a saudável loucura que envolve muitos dos acontecimentos relacionados com a procura de Sadness e Joy em chegarem à central, contando por vezes com o apoio do esgrouviado Bing Bong. Uma dessas situações acontece quando entram na sala do pensamento abstracto, onde ganham as mais diversas formas e ficam em perigo, quando procuravam um atalho para entrarem no Comboio do Pensamento, um meio de transporte que supostamente permitirá facilitar a missão. Outro exemplo é a Terra da Imaginação, um local da mente de Riley onde outrora Bing Bong tivera uma enorme importância, um espaço marcado por uma floresta de batatas fritas, uma cidade composta por troféus que a jovem sonha vencer, um namorado imaginário, entre outros elementos que se encontram em perigo se Joy e Sadness não conseguirem regressar à sala de comando. Claro que existem sempre algumas complicações pelo caminho, com "Inside Out" a ter ainda uma faceta de filme de aventuras para além de contar com o arco habitual em que dois personagens principais percebem a importância que um tem para o outro, após uma relação inicial marcada pela incompreensão, em particular Joy e Sadness (qual Woody e Buzz em "Toy Story").

Joy é a líder do grupo, uma personagem extrovertida e decidida, mas também capaz de cometer alguns erros, procurando a todo o custo que Riley seja feliz, embora em alguns momentos pareça esquecer-se que a vida não é feita apenas de felicidade. Nesse sentido, ficamos diante de uma obra dotada de alguma complexidade, que procura explicar conceitos relacionados com a memória e o funcionamento da mente humana a um público alargado mas de forma criativa e apelativa para chegar às crianças, ao mesmo tempo que nos exibe às reacções de Riley. Esta é muitas das vezes comandada pelas cinco emoções, embora aos poucos também as surpreenda, com o filme a abordar as dificuldades inerentes à mudança para um local distinto, algo que é ainda mais complicado para uma pré-adolescente, com Riley a ter de lidar com a noção de que está a crescer e parte das boas memórias que guarda do passado vão-se diluindo com a passagem do tempo, embora nem todas sejam esquecidas. Esta ainda comunica com uma amiga que deixou no Minnesota, mas percebe que a longa distância pode ser prejudicial à amizade, com Anger a fazer ainda o favor de piorar a situação. "Inside Out" é também um filme sobre aprender a crescer e as dores associadas à noção de que vamos mudando com o passar do tempo, tal como o Mundo que nos rodeia, numa obra cinematográfica que aborda ainda temas como a necessidade de aceitarmos a diferença e aprender a trabalhar em equipa, com o mundo de Riley e aquele das emoções que se encontram na mente desta a serem explorados de forma dinâmica, criativa e assertiva. Memórias que eram encaradas como felizes podem passar a ser vistas com nostalgia ou até tristeza por já não se poder regressar a esse tempo, outras trazem consigo alguma alegria ou dor, outras deixaram de ter a relevância de outrora, outras mais recentes ganham preponderância, com "Inside Out" a aventurar-se por temáticas complexas, embora abordadas de forma concisa e precisa para que os mais novos (e até os adultos) não se percam pelo caminho. Diga-se que "Inside Out" embrenha-se ainda pelo mundo dos sonhos de Riley, sendo um regalo ver a forma criativa como a dupla de realizadores explora a forma como estes são criados na fábrica de "Produção de Sonhos", não faltando um conjunto de seres que representam episódios que podem vir a tornar-se sonhos felizes ou pesadelos. Este é um dos vários momentos marcados por genialidade ao longo de "Inside Out", com o argumento a atribuir uma densidade que nos deixa perante a certeza que teremos sempre algo a ganhar ao visualizarmos o filme múltiplas vezes. É um filme que nos surpreende com a sua astúcia em explorar os conceitos inicialmente apresentados, criando um universo narrativo denso a nível visual e do enredo, numa obra cinematográfica sensível e delicada, marcada por alguma aventura, emoção e uma banda sonora que se adequa de forma praticamente perfeita ao enredo, que em nada fica a dever aos melhores trabalhos com que a Pixar brindou o espectador. Depois de um período de menor fulgor, a Pixar regressa em grande com uma obra cinematográfica que promete complicar a vida a "The Good Dinossaur", o próximo trabalho do estúdio, ao elevar ainda mais a fasquia de uma produtora que continua a afirmar a sua capacidade de criar filmes de animação de qualidade acima da média que cheguem a um leque alargado de público. Nem sempre acertam, mas "Inside Out" foi um tiro certeiro, com a obra cinematográfica realizada por Pete Docter e Ronnie Del Carmen, a par de "O Conto da Princesa Kaguya", a ser um dos melhores filmes de animação que estrearam em Portugal em 2015 (até ao momento), com ambos a prometerem figurar no top 15 desta pessoa.

Título original: "Inside Out".
Título em Portugal: "Divertida-Mente".
Título no Brasil: "Divertida Mente".
Realizadores: Pete Docter e Ronnie Del Carmen.
Argumento: Pete Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley.
Elenco vocal: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias.

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